**Obras de Rudolf Steiner**

- *An Outline of Occult Science* — Rand McNally & Co., Chicago, $1.50 (1s 6d net)
- *The Lord’s Prayer* — Rand McNally & Co., Chicago, cents (6d net)
- *Mystics of the Renaissance* — G.P. Putnam’s Sons, New York, $1.25 (4s 6d net)
- *The Gates of Knowledge* — G.P. Putnam’s Sons, New York, $1.00 (3s net)
- *Atlantis and Lemuria* — The Rajput Press, Chicago, $1.00 (3s 6d net)
- *The Education of Children* — The Rajput Press, Chicago, $1.00 (1s net)
- *Initiation and its Results* — Macoy Publishing and Masonic Supply Co., New York, $1.00 (3s 6d net)
- *Theosophical Siftings* — Blavatsky e Teosofia Moderna, Boston, etc.
- *Theosophical Manuals* — edição autorizada, etc.

**UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA**

**Rudolf Steiner, Ph.D.**

**Tradução autorizada da Quarta Edição**

**Londres: The Theosophical Publishing Society**

**Rand McNally & Company, Chicago, 1914, Nova York**

**ÍNDICE**

Prefácio à Quarta Edição — VII

I. O Caráter do ... — 1

II. A Natureza do Homem — ...

III. Sono e Morte — ...

IV. A Evolução do Mundo e do Homem — ...

V. Os Princípios dos Mundos Superiores — ...

VI. O Passado e o Futuro do Mundo e do Homem — ...

VII. O Domínio do ... — ...

VIII. O ... e o Mundo Astral — ...

IX. A Constituição do Homem — ...

X. O ... — ...

XI. O ... — ...

XII. O ... — ...

**Prefácio à Quarta Edição**

"Aquele que deseja representar certos resultados da pesquisa espiritual na forma deste livro, deve primeiro descobrir que este tipo de..."

Em sua essência, é impossível para o conhecimento humano penetrar nos mundos supersensíveis. Foi dito nos lugares sobre os quais aqueles que hoje sofrem e vagueiam nas trevas ergueram que provavelmente permanecerá incompreensível à inteligência humana. Aquele que conhece e respeita a razão, o que leva muitos a uma séria reflexão sobre a impossibilidade, não tentará novamente e se esforçará para compreender o que é incompreensível. E assim, no início, a crença de que, se não é dado ao conhecimento humano penetrar nos mundos supersensíveis, então, para aqueles que buscam a verdade, a investigação mais profunda, além do alcance humano, deve, ao refletir, fechar os olhos para o fato de que as questões mais importantes sobre a natureza e o significado da vida devem permanecer sem resposta, se não houver acesso a mundos mais elevados. Podemos, portanto, enganar-nos sobre esse fato e assim nos afastar das profundezas do ser; no entanto, as profundezas do ser não tolerarão tal autoengano. A pessoa que não quiser ouvir o que vem dessas profundezas da alma rejeitará naturalmente qualquer relato dos mundos supersensíveis. Há, porém, pessoas — e seu número não é pequeno — que acham impossível permanecer surdas às exigências que vêm das profundezas da alma. Elas devem sempre bater às portas que, na opinião de outros, fecham o caminho para o que é "incompreensível".

Em segundo lugar, as afirmações dos "pensadores exatos" não devem, de modo algum, ser desprezadas. Quando precisam ser levadas a sério, aquele que com elas se ocupa sentirá e apreciará plenamente essa seriedade. O autor deste livro não gostaria de ser tomado por alguém que desconsidera levianamente o enorme trabalho de pensamento que foi dedicado à determinação dos limites do conhecimento humano. Esse trabalho de pensamento não pode ser descartado com algumas frases sobre "sabedoria acadêmica" e coisas semelhantes. Em muitos casos, ele tem sua origem no esforço sincero pelo conhecimento e no genuíno descontentamento. Na verdade, mais do que isso deve ser admitido: foram apresentadas razões para mostrar que o conhecimento reconhecido como científico não pode penetrar nos mundos supersensíveis, e essas razões são, em certo sentido, irrefutáveis.

Agora pode parecer estranho a muitos profetas que o escritor deste livro admita isso livremente e, no entanto, se proponha a fazer afirmações sobre mundos supersensíveis.

Parece de fato quase

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO

IX

impossível que uma pessoa admita, em certo sentido, as razões pelas quais o conhecimento dos mundos suprafísicos é inatingível, e ainda assim fale sobre esses mundos.

E, no entanto, é possível assumir essa atitude e, ao mesmo tempo, compreender que isso impressiona outros como sendo inconsistente. Não é dado a todos entrar nas experiências pelas quais passamos quando nos aproximamos dos reinos supersensíveis com o intelecto humano. Então se verifica que as provas intelectuais podem certamente ser irrefutáveis e que, apesar disso, não precisam ser decisivas com relação à realidade. Em vez de todo tipo de explicações teóricas, tentemos agora tornar isso compreensível por meio de uma comparação. Que comparações não são, em si mesmas, provas é prontamente admitido, mas isso não impede que elas tornem inteligível o que precisa ser expresso.

O entendimento humano, tal como funciona na vida cotidiana e na ciência comum, é de fato constituído de tal maneira que não pode penetrar nos mundos suprafísicos. Isso pode ser provado além de qualquer possibilidade de dúvida. Apenas essa prova não pode ter nenhum valor decisivo em relação a um certo tipo de vida da alma, mais do que aquele que tentasse mostrar que o olho natural do homem não pode, com sua faculdade visual, penetrar até as menores células de um ser vivo, ou até a constituição de corpos celestes distantes.

Assim como a afirmação é verdadeira e demonstrável

X

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO

de que o poder comum de ver não penetra até as células, assim também é a outra afirmação que sustenta que o conhecimento comum não pode penetrar nos mundos supersensíveis. E, no entanto, a prova de que o poder comum de visão tem de parar antes das células não exclui de modo algum a investigação das células. Por que a prova de que o poder comum de cognição tem de parar antes dos mundos supersensíveis deveria decidir algo contra a possibilidade de investigar esses mundos?

Pode-se ser sensível ao sentimento que esta comparação pode evocar em muitas pessoas. Pode-se mesmo compreender os sentimentos daqueles que duvidam se alguém que confronta o trabalho de pensamento mencionado acima com tal comparação tem qualquer ideia da plena seriedade desse trabalho. E, no entanto, o presente escritor não está apenas plenamente convencido dessa seriedade, mas é de opinião que esse trabalho de pensamento pode ser contado entre os mais nobres empreendimentos da humanidade. Mostrar que o poder de visão humano não pode alcançar as células sem a ajuda de instrumentos seria certamente um empreendimento inútil, mas no pensamento exato, tornar-se consciente da natureza desse pensamento é um trabalho necessário da mente.

Que alguém que se dedica a tal trabalho não note que a realidade pode refutá-lo, é apenas natural demais.

O prefácio deste livro não pode ser lugar para entrar em muitas refutações das edições anteriores, apresentadas por pessoas que são inteiramente desprovidas de apreciação do que ele almeja, ou que dirigem seus ataques infundados contra a personalidade do autor; mas deve-se, não obstante, enfatizar que a depreciação neste livro do pensamento científico sério só pode ser imputada ao autor por alguém que deseja se fechar ao espírito do que nele é expresso.

O poder de cognição do homem pode ser aumentado e tornado mais poderoso, assim como o poder de visão do olho pode ser aumentado. Apenas os meios para fortalecer a capacidade de cognição são inteiramente de natureza espiritual; são processos internos, pertencentes totalmente à alma.

Eles consistem no que é descrito neste livro como meditação e concentração (contemplação). A vida comum da alma está ligada aos órgãos corporais; a vida da alma fortalecida liberta-se deles. Há escolas de pensamento no presente tempo para as quais essa afirmação deve parecer completamente sem sentido, para as quais deve parecer baseada apenas em auto-ilusão. Aqueles que pensam dessa maneira acharão fácil, do seu ponto de vista, provar que "toda vida da alma" está ligada ao sistema nervoso. Alguém que ocupa o ponto de partida do qual este livro foi escrito pode compreender completamente tais provas.

Ele compreende pessoas que dizem que apenas a superficialidade pode afirmar que pode haver algum tipo de vida da alma independente do corpo; e

que estão bastante convencidos de que, em tais experiências da alma, existe uma conexão com a vida do sistema nervoso, a qual o "militantismo da ciência oculta" meramente falha em detectar.

Aqui, certos hábitos de pensamento bastante compreensíveis estão em tão aguda contradição com o que foi descrito neste livro, que ainda não há perspectiva de se chegar a um entendimento com muitas pessoas. É aqui que chegamos ao ponto em que o desejo deve se afirmar de que não seja mais uma característica da cultura mental de nosso tempo condenar imediatamente como fantasioso ou visionário um método de pesquisa que se desvia abruptamente do seu próprio. Mas, por outro lado, é também um fato no presente momento que um número de pessoas pode apreciar o método de pesquisa supersensível, tal como é representado neste livro: pessoas que compreendem que o significado da vida não é revelado em frases gerais sobre a alma, o eu, e assim por diante, mas só pode resultar de realmente adentrar nos fatos da pesquisa superfísica.

Não por falta de modéstia, mas com um senso de profunda satisfação, o autor deste livro sente intensamente a necessidade desta quarta edição após um tempo comparativamente curto.

Ele é impedido de enfatizar isso com imodéstia pelo sentimento de que mesmo esta nova edição fica muito aquém do que deveria realmente ser como um esboço de uma concepção supersensível do mundo.

O todo

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO xin

O livro foi mais uma vez revisado para a nova edição, muito material suplementar foi inserido em pontos importantes, e elucidações foram tentadas. Mas em inúmeras passagens o autor percebeu quão pobres os meios de representação acessíveis a ele se mostram em comparação com o que a pesquisa suprassensível descobre. Assim, foi dificilmente possível fazer mais do que apontar o caminho para se alcançar concepções dos eventos descritos neste livro como as evoluções de Saturno, Sol e Lua. Um aspecto importante deste assunto foi brevemente remodelado nesta edição. Mas as experiências em relação a tais coisas divergem tão amplamente de todas as experiências no reino dos sentidos, que sua representação exige um esforço contínuo por expressões que possam ser, ao menos em alguma medida, adequadas. Aquele que estiver disposto a entrar na tentativa de representação que aqui foi feita, talvez note que no caso de muitas coisas que não podem possivelmente ser expressas por meras palavras, o esforço foi feito para transmiti-las pela maneira da descrição. Essa maneira é, por exemplo, diferente no relato da evolução de Saturno daquela usada para a evolução do Sol, e assim por diante.

Muito material complementar e adicional foi inserido nesta edição na parte que trata da "Percepção dos Mundos Superiores". O esforço foi feito para representar de uma

XIV PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO

de maneira gráfica o tipo de processos anímicos internos pelos quais o poder de cognição se liberta dos limites que o confinam no mundo dos sentidos e se qualifica para experimentar o mundo suprassensível. Procurou-se mostrar que essas experiências, embora obtidas por vias e métodos interiores, têm, contudo, um significado não meramente subjetivo para a pessoa individual que as alcança. A descrição procura mostrar que, dentro da alma, sua particularidade e peculiaridades pessoais são despojadas, e que ela atinge experiências que todo ser humano tem da mesma maneira, quando trabalha corretamente em seu desenvolvimento a partir de suas experiências subjetivas. É somente quando o "conhecimento dos mundos suprassensíveis" é pensado como portador desse caráter que ele pode ser diferenciado das velhas experiências do misticismo subjetivo. Desse misticismo pode-se dizer que é, afinal, mais ou menos uma preocupação subjetiva do místico. O treinamento espiritual-científico da alma, contudo, como é tratado aqui, aspira a experiências objetivas, cuja validade, embora reconhecida de um modo puramente interior, pode, por essa mesma razão, ser considerada universalmente válida. Este é novamente um ponto em que é muito difícil chegar a um entendimento com muitos dos hábitos de pensamento de nosso tempo.

Em conclusão, o autor gostaria de observar que seria bom se até mesmo o leitor

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO

XV

simpático do livro tomasse suas afirmações exatamente como estão. No tempo presente, há uma tendência muito predominante de dar a este ou àquele movimento espiritual um nome histórico, e para muitos é somente tal nome que parece torná-lo valioso. Mas, pode-se perguntar, o que ganhariam as afirmações deste livro por serem denominadas "Rosacrucianas", ou qualquer outra coisa do gênero? O que importa é que neste livro se tenta um olhar para os mundos suprassensíveis com os meios que, em nosso presente período de evolução, são possíveis e adequados para a alma humana, e que, desse ponto de vista, os problemas do destino humano e da existência humana são considerados para além dos limites do nascimento e da morte. A questão não é encontrar um nome, mas encontrar a verdade.

Por outro lado, designações também têm sido usadas, com intenção hostil, para a concepção do universo representada neste livro. Deixando de lado que aquelas que foram destinadas a ferir e desacreditar o autor mais severamente são absurdas e objetivamente falsas, essas designações são marcadas como indignas pelo fato de que depreciam uma busca plenamente independente pela verdade, porque os agressores não a julgam por seus próprios méritos, mas tentam impor aos outros, como um julgamento dessas investigações, ideias errôneas quanto à sua dependência desta ou daquela tradição — ideias que eles inventaram ou adotaram de outros.

XVI

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO

Sem razão. Por mais necessárias que sejam estas palavras diante dos muitos ataques ao autor, é-lhe, contudo, repugnante entrar aqui em maiores detalhes.

Rudolf Steiner

Junho, 1911

UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

CAPÍTULO I

O Caráter da Ciência Oculta

No tempo presente, a “ciência oculta” é apta a despertar os sentimentos mais divergentes. Sobre algumas pessoas, ela age como um encanto mágico, como o anúncio de algo pelo qual se sentem atraídas pelos poderes mais íntimos de sua alma; para outras, há nas palavras algo repulsivo, que evoca desprezo, zombaria ou um sorriso compassivo. Por muitos, a ciência oculta é considerada um objetivo elevado do esforço humano, a coroa de todo o outro conhecimento e cognição; outros, que se dedicam com a maior seriedade e nobre amor à verdade àquilo que lhes parece ciência verdadeira, consideram a ciência oculta mero devaneio ocioso e fantasia, na mesma categoria do que se chama superstição. Para alguns, a ciência oculta é como uma luz sem a qual a vida seria sem valor; para outros, ela representa um perigo espiritual, calculado para desviar mentes imaturas e almas fracas, enquanto entre esses dois extremos se encontra toda possível gradação intermediária de opinião. Sentimentos estranhos são despertados naquele que alcançou certa imparcialidade de julgamento em...

Em relação à ciência oculta, seus adeptos e seus opositores, quando se vê como pessoas, indubitavelmente possuidoras de um sentimento genuíno de liberdade em muitos assuntos, tornam-se intolerantes quando confrontadas com essa linha particular de pensamento. E um observador imparcial dificilmente deixará de admitir, nesse caso, que o que atrai muitos adeptos da ciência oculta — ou ocultismo — não é nada além da fatal ânsia pelo que é desconhecido e misterioso, ou mesmo vago. E ele também estará pronto a reconhecer que há muita coerência nas razões apresentadas contra o que é fantástico e visionário por opositores sérios dessa causa em questão. De fato, aquele que estuda a ciência oculta não deixará de perder de vista o fato de que o impulso em direção ao misterioso leva muitas pessoas a uma caça vã atrás de fogos-fátuos inúteis e perigosos. Ainda que o cientista oculto mantenha um olhar vigilante sobre todos os erros e extravagâncias por parte dos adeptos de suas visões, e sobre todo antagonismo justificável, há ainda razões que o impedem da defesa imediata de seus próprios esforços e aspirações.

Essas razões se tornarão aparentes para qualquer um que entre mais profundamente na ciência oculta. Seria, portanto, supérfluo discuti-las aqui. Se fossem citadas antes de o limiar dessa ciência ter sido cruzado, não bastariam para convencer aquele que, retido por uma repugnância irresistível, recusa-se a cruzar esse limiar.

Mas para aquele que efetua

O CARÁTER DA CIÊNCIA OCULTA

uma entrada, as razões logo se manifestarão de dentro, com clareza inconfundível. Isso, contudo, implica que as razões em questão apontam para uma certa atitude como a única correta para um cientista oculto. Ele evita, tanto quanto possível, qualquer tipo de defesa externa ou conflito, e deixa a causa falar por si mesma. Ele simplesmente apresenta a ciência oculta, e no que ela tem a dizer sobre vários assuntos, mostra como seu conhecimento se relaciona com outros departamentos da vida e da ciência, que antagonismo ela pode encontrar, e de que maneira a realidade testemunha a verdade de suas cognições. Ele sabe que uma tentativa de justificativa levaria, não apenas devido ao pensamento deficiente corrente, mas em virtude de uma certa necessidade interna, ao domínio da persuasão artificial, e ele não deseja nada além de deixar a ciência oculta trabalhar seu próprio caminho, total e independentemente.

O primeiro ponto na ciência oculta não é, de modo algum, o avanço de asserções de opiniões que devem ser provadas, mas a comunicação, de forma puramente narrativa, de experiências que podem ser encontradas em um mundo diferente daquele que deve ser visto com olhos físicos e tocado com mãos físicas.

E, além disso, é um ponto importante que, através desta ciência, os métodos são descritos pelos quais o homem pode verificar por si mesmo a verdade de tais comunicações. Pois aquele que faz um estudo sério da genuína ciência oculta logo descobrirá que, com isso, muito se torna mudado nas concepções e ideias que são formadas — e corretamente formadas — em outras esferas da vida. Uma concepção totalmente nova surge necessariamente também sobre o que até agora foi chamado de "prova". Chegamos a ver que, em certos domínios, tal palavra perde seu significado usual, e que há outros fundamentos para percepção e compreensão do que "provas" desse tipo.


Toda ciência oculta nasce de dois pensamentos, que podem criar raízes em qualquer ser humano. Para o cientista oculto, esses pensamentos expressam fatos que podem ser experimentados se os métodos corretos para esse fim forem usados. Mas para muitas pessoas, esses mesmos pensamentos representam asserções altamente discutíveis, que podem despertar feroz controvérsia, mesmo que não sejam consideradas algo que possa ser "provado" impossível.

Esses dois pensamentos são: primeiro, que atrás do mundo visível há outro, o mundo invisível, que está oculto dos sentidos e do pensamento que está preso a esses sentidos; e, segundo, que é possível ao homem penetrar nesse mundo invisível desenvolvendo certas faculdades adormecidas dentro dele.

Alguns dirão que não existe tal mundo oculto. O mundo percebido pelo homem através de seus sentidos é o único. Seus enigmas podem ser resolvidos a partir de si mesmo. Mesmo que o homem ainda esteja muito longe de poder responder a todas as questões da

O CARÁTER DA CIÊNCIA OCULTA

Existência, o tempo certamente virá quando a experiência sensorial e a ciência baseada nela serão capazes de dar as respostas a todas essas questões. Outros dizem que não se pode afirmar que não há um mundo invisível por trás do visível, mas que os poderes humanos de percepção não são capazes de penetrar nesse mundo. Esses poderes têm limites que não podem ultrapassar. A fé, com seus anseios urgentes, pode refugiar-se em tal mundo, mas a verdadeira crença, baseada em fatos comprovados, não pode ter nada a ver com ele.

Uma terceira seção considera uma espécie de presunção o homem tentar penetrar, por seus próprios esforços cognitivos, em um domínio com relação ao qual ele deveria abandonar toda pretensão de conhecimento e contentar-se com a fé. Os adeptos dessa visão sentem que é errado que seres humanos fracos desejem forçar seu caminho em um mundo que só pode pertencer à vida religiosa. Também se alega que um conhecimento comum dos fatos do mundo sensorial é possível para a humanidade, mas que em relação a coisas suprassensíveis pode ser meramente uma questão de opinião pessoal do indivíduo, e que nesses assuntos não pode haver possibilidade de uma certeza universalmente reconhecida. E muitas outras afirmações são feitas sobre o assunto. O cientista ocultista convenceu-se de que um exame do mundo visível propõe enigmas ao homem que nunca podem ser resolvidos a partir dos fatos desse próprio mundo.

Sua solução dessa forma nunca será possível, por mais longe que o conhecimento desses fatos possa alcançar. Os fatos visíveis apontam claramente, através de sua própria natureza interior, para a existência de um mundo oculto. Aquele que não vê isso fecha os olhos para os problemas que obviamente surgem dos fatos do mundo sensorial. Ele se recusa a ver certos problemas e enigmas e, portanto, pensa que todas as questões podem ser respondidas através de fatos pertencentes aos sentidos. As questões que ele está disposto a fazer são todas capazes de serem respondidas pelos fatos que ele está convencido serão descobertos no curso do tempo. Todo ocultista genuíno admite isso. Mas por que alguém que não faz perguntas deveria esperar respostas sobre certos assuntos? O cientista ocultista não diz nada além de que para ele tal questionamento é natural e deve ser considerado uma expressão totalmente justificável da alma humana. A ciência certamente não deve ser confinada dentro de limites que proíbam a investigação imparcial.


A opinião de que existem limites para o conhecimento humano que é impossível ultrapassar, compelindo o homem a parar diante do mundo invisível, é assim enfrentada pelo cientista oculto. Ele diz que não pode haver nenhum tipo de dúvida de que é impossível penetrar no mundo invisível por meio do tipo de cognição aqui mencionado. Aquele que o considera o único tipo pode chegar a nenhuma outra opinião senão que ao homem não é permitido

O CARÁTER DA CIÊNCIA OCULTA

penetrar em um mundo superior possivelmente existente. Mas o cientista oculto prossegue dizendo que é possível desenvolver um tipo diferente de cognição, e que este conduz ao mundo invisível. Se esse tipo de cognição for considerado impossível, chegamos a um ponto de vista a partir do qual qualquer menção a um mundo invisível aparece como puro absurdo. Mas para um julgamento imparcial não pode haver base para tal opinião, exceto que seu adepto é um estranho àquele outro tipo de cognição. Mas como pode uma pessoa formar uma opinião sobre um assunto do qual se declara ignorante? A ciência oculta deve, neste caso, manter o princípio de que as pessoas devem falar apenas do que conhecem, e não devem fazer afirmações sobre qualquer coisa de que sejam ignorantes. Ela só pode reconhecer o direito de cada homem de comunicar suas próprias experiências, não o direito de cada homem de declarar a impossibilidade do que ele não conhece, ou não quer conhecer. O cientista oculto não contesta o direito de ninguém de ignorar o mundo invisível, mas não pode haver razão real para que uma pessoa se declare autoridade não apenas sobre o que pode saber, mas também sobre coisas consideradas incognoscíveis.

Àqueles que dizem que é presunção penetrar em regiões invisíveis, o cientista oculto simplesmente apontaria que isso pode ser feito, e que é pecar contra as faculdades com as quais o homem foi dotado se ele as permite

10 das coisas também deixa de lhe oferecer algo de natureza vivificante.


NÃO É de modo algum o caso de que apenas o indivíduo e seu bem e mal pessoais estejam em questão. Através da ciência oculta, o homem adquire a convicção de que, de um ponto de vista mais elevado, o bem e o mal do indivíduo estão indissoluvelmente ligados ao bem ou ao mal do mundo inteiro. Este é um meio pelo qual o homem chega a ver que está infligindo uma injúria ao mundo inteiro e a cada ser dentro dele se não desenvolver suas próprias faculdades da maneira correta. Se o homem torna sua vida desolada, perdendo o contato com o mundo invisível, ele não apenas destrói em seu eu interior algo cuja decadência pode eventualmente levá-lo ao desespero, mas através de sua fraqueza ele constitui um obstáculo para a evolução do mundo inteiro em que vive.

Agora, o homem pode iludir a si mesmo. Ele pode chegar à crença de que não há nada invisível, e que aquilo que é manifesto aos seus sentidos e ao intelecto contém tudo o que é possível existir. Mas tal ilusão só é possível nas camadas superficiais da consciência, e não em suas profundezas. O sentimento e a devoção não cedem a essa crença ilusória.

Eles estarão perpetuamente ansiando, de uma maneira ou de outra, por aquilo que é invisível. E se isso lhes for negado, eles conduzem o homem à dúvida, à incerteza sobre a vida, ou mesmo ao desespero. A ciência oculta, ao tornar manifesto o que é invisível,

O CARÁTER DA CIÊNCIA OCULTA

elimina toda desesperança, incerteza e desespero — tudo, em suma, que enfraquece a vida e a torna imprópria para seu serviço necessário no universo.

O efeito benéfico da ciência oculta é que ela não apenas satisfaz a sede do homem por conhecimento, mas dá força e estabilidade à vida. A fonte de onde o cientista oculto extrai seu poder para o trabalho e sua confiança na vida é inesgotável. Qualquer um que uma vez tenha recorrido a essa fonte sempre, ao revisitá-la, sairá com vigor renovado.

Há pessoas que não querem ouvir nada sobre ciência oculta, porque pensam que pressentem algo não saudável no que acaba de ser dito. Essas pessoas estão bastante certas quanto à superfície e ao aspecto exterior da vida. Elas não desejam que seja destruído aquilo que a vida, em sua chamada realidade, oferece. Elas veem uma fraqueza no fato de o homem se afastar da natureza e buscar seu bem-estar em um mundo invisível que, para elas, é sinônimo do que é fantástico e visionário. Como artistas e cientistas, não desejamos cair em devaneios mórbidos e fraquezas; devemos admitir que tais objeções são parcialmente justificadas. Pois elas se fundamentam em um julgamento sólido, que se apega a uma meia verdade em vez de uma verdade inteira, simplesmente porque não penetra até as raízes das coisas, mas permanece na superfície. Se a ciência oculta fosse calculada para enfraquecer a vida e afastar o homem da verdadeira realidade, tais objeções seriam certamente fortes o bastante para cortar o chão sob os pés daqueles que seguem esta linha espiritual de vida. Mas mesmo em resposta a tais opiniões, a ciência oculta não estaria tomando o caminho certo ao se defender no sentido comum das palavras. Mesmo nesse caso, ela só pode falar por meio do que dá àqueles que realmente penetram em seu significado, isto é, pela real força e vitalidade que ela confere. Ela não enfraquece a vida, mas a fortalece, porque equipa o homem não apenas com as forças do mundo manifesto, mas também com aquelas do mundo invisível, do qual o manifesto é o efeito. Assim, ela não implica um empobrecimento, mas um enriquecimento da vida. O verdadeiro cientista ocultista não se mantém afastado do mundo, mas é um amante da realidade, porque não deseja desfrutar do invisível em um remoto mundo de sonhos, mas encontra sua felicidade em trazer ao mundo sempre novos suprimentos de força das fontes invisíveis das quais este próprio mundo é derivado, e das quais ele deve continuamente extrair poder fertilizante. Algumas pessoas encontram muitos obstáculos no caminho da ciência oculta, quando nela ingressam. Um deles se expressa no fato de que uma pessoa, ao tentar dar os primeiros passos, às vezes fica desencorajada porque, no início, é introduzida aos detalhes do mundo supersensível, a fim de que possa, com toda paciência e devoção,


tornar-se familiarizado com elas. Uma série de comunicações lhe foi feita sobre a natureza invisível do homem, sobre certas ocorrências definidas no reino do qual a morte abre os portais, e sobre a evolução do homem, da Terra e de todo o sistema solar. O que ele esperava era entrar no mundo supra-sensível facilmente, de um salto. Agora ele é ouvido a dizer: "Tudo o que me mandam estudar é alimento para a minha mente, mas deixa a minha alma fria. Estou buscando o aprofundamento da minha vida da alma. Quero encontrar-me interiormente. Estou buscando algo que eleve a minha alma à esfera do divino, conduzindo-a ao seu verdadeiro lar. Não quero informações sobre a natureza humana e os processos do mundo." Pessoas que falam dessa maneira não fazem ideia de que, por tais sentimentos, estão barrando a porta contra aquilo que realmente buscam. Pois é justamente quando, com uma mente livre e aberta, em auto-entrega e paciência, assimilam o que chamam de "meramente" alimento para o intelecto, é então, e somente então, que encontrarão aquilo pelo qual suas almas estão sedentas. Esse caminho conduz a alma à união com o divino, que traz à alma o conhecimento das obras do divino.

A elevação do coração é o resultado de aprender a conhecer as criações do espírito.

Por essa razão, a ciência oculta deve começar por transmitir a informação que lança luz sobre os reinos do mundo espiritual.

Assim também em este livro começaremos com o que pode ser revelado dos mundos invisíveis através dos métodos de pesquisa oculta. Aquilo que é mortal no homem, e aquilo que é imortal, será descrito em sua conexão com o mundo do qual ele é membro. Seguir-se-á então uma descrição do método pelo qual o homem é capaz de desenvolver aqueles poderes de cognição latentes dentro dele, que o conduzirão a esse mundo. Tanto será dito sobre os métodos quanto é atualmente possível em uma obra deste tipo. Parece natural pensar que esses métodos devessem ser tratados primeiro. Pois parece como se o ponto principal fosse familiarizar o homem com o que ele pode trazer a si mesmo, por meio de seus próprios poderes, ao mundo superior desejado. Muitos podem dizer: "Oh, de que me serve que outros me contem o que sabem sobre mundos superiores? Eu quero vê-los por mim mesmo." O fato é que, para uma experiência verdadeiramente frutífera dos mistérios do mundo superior, o conhecimento prévio de certos fatos pertencentes a esse mundo é absolutamente necessário. Por que isso é assim aparecerá suficientemente claro do que se segue. É um erro pensar que as verdades da ciência oculta, que são transmitidas por aqueles habilitados a fazê-lo, antes de falarem sobre os métodos para penetrar no mundo espiritual em si, podem ser compreendidas e apreendidas apenas por meio da visão superior que resulta do desenvolvimento de certos poderes latentes no homem. Este não é o caso.


O CARÁTER DA CIÊNCIA OCULTA

Para investigar e descobrir os mistérios de um mundo supersensível, essa visão superior é essencial. Ninguém é capaz de descobrir os fatos do mundo invisível sem a clarividência, que é sinônima dessa visão superior. Mas se, uma vez descobertos, eles são relatados, todo aquele que lhes aplicar toda a extensão de seu intelecto ordinário e de seus poderes de julgamento imparciais será capaz de compreendê-los e de elevar-se a um alto grau de convicção a respeito deles. Aquele que sustenta que os mistérios são incompreensíveis para ele, não o faz porque ainda não é clarividente, mas porque ainda não conseguiu colocar em atividade aqueles poderes de cognição que podem ser possuídos por todos, mesmo sem clarividência.

Um novo método de apresentar estas questões consiste em descrevê-las, após terem sido investigadas clarividentemente, de modo que sejam bastante acessíveis à faculdade de julgamento. Se apenas as pessoas não se isolarem por preconceito, não há obstáculo para se chegar a uma convicção, mesmo sem visão superior. É verdade que muitos acharão que o novo método de apresentação, como dado neste livro, está longe de corresponder aos seus modos habituais de formar uma opinião.

Mas qualquer objeção devida a isso logo desaparecerá se alguém se der ao trabalho de levar seus métodos habituais às suas consequências finais. Quando, por uma aplicação ampliada do pensamento comum, x


um certo número dos estágios superiores tiver sido assimilado e considerado inteligível, por qualquer um, então o momento certo chegou para que os métodos da pesquisa oculta sejam aplicados à personalidade individual; estes o guiarão ao mundo invisível.

Nem qualquer cientista genuíno será capaz de encontrar contradição, em espírito e em princípio, entre a sua ciência, que é construída sobre os fatos do mundo dos sentidos, e o modo como a pesquisa oculta conduz suas investigações. O cientista usa certos instrumentos e métodos; ele constrói seus instrumentos trabalhando sobre o que a "natureza" lhe dá. A ciência oculta também usa um instrumento, mas neste caso o instrumento é o próprio homem. E esse instrumento também deve primeiro ser preparado para essa pesquisa superior; as faculdades e poderes dados ao homem pela natureza no início, sem sua cooperação, devem ser transformados em outros superiores. Dessa forma, o homem é capaz de fazer de si mesmo um instrumento para a investigação do mundo invisível.

CAPÍTULO II
A NATUREZA DO HOMEM

Considerando o homem à luz da ciência oculta, somos imediatamente lembrados de suas características essenciais. Ela se baseia no reconhecimento de algo oculto por trás daquilo que se manifesta aos sentidos externos e ao intelecto, que deveria influenciar suas percepções. Esses sentidos e esse intelecto podem apreender apenas uma parte de tudo o que a ciência oculta revela como a entidade humana total, e essa parte é o que a ciência oculta chama de corpo físico. Para lançar luz sobre sua concepção desse corpo, a ciência oculta primeiramente dirige a atenção a um fenômeno que se apresenta a todos os observadores da vida como um grande enigma — o fenômeno da morte — e, em conexão com ele, a ciência oculta aponta para a chamada natureza inanimada, o reino mineral. Assim, somos remetidos a fatos que cabe à ciência oculta explicar, e aos quais uma parte importante desta obra deve ser dedicada. Mas, para começar, apenas alguns pontos serão abordados, a título de dar uma ideia das implicações do assunto.

Dentro da natureza manifestada, o corpo físico, segundo a ciência oculta, é aquela parte do homem que é da mesma natureza que o reino mineral.

18 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

Por outro lado, aquilo que distingue o homem dos minerais é considerado como não pertencente

Do corpo físico. Do ponto de vista oculto, o que é de suprema importância é o fato de que a morte separa do ser humano aquilo que, durante a vida, é de natureza semelhante ao mundo mineral. A ciência oculta aponta para o corpo morto como aquela parte do homem que se encontra existindo da mesma maneira no reino mineral. Ela enfatiza fortemente o fato de que, naquele princípio da natureza humana que considera como o corpo físico, e que a morte reduz a um cadáver, os mesmos materiais e forças estão em ação como no reino mineral, mas não menos ênfase é dada ao fato de que, na morte, tem início a desintegração do corpo físico. A ciência oculta, portanto, diz: "É verdade que os mesmos materiais e forças estão em ação no corpo físico como no mineral, mas durante a vida sua atividade é colocada à disposição de algo superior. Eles só são deixados a si mesmos quando a morte os liberta; então agem, conforme sua própria natureza exige, como decompositores do corpo físico." Assim, uma distinção nítida deve ser traçada entre os elementos manifestos e os ocultos no homem. Pois durante a vida, aquilo que está oculto à vista tem de travar guerra perpétua contra os materiais e forças do mundo mineral.

Isso indica o ponto em que a ciência oculta intervém. Ela tem de caracterizar aquilo que trava a guerra, um princípio que está oculto à observação dos sentidos. A visão clarividente, somente, pode revelar seu funcionamento. Como o homem chega a tomar consciência desse elemento oculto tão claramente quanto seus olhos comuns veem os fenômenos dos sentidos, será descrito em uma parte posterior deste livro. Resultados da observação clarividente serão dados agora, pela razão já apontada nas páginas precedentes, isto é, que comunicações sobre o modo pelo qual a visão superior é obtida só podem ser de valor para o estudante quando ele primeiro se familiarizou, na forma de uma narrativa, com os resultados da pesquisa clarividente. Pois nesta esfera é perfeitamente possível compreender coisas que ainda não se é capaz de observar.

Na verdade, o caminho certo para a visão superior começa com a compreensão.

Agora, embora o algo oculto que guerreia contra a desintegração do corpo físico só possa ser observado pela visão superior, ele é principalmente visível em seus efeitos à faculdade humana de julgamento, que se limita ao mundo manifestado, e esses efeitos se expressam na forma de configuração em que materiais e forças minerais são combinados durante a vida. Quando a morte intervém, a forma desaparece pouco a pouco, e o corpo físico torna-se parte do restante do mundo mineral.

Mas o clarividente é capaz de observar, como um princípio independente da natureza humana, aquilo que, enquanto dura a vida, impede que os materiais e forças físicas sigam seu curso natural, que levaria à dissolução do corpo físico. Ele chama esse princípio independente de corpo etérico ou vital.

Se mal-entendidos não devem surgir desde o início, duas coisas devem ser lembradas em conexão com esta descrição de um segundo princípio da natureza humana. A palavra "etérico" é usada aqui em um sentido diferente do da física moderna, que designa como "éter" o meio pelo qual a luz é transmitida. Na ciência oculta, o uso da palavra limita-se ao sentido acima exposto. Ela denota aquilo que é acessível à visão superior e que pode ser conhecido pela observação física apenas por seus efeitos, isto é, por seu poder de dar uma forma ou configuração definida aos materiais e forças minerais presentes no corpo físico.

Novamente, o uso da palavra "corpo" não deve ser mal compreendido. É necessário usar as palavras da linguagem cotidiana ao descrever coisas em um plano superior de existência, e esses termos, quando aplicados à observação dos sentidos, expressam apenas o que é físico. O corpo etérico não tem, é claro, nada de natureza corpórea no sentido físico, por mais etéreo que possamos imaginar tal corpo. Assim que o ocultista chega à menção desse corpo etérico ou vital, ele atinge o ponto em que está fadado a encontrar a oposição de muitas opiniões contemporâneas.

O desenvolvimento da mente humana tem sido tal que a menção de tal princípio da natureza humana é necessariamente

A NATUREZA DO HOMEM

considerado não científico. O modo materialista de pensar chegou à conclusão de que não há nada a ser visto no corpo vivo senão uma combinação de substâncias e forças físicas, tais como também são encontradas no chamado corpo inanimado do mineral, sendo a única diferença que elas são mais complicadas no corpo vivo do que no corpo sem vida. No entanto, não faz muito tempo que outras opiniões eram sustentadas até mesmo pela ciência oficial.

É evidente para qualquer um que estuda as obras de muitos cientistas sinceros, produzidas durante a primeira metade do século XIX, que naquela época muitos genuínos investigadores da natureza estavam conscientes de algum fator atuando dentro do corpo vivo, diferente do que atua no mineral sem vida. Esse fator era denominado "força vital". É verdade que essa força vital não é representada como sendo o que acima foi caracterizado como corpo vital, mas subjacente à concepção havia uma vaga ideia da existência de tal corpo. A força vital era geralmente considerada como algo que, num corpo vivo, estava unida à matéria e às forças físicas, da mesma forma que a força de um ímã se une ao ferro. Então veio o tempo em que a força vital foi banida do domínio da ciência.

Meras causas físicas e químicas foram consideradas totalmente suficientes.

No momento atual, no entanto, há uma reação a esse respeito em alguns círculos científicos.

Às vezes é concedido que a hipótese de algo da natureza de uma “força vital” não é puro absurdo. No entanto, mesmo o cientista que concede esse ponto não está disposto a fazer causa comum com o ocultista no que diz respeito ao corpo vital. Via de regra, não serve a nenhum propósito útil entrar em discussão sobre tais pontos de vista a partir da perspectiva da ciência oculta. Deveria ser realmente mais a preocupação do ocultista reconhecer que o modo de pensar materialista é um fenômeno concomitante necessário do grande avanço da ciência natural em nossos dias. Esse avanço se deve às vastas melhorias nos instrumentos usados na observação sensorial. E está na própria natureza do homem levar algumas de suas faculdades a um certo grau de perfeição às custas de outras. A observação sensorial exata, que foi evoluída a um grau tão importante pela ciência natural, estava fadada a deixar em segundo plano o cultivo daquelas faculdades humanas que conduzem aos mundos ocultos. Mas chegou o tempo em que esse cultivo é mais uma vez necessário, e o reconhecimento do invisível não será conquistado combatendo opiniões que são o resultado lógico de uma negação de sua existência, mas sim colocando o invisível sob a luz correta. Então ele será reconhecido por aqueles para quem o “tempo chegou”.


Foi necessário dizer isso, para que não se presumisse que a ciência oculta é ignorante do ponto de vista da ciência natural quando se faz menção a um “corpo etérico”, que em muitos círculos deve necessariamente ser considerado como puramente imaginário.


O corpo etérico é, portanto, o segundo princípio da natureza humana. Para o clarividente, ele possui um grau mais elevado de leveza do que o corpo físico. Uma descrição de como ele é visto pelo clarividente só pode ser dada em uma parte posterior deste livro, quando o sentido em que tais descrições devem ser tomadas se tornar manifesto. Por ora, bastará dizer que o corpo etérico interpenetra o corpo físico em todas as suas partes e deve ser considerado como uma espécie de arquiteto deste último. Todos os órgãos físicos são mantidos em sua forma e configuração pelas correntes e movimentos do corpo etérico. O coração físico baseia-se em um coração etérico, o cérebro físico em um cérebro etérico, e assim por diante. O corpo etérico é organizado exatamente como o físico, com esta diferença: no corpo etérico as partes fluem umas nas outras em movimento ativo, enquanto no corpo físico elas estão separadas umas das outras.

O homem possui esse corpo etérico em comum com todas as plantas, assim como possui o corpo físico em comum com os minerais. Tudo o que vive tem seu corpo etérico.

O estudo da ciência oculta procede ascendentemente do corpo etérico para outro princípio da natureza humana.

Para auxiliar na formação de uma ideia desse princípio, ele chama a atenção para o fenômeno do sono, assim como, em conexão com o corpo etérico, chamou a atenção para a morte. Todo o trabalho humano, no que concerne ao mundo manifestado, depende da atividade durante a vida desperta. Mas essa atividade só é possível enquanto o homem é capaz de recuperar suas forças exauridas no sono. Ação e pensamento desaparecem, dor e prazer se desvanecem durante o sono, e no despertar, os poderes conscientes do homem ascendem da inconsciência do sono como que de fontes ocultas e misteriosas de energia. É a mesma consciência que mergulha em profundezas obscuras ao adormecer e delas ascende novamente ao despertar.

Aquilo que traz a vida para fora do estado de inconsciência é, segundo a ciência oculta, o terceiro princípio da natureza humana. Ele é chamado de corpo astral. Assim como o corpo físico não pode manter sua forma por meio das substâncias e forças minerais que contém, mas deve, para mantê-las unidas, ser interpenetrado pelo corpo etérico, da mesma forma é impossível que as forças do corpo etérico, por si mesmas, sejam irradiadas com a luz da consciência. Um corpo etérico deixado a seus próprios recursos estaria em um estado permanente de sono.¹ Um corpo etérico desperto é irradiado por um corpo astral. O efeito desse corpo astral parece, à observação sensorial, desaparecer quando o homem cai no sono; para a observação clarividente, ele ainda está presente, com a diferença de que aparece separado ou extraído do corpo etérico. A observação sensorial não tem nada a ver com o corpo astral em si, mas apenas com seus efeitos no mundo manifestado, e esses efeitos deixam de ser visíveis durante o sono. No mesmo sentido em que o homem possui seu corpo físico em comum com os minerais e seu corpo etérico em comum com as plantas, ele se assemelha aos animais no que diz respeito ao seu corpo astral.

As plantas estão em um estado permanente de sono. Aquele que não julga com precisão essas questões pode facilmente cometer o erro de atribuir às plantas o mesmo tipo de consciência que a dos animais e dos seres humanos no estado de vigília; mas essa suposição só pode ser devida a uma concepção imprecisa de consciência. Nesse caso, diz-se que, se um estímulo externo é aplicado a uma planta, ela responde com certos movimentos, como faria um animal. Fala-se da sensibilidade de algumas plantas, por exemplo, daquelas que contraem suas folhas quando certas coisas externas agem sobre elas. Mas a marca característica da consciência não é que um ser reaja de certa maneira a uma impressão, mas que ele experimente algo em sua natureza interior que acrescenta um novo elemento à mera reação. Caso contrário, poderíamos falar da "consciência" de um pedaço de ferro quando ele se expande sob a influência do calor.

A consciência está presente somente quando, através do efeito do calor, o ser sente dor ou prazer interiormente.

¹ Podemos também dizer que ele só poderia viver a vida de uma planta no corpo físico.



O quarto princípio do ser, que a ciência oculta atribui ao homem, é aquele que ele não compartilha com o restante do mundo manifestado.

É o que o diferencia de suas criaturas semelhantes e o torna a coroa da criação que lhe pertence. A ciência oculta ajuda a formar uma concepção deste princípio adicional da natureza humana, apontando a existência de uma diferença essencial entre os tipos de experiência na vida de vigília. Por um lado, o homem está constantemente sujeito a experiências que, por necessidade, devem ir e vir; por outro, ele tem experiências com as quais isso não ocorre. Este fato se evidencia com especial força se as experiências humanas forem comparadas com as dos animais. Um animal experimenta as influências do mundo exterior com grande regularidade; sob a influência do calor e do frio, torna-se consciente de dor ou prazer, e durante certos processos corporais que se repetem regularmente, sente fome e sede. A soma total da vida do homem não se esgota em tais experiências; ele é capaz de desenvolver desejos e anseios que vão além dessas coisas. No caso de um animal, seria sempre possível, investigando a fundo a questão, determinar a causa — seja dentro ou fora de seu corpo — que o impeliu a qualquer ato ou sentimento dado.

Este não é de modo algum o caso do homem.

Ele pode gerar desejos e anseios para os quais não existe causa adequada, seja dentro ou fora de seu corpo. Uma fonte particular deve ser encontrada para tudo neste domínio, e, segundo a ciência oculta, essa fonte é o “Eu” ou “ego” humano. Portanto, o ego é chamado de quarto princípio da natureza humana.


Se o corpo astral fosse deixado por conta própria, sentimentos de prazer e dor, e sensações de fome e sede, alternariam dentro dele, mas faltaria a consciência de uma qualidade duradoura em todos esses sentimentos.

Não é o elemento duradouro como tal que aqui se designa como o ego, mas aquilo que é consciente do elemento duradouro. Neste domínio, as concepções devem ser expressas com muita exatidão para que não surjam mal-entendidos. O tornar-se consciente daquilo que é permanente, em troca daquilo que é mutável, constitui o primeiro alvorecer do sentimento do ego. A sensação de fome, por exemplo, não pode dar a uma criatura o sentimento de possuir um ego. A fome se instala quando as causas recorrentes se fazem sentir no ser em questão, que então devora seu alimento justamente porque essas condições recorrentes estão presentes. Para que a consciência do ego surja, não deve haver apenas essas condições recorrentes, impelindo o ser a se alimentar, mas deve ter havido prazer derivado da satisfação anterior da fome, e a consciência do prazer deve ter permanecido; de modo que não apenas a experiência presente da fome, mas também a experiência passada do prazer impele o ser a buscar nutrição.


Assim como o corpo físico entra em decadência se o corpo etérico não o mantém unido, e assim como o corpo etérico afunda na inconsciência se não for irradiado pelo corpo astral, assim também o corpo astral, repetidamente, deixaria o passado perder-se no esquecimento, a menos que o ego resgatasse o passado, evocando-o para o presente. O que a morte é para o corpo físico e o sono para o etérico, o poder de esquecer é para o corpo astral. Podemos expressar isso de outra maneira, dizendo que a vida é a característica especial do corpo etérico, a consciência a do corpo astral, e a memória a do ego.

É ainda mais fácil cometer o erro de atribuir memória a um animal do que o de atribuir

Explicações como as dadas neste livro sobre a faculdade da memória podem ser muito facilmente mal compreendidas. Para quem observa apenas os eventos externos, não notaria à primeira vista a diferença entre o que acontece no animal, ou mesmo na planta, quando algo aparece neles que se assemelha à memória, e o que aqui é chamado de recordação real no homem. Naturalmente, quando um animal executa uma ação pela terceira ou quarta vez, pode executá-la de tal maneira que o processo externo dá a impressão de que a memória e o treinamento a ela associado estão presentes. Podemos até estender nossa concepção de memória ou de recordação tão longe quanto alguns naturalistas e seus discípulos, quando dizem que o pintinho começa a bicar grãos assim que sai da casca, que ele até conhece os movimentos adequados de cabeça e corpo para alcançar seu objetivo. Ele não poderia ter aprendido isso dentro da casca do ovo; portanto, deve tê-lo feito através dos milhares e milhares de criaturas das quais descende (assim diz Henning, por exemplo). Podemos chamar o fenômeno diante de nós de algo que se assemelha à memória, mas nunca chegaremos a uma compreensão real da natureza humana se não levarmos em conta aquele elemento muito distintivo que se mostra no ser humano como um processo interior, como uma percepção real de experiências anteriores em uma data posterior, não meramente o funcionamento de condições anteriores em condições posteriores. Neste livro, é essa percepção do que é passado que se chama memória, não apenas consciência a uma planta. É tão natural pensar em memória quando um cão reconhece seu dono, a quem talvez não veja há algum tempo; contudo, na realidade, o reconhecimento não se deve de modo algum à memória, mas a algo bastante diferente. O cão sente certa atração por seu dono, que procede da personalidade deste. Isso dá ao cão uma sensação de prazer sempre que seu dono está presente, e cada vez que isso acontece é uma causa de repetição do prazer. Mas a memória só existe em um ser quando ele não apenas sente suas experiências presentes, mas retém as do passado. Alguém poderia admitir isso e, ainda assim, cair no erro de pensar que o cão tem memória. Pois se poderia dizer que o cão definha quando seu dono o deixa, e portanto retém uma lembrança dele. Esta também é uma opinião imprecisa. Viver com seu dono tornou sua presença uma condição de bem-estar para o cão, e ele sente sua ausência de maneira muito semelhante à forma como sente fome.


Quem não faz essas distinções não chegará a uma compreensão clara das verdadeiras condições da vida.

Memória e esquecimento têm para o ego muito o mesmo significado que despertar e dormir

o reaparecimento (ainda que transformado) do que uma vez existiu, em uma forma posterior. Se usássemos a palavra memória para os processos correspondentes nos reinos vegetal e animal, precisaríamos usar uma palavra diferente ao falar do homem. Na descrição aqui apresentada, o importante não é a palavra específica usada, mas sim que, ao tentar compreender os seres humanos, essa distinção fosse reconhecida. As ações aparentemente muito inteligentes dos animais têm tão pouco a ver com o que aqui se chama memória.


têm para o corpo astral. Assim como o sono aniquila no nada os cuidados e preocupações do dia, assim o esquecimento lança um véu sobre as tristes experiências da vida e apaga parte do passado. E assim como o sono é necessário para a recuperação das forças vitais exauridas, assim o homem deve apagar de sua memória certas porções de sua vida passada se quiser enfrentar suas novas experiências livremente e sem preconceito. É desse próprio esquecimento que surge a força para a percepção de novos fatos. Tomemos o caso de aprender a escrever. Todos os detalhes pelos quais uma criança deve passar nesse processo são esquecidos.

O que resta é a capacidade de escrever. Como poderia uma pessoa jamais ser capaz de escrever se, cada vez que pegasse sua caneta, todas as suas experiências de aprendizado da escrita se erguessem diante de sua mente?

Agora, há muitos graus diferentes de memória. Sua forma mais simples é quando uma pessoa percebe um objeto e, após afastar-se dele, retém sua imagem em sua mente. Ele formou a imagem enquanto olhava para o objeto. Um processo foi então realizado entre seu corpo astral e seu ego. O corpo astral elevou à consciência a impressão externa do objeto, mas o conhecimento do objeto duraria apenas enquanto a coisa em si estivesse presente, a menos que o ego absorvesse o conhecimento em si mesmo e o tornasse seu.

É neste ponto que a ciência oculta traça a linha divisória entre o que pertence ao corpo e o que pertence à alma. Ela fala do corpo astral enquanto se trata da obtenção de conhecimento de um objeto que está presente. Mas o que dá duração ao conhecimento é conhecido como alma. A partir disso, pode-se ver imediatamente quão próxima é a conexão no homem entre o corpo astral e aquela parte da alma que dá uma qualidade duradoura ao conhecimento. Os dois estão, até certo ponto, unidos em um único princípio da natureza humana. Consequentemente, essa unidade é frequentemente denominada corpo astral.


Quando se desejam termos exatos, o corpo astral é chamado de corpo sensitivo, e a alma, na medida em que está unida a este último, é chamada de alma sensitiva.

O ego eleva-se a um estágio superior de seu ser quando centra sua atividade no que ganhou para si a partir de seu conhecimento das coisas objetivas. É por meio dessa atividade que o ego se desprende cada vez mais dos objetos da percepção, a fim de trabalhar dentro daquilo que é sua própria posse.

A parte da alma à qual esse trabalho é atribuído é chamada de alma racional ou intelectual. É peculiaridade das almas sensitiva e intelectual que elas trabalham com aquilo que recebem através das impressões sensoriais do exterior.

O termo "verstandoaseele" é às vezes traduzido por "alma racional". De certo ponto de vista, poder-se-ia preferir o termo "alma intelectual", porque expressa melhor a atividade da alma do que "alma racional". Neste último, pensa-se no conhecimento acerca de uma peroração, na intelectualidade, da possibilidade real de formar esse conhecimento através da atividade interior. Em alemão, a expressão "alma emocional" só combina, como deveria, com o segundo membro da alma quando a atividade interior é mantida em vista.


objetos dos quais retêm a memória. A alma está então inteiramente entregue a algo que está realmente fora dela. Mesmo o que ela tornou seu através da memória, ela na verdade recebeu de fora. Mas ela é capaz de ir além de tudo isso, e a ciência oculta pode mais facilmente dar uma ideia disso chamando a atenção para um fato simples, que, no entanto, é da maior importância. É que em toda a extensão da fala há apenas um nome que se distingue por sua própria natureza de todos os outros nomes. Este é o nome "Eu". Todo outro nome pode ser aplicado por qualquer um à coisa ou ser a que pertence. A palavra "Eu" como designação de um ser tem significado apenas quando dada àquele ser por ele mesmo. Nunca nenhuma voz exterior pode nos chamar pelo nome de "Eu". Só podemos aplicá-lo a nós mesmos. "Eu sou apenas um 'Eu' para mim mesmo; para qualquer outra pessoa sou um 'tu', e qualquer outra pessoa é um 'tu' para mim." Este fato é a expressão externa de uma verdade profundamente significativa. A essência real do ego é independente de tudo que está fora dele, e é por isso que seu nome não pode ser aplicado a ele por qualquer outra pessoa. Esta é a razão pela qual aquelas confissões religiosas que mantiveram conscientemente sua conexão com a ciência oculta falam da palavra "Eu" como o "nome inefável de Deus". Pois o fato acima mencionado é exatamente o que se refere quando essa expressão é usada. Nada exterior tem acesso àquela parte da alma humana da qual estamos agora falando. É o "santuário oculto" da alma. Apenas um ser de natureza semelhante à alma pode obter entrada ali. "A divindade que habita no homem fala quando a alma se reconhece como um ego." Assim como as almas sensitiva e intelectual habitam no mundo exterior, assim um terceiro princípio da alma está imerso no divino quando a alma se torna consciente de sua própria natureza.


Nesse contexto, um mal-entendido pode facilmente surgir; pode parecer que a ciência oculta afirma que o ego é uno com Deus. Mas ela de modo algum diz que o ego é Deus, apenas que é da mesma natureza e essência que Deus. Acaso alguém declara que a gota d'água retirada do oceano é o oceano, quando afirma que a gota e o oceano são da mesma essência ou substância? Se uma comparação for necessária, podemos dizer: "O Ego está relacionado a Deus como a gota d'água está para o oceano." O homem é capaz de encontrar um princípio divino dentro de si, porque sua essência original é derivada diretamente do divino. Assim, o homem, através do terceiro princípio de sua alma, atinge um conhecimento interior de si mesmo, assim como através de seu corpo astral ele obtém conhecimento do mundo exterior. Por essa razão, a ciência oculta chama o terceiro princípio da alma de alma autoconsciente, e sustenta que a parte anímica do homem consiste em três princípios: a alma sensível, a intelectual e a autoconsciente, assim como a parte corporal tem três princípios: os corpos físico, etérico e astral.

A natureza real do ego é revelada pela primeira vez na alma autoconsciente.

Através do sentimento e da razão, a alma perde-se nas outras coisas, mas, como alma autoconsciente, ela apreende a sua própria essência. Portanto, este ego só pode ser percebido através da alma autoconsciente por uma certa atividade interior. As imagens dos objetos externos são formadas à medida que esses objetos vêm e vão, e as imagens continuam a operar no intelecto em virtude de sua própria força. Mas, se o ego há de perceber a si mesmo, não pode meramente render-se; deve primeiro, por atividade interior, extrair o seu próprio ser das suas profundezas, a fim de se tornar consciente dele. Uma nova atividade do ego começa com este autoconhecimento — com a auto-recoleção. Devido a essa atividade, a percepção do ego na alma autoconsciente possui um significado inteiramente diferente para o homem daquele transmitido pela observação de tudo o que lhe chega através dos três princípios corporais e dos outros dois princípios da alma. O poder que revela o ego na alma autoconsciente é, de fato, o mesmo poder que se manifesta em toda parte no mundo; apenas no corpo e nos princípios inferiores da alma ele não surge diretamente, mas se manifesta pouco a pouco em seus efeitos. A manifestação mais baixa é através do corpo físico; dali, faz-se uma ascensão gradual até aquilo que preenche a alma intelectual.


Na verdade, podemos dizer que, a cada passo ascendente, um dos véus cai, nos quais o centro oculto está envolto. Naquilo que preenche a alma autoconsciente, esse centro oculto emerge desvelado no templo da alma. Contudo, justamente aqui ele se mostra como apenas uma gota do oceano da Essência Primordial que tudo permeia, e é aqui que o homem, pela primeira vez, tem de apreendê-la — essa Essência Primordial. Ele deve reconhecê-la em si mesmo antes de poder encontrá-la em suas manifestações.

Aquilo que penetra na alma autoconsciente como uma gota do oceano é chamado pela ciência oculta de espírito. Dessa maneira, a alma autoconsciente se une ao espírito, que é o princípio oculto em todas as coisas manifestas. Se o homem deseja apreender o espírito em toda a manifestação, deve fazê-lo da mesma maneira pela qual apreende o ego na alma autoconsciente. Ele deve estender ao mundo visível a atividade que o conduziu à percepção de seu ego. Por esse meio, ele evolui para planos ainda mais elevados de seu ser. Ele acrescenta algo novo aos princípios de seu corpo e de sua alma. A primeira coisa que acontece é que ele próprio conquista o que está oculto em seus princípios inferiores da alma, e isso se efetua através do trabalho que o ego realiza dentro da alma. Como o homem está engajado nesse trabalho torna-se evidente se compararmos com um idealista elevado aquele que ainda está entregue a desejos inferiores e aos chamados prazeres sensuais.

Este último é transmutado no primeiro se ele se afasta de certas tendências inferiores e se volta para as superiores. Ele assim trabalha a partir de seu ego sobre sua alma, de modo a enobrecê-la e espiritualizá-la. O ego tornou-se o mestre da vida da alma desse homem.


Isso pode ser levado tão longe que nenhum desejo ou anseio pode criar raízes na alma, a menos que o ego permita sua entrada. Dessa maneira, toda a alma se torna uma manifestação do ego, o que anteriormente apenas a alma autoconsciente havia sido. Toda vida civilizada e todo esforço espiritual consistem realmente na única obra que tem por objetivo tornar o ego o mestre. Todo aquele que agora vive está engajado nessa obra, quer o queira ou não, e quer esteja consciente do fato ou não.

Novamente, por essa obra, a natureza humana é elevada a estágios superiores de ser.

O homem desenvolve novos princípios de sua natureza. Estes estão ocultos dele atrás do que é manifesto. Se o homem é capaz, trabalhando sobre sua alma, de tornar seu ego mestre dela, de modo que este traga à manifestação o que está oculto, a obra pode estender-se ainda mais e pode incluir o corpo astral. Nesse caso, o ego toma posse do corpo astral, unindo-se à sabedoria oculta desse princípio astral.

Na ciência oculta, o corpo astral que é assim conquistado e transformado pelo ego é chamado de Espírito-Próprio. (Este é o mesmo que é conhecido como "Manas" na literatura teosófica, um termo emprestado da sabedoria do o Oriente) No Espírito-Próprio, um princípio superior é acrescentado à natureza humana, um que está presente como que em germe, e que no curso do trabalho do ser humano sobre si mesmo emerge cada vez mais.


O homem conquista seu corpo astral ao penetrar até as forças ocultas que estão por trás dele; algo semelhante acontece, em um estágio posterior de desenvolvimento, com o corpo etérico, mas o trabalho sobre este último é mais árduo, pois o que está oculto no corpo etérico está envolto em dois véus, enquanto o que está oculto no corpo astral está envolto em apenas um. A ciência oculta dá uma ideia da diferença no trabalho sobre os dois corpos ao apontar certas mudanças que podem ocorrer no homem no curso de seu desenvolvimento. Pensemos primeiramente na maneira como certas qualidades da alma do homem se desenvolvem quando o ego trabalha sobre a alma, como prazeres e desejos, alegrias e tristezas podem mudar. Basta olharmos de volta para nossa infância. O que nos dava prazer então, o que nos causava dor? O que aprendemos além do que sabíamos quando crianças? Tudo isso é apenas uma expressão do

¹Não se pode traçar uma linha rígida entre as mudanças que se realizam no corpo astral através da atividade do ego e aquelas que ocorrem no corpo etérico. Uma se funde na outra. Quando um homem aprende algo e, com isso, adquire certa capacidade de julgamento, ocorre uma mudança em seu corpo astral; mas quando esse julgamento modifica sua disposição natural, de modo que ele se habitua a sentir de maneira diferente, em consequência de seu aprendizado, do que sentia antes, isso significa uma mudança em seu corpo etérico. Tudo o que se torna tão próprio do homem que ele pode sempre recordá-lo baseia-se na transformação do corpo etérico. Aquilo que pouco a pouco se torna uma possessão duradoura da memória tem seu fundamento na transmissão ao corpo etérico do trabalho do corpo astral.


maneira pela qual o ego conquistou o domínio sobre o corpo astral, pois é este princípio que é o veículo do prazer e da dor, da alegria e da tristeza. Comparadas com essas coisas, quão pouco mudam no decorrer do tempo certas outras qualidades humanas, por exemplo, o temperamento, as peculiaridades mais profundas do caráter e qualidades semelhantes. Uma criança apaixonada frequentemente conservará certas tendências à ira súbita durante seu desenvolvimento na vida posterior.

Este é um fato tão notável que há pensadores que negam inteiramente a possibilidade de mudar o caráter fundamental. Eles supõem que ele seja algo permanente ao longo da vida, e que é apenas uma questão de ele se manifestar de uma ou de outra maneira. Mas tal opinião se deve a uma observação defeituosa. Para quem é capaz de ver tais coisas, é evidente que até mesmo o caráter e o temperamento de uma pessoa podem ser transformados sob a influência de seu ego. É verdade que essa mudança é lenta em comparação com a mudança nas qualidades mencionadas anteriormente. Podemos comparar a relação entre as taxas de mudança nos dois corpos aos movimentos do ponteiro das horas e do ponteiro dos minutos de um relógio. Ora, as forças que provocam uma mudança de caráter ou temperamento pertencem às forças ocultas do corpo etérico. Elas são da mesma natureza das forças que regem o reino da vida — as mesmas, portanto, que as forças de crescimento, nutrição e geração. Explicações adicionais nesta obra lançarão a devida luz sobre essas coisas.

Assim, não é quando o homem simplesmente se entrega ao prazer e à dor, à alegria e à tristeza, que o ego atua sobre o corpo astral, mas sim quando as peculiaridades dessas qualidades da alma são modificadas, e o trabalho se estende da mesma maneira ao corpo etérico, quando o ego aplica suas energias a mudar o caráter ou o temperamento. Essa mudança também é uma na qual toda pessoa viva está envolvida, consciente ou inconscientemente. O incitamento mais poderoso para esse tipo de mudança na vida comum é o dado pela religião. Se o ego permite que os impulsos que fluem da religião atuem sobre ele repetidamente, eles se tornam um poder dentro dele que se estende ao corpo etérico e o modifica, assim como impulsos menores na vida efetuam a transformação do corpo astral. Esses impulsos menores, que chegam ao homem por meio do estudo, da reflexão, do enobrecimento do sentimento e assim por diante, estão sujeitos às múltiplas mudanças da existência; mas os sentimentos religiosos imprimem certo selo de uniformidade sobre todo pensar, sentir e querer. Eles difundem uma luz igual e única sobre toda a vida da alma.

O homem pensa e sente uma coisa hoje, outra amanhã, cujas causas são de muitas naturezas diferentes; mas aquele que, por suas convicções religiosas consistentemente mantidas, vislumbra...

ESBOÇO DE UMA CIÊNCIA OCULTA algo que persiste através de todas as mudanças, relacionará seus pensamentos e sentimentos de hoje, bem como suas experiências de amanhã, àquele sentimento fundamental que possui. Assim, a crença religiosa tem o poder de permear toda a vida da alma. Suas influências aumentam em força com o passar do tempo porque são constantemente repetidas. Por isso, adquirem o poder de atuar sobre o corpo etérico.


De maneira semelhante, a influência da arte afeta o homem. Se, indo além da forma exterior, da cor e do tom de uma obra de arte, ele penetra até seus fundamentos espirituais com sua imaginação e sentimento, então os impulsos assim recebidos pelo ego realmente alcançam o corpo etérico. Quando esse pensamento é levado à sua conclusão lógica, pode-se avaliar o imenso significado da arte em toda a evolução humana. Apenas alguns exemplos são apontados aqui do que induz o ego a trabalhar sobre o corpo etérico. Há muitas influências semelhantes na vida humana que não são tão aparentes à primeira vista. Mas esses exemplos são suficientes para mostrar que há ainda outro princípio da natureza do homem oculto dentro dele, que o ego está tornando cada vez mais manifesto. A ciência oculta denomina esse segundo princípio do espírito o "Espírito de Vida" (É o mesmo que na literatura teosófica corrente é chamado de Budhi, termo emprestado da sabedoria oriental.) A expressão "Espírito de Vida" é apropriada, porque as mesmas forças estão em ação dentro daquilo que ele denota como no corpo vital, com a diferença de que, quando se manifestam neste último, o ego não está ativo. Quando, porém, esses poderes se expressam como o Espírito de Vida, são interpenetrados pelo ego.


O desenvolvimento intelectual do homem, a purificação e o enobrecimento de seus sentimentos e das manifestações de sua vontade, são a medida do grau em que ele transformou o corpo astral no Espírito de Si. Suas experiências religiosas, bem como muitas outras, estão impressas no corpo etérico, transformando-o no Espírito de Vida.

No curso ordinário da vida, isso ocorre mais ou menos inconscientemente; a chamada iniciação, ao contrário, consiste em o homem ser dirigido pela ciência oculta aos meios pelos quais ele pode, de modo bastante consciente, assumir esse trabalho no Espírito-Próprio e no Espírito de Vida. Esses meios serão tratados em partes posteriores deste livro. Entretanto, é importante mostrar que, além da alma e do corpo, o espírito também atua dentro do homem. Ver-se-á mais adiante como esse espírito pertence à parte eterna do homem, em contraste com o corpo perecível.

Mas o trabalho do ego sobre os corpos astral e etérico não esgota sua atividade, que também se estende ao corpo físico. Um leve efeito da influência do ego sobre o corpo físico pode ser observado quando certas experiências fazem uma pessoa corar ou empalidecer. Nesse caso, o ego é realmente a ocasião de um processo no corpo físico. Ora, se por meio da atividade do ego no homem ocorrem mudanças que influenciam o corpo físico, o ego está realmente unido às forças ocultas do corpo físico, isto é, às mesmas forças que produzem seus processos físicos. A ciência oculta diz que, durante tal atividade, o ego está trabalhando sobre o corpo físico. Essa expressão não deve ser mal compreendida. Não se deve de modo algum supor que esse trabalho seja de natureza grosseiramente material. O que aparece como matéria grosseira no corpo físico é meramente a parte manifesta dele; por trás disso estão as forças ocultas de seu ser, que são de natureza espiritual. Quando o ego exerce suas energias da maneira descrita, ele se une não com a manifestação material externa do corpo físico, mas com as forças invisíveis que trazem esse corpo à existência e depois o fazem decair. Esse trabalho do ego sobre o corpo físico só pode tornar-se muito parcialmente claro para a consciência do homem na vida ordinária. Ele pode tornar-se plenamente claro apenas quando, sob a influência da ciência oculta, o homem assume conscientemente o trabalho em suas próprias mãos. Então ele se torna cônscio de que há um terceiro princípio espiritual dentro dele. É aquilo que a ciência oculta chama de "Espírito-Homem", em contraste com o homem físico.

(Na literatura teosófica, esse "Espírito-Homem" é conhecido como Atma.) Novamente, com igualdade ao Espírito-Homem, é fácil cometer um erro. No corpo físico vemos o princípio mais baixo do homem e, por isso, achamos difícil compreender que o trabalho nesse corpo deva ser realizado pelo princípio mais elevado da entidade humana. Mas, justamente porque o espírito ativo dentro do corpo físico está oculto sob três véus, é necessário o mais alto tipo de esforço humano para tornar o ego uno com aquilo que é a energia espiritual oculta do corpo.


A ciência oculta, portanto, representa o homem como um ser composto de muitos princípios. Os de natureza corpórea são:

o corpo físico,
o corpo etérico ou vital,
o corpo astral.

Os princípios da alma são:

a alma senciente,
a alma intelectual ou racional,
a alma autoconsciente.

É na alma que o ego difunde sua luz. De natureza espiritual são:

o Espírito-Self,
o Espírito de Vida,
o Espírito-Homem.

Decorre do que foi dito acima que a alma senciente e o corpo astral estão intimamente unidos e, em certo sentido, são um. Da mesma forma, a alma autoconsciente e o Espírito-Self formam um todo, pois na alma autoconsciente o espírito resplandece e, a partir daí, irradia com sua luz os outros princípios da natureza humana. Por isso, a ciência oculta também fala da organização do homem da seguinte maneira: a alma intelectual é chamada simplesmente de ego, porque participa da natureza do ego e, em certo sentido, é o ego, ainda não consciente de sua natureza espiritual. Temos, assim, sete divisões do homem:


(1) corpo físico,
(2) corpo etérico ou vital;
(3) corpo astral,
(4) ego,
(5) Espírito-Self,
(6) Espírito de Vida,
(7) Espírito-Homem.

Mesmo alguém acostumado a hábitos materialistas de pensamento não encontraria nessa organização sétupla do homem a "magia fantasiosa" que muitas vezes lhe é atribuída, se se apegasse estritamente ao significado das explicações acima e não introduzisse imediatamente a ideia de algo mágico na questão.

A ciência oculta fala desses sete princípios do homem exatamente da mesma maneira, apenas do ponto de vista de uma forma mais elevada de observação do mundo, como comumente se faz alusão às sete cores que compõem a luz branca, ou às sete notas da escala (sendo a oitava considerada uma repetição da nota fundamental). Assim como a luz se manifesta em sete cores e o som em sete tons, a unidade da natureza do homem se manifesta nos sete

princípios descritos. Não há mais superstição ligada ao número sete no caso da ciência oculta do que quando associado ao espectro ou à escala.

Em uma ocasião em que esses fatos foram apresentados verbalmente, objetou-se que a afirmação sobre o número sete não se aplica às cores, pois há outras além dos raios vermelho e violeta, invisíveis ao olho. Mas mesmo nesse aspecto a comparação com as cores se sustenta, pois, de fato, o ser humano se expande para além do corpo físico de um lado, e para além do Espírito-Homem do outro; somente para os métodos de observação espiritual dos quais a ciência oculta primeiro relata, essas continuações do homem são "espiritualmente" invisíveis, assim como as cores além do vermelho e do violeta são fisicamente invisíveis. Foi necessário dizer isso, porque a opinião surge facilmente de que a ciência oculta não se aplica seriamente ao pensamento científico, mas trata as questões como um amador.

Mas quem considerar cuidadosamente o significado das afirmações feitas pela ciência oculta descobrirá que, na realidade, ela nunca está em desacordo com a ciência genuína, nem quando apresenta os fatos da ciência natural como ilustrações, nem quando suas afirmações estão diretamente conectadas com a pesquisa natural.

CAPÍTULO III — Sono e Morte

A natureza da consciência desperta não pode ser sondada sem examinar a condição que o homem experimenta durante o sono, e o problema da vida não pode ser abordado sem estudar a morte. Qualquer um que falhe em perceber a importância da ciência oculta pode desconfiar da maneira como ela estuda o sono e a morte. A ciência oculta é, no entanto, capaz de apreciar os motivos dos quais surge tal desconfiança. Pois não há nada incompreensível na afirmação de que o homem existe para a vida ativa e proposital, que seus atos dependem de sua deliberação, e que a absorção em condições como o sono e a morte só pode resultar de um gosto por sonhos ociosos, e não pode levar a nada além de vãs imaginações.

A recusa em aceitar qualquer coisa de natureza tão fantástica pode prontamente ser considerada como a expressão de uma mente sã, enquanto a indulgência em tais "sonhos ociosos" é tida como mórbida, e uma ocupação adequada apenas para pessoas nas quais faltam a alegria e o ardor da vida, e que são incapazes de "trabalho real". Seria errado descartar essa afirmação imediatamente como uma injustiça, pois ela contém um certo grão de verdade. É um quarto

SONO E MORTE

verdade, e deve ser completada pelos três quartos restantes que lhe pertencem. Ora, se disputarmos o único quarto que está certo, com aquele que reconhece esse quarto bem distintamente, mas que não sonha com os outros três quartos, apenas despertamos suas suspeitas. Pois deve ser incondicionalmente concedido que o estudo daquilo que está oculto no sono e na morte é mórbido, se conduz ao enfraquecimento ou ao afastamento da vida real. Não menos devemos admitir que muito daquilo que sempre se chamou de ciência oculta no mundo, e que ainda hoje é praticado sob esse nome, carrega a impressão do que é doentio e hostil à vida, mas isso certamente não provém do ocultismo genuíno.

O verdadeiro fato da questão é este: assim como um homem não pode estar sempre desperto, tampouco está suficientemente equipado para as condições efetivas da vida em toda a sua extensão sem aquilo que a ciência oculta tem a lhe oferecer. A vida continua durante o sono, e as forças que trabalham e laboram durante o estado de vigília extraem sua força e refrigério daquilo que o sono lhes dá. Assim é com as coisas sob nossa observação no mundo manifestado. As fronteiras do mundo são mais amplas do que o campo desta última observação; e o que o homem reconhece no visível deve ser suplementado e fertilizado pelo que ele é capaz de conhecer do mundo invisível.

Um homem que não renovasse continuamente suas forças exauridas pelo sono, levaria sua vida à destruição, e da mesma forma uma visão do mundo que não é fertilizada por um conhecimento do invisível deve conduzir a um sentimento de desolação.


Assim é igualmente com relação à morte. As criaturas viventes sucumbem à morte para que nova vida possa surgir. É precisamente a ciência oculta que lança luz sobre a bela frase de Goethe: "A Natureza inventou a Morte para ter muita Vida". Assim como no sentido comum não poderia haver vida sem morte, tampouco pode haver conhecimento real do mundo visível sem percepção do invisível. Todo discernimento do visível deve mergulhar repetidamente no invisível para se desenvolver.

Assim, é evidente que somente a ciência oculta torna possível a vida do conhecimento revelado. Em sua forma verdadeira, ela nunca enfraquece a vida, mas a fortalece e sempre renova sua frescor e saúde, quando, deixada a seus próprios recursos, ela se tornou fraca e doente.

Quando um homem mergulha no sono, a conexão entre seus princípios muda, como descrito anteriormente nesta obra. A parte do homem adormecido que jaz em seu leito compreende os corpos físico e etérico, mas não o corpo astral e não o ego.

É porque o corpo etérico permanece ligado ao corpo físico durante o sono que as atividades vitais continuam.

Pois no momento em que o corpo físico é deixado a si mesmo, ele deve necessariamente entrar em decomposição. As coisas que se extinguem no sono são as ideias, a dor, o prazer, a alegria, o pesar, a capacidade de expressar vontade consciente e faculdades semelhantes da existência. Mas o corpo astral é o veículo de todas essas coisas. Que o corpo astral, com sua alegria e tristeza, seu reino de pensamento e vontade, seja aniquilado no sono é uma opinião que não pode ser aceita por um julgamento imparcial; ele existe ainda, mas em outra condição. Para que o ego humano e o corpo astral não apenas sejam dotados de prazer e dor e todas as outras coisas que nomeamos, mas também tenham uma percepção consciente delas, é necessário que o corpo astral esteja unido aos corpos físico e etérico. Este é o caso durante a vida desperta, mas não no sono. O corpo astral retirou-se dos outros corpos. Ele adotou outro tipo de existência do que aquela que possui enquanto unido aos corpos físico e etérico. Agora, é tarefa da ciência oculta estudar esse outro tipo de existência no corpo astral. Durante o sono, o corpo astral desaparece da observação no mundo exterior, e a ciência oculta deve rastreá-lo em sua vida oculta até que ele novamente tome posse de seus corpos físico e etérico ao despertar.


Como em todos os casos em que se trata do conhecimento das coisas e eventos ocultos da vida, a observação clarividente é necessária para a descoberta dos fatos reais do estado de sono em sua verdadeira natureza, mas se aquilo que pode ser descoberto por esse meio foi uma vez tornado claro, é compreensível para o pensamento verdadeiramente imparcial sem demonstração adicional. Pois os eventos no mundo invisível se mostram por seus efeitos no mundo da manifestação. Se o que é revelado pela visão clarividente é uma explicação de eventos visíveis, tal confirmação pela vida é a prova que pode ser legitimamente exigida.

Um Esboço da Ciência Oculta

Mesmo aquele que não utilizar os meios que serão dados posteriormente para a obtenção da visão clarividente pode ter a seguinte experiência: ele pode, em primeiro lugar, tomar as afirmações do clarividente como certas e, em seguida, aplicá-las aos eventos materiais dentro de sua experiência. Ele descobrirá então que a vida, com isso, torna-se clara e compreensível, e quanto mais exatas e minuciosas forem suas observações da vida comum, mais prontamente chegará a essa conclusão.

Embora o corpo astral, durante o sono, não passe por experiências, embora não tenha consciência de prazer, dor e coisas semelhantes, ele não permanece inativo. Ao contrário, é o trabalho ativo que constitui sua função no estado de sono.

Pois é o corpo astral que fortalece e recupera as forças do homem, exauridas durante a vida desperta. Enquanto o corpo astral está unido aos corpos físico e etérico, ele se relaciona com o mundo exterior através desses dois corpos.

Eles lhe transmitem percepções e representações. Através das impressões que recebem do St


Em seu entorno, experimenta prazer e dor. Ora, o corpo físico só pode ser preservado na forma e configuração adequadas ao indivíduo por meio do corpo etérico humano. Mas essa forma humana só pode ser preservada por um corpo etérico que, por sua vez, recebe forças correspondentes do corpo astral. O corpo etérico é o construtor, o arquiteto, do corpo físico. No entanto, ele só pode construir no verdadeiro sentido quando recebe do corpo astral o impulso quanto ao modo como deve construir. Neste último estão contidos os modelos, segundo os quais o corpo etérico dá ao corpo físico sua forma. Durante nossas horas de vigília, esses modelos para o corpo físico não estão presentes no corpo astral, ou, pelo menos, apenas em certa medida. Pois, na vida desperta, a alma substitui esses modelos por suas próprias imagens. Quando uma pessoa dirige seus sentidos para o ambiente, ela cria assim, em suas ideias, quadros que são cópias do mundo ao seu redor. Essas cópias, a princípio, perturbam os protótipos que dão ao corpo etérico o impulso para preservar o corpo físico. Tal perturbação não poderia estar presente se um homem, por virtude de sua própria atividade, pudesse transmitir ao seu corpo astral aqueles quadros que dariam o impulso correto ao corpo etérico. Contudo, essa mesma perturbação desempenha um papel importante na vida humana e pode se expressar porque os modelos para o corpo etérico não atuam, de outra forma, no estado de vigília. Esse fato é revelado pela "fadiga". Agora, durante o sono, nenhuma impressão externa perturba a força do corpo astral. Portanto, nessa condição, ele pode expelir a fadiga. O trabalho do corpo astral durante o sono consiste em remover a fadiga, e ele só pode realizar isso ao deixar os corpos físico e etérico. Durante a vida desperta, o corpo astral faz seu trabalho dentro do corpo físico; durante o sono, ele trabalha sobre este último a partir de fora.

Por exemplo, assim como o corpo físico tem necessidade do mundo exterior, que é de substância semelhante à sua, para o seu suprimento de alimento, algo do mesmo tipo ocorre no caso do corpo astral. Imaginemos um corpo físico humano removido do mundo circundante — ele morreria. Isso mostra que a vida física é uma impossibilidade sem todo o ambiente físico. Na verdade, toda a Terra deve ser exatamente como é para que corpos físicos humanos possam existir sobre ela. Pois, na realidade, todo o corpo humano é apenas uma parte da Terra — na verdade, num sentido mais amplo, parte de todo o universo físico.

Nesse aspecto, ele está relacionado da mesma maneira que, por exemplo, o dedo de uma mão se relaciona com todo o corpo humano. Separe o dedo da mão e ele não pode permanecer um dedo; ele definha. Tal seria também o destino do corpo humano se fosse removido daquele corpo do qual é membro — das condições de vida que a Terra lhe proporciona. Que seja elevado acima da superfície da Terra por um número suficiente de milhas e ele perecerá, assim como o dedo perece quando cortado da mão. Se esse fato é menos aparente no caso do organismo físico do homem do que no caso do seu dedo e do seu corpo, é meramente porque o dedo não pode andar sobre o corpo como o homem é capaz de andar sobre a Terra, e porque, por essa razão, a dependência do primeiro é mais óbvia.

Da mesma maneira que o corpo físico está imerso no mundo físico ao qual pertence, assim também o corpo astral forma uma parte do seu próprio mundo, apenas é arrancado dele na vida de vigília.

Podemos formar uma ideia clara do que acontece recorrendo a uma analogia. Imaginemos um vaso cheio de água. Nenhuma gota é uma coisa separada em si mesma dentro de toda aquela massa de água.

Mas tomemos uma pequena esponja e com ela sugemos uma única gota de toda a massa de água. Algo desse tipo acontece ao corpo astral humano ao despertar. Durante o sono, ele está num mundo semelhante à sua própria natureza. Em certo sentido, ele faz parte dele. Ao despertar, os corpos físico e etérico o sugam; eles o absorvem; eles contêm os órgãos através dos quais ele observa o mundo exterior. Para alcançar essa observação, ele tem de deixar o seu próprio mundo, embora seja somente nesse mundo que ele pode receber os modelos de que necessita para o corpo etérico.



Assim como o alimento é fornecido ao corpo físico a partir de seu entorno, também as imagens do mundo que circunda o corpo astral são apresentadas a ele durante o estado de sono. Ali, de fato, ele vive no universo, além dos corpos físico e etérico, nesse mesmo universo do qual o homem inteiro nasce. A fonte das imagens por meio das quais o homem recebe sua forma está nesse universo; ele está ligado em harmonia com ele, e quando desperta, eleva-se acima da superfície dessa harmonia onipresente para alcançar a percepção externa. No sono, seu corpo astral retorna à harmonia universal. Ele traz tanta força dela para seus corpos ao despertar que pode, por um tempo, dispensar a permanência no reino da harmonia.

O corpo astral retorna durante o sono ao seu lar e, ao despertar, traz de volta à vida forças renovadas e revigoradas.

Aquilo que o corpo astral assim ganha e traz consigo ao despertar encontra sua expressão externa no refrigério proporcionado por um sono profundo e sadio.

Uma exposição mais aprofundada da ciência oculta mostrará que esse lar do corpo astral é mais extenso do que aquele que pertence ao corpo físico no sentido mais restrito do ambiente físico.

Assim, enquanto o homem, como ser físico, é um membro desta Terra, seu corpo astral pertence a mundos nos quais outros corpos celestes, além da nossa Terra, estão incluídos.

Durante o sono, portanto, — isso pode ser esclarecido, como dissemos, apenas por explicações adicionais — ele entra em um mundo ao qual pertencem outras estrelas além da Terra. Em reconhecimento ao fato de que o homem vive durante o sono em um mundo de estrelas, isto é, em um mundo astral, a ciência oculta chama aquele princípio do homem que tem seu verdadeiro lar nesse mundo "astral" e que, toda vez que retorna ao estado de sono, extrai força renovada desse mundo, de "corpo astral".



lei, atraente e fascinante para a especulação humana, e esta é a razão mais profunda pela qual o belo jogo da imaginação, que está na raiz do sentimento artístico, é sempre propenso a ser comparado ao sonhar. Basta recordarmos alguns sonhos característicos para encontrar isso corroborado. Um homem sonha, por exemplo, que está afastando um cão que o ataca. Ele acorda e se encontra no ato de empurrar inconscientemente parte da roupa de cama que estivera deitada sobre uma parte incomum de seu corpo e que, portanto, se tornara opressiva. O que a vida onírica faz, neste caso, a partir de um incidente perceptível aos sentidos? Em primeiro lugar, deixa em completo inconsciente o que os sentidos perceberiam no estado de vigília. Mas retém algo essencial — a saber, o fato de que o homem deseja repelir algo — e, em torno disso, tece uma ocorrência metafórica.

As imagens, como tais, são ecos da vida de vigília. Há algo de arbitrário no modo como são extraídas dela. Todos sentem que, com a mesma causa externa, o sonho poderia conjurar várias imagens diante dele. Mas elas dão expressão simbólica ao sentimento de que o homem tem algo a afastar. O sonho cria símbolos; ele é um simbolista. Experiências internas também podem ser transformadas em tais símbolos oníricos. Um homem sonha que um incêndio está...


Ao lado dele, crepitando, ele vê chamas em seu sonho. Ele acorda sentindo que está coberto demais e que ficou quente demais. A sensação de calor excessivo expressa-se simbolicamente no sonho. Experiências bastante dramáticas podem ser encenadas em um sonho. Por exemplo, alguém sonha que está à beira de um precipício. Vê uma criança correndo em direção a ele. O sonho faz com que ele experimente todos os tormentos do pensamento — se ao menos a criança não for descuidada e cair no abismo. Ele a vê cair e ouve o som surdo do corpo lá embaixo. Ele acorda e percebe que um objeto que estava pendurado na parede do quarto se soltou e fez um som abafado ao cair. Esse evento simples é expresso na vida onírica por um que se desenrola em imagens emocionantes. Por ora, não é de modo algum necessário refletir sobre o porquê, no último exemplo, o momento da queda de um objeto pesado se expressar em uma série de eventos que parecem se estender por um certo período de tempo; é apenas necessário ter em vista que o sonho transforma em imagem aquilo que se apresentaria à percepção sensorial desperta.

Vemos que, no momento em que os sentidos cessam sua atividade, o poder criativo afirma-se no homem. É o mesmo poder criativo que está presente no sono absolutamente sem sonhos e então recupera as forças exauridas do homem. Para que esse sono sem sonhos ocorra, o corpo astral deve ser retirado dos corpos etérico e físico. Durante o estado de sonho, ele está tão separado do corpo físico que não tem mais conexão com os órgãos dos sentidos, mas ainda mantém certa conexão com o corpo etérico. A capacidade de perceber as experiências do corpo astral por meio de imagens deve-se a essa conexão que ele mantém com o corpo etérico. No momento em que essa conexão também cessa, as imagens afundam na obscuridade da inconsciência, e o sono sem sonhos se estabeleceu.


S

O elemento arbitrário e frequentemente sem sentido nas imagens dos sonhos surge do fato de que o corpo astral, devido à sua separação dos órgãos dos sentidos do corpo físico, não consegue relacionar suas imagens aos objetos e eventos corretos do ambiente externo. É especialmente esclarecedor, nesse assunto, examinar um sonho em que o ego está, por assim dizer, dividido. Tomemos, por exemplo, o caso de alguém que sonha que é um estudante e não consegue responder à pergunta feita pelo professor, embora imediatamente depois o próprio professor a responda. O sonhador, por não poder fazer uso de seus órgãos físicos de percepção, não consegue conectar ambas as ocorrências a si mesmo, como o mesmo indivíduo. Portanto, apenas para poder reconhecer a si mesmo como um ego permanente,

60 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

o homem deve primeiro ser equipado com órgãos externos de percepção. Somente quando tivesse adquirido a faculdade de autoconsciência sem o auxílio de tais órgãos é que o ego permanente também se tornaria perceptível para ele fora de seu corpo físico.

A consciência clarividente tem de adquirir essa faculdade, e o método para fazê-lo será tratado em detalhe mais adiante nesta obra.

Mesmo a morte ocorre por nenhuma outra causa senão uma mudança na conexão dos princípios do ser do homem. E o que é visível à observação clarividente com relação à morte também pode ser visto em seus efeitos no mundo manifestado; também neste caso, um julgamento imparcial encontrará os ensinamentos da ciência oculta confirmados pela observação da vida externa. A expressão do invisível no visível é, contudo, menos evidente com relação a esses fatos, e há maior dificuldade em sentir toda a importância daquilo que, nos eventos da vida externa, endossa as afirmações da ciência oculta nesse domínio.

Essas afirmações podem ser consideradas meras imagens fantasiosas, ainda mais facilmente do que muitas outras coisas tratadas nesta obra, se nos fecharmos ao conhecimento de que em todo lugar no visível está contido um prenúncio inconfundível do invisível.

Ao passo que, na aproximação do sono, apenas o corpo astral é liberado de sua conexão com os corpos etérico e físico, que ainda permanecem

SONO E MORTE 61

Unidos um ao outro, na morte ocorre a separação do corpo físico do corpo etérico. O corpo físico é abandonado às suas próprias forças e, portanto, deve desintegrar-se como cadáver. Na morte, o corpo etérico encontra-se em uma condição na qual nunca esteve antes, entre o tempo de seu nascimento e sua morte — com exceção de certas condições anormais a serem tratadas posteriormente. Isto é, ele está agora unido ao corpo astral na ausência do corpo físico, pois os corpos etérico e astral não se separam imediatamente após a morte; eles são mantidos juntos por um tempo pela ação de uma força, cuja presença pode ser facilmente compreendida, pois se essa força não estivesse presente, o corpo etérico não poderia desprender-se do corpo físico.

Ele permaneceria ligado a este último, como se mostra no sono, quando o corpo astral não é capaz de romper esses dois princípios do ser humano.

Essa força entra em ação na morte. Ela liberta o etérico do corpo físico, de modo que o primeiro permanece unido ao corpo astral.

A observação clarividente mostra que essa conexão varia com diferentes pessoas após a morte.

O tempo de sua duração é medido em dias.

Por ora, esse período de tempo é mencionado apenas para informação. Subsequentemente, o corpo astral também é libertado do corpo etérico e segue seu caminho sozinho. Durante a união dos dois corpos, o indivíduo encontra-se em um estado que lhe permite estar ciente das experiências de seu corpo astral. Enquanto o corpo físico está presente, o trabalho de reforçar os órgãos desgastados tem de ser iniciado de fora; diretamente o corpo astral é libertado dele, uma vez que o corpo físico é separado, esse trabalho cessa. No entanto, a força que era gasta dessa maneira, quando o homem dormia, continua após a morte e pode agora ser aplicada a algum outro fim. Ela é agora usada para tornar perceptíveis as experiências do próprio corpo astral. Durante sua conexão com seu corpo físico, o mundo exterior entra na consciência do homem em imagens; depois que o corpo foi posto de lado, aquilo que é experimentado pelo corpo astral, quando não está mais conectado pelos órgãos dos sentidos a este mundo físico exterior, torna-se perceptível. A princípio, ele não tem novas experiências. Sua conexão com o corpo etérico impede que ele experimente qualquer coisa nova. O que, no entanto, ele possui é a memória de sua vida passada.


O corpo etérico ainda presente faz com que essa vida passada apareça como um panorama vívido e abrangente.

Essa é a primeira experiência do homem após a morte.

Ele vê sua vida, do nascimento à morte, desenrolar-se diante de si em uma série de imagens. Enquanto essa vida dura, a memória está presente apenas no estado de vigília, quando o homem está unido ao seu corpo físico, e está presente apenas na medida permitida por esse corpo, mas nada se perde para a alma que tenha causado uma impressão nela durante a vida. Se o corpo físico fosse um instrumento perfeito para esse fim, seria possível, a qualquer momento durante a vida, evocar todo o passado diante dos olhos da alma. Na morte, não há mais obstáculo para isso. Enquanto o corpo etérico permanece, existe um certo grau de perfeição da memória. Mas isso desaparece na medida em que o corpo etérico perde a forma que possuía enquanto unido ao corpo físico, e que se assemelha a esse corpo.


Essa é exatamente a razão pela qual o corpo astral se separa, após um tempo, do corpo etérico. Ele só pode permanecer unido a este último enquanto a forma do corpo etérico corresponder à do corpo físico.

Durante o período de vida entre o nascimento e a morte, a separação do corpo etérico ocorre apenas em casos excepcionais, e por não mais que um breve espaço de tempo. Se, por exemplo, um homem expõe um de seus membros à pressão, parte de seu corpo etérico pode se separar do físico. Dizemos, nessa ocasião, que o membro "adormeceu", e a sensação peculiar que sentimos resulta da separação do corpo etérico.

(É claro que uma maneira materialista de explicação pode, aqui novamente, negar o invisível por trás do visível e dizer que tudo isso surge meramente da perturbação física causada pela pressão.) A visão clarividente pode ver, em tal caso, como a parte correspondente do corpo etérico é extrudada do membro físico. Agora, se um homem experimenta um choque incomum, ou algo semelhante, tal separação do corpo etérico de uma grande parte


O corpo físico pode resultar, por um curto período, em tal estado. Esse é o caso quando um homem, por alguma razão ou outra, é subitamente colocado face a face com a morte — por exemplo, ao se afogar, ou ameaçado por um acidente fatal durante o montanhismo. O que é relatado por pessoas que tiveram tais experiências chega, de fato, muito perto da verdade, e pode ser ratificado por observação clarividente.

Eles declaram que em tais momentos suas vidas inteiras passam diante de suas mentes como se fossem uma enorme imagem de memória.

Dos muitos exemplos que poderiam ser aqui aduzidos, farei alusão a apenas um, porque se origina de um homem cujo modo de pensar tudo o que aqui se diz sobre tais coisas deve parecer pura fantasia. Moriz Benedict, o distinto antropólogo criminal e um eminente investigador em muitas outras áreas das ciências naturais, relata em suas Reminiscências uma experiência própria — a saber, que ele uma vez, quando estava prestes a se afogar em um banho, viu sua vida inteira passar diante de sua memória como se fosse uma única imagem. Se outras pessoas descrevem de maneira diferente as imagens vistas por elas sob circunstâncias semelhantes, e até de tal forma que parecem ter pouco a ver com os eventos de sua vida passada, isso não contradiz o que foi dito, pois as imagens que surgem na condição bastante anormal de separação do corpo físico são às vezes, à primeira vista, ininteligíveis em sua relação com a vida. Observação correta, no entanto, sempre reconheceria essa relação.

Na verdade, é sempre muito proveitoso para qualquer um que esteja iniciando o estudo da ciência oculta familiarizar-se com as afirmações daqueles que consideram essa ciência meramente fantasiosa. Tais afirmações não podem ser tão facilmente rotuladas como devidas à parcialidade por parte do observador. Que os cientistas aprendam o máximo possível daqueles que consideram seus esforços como absurdo. Eles não precisam se perturbar se, a esse respeito, seu amor não for correspondido. A observação oculta certamente não requer tais coisas para a verificação de seus resultados, nem são essas alusões pretendidas como provas, mas como ilustrações.

SONO E "MORTE"

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Tampouco é uma objeção se, por exemplo, alguém que esteve prestes a se afogar não experimentou o que foi descrito, pois deve-se ter em mente que isso só pode acontecer quando o corpo etérico está realmente separado do corpo físico — e, além disso, quando o primeiro ainda está unido ao corpo astral. Se, devido ao susto, ocorre também um afrouxamento dos corpos etérico e astral, a experiência não se manifesta, porque então sobrevém a inconsciência completa, como no sono sem sonhos.

Imediatamente após a morte, os acontecimentos do passado aparecem como que comprimidos pela memória em uma imagem. Após sua separação do corpo etérico, o corpo astral prossegue suas peregrinações sozinho. Não é difícil perceber que tudo continua a existir que, por meio de sua atividade, o corpo astral tornou seu durante sua permanência no corpo físico. O eu elaborou, até certo ponto, o Eu Espiritual, o Espírito de Vida e o Espírito Humano. Na medida em que estes são desenvolvidos, eles não devem sua existência aos órgãos presentes nos diferentes corpos, mas ao eu, e é precisamente o eu que não necessita de órgãos externos para a percepção; tampouco requer tais órgãos para reter a posse do que tornou uno consigo mesmo.

Poderia-se objetar: “Por que então não há percepção, durante o sono, do Eu Espiritual, do Espírito de Vida e do Espírito Humano desenvolvidos?” Por esta razão — porque o eu está acorrentado, entre o nascimento e a morte, ao corpo físico. Mesmo que, durante o sono, esteja fora do corpo físico com o corpo astral, ele permanece, no entanto, estreitamente ligado ao corpo físico, pois a atividade do corpo astral é dirigida para o corpo físico. Por isso, o eu é relegado ao mundo exterior dos sentidos para suas observações, e não pode receber revelações espirituais em sua forma direta.

Somente na morte é que essas revelações ficam ao alcance do eu, porque, por meio da morte, o eu é libertado de sua ligação com os corpos físico e etérico. Outro mundo pode fulgurar na consciência no momento em que ela é retirada do físico.



mundo que, durante a vida, monopoliza sua atividade. Agora, há razões pelas quais, mesmo nessa conjuntura, toda conexão com o mundo físico externo dos sentidos não cessa para o homem. Isto é, certos desejos permanecem que sustentam a conexão. Há desejos que o homem cria justamente porque está consciente de seu ego como o quarto princípio de seu ser. Esses desejos e anseios, surgindo da existência de seus três corpos inferiores, só podem operar no mundo externo e cessam de operar quando esses corpos são postos de lado. A fome é causada pelo corpo externo; assim que esse corpo externo não está mais conectado ao ego, a fome cessa. Agora, se o ego não tivesse outros desejos além daqueles que surgem de sua própria natureza espiritual, poderia, na morte, extrair plena satisfação do mundo espiritual para o qual é transplantado. Mas a vida lhe deu também outros desejos. Ela acendeu nele um anseio por prazeres que só podem ser desfrutados por meio de órgãos físicos, embora esses prazeres em si não se originem na natureza desses órgãos. Não são apenas os três corpos que exigem gratificação do mundo físico, mas o próprio ego encontra prazeres nesse mundo, para cuja fruição não existem quaisquer meios no mundo espiritual.

Durante a vida, o ego tem dois tipos de desejos: aqueles que surgem dos corpos e devem, portanto, ser gratificados dentro dos corpos, mas que também devem chegar ao fim com sua desintegração; e aqueles que surgem da natureza espiritual do ego. Enquanto o ego vive nos corpos, esses anseios são satisfeitos por meio dos órgãos corporais. Pois nas manifestações dos órgãos corporais o elemento espiritual oculto está em ação, e os sentidos recebem algo espiritual também, em tudo de que têm conhecimento. Esse elemento espiritual também está presente após a morte, embora de forma diferente. Tudo o que é espiritual que o ego almeja enquanto está no mundo dos sentidos, ele ainda possui quando os sentidos já não estão mais lá.


Agora, se um terceiro tipo de desejo não fosse acrescentado a esses dois, a morte significaria apenas uma transição de desejos que podem ser satisfeitos através dos sentidos para aqueles que são cumpridos pela revelação do mundo espiritual.

O terceiro tipo de desejo é aquele que é criado pelo ego durante a vida no mundo dos sentidos, porque encontra prazer nesse mundo, mesmo quando nenhum elemento espiritual se revela nele. Os mais humildes prazeres podem ser manifestações do espírito. A satisfação proporcionada a uma criatura faminta ao se alimentar é uma manifestação do espírito, pois ao ingerir o alimento, algo é então realizado sem o qual, em certo sentido, a natureza espiritual não poderia se desenvolver. Mas o ego pode ir além do prazer, que neste caso é o resultado da necessidade.

Pode até ansiar pela comida deliciosa, totalmente à parte do serviço prestado ao espírito pela ingestão do alimento.

O mesmo ocorre com outras coisas no mundo dos sentidos. Desejos são criados dessa maneira, que nunca teriam aparecido no mundo dos sentidos se o ego humano não tivesse sido incorporado nele. Tais desejos também não surgem da natureza espiritual do ego. O ego deve ter prazeres dos sentidos enquanto vive no corpo, ainda que seja precisamente porque sua própria natureza é espiritual.

Pois o espírito se manifesta nas coisas materiais, e o ego não desfruta de nada menos que o espírito quando se entrega àquele elemento no mundo dos sentidos que é irradiado pela luz do espírito. Além disso, continuará a desfrutar dessa luz mesmo quando os sentidos não forem mais o meio através do qual os raios espirituais passam. Mas não há realização possível no mundo espiritual para desejos nos quais o espírito não está vivo, mesmo no mundo dos sentidos.

Quando a morte ocorre, a possibilidade de gratificar desejos dessa natureza é cortada. O prazer em boas coisas para comer só pode ser induzido pela presença dos órgãos físicos necessários para seu consumo — o paladar, a língua e assim por diante; mas quando o homem deixou de lado seu corpo físico, ele não possui mais esses órgãos, e se o ego ainda anseia por esse tipo de prazer, o anseio deve permanecer insatisfeito.

Assim, UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA


Enquanto o prazer é suficiente para a necessidade espiritual, ele é causado apenas pela presença dos órgãos físicos; mas, caso aconteça que o ego tenha criado o desejo sem servir ao espírito ao fazê-lo, ele o retém após a morte sob a forma de uma ânsia que anseia em vão por gratificação. Podemos formar uma ideia do que o indivíduo então experimenta apenas imaginando alguém que sofre de sede ardente em uma região onde, a perder de vista, não há água a ser encontrada. Esta é a situação do ego após a morte, enquanto retém desejos não satisfeitos pelos prazeres do mundo exterior e não possui órgãos por meio dos quais possa satisfazê-los. Naturalmente, a sede ardente, servindo como comparação para a condição do ego após a morte, deve ser pensada como enormemente aumentada, e deve ser imaginada como se estendendo a todos os desejos ainda existentes, para os quais falta toda possibilidade de gratificação.

A condição seguinte do ego consiste em libertar-se desse vínculo de atração pelo mundo exterior. Com relação a este mundo, ele deve alcançar purificação e libertação.

Ele deve ser purificado de todos os anseios que criou enquanto estava no corpo e que não possuem direitos nativos no mundo espiritual.

Assim como um objeto é apanhado e queimado pelo fogo, assim o mundo do desejo, descrito acima, é desfeito e destruído após a morte.

A vista então se abre para aquele mundo que a ciência oculta chama de "fogo consumidor" do espírito. Esse fogo se apodera de um desejo que é dos sentidos, mas no qual estes não são uma expressão do espírito. Revelações desse tipo, que a ciência oculta é obrigada a fazer com relação a tais eventos, podem parecer desesperadoras e terríveis. Pode parecer algo temível que uma esperança, para cuja realização são necessários órgãos dos sentidos, seja após a morte transformada em desespero, e que um desejo que só pode ser satisfeito pelo mundo físico seja convertido em privação torturante.

Contudo, só podemos sustentar tal opinião enquanto não percebermos que os anseios e desejos apanhados pelo "fogo consumidor" após a morte não representam, em um sentido mais elevado, forças benéficas à vida, mas sim destrutivas dela.


Por meio dessas forças, o ego liga-se ao mundo sensorial mais estreitamente do que o necessário, a fim de extrair dele toda a experiência de que necessita. Pois o mundo sensorial é uma manifestação do mundo oculto e espiritual que lhe está subjacente, e o ego jamais poderia alcançar a felicidade espiritual através dos sentidos corporais, que são a única forma em que o espiritual pode se manifestar, a menos que utilizasse os sentidos para buscar o elemento espiritual na experiência sensorial. No entanto, o ego perde de vista a verdadeira realidade espiritual no mundo físico a tal ponto que experimenta desejos sensuais independentemente das necessidades do espírito.

Se o prazer dos sentidos, como expressão do espírito, serve para elevar e desenvolver o ego, qualquer prazer que não seja uma expressão do espírito o deforma e o empobrece. Não importa se esse tipo de desejo encontra os meios de sua gratificação no mundo exterior; seu efeito deformador sobre o ego não é de modo algum diminuído, mas é somente após a morte que seus efeitos desastrosos se tornam aparentes.

Por essa razão, um homem pode, ao gratificar tais desejos, criar, durante sua vida, desejos novos e semelhantes, totalmente inconsciente de que está envolvendo a si mesmo em um "fogo consumidor". O que se torna visível para ele após a morte é apenas o que já o cercava durante sua vida, e, ao tornar-se visível, apela de imediato em seu efeito salutar e benéfico. Um ser humano que ama outro certamente não é atraído meramente pela parte dele que é perceptível aos sentidos físicos — a única parte que é excluída da observação após a morte — mas, após a morte, aquela parte do ente querido para cuja percepção os órgãos físicos eram apenas o meio é exatamente a parte que então se torna visível. A única coisa, de fato, que impediria o homem de contemplar seu amigo claramente é a presença de desejos que só podem ser satisfeitos por meio de órgãos físicos. A menos que esses desejos sejam extintos, ele não pode ter percepção consciente de seu amigo após a morte.

Quando visto sob essa luz, o caráter terrível e desesperador que as experiências pós-morte, segundo as descrições dadas pela ciência oculta, poderiam assumir para o homem, transforma-se em algo inteiramente satisfatório e consolador.

Agora, as primeiras experiências após a morte diferem inteiramente, em ainda outro aspecto, daquelas de nossa vida presente. Durante o tempo de purificação, o homem vive, por assim dizer, para trás. Ele revive todo o período de sua vida desde o nascimento, começando pelos eventos imediatamente anteriores à sua morte e, invertendo a ordem de suas experiências, passa por elas novamente até alcançar a infância. Nesse processo, ele vê com olhos espiritualmente iluminados todas aquelas coisas que não foram inspiradas pela natureza espiritual do ego, com a diferença de que agora ele experimenta essas coisas em posição invertida.

Por exemplo, um homem que morreu em seu sexagésimo ano e que, aos quarenta anos, em um acesso de raiva, causou a alguém dor física ou mental, passará por essa experiência novamente quando, na jornada de retorno da existência após a morte, alcançar aquele ponto em seu quadragésimo ano; mas ele não experimenta agora a satisfação que seu ataque lhe havia proporcionado durante a vida; em vez disso, ele experimenta a dor que infligiu ao outro homem. Pode-se ver imediatamente, no entanto, que qualquer dor que ele sinta na experiência após a morte é causada por um desejo do ego que surge apenas do mundo físico externo.


Ou seja, o ego não fere apenas outro por meio da indulgência de tal desejo, mas também fere a si mesmo, embora a lesão a si mesmo não seja aparente durante a vida.

Após a morte, porém, todo o mundo nocivo dos desejos torna-se visível ao ego, que então se sente atraído por todo ser ou objeto que tenha acendido o desejo, a fim de que este possa ser destruído no "fogo consumidor" pelos mesmos meios que o criaram. Quando o homem, em sua jornada de retorno, alcança o momento de seu nascimento, somente então todos esses desejos foram purgados nas chamas purificadoras, e daí em diante nada resta para impedi-lo de se dedicar inteiramente ao mundo espiritual. Ele entra em uma nova fase de existência. Da mesma forma que ele deixou de lado, na morte, seu corpo físico e, logo depois, seu corpo etérico, assim também aquela parte de seu corpo astral que responde apenas ao mundo físico externo agora se desintegra.

A ciência oculta, portanto, reconhece três cadáveres: o físico, o etérico e o astral. O período em que o último é descartado pelo homem é marcado pelo tempo de purificação, que corresponde a cerca de um terço do tempo decorrido entre o nascimento e a morte. A razão para isso só pode ser explicada mais adiante, quando o curso da vida humana for examinado do ponto de vista da ciência oculta. Para a observação clarividente, cadáveres astrais, descartados por seres humanos que passam do estado de purificação para uma existência superior, são constantemente visíveis no mundo que cerca o homem, exatamente da mesma forma que cadáveres físicos em lugares habitados por homens são aparentes à observação física.

Após a purificação, um estado de consciência inteiramente novo começa para o ego. Enquanto, antes da morte, imagens externas tinham de ser trazidas diante dele, para que a luz da consciência incidisse sobre elas, agora um mundo flui, por assim dizer, de dentro para fora e penetra na consciência. O ego vive nesse mundo também entre o nascimento e a morte; apenas, nesse período, esse mundo está revestido das manifestações dos sentidos. É somente quando o ego, liberto de todos os laços dos sentidos, se volta para dentro a fim de contemplar o seu próprio "santo dos santos" que sua verdadeira natureza íntima, até então obscurecida pelos sentidos, lhe é revelada. Da mesma forma que o ego é reconhecido interiormente antes da morte, assim, após a morte e a purificação, a vida espiritual lhe é revelada interiormente em toda a sua plenitude. Essa revelação ocorre realmente imediatamente após o corpo etérico ser deixado de lado, mas é obscurecida pela nuvem escura de desejos voltados para o mundo exterior. É como se um mundo de bem-aventurança espiritual fosse invadido por fantasmas demoníacos negros, causados por aqueles desejos que estão sendo destruídos pelo "fogo consumidor". Na verdade, esses desejos não são meros fantasmas, mas entidades reais, que se tornam aparentes tão logo o ego é privado dos órgãos físicos e, assim, é capaz de discernir aquelas coisas que são de natureza espiritual. Essas entidades têm a aparência de caricaturas distorcidas dos objetos com os quais o indivíduo anteriormente se familiarizara por meio de seus sentidos.

Na literatura teosófica corrente, a condição do ego desde a morte até o fim da purificação é chamada de "Kamaloca".

A observação clarividente relata que este lugar de fogo purgador é povoado por seres cuja aparência pode bem parecer horrível e dolorosa à visão espiritual, cujo prazer parece consistir na destruição, e cujas paixões os impelem a praticar o mal de tal descrição que o mal do mundo físico parece insignificante em comparação. Quaisquer desejos do tipo descrito acima que sejam trazidos por homem a esse mundo são considerados por esses seres como alimento, por meio do qual seus poderes são continuamente fortalecidos e revigorados.

O quadro assim esboçado de um mundo imperceptível aos sentidos pode parecer menos incrível se olharmos com um olhar imparcial para parte do mundo animal. O que é um lobo feroz e devorador, do ponto de vista espiritual? O que ele nos revela através daquilo que nossos sentidos percebem? Nada mais do que uma alma que vive no desejo e age pelo desejo.

A forma externa do lobo pode ser chamada de uma encarnação desses desejos; e se o homem não tivesse órgãos com os quais perceber essa forma, se seus desejos aparecessem invisivelmente em seus efeitos — se, portanto, uma força invisível ao olho estivesse à espreita, e pudesse ser a causa de tudo o que acontecesse através do lobo visível — ele ainda seria forçado a reconhecer a existência de uma criatura correspondente a ela. Ora, os seres da região do fogo purificador não são visíveis ao olho físico, mas apenas à visão clarividente, mas seus efeitos são claramente aparentes. Eles provocam a destruição do ego quando este lhes dá alimento.


Esses efeitos são claramente visíveis se o que começou como um prazer leva ao excesso e à devassidão. Pois mesmo o que é perceptível aos sentidos atrairia o ego apenas na medida em que o prazer tivesse sua raiz na própria natureza do ego.

O animal é impelido pelo desejo por aquilo no mundo exterior que seus três corpos almejam.

O homem possui faculdades mais elevadas, porque aos três princípios de sua natureza corporal se acrescenta o quarto, o ego. Mas, se o ego busca uma gratificação que tende não à manutenção e ao desenvolvimento de sua natureza, mas à sua destruição, então tal anseio não pode ser efeito de seus três corpos, nem de sua própria natureza, mas só pode ser causado por seres que, em sua forma verdadeira, estão ocultos dos sentidos, mas que podem aproximar-se furtivamente dessa natureza superior do ego e excitar nele desejos que, embora estejam separados dos sentidos, só podem ser satisfeitos por meio dos órgãos dos sentidos.


Pois existem seres que se alimentam de paixões e desejos de uma espécie pior do que aqueles de uma natureza animal, porque não se exaurem em objetos dos sentidos, mas se apoderam do elemento espiritual e o arrastam para um nível sensual. Portanto, as formas de tais seres são mais hediondas, mais horríveis, à visão espiritual, do que as formas dos animais mais ferozes, nos quais, afinal, apenas paixões enraizadas nos sentidos estão encarnadas. E as forças destrutivas desses seres superam imensuravelmente qualquer fúria destrutiva existente no mundo animal, tal como percebida pelos sentidos. A ciência oculta deve, assim, ampliar a visão do homem para incluir um mundo de seres que, sob certo aspecto, estão abaixo do mundo animal visivelmente destrutivo.

Quando o homem, após a morte, atravessou o mundo de purificação, ele se encontra em um mundo cujo conteúdo é espiritual, e que também cria nele anseios que só podem ser satisfeitos por coisas espirituais. Mas, mesmo agora, o homem distingue entre aquilo que propriamente pertence ao seu ego e aquilo que forma o ambiente desse ego — pode-se dizer, seu mundo exterior espiritual. Apenas aquilo de que ele se torna consciente nesse ambiente é que se derrama sobre ele da mesma maneira que a consciência de seu próprio ego se derramou sobre ele durante sua permanência no corpo.

Considerando que o ambiente do homem, na vida entre o nascimento e a morte, fala-lhe por meio de seu corpo órgãos, depois que todos os corpos são postos de lado, a linguagem de seu novo ambiente penetra diretamente no santuário mais íntimo do ego. Todo o ambiente do homem agora está preenchido por seres de natureza semelhante ao seu ego, pois apenas um ego tem acesso a um ego. Assim como minerais, plantas e animais cercam o homem no mundo dos sentidos e o compõem, assim, após a morte, ele é cercado por um mundo composto de seres de natureza espiritual. No entanto, ele leva consigo para este mundo algo que não faz parte de seu ambiente ali; é o que o ego experimentou no mundo dos sentidos. Primeiramente, a soma dessas experiências apareceu, como um quadro abrangente de memória, imediatamente após a morte, enquanto o corpo etérico ainda estava unido ao ego. O corpo etérico em si é então, de fato, posto de lado, mas algo do quadro de memória permanece com o ego como uma posse eterna. Assim como se um extrato ou essência fosse feito de todos os eventos e experiências que um homem encontra entre o nascimento e a morte, assim poderíamos descrever aquilo que é deixado para trás. É o produto espiritual da vida, seu fruto. Este produto é de natureza espiritual. Contém tudo o que é espiritual que se revela através dos sentidos, mas este tesouro espiritual não poderia ter sido reunido senão pela vida no mundo dos sentidos.


Após a morte, o ego percebe que este fruto espiritual do mundo dos sentidos é seu próprio, seu interior

8o ESBOÇO DE UMA CIÊNCIA OCULTA

mundo, com o qual ele adentra o mundo composto de seres que se revelam apenas como o próprio ego pode se revelar nos recônditos mais íntimos do seu ser. Assim como a semente de uma planta, que é a essência de toda a planta, só cresce quando enterrada em outro mundo, a terra, assim também aquilo que o ego traz do mundo dos sentidos gradualmente se desdobra como uma semente sob a influência do ambiente espiritual no qual foi plantada. A ciência oculta pode, naturalmente, apenas figurar em imagens o que acontece neste "mundo espiritual"; no entanto, essas imagens podem ser tais que se apresentam à visão do clarividente como realidade absoluta, quando ele acompanha os acontecimentos invisíveis, correspondentes àqueles que são visíveis ao olho físico. O que quer que possa ser descrito desse mundo pode ser esclarecido por comparações com o mundo externo, pois, embora seja de natureza puramente espiritual, ele se assemelha ao mundo físico em certos aspectos. Como, por exemplo, uma cor aparece neste último mundo quando este ou aquele objeto atinge o olho, assim também uma cor se apresenta ao ego no mundo espiritual quando outro ser o influencia. Mas, nesse caso, a cor é produzida da mesma maneira, como apenas a percepção do ego pode ser afetada durante a vida entre o nascimento e a morte.

Não é como se a luz externa incidisse sobre o homem, mas como se outro ser afetasse diretamente o ego, fazendo 81


com que este último figurasse essa influência em uma forma-cor.

Assim, todos os seres no ambiente espiritual do ego encontram expressão em um mundo de raios coloridos. Como sua origem é de natureza diferente, é evidente que essas cores do mundo espiritual também têm um caráter um tanto diferente das cores físicas. Algo semelhante é verdadeiro para outras impressões recebidas pelo homem do mundo dos sentidos. Mas são os sons do mundo espiritual que mais se assemelham às impressões do mundo sensorial, e quanto mais à vontade um homem se torna no mundo espiritual, mais ele o percebe como uma vida de movimento autodeterminado, que pode ser comparado aos sons, e à harmonia dos sons, do mundo físico. Apenas ele não sente os tons como algo que se aproxima de um órgão vindo de fora, mas como uma força que flui para o mundo exterior através de seu ego. Ele sente o som assim como no mundo sensorial sente sua própria fala ou canto, apenas que no mundo espiritual ele sabe que esses sons que fluem dele são ao mesmo tempo as manifestações de outros seres, que se derramam no mundo através dele.

Uma manifestação ainda mais elevada ocorre na terra espiritual quando o som se torna a "palavra espiritual". Então, através do ego, não flui apenas a vida pulsante de outro ser espiritual, mas tal ser comunica sua própria natureza interior ao ego, e então, quando a palavra espiritual flui através do ego, dois seres vivem um no outro, sem aquele elemento separador que toda companhia no mundo sensorial deve carregar consigo. E esta é realmente a natureza da comunhão do ego com outros seres espirituais após a morte.

Há três regiões no mundo espiritual, que podem ser comparadas às três divisões do mundo físico dos sentidos. A primeira região é, em certo respeito, a "terra sólida" do mundo espiritual, a segunda a "esfera do oceano e do rio", e a terceira a "região atmosférica". Aquilo que assume forma física na terra, de modo a ser percebido por órgãos físicos, é, de acordo com sua natureza espiritual, visto na primeira região do mundo espiritual.

Lá, por exemplo, pode-se ver a força que molda a forma de um cristal. Apenas o que então é revelado é o oposto daquilo que aparece no mundo dos sentidos. Nesse mundo, o espaço que é preenchido por uma massa de rocha aparece à visão espiritual como uma espécie de espaço oco, mas ao redor desse oco vê-se a força que molda a forma da rocha. A cor da rocha no mundo dos sentidos aparece no mundo espiritual como sua cor complementar; assim, uma pedra vermelha é verde quando vista do mundo espiritual, uma pedra verde é vermelha, e assim por diante. Outras qualidades também aparecem em seus opostos.

Assim como a pedra, as massas de terra e materiais semelhantes compõem a terra sólida — a região continental do mundo dos sentidos —, assim também as estruturas descritas acima compõem a terra sólida do mundo espiritual.

Tudo o que é vida no mundo dos sentidos pertence à região oceânica do mundo espiritual. Ao olho físico, a vida aparece em seus efeitos nas plantas, animais e homens. À visão espiritual, a vida é uma substância fluida, como oceanos e rios, difundida através do mundo espiritual. Uma comparação ainda melhor é com a circulação do sangue no corpo, pois enquanto mares e rios são vistos irregularmente distribuídos no mundo físico, uma certa regularidade na distribuição da vida fluida reina no mundo espiritual, como na circulação do sangue. Essa “vida fluida” é simultaneamente ouvida como som espiritual.

A terceira região do mundo espiritual é sua “atmosfera”. O que é conhecido no mundo físico como “sentimento” também está presente ali, permeando tudo como o ar na terra. Devemos imaginar um mar agitado de sentimentos. Dor e tristeza, alegria e êxtase, fluem através dessa região, como ventos e tempestades na atmosfera do mundo físico. Imagine uma batalha travada na terra. Confrontam-se ali não meramente formas humanas como vistas pelo olho físico, mas sentimentos opostos a sentimentos, paixões a paixões; a dor preenche o campo de batalha tanto quanto as formas dos homens.

Tudo o que está fervilhando ali da paixão, da dor e da alegria da vitória não é apenas perceptível em seus efeitos, como revelados aos sentidos físicos; pode ser visto com os sentidos espirituais como um processo atmosférico no mundo espiritual. Tal evento no mundo espiritual é como uma tempestade no mundo físico, e a percepção desses eventos pode ser comparada à audição de palavras no mundo físico. Por essa razão, diz-se que, assim como o ar envolve e permeia os seres terrestres, assim também "palavras espirituais entrelaçadas" pervadem os seres e eventos do mundo espiritual.


E ainda outras observações são possíveis deste mundo espiritual.

O que pode ser comparado à luz e ao calor no mundo físico também ali existe. Aquilo que permeia tudo no mundo espiritual, assim como as coisas e os seres terrestres são permeados pelo calor, é o próprio mundo do pensamento. Lá, porém, os pensamentos devem ser considerados como seres vivos e independentes.

O que o homem compreende no mundo manifestado como pensamento é apenas uma sombra do que vive como ser-pensamento no mundo espiritual.

Imagine o pensamento, tal como existe agora no homem, elevado para fora dele e como um ser ativo e enérgico, dotado de uma vida interior própria, e você terá uma ilustração débil daquilo que preenche a quarta região do mundo espiritual.

No mundo físico, entre o nascimento e a morte, o que o homem compreende como pensamento é apenas a manifestação do mundo do pensamento, tal como ele pode 85


moldar-se por meio dos instrumentos proporcionados pelos corpos. Todos os pensamentos acalentados pelo homem que trazem consigo um enriquecimento do mundo físico têm sua origem nesta região.

Por tais pensamentos não se entendem apenas as ideias de grandes inventores e homens de gênio, mas também aquelas ideias encontradas em cada indivíduo, que ele não deve somente ao mundo externo, mas através das quais ele, por assim dizer, transforma esse mundo.

No que diz respeito a sentimentos e paixões, cuja causa reside no mundo externo, esses sentimentos são perceptíveis na terceira região do mundo espiritual; mas tudo o que vive na alma de um homem de modo a torná-lo um criador — influenciando, transformando e fertilizando seu ambiente —, em sua forma original e intrínseca, manifesta-se na quarta divisão do mundo espiritual.

Aquilo que existe na quinta região pode ser comparado à luz física. Em sua forma arquetípica, é sabedoria em manifestação. Seres que difundem sabedoria por todo o seu entorno, assim como o sol derrama luz sobre os seres físicos, pertencem a este reino.

Tudo o que é iluminado por sua sabedoria se apresenta em seu verdadeiro significado e importância para o mundo espiritual, assim como a cor de um objeto físico é vista quando a luz incide sobre ele. Há ainda regiões mais elevadas do mundo espiritual, que serão descritas mais adiante nesta obra.

Neste mundo o ego é mergulhado após a morte, juntamente com os resultados que carrega consigo da vida física. E esses resultados ainda estão unidos àquela parte do corpo astral que não é descartada ao final do período de purificação. Na verdade, apenas aquela parte se desfaz que, em seus desejos e anseios, voltou-se após a morte para a vida física. O mergulho do ego no mundo espiritual, com o que adquiriu no mundo físico, pode ser comparado ao plantio de um grão de semente no solo em que pode amadurecer. Assim como o grão de semente extrai substâncias e forças de seu entorno para que possa se desenvolver em uma nova planta, a condição do ego, quando implantado no mundo espiritual, é uma de desenvolvimento e crescimento.


Há oculto naquilo que é percebido por um órgão, a força pela qual esse mesmo órgão foi formado. O olho percebe a luz, mas sem a luz não haveria olho. Criaturas que passam suas vidas na escuridão não desenvolvem órgãos de visão. Assim, todo o corpo físico do homem é criado a partir das forças ocultas daquilo de que ele se torna consciente através de seus órgãos corporais.

O corpo físico é construído pelas forças do mundo físico, o corpo etérico pelas do mundo da vida, e o corpo astral é formado a partir do mundo astral.

Agora, quando o ego é transferido para o mundo espiritual, ele é recebido justamente por aquelas forças que permanecem ocultas à percepção física.


O que se apresenta à visão do homem na primeira região do mundo espiritual são os seres espirituais que sempre o rodeiam e que construíram o seu corpo físico. Assim, no mundo físico, o homem nada percebe senão as manifestações daquelas forças espirituais que formaram o seu próprio corpo físico. Após a morte, ele se encontra no próprio meio dessas forças modeladoras, que, antes ocultas, agora lhe aparecem em suas formas verdadeiras. Da mesma maneira, na segunda região, ele está no meio das forças pelas quais o seu corpo etérico foi organizado, e na terceira região afluem sobre ele as potências a partir das quais o seu corpo astral foi formado. As regiões superiores do mundo espiritual também dirigem para ele aquelas forças a partir das quais ele foi constituído para a vida entre o nascimento e a morte.

Esses habitantes do mundo espiritual trabalham atualmente em cooperação com aquilo que o homem trouxe consigo como produto de sua última vida, que agora se torna um germe, e por meio dessa cooperação o homem é primeiramente reconstruído como ser espiritual. Os corpos físico e etérico ainda estão presentes no sono; o corpo astral e o ego estão, é verdade, fora deles, mas ainda conectados a eles. Quaisquer influências que o corpo astral e o ego recebam, em tal estado, do mundo espiritual, podem servir apenas para recuperar as forças exauridas durante o estado de vigília.


Mas quando os corpos físico e etérico foram postos de lado, e também, após o tempo de purificação, aquelas partes do corpo astral ainda presas por seus desejos ao mundo físico, então tudo o que afluir sobre o ego a partir do mundo espiritual não é apenas uma força reformadora, mas reorganizadora. Após um certo período, a ser tratado em capítulos posteriores, o ego reúne ao seu redor um corpo astral que novamente será capaz de viver em tal corpo etérico e físico como o homem possui entre o nascimento e a morte. O homem pode mais uma vez passar pelo nascimento e renovar sua existência terrena, na qual, no entanto, serão incorporados os resultados de sua vida anterior. Até a reconstrução de seu corpo astral, o homem é testemunha de sua reconstrução.

Como os poderes do mundo espiritual não se manifestam a ele através de órgãos externos, mas de dentro para fora, como o seu próprio ego na autoconsciência, ele é capaz de observar essa manifestação enquanto sua atenção não estiver voltada para um mundo externo de percepção.

Mas, a partir do momento em que o corpo astral é reconstituído, sua atenção se volta para fora; o corpo astral volta a ansiar por um corpo etérico e físico externos. Ele se afasta, assim, das revelações interiores.

Por essa razão, existe agora um estado intermediário, durante o qual o homem está imerso na inconsciência.

Pois a consciência só pode emergir novamente no mundo físico quando os órgãos necessários para a percepção física são formados.


Durante esse período, em que cessa a consciência iluminada pela percepção interior, o novo corpo etérico começa a se ligar ao astral, e o homem pode novamente entrar em um corpo físico. Na ligação desses dois corpos, somente um ego poderia tomar parte conscientemente que tivesse criado por si mesmo o Espírito de Vida e o Espírito Humano a partir das forças criativas ocultas nos corpos etérico e físico. Até que o indivíduo tenha evoluído até esse ponto, seres mais avançados do que ele na evolução devem guiar essa ligação.

O corpo astral é guiado por tais seres até os pais, por meio dos quais ele pode ser dotado dos corpos etérico e físico apropriados. Antes da ligação do corpo etérico, algo de muito grande importância acontece ao homem que está prestes a reentrar na existência física.

Em sua vida anterior, ele criou forças perturbadoras, que lhe foram reveladas na jornada refeita após a morte. Tomemos novamente um exemplo.

Ele causou dor a alguém em um acesso de raiva no quadragésimo ano de sua vida anterior. Após a morte, a dor do outro veio diante dele como uma força que havia interferido na evolução de seu ego. Assim é com todos os eventos de sua vida anterior. Ao reentrar na vida física, esses obstáculos à sua evolução confrontam o ego novamente.

Como, no limiar da morte, uma espécie de imagem-memória surgiu diante

ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

o ego humano, surge então uma visão da vida que se aproxima. Novamente ele vê um quadro, desta vez mostrando todos os obstáculos que precisa remover, se quiser avançar na evolução. E o que ele assim vê torna-se o ponto de partida para forças que deve trazer consigo para a sua nova vida. O quadro da dor que causou ao outro homem torna-se uma força que impele o ego, ao entrar novamente na vida, a reparar essa dor. Assim, a vida anterior tem um efeito determinante sobre a nova. As ações da nova vida são, de certa forma, causadas pelas da vida anterior. Essa conexão, seguindo uma lei, entre uma existência anterior e uma posterior deve ser considerada como a "Lei do Destino"; tornou-se usual designá-la como "Karma", termo emprestado da sabedoria oriental. A construção de um novo conjunto de corpos, no entanto, não é a única tarefa que incumbe ao homem entre a morte e um novo nascimento. Enquanto essa construção ocorre, o homem vive fora do mundo físico. Esse mundo, porém, continua a evoluir durante esse tempo. A superfície da Terra muda em períodos de tempo relativamente curtos. Que aspecto tinham as regiões hoje ocupadas pela Alemanha há alguns milhares de anos? Quando o homem aparece na Terra em uma nova existência, a Terra raramente se parece com o que era na época de sua última encarnação.

Durante sua ausência da Terra, todos os tipos de mudanças ocorreram.

Agora, forças ocultas também atuam nessa alteração da face da Terra, agindo a partir daquele mesmo mundo em que o homem se encontra após a morte, e ele próprio deve cooperar com essas forças na transformação da Terra. Ele só pode fazê-lo sob a direção de Seres Superiores até que, pela criação do seu Espírito de Vida e Espírito Humano, tenha adquirido uma percepção clara da conexão entre o espiritual e sua expressão no físico. Mas ele participa da transformação das condições terrenas. Pode-se dizer que, durante o período entre a morte e um novo nascimento, o homem transforma a Terra de tal modo que suas condições estão em conformidade com o que ele evoluiu em si mesmo. Se olharmos para um determinado lugar na Terra em um momento definido e o virmos novamente após um longo lapso de tempo, sob condições totalmente alteradas, as forças que operaram a mudança procederam daqueles que agora estão mortos. E é esse tipo de conexão que existe entre eles e a Terra até o momento do renascimento.


A observação clarividente vê em toda existência física a manifestação de um elemento espiritual oculto.

Para a observação física, é a luz do sol, as mudanças climáticas e assim por diante que efetuam a transformação da terra, mas para a clarividência é a força dos mortos que age no raio de luz que cai do sol sobre a planta.

O clarividente vê como as almas humanas pairam sobre as plantas, como elas mudam a superfície da terra. Não apenas sobre si mesmo, não apenas sobre os preparativos para sua própria nova existência terrena, a atenção do homem é concedida após a morte — não, ele é chamado então a trabalhar sobre o mundo exterior, assim como o faz em vida, entre o tempo de seu nascimento e sua morte.


Não apenas a vida do homem afeta as condições do mundo físico a partir do mundo espiritual, mas, vice-versa, a atividade durante a existência física tem seus efeitos no mundo espiritual. Um exemplo pode explicar o que acontece a esse respeito.

Um vínculo de amor existe entre mãe e filho. Esse amor surge de uma atração mútua causada pelas forças do mundo dos sentidos.

Mas no decorrer do tempo ele se transforma. Um laço espiritual gradualmente surge do vínculo sensorial, e esse laço espiritual não é criado apenas para o mundo físico, mas também para o mundo espiritual. O mesmo se aplica a outros laços. Tudo o que é criado no mundo físico por entidades espirituais continua a existir no mundo espiritual. Amigos que estiveram estreitamente unidos em vida pertencem um ao outro também no mundo espiritual, e quando seus corpos são deixados de lado, eles estão em comunhão muito mais íntima do que durante a vida física.

Pois como espíritos eles existem um para o outro da mesma maneira que, na descrição acima, os seres espirituais se revelam a outros por manifestação interior; e um laço criado entre duas pessoas as reúne novamente em uma nova vida. Assim, no sentido mais verdadeiro da palavra, podemos falar de encontrar-nos novamente após a morte.


O que uma vez aconteceu a um homem entre o nascimento e a morte, e daí até um novo nascimento, repete-se. O homem retorna à Terra repetidamente, quando o fruto que colheu em uma vida física amadureceu no mundo espiritual. Não se trata, porém, de uma repetição sem começo nem fim; mas o homem já passou, outrora, de diferentes formas de existência para aquelas que transcorrem da maneira recém-descrita, e, no futuro, passará novamente para outras formas. Uma visão dessas etapas de transição será obtida quando a evolução do universo em conexão com o homem for posteriormente tratada do ponto de vista da ciência oculta.

Os acontecimentos entre a morte e um novo nascimento são, naturalmente, ainda mais ocultos à observação dos sentidos externos do que o fundamento espiritual subjacente à vida manifestada entre o nascimento e a morte.

Essa observação dos sentidos pode ver apenas os efeitos daquela porção do mundo oculto onde eles incidem sobre a existência física. A esse respeito, deve surgir a questão de saber se o homem, ao entrar nesta vida no nascimento, traz consigo quaisquer resultados dos eventos descritos pela ciência oculta como tendo ocorrido entre sua última morte e seu nascimento. Se alguém encontra a concha de um caracol na qual não há vestígio do animal, reconhecerá, apesar disso, que essa concha de caracol foi formada pela atividade de um animal, e não poderá acreditar que a concha construiu uma forma para si mesma por meio de meras forças físicas. Da mesma maneira, quem estuda um homem durante a vida e encontra nele algo que não pode ser devido a esta vida, pode razoavelmente admitir que isso provém do que a ciência oculta descreve, se, ao fazê-lo, uma luz explicativa for lançada sobre o que de outra forma é inexplicável.


Aqui, também, as causas invisíveis poderiam parecer inteligíveis à observação racional dos sentidos a partir de seus efeitos visíveis, e quem observar a vida com absoluta imparcialidade descobrirá que, a cada nova observação, isso parece cada vez mais ser a verdade. A questão importante, no entanto, é como encontrar o ponto de vista correto a partir do qual observar as operações na vida.

Onde, por exemplo, encontram-se os efeitos do que a ciência oculta descreve como incidentes do tempo de purificação? Como se manifestam, após esse tempo de purificação, os efeitos da experiência que, segundo as investigações ocultas, o homem atravessa em regiões puramente espirituais?

Problemas suficientes pressionam todo estudante sério e profundo da vida neste domínio.

Vemos um homem nascido na carência e na miséria, dotado apenas de habilidades inferiores, de modo que, por causa desses fatos, que são incidentes ao seu nascimento, ele parece predestinado a uma existência miserável.


Outro, desde o primeiro momento de sua vida, é cuidado e acarinhado por mãos e corações amorosos, talentos brilhantes se desdobram nele, seus dons apontam para uma carreira bem-sucedida e satisfatória.

Duas visões opostas podem ser adotadas quando confrontadas com tais questões. Uma aderirá ao que os sentidos percebem e ao que o entendimento, apoiando-se nesses sentidos, é capaz de compreender. Essa visão não admitirá problema algum no fato de um homem nascer afortunado e o outro desafortunado. Mesmo que a palavra "acaso" não seja usada, não haverá questão de se pensar que tais coisas são produzidas por alguma lei de causa e efeito. Também com relação a talentos e habilidades, tal visão os considerará como "herdados" de pais, avós e outros ancestrais. Recusar-se-ia a buscar as causas em eventos espirituais que o próprio homem encontrou antes do nascimento — à parte da linha de hereditariedade de seus ancestrais — e por meio dos quais ele formou seus talentos e habilidades. Outra visão não encontraria satisfação em tal interpretação. Afirmaria que mesmo no mundo manifestado nada acontece em um lugar definido ou em circunstâncias definidas sem que tenhamos de pressupor causas para o evento em questão. Embora em muitos casos tais causas ainda não tenham sido investigadas, elas estão lá.

Uma flor alpina não cresce nas terras baixas.

Sua natureza tem algo que a associa às regiões alpinas. Assim também deve haver algo no homem que determina seu nascimento em certo ambiente. Causas pertencentes somente ao mundo físico não são suficientes para explicar isso. Para um pensador mais profundo, tal explicação seria muito semelhante ao fato de alguém ter dado um golpe em outro dever ser atribuído não aos sentimentos do primeiro, mas ao mecanismo físico de sua mão.


Assim como seria insatisfatória qualquer explicação das aptidões e talentos somente pela "hereditariedade" para tal visão. É verdade que se pode dizer: "Vejam como certos talentos são herdados em famílias". Durante dois séculos e meio, talentos musicais foram herdados por membros da família Bach. Oito matemáticos surgiram da família Bernoulli, a alguns dos quais foram atribuídas ocupações bastante diferentes na infância, mas os talentos herdados sempre os impeliam para a vocação familiar.

Pode-se ainda apontar como, por uma investigação exata da linha de ancestralidade de uma personalidade, pode-se mostrar que, de uma forma ou de outra, os dons dessa personalidade já se manifestaram nos antepassados e representam apenas a soma dos talentos herdados.

Quem sustenta a segunda das duas visões acima indicadas certamente não deixará passar tais fatos despercebidos, mas para ele eles não podem significar o mesmo que significam para aquele que se baseia, para sua interpretação, apenas nos eventos do mundo dos sentidos.


O primeiro apontará que talentos herdados não podem, por si mesmos, combinar-se em uma personalidade completa, assim como as partes metálicas de um relógio não podem se ajustar sozinhas. E se for objetado que a cooperação dos pais pode, sem dúvida, produzir a combinação de talentos — que isso ocupa, por assim dizer, o lugar do relojoeiro —, ele responderá: "Olhem imparcialmente para o que há de novo em cada personalidade infantil, aquilo que é absolutamente novo e que não pode vir dos pais, pela simples razão de que não existe neles". O pensamento impreciso pode criar muita confusão nesse domínio. O pior de tudo é quando aqueles que sustentam a segunda visão são rotulados pelos apoiadores da primeira como oponentes do que é, afinal, corroborado por "fatos comprovados". Mas pode bem ser que estes últimos não tenham a menor intenção de negar a verdade ou o valor desses fatos. Por exemplo, eles veem que uma definida aptidão mental ou predisposição é "herdada" em uma família, e que certos dons acumulados e combinados em um descendente resultam em uma personalidade notável. Eles estão perfeitamente dispostos a concordar quando se diz que o nome mais célebre raramente está no topo, mas na base, de uma linha de descendência. Mas não se deve levar a mal se eles são compelidos a formar opiniões muito diferentes sobre o assunto daquelas de pessoas que estão determinadas não aceitar nada além de evidência material. A estes últimos pode-se dizer que é verdade que um homem apresenta as características de seus ancestrais, pois a “alma-espírito” que entra na existência física ao nascimento extrai sua substância corporal daquilo que a hereditariedade lhe confere. Mas isso apenas significa que um ser já possui em sua própria natureza as características do meio no qual desceu.


É sem dúvida uma comparação singular — e trivial —, mas a pessoa sem preconceitos não negará sua validade se for dito que o fato de um ser humano se revelar imbuído das qualidades de seus antepassados prova a origem das qualidades pessoais do indivíduo tão pouco quanto o fato de um homem estar molhado porque caiu na água prova algo a respeito de sua natureza interior. E pode-se ainda dizer que, se o nome mais célebre está no final de uma linha de descendência familiar, isso mostra que o portador desse nome necessitou daquela ancestralidade específica para construir o corpo necessário à expressão de toda a sua personalidade. Mas isso não é prova de que suas qualidades pessoais reais lhe foram transmitidas; tal afirmação é, ao contrário, contrária à lógica sólida. Se os dons pessoais fossem herdados, eles seriam encontrados no início de uma linha de descendência, e

¹A afirmação de que os talentos pessoais de um homem, se governados puramente pela lei da “hereditariedade”, devem se manifestar no início de uma linha de descendência, não no seu fim, poderia, é claro, ser facilmente mal interpretada.


Partindo desse ponto, pode ser transmitido aos descendentes. Como, no entanto, eles se encontram no final, é evidente que não são transmitidos. Ora, não se pode negar que aqueles que falam de uma causalidade espiritual na vida não tenham contribuído menos para gerar confusão de pensamento. Generalizações excessivas e discussões vagas vêm em grande parte desse campo. Dizer que a personalidade de um homem é uma combinação de características herdadas pode certamente ser comparado à afirmação de que as partes metálicas de um relógio se ajustaram por si mesmas. Deve-se também admitir que, com relação a muitas afirmações sobre um mundo espiritual, é como se alguém dissesse que as partes metálicas de um relógio não podem se unir de tal maneira que os ponteiros se movam para frente; alguma inteligência deve, portanto, estar presente para efetuar esse movimento para frente. Diante de tal afirmação, certamente constrói sobre um fundamento muito melhor aquele que diz: "Oh, não me importo com os seus seres 'místicos' que movem os ponteiros. O que quero saber é a construção mecânica por meio da qual o movimento para frente dos ponteiros é alcançado." Não é de modo algum

Poder-se-ia dizer, de fato, que eles não poderiam se manifestar então, pois precisariam primeiro ser desenvolvidos. Mas isso não é uma objeção, pois se quisermos provar que algo foi herdado de um ancestral, devemos mostrar como aquilo que existia antes se repete em um descendente. Ora, se fosse demonstrado que algo existiu no início de uma linhagem genealógica e reapareceu em seu curso posterior, poderíamos falar de hereditariedade. Não podemos fazê-lo quando algo aparece no final dela que não existia antes. A inversão da proposição acima serve apenas para mostrar que a crença na hereditariedade é impossível.

ESBOÇO DE UMA CIÊNCIA OCULTA

trata-se de uma questão de meramente saber que por trás de um mecanismo, por exemplo, um relógio, há uma inteligência (o relojoeiro); só pode ter importância conhecer as ideias na mente do relojoeiro que precederam a construção do relógio. Esses pensamentos podem ser redescobertos no mecanismo.

Meros sonhos e imaginações sobre os seres espirituais – sensuais apenas – resultam em confusão, pois não são calculados para satisfazer os opositores. Estes últimos têm razão ao dizer que tais alusões gerais a seres superfísicos não são de modo algum conducentes a um entendimento dos fatos. Naturalmente, tais opositores poderiam também dizer o mesmo das afirmações exatas da ciência oculta. Mas, nesse caso, pode-se apontar que os efeitos das causas espirituais ocultas são vistos na vida manifestada. Suponhamos por um momento que o que a ciência oculta afirma ser provado pela observação está correto – que o homem passou por um período de purificação após a morte, e durante esse período experimentou em sua alma como uma certa ação por ele praticada numa vida anterior foi um obstáculo à sua evolução progressiva. Enquanto passava por essa experiência, surgiu nele o impulso de reparar aquela ação. Ele traz esse impulso consigo para uma nova vida, e sua presença produz uma tendência em sua natureza que o atrai para condições que tornam a reparação possível.

Levando em consideração uma série de tais 101


impulsos, temos a causa do nascimento de um homem num ambiente correspondente ao seu destino.

Podemos tratar da mesma maneira outra suposição. Aceitemos novamente como correta a afirmação da ciência oculta de que os frutos de uma vida passada estão incorporados no germe espiritual do homem, e que a região espiritual em que o homem se encontra, entre a morte e uma nova vida, é a região onde esses frutos amadurecem e são transformados em talentos e capacidades que aparecerão em uma nova vida e formarão a personalidade, de modo que ela aparece como o efeito do que foi adquirido em uma vida anterior. Tornar-se-á evidente para qualquer um que aceite essas hipóteses e, tendo-as em mente, observe a vida imparcialmente, que, embora por meio delas todos os fatos materiais possam ser apreciados em sua plena verdade e significado, ao mesmo tempo tudo se torna inteligível o que, se apenas fatos materiais fossem considerados, deve permanecer para sempre incompreensível para aquele cuja atenção está fixada no mundo espiritual. E, mais importante ainda, desaparecerá aquele raciocínio ilógico do tipo indicado acima, de que, porque o nome mais distinto em uma linha de descendência está no seu fim, seu portador deve ter herdado seus dons. A vida torna-se logicamente compreensível através dos fatos suprassensíveis verificados pela ciência oculta.

Mas ainda outra objeção ponderosa pode ser levantada pelo buscador consciencioso da verdade que deseja encontrar seu caminho para os fatos e não tem experiência própria no mundo supersensual. Pode-se argumentar que é inadmissível aceitar a existência de fatos, de qualquer tipo, simplesmente porque por meio deles algo pode ser explicado que de outra forma é ininteligível. Tal objeção não tem sentido para quem conhece os fatos correspondentes por experiência supersensual, e em capítulos posteriores deste livro será indicado o caminho que pode ser seguido para adquirir conhecimento não apenas dos fatos espirituais aqui descritos, mas também da lei da causalidade espiritual como experiência pessoal. Qualquer um, no entanto, que não esteja disposto a entrar nesse caminho pode achar a objeção acima importante, e o que pode ser dito contra ela também é valioso para quem está resolvido a seguir o caminho indicado. Pois se for recebida no espírito certo, é o melhor passo preliminar que pode ser dado nesse caminho. É perfeitamente verdade que não se deve aceitar uma afirmação sobre a qual se é ignorante de outra forma meramente porque, por meio dela, algo de outra forma inexplicável pode ser explicado, mas no caso de supostos fatos espirituais a questão é diferente. Se as afirmações forem aceitas, a consequência intelectual não é apenas que, por meio delas, a vida se torna inteligível, mas que, ao admitir essas hipóteses no mundo do pensamento, experiências de um tipo bastante novo são induzidas.



Considere o seguinte caso: algo acontece a um homem que lhe causa sensações extremamente dolorosas. Ele pode enfrentar a situação de duas maneiras. Ele pode se submeter ao ocorrido como algo que o afeta dolorosamente e abandonar-se à sensação dolorosa, chegando até a absorver-se em sua dor, ou pode enfrentá-la de outra maneira. Ele pode dizer: "Na verdade, fui eu mesmo que, em uma vida anterior, pus em movimento a força que me trouxe em contato com esta coisa; eu realmente a atraí sobre mim mesmo." Ele pode então despertar em si todos os sentimentos que tal pensamento traz em seu rastro. Nem é preciso dizer que o pensamento deve ser alimentado com perfeita seriedade e com a maior força possível, se deve ter tais consequências na vida da sensação e do sentimento. Aquele que tiver êxito nisso experimentará algo que pode ser melhor ilustrado por uma comparação. Suponhamos que dois homens tenham cada um um bastão de lacre de vedação em sua mão. Um começa a refletir sobre sua natureza interior. Essas reflexões podem ser talvez muito sábias, mas se a "natureza interior" não se manifestasse de nenhuma forma, alguém poderia facilmente retrucar: "Isso é tudo imaginação." O outro, porém, esfrega o lacre de vedação com um pano de lã e então mostra que ele atrai pequenas partículas. Há uma diferença importante entre os pensamentos que passaram pela cabeça do primeiro homem e provocaram suas reflexões, e os do segundo. Os pensamentos do primeiro homem não tiveram resultado real; os do segundo evocaram uma força oculta, consequentemente algo real.


O mesmo acontece com os pensamentos de um homem em cuja mente surge a ideia de que, numa vida anterior, ele colocou em movimento dentro de si a força que o leva a encontrar um certo evento. A mera concepção disso desperta nele uma força que o capacita a enfrentar o evento de maneira bastante diferente daquela com que o teria enfrentado sem nutrir tal ideia. Torna-se-lhe claro que um evento que, de outro modo, ele teria considerado um acidente era, na realidade, uma necessidade, e a percepção lhe ocorrerá: "Meu pensamento era o correto, pois teve o poder de me revelar uma verdade". Se tais processos interiores se repetem, eles se transformarão numa fonte de poder interior e, assim, provarão sua verdade pela sua fecundidade, e, pouco a pouco, essa verdade se revela poderosamente eficaz. Tais processos têm um efeito salutar sobre corpo, alma e espírito; mais ainda, ajudam a vida a avançar em todos os sentidos.

O homem se torna consciente de que, dessa maneira, assume a posição correta em relação à continuidade da vida; ao passo que, ao considerar apenas a vida entre o nascimento e a morte, ele é vítima de uma ilusão.

Uma prova tão inteiramente interior da causalidade espiritual só pode, naturalmente, ser adquirida por cada um por si mesmo, em sua própria vida interior. Mas está ao alcance de todos tê-la. Aqueles que não a adquiriram certamente não podem julgar de sua força convincente, mas aqueles que a adquiriram dificilmente podem ter qualquer dúvida adicional no assunto. E não há razão para surpresa de que assim seja. É apenas natural que o que está tão inteiramente ligado à constituição do ser mais íntimo e da personalidade do homem só possa ser adequadamente provado pela experiência interior. Por outro lado, não se pode alegar que, por tal assunto corresponder à experiência interior, deva, portanto, ser resolvido por cada um por si mesmo, e que não seja assunto para a ciência oculta. Certo é que cada um deve passar pela experiência por si mesmo, assim como cada um deve ver por si mesmo a prova de um problema matemático. Mas o caminho pelo qual tal experiência pode ser obtida está aberto a todos, assim como o método de provar um problema matemático está disponível para todos.

Não se pode negar que, à parte, naturalmente, da observação clarividente, a única prova que pode sustentar-se perante a lógica imparcial é a que acaba de ser citada, do poder do pensamento correto de gerar força. Todas as outras considerações são, sem dúvida, muito importantes, mas em todas elas haverá algo em que um oponente possa agarrar-se como ponto de ataque. Certamente, aquele que adquiriu uma maneira bastante imparcial de olhar as coisas encontrará algo na possibilidade e no fato real da educação do homem, que tem esse poder de prova lógica de que um ser espiritual está lutando pela existência dentro do invólucro do corpo. Ele comparará os animais com o homem e dirá a si mesmo que, no nascimento daqueles, aparecem certas qualidades e capacidades definidas como algo decisivo em si mesmo, que mostra claramente como foi projetado pela hereditariedade e evoluirá no mundo exterior. Vemos como um jovem pintinho realiza as funções da vida da maneira designada desde o seu nascimento, mas, por meio da educação, algo entra em contato com a vida interior do homem que é independente de qualquer conexão com sua hereditariedade, e ele pode estar em posição de assimilar os efeitos de tais influências externas. O educador sabe que tais influências são recebidas por forças que vêm da natureza interior do homem. Se não for esse o caso, toda instrução e treinamento são sem sentido. O educador imparcial encontra a linha divisória entre os talentos herdados e aquelas forças interiores do próprio homem, que brilham através deles e se originam em vidas anteriores, como sendo muito nitidamente marcada. É verdade que não podemos apresentar provas tão ponderosas para coisas desse tipo como podemos para certos fatos físicos, por meio de balanças, mas então estas são justamente as coisas íntimas da vida, e aquele que tem o poder de apreciar tais provas impalpáveis as achará convincentes — ainda mais convincentes do que a realidade palpável.


Que um animal possa ser treinado e, assim, em grande medida, adquirir qualidades e capacidades pela educação, não é objeção para quem é capaz de ver a realidade, pois, além do fato de que estados transitórios são encontrados em todo o mundo, os resultados do treinamento de um animal de modo algum desaparecem com sua existência individual, como é o caso do homem. Além disso, foi enfatizado o fato de que as faculdades adquiridas por animais domésticos através do contato com o homem são transmitidas, isto é, continuam na espécie, não no indivíduo. Darwin descreve como cães buscam e carregam sem terem sido ensinados a fazê-lo, ou sem terem visto isso ser feito. Quem faria tal afirmação com relação à educação humana?

Agora, há pensadores cujas observações os levaram além da opinião de que o homem é construído por forças puramente herdadas de fora. Eles elevam-se ao pensamento de que um ser espiritual, uma individualidade, existe antes da vida no corpo, e a molda, mas muitos deles acham impossível conceber que existam vidas terrenas repetidas, e que os frutos de vidas anteriores sejam forças modeladoras durante o estado intermediário entre duas vidas. Tomemos um exemplo dentre as fileiras desses pensadores: Immanuel Hermann Fichte, filho do grande Fichte, em sua Antropologia (p. 528), apresenta as observações que o levaram à seguinte conclusão:

108 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

“Os pais não são geradores no sentido pleno da palavra. Eles fornecem substância orgânica, e não apenas isso, mas também aquele elemento intermediário dos sentidos e da natureza mental que se manifesta no temperamento, na coloração do caráter, nas tendências definidas, e assim por diante, cuja fonte comum se revela ser a ‘imaginação’ no sentido mais amplo que indicamos. Em todos esses elementos da personalidade, a mistura e a combinação particular das almas dos pais é inconfundível; é, portanto, uma afirmação perfeitamente fundamentada que essa combinação é simplesmente o resultado da procriação, mesmo que consideremos a procriação, como devemos, realmente um processo da alma. Mas o verdadeiro centro último da personalidade é justamente o que falta aqui, pois uma observação mais profunda e perscrutadora revela o fato de que mesmo aquelas peculiaridades de disposição são apenas um revestimento e um instrumento para conter as capacidades verdadeiramente espirituais e ideais do indivíduo, qualificadas para auxiliá-las em seu desenvolvimento ou para dificultá-las, mas de modo algum capazes de originá-las.” Afirma-se ainda na mesma obra (p. 532): “Todo indivíduo pré-existe quanto à forma fundamental de seu espírito, pois nenhum indivíduo, do ponto de vista espiritual, assemelha-se a outro, assim como nenhuma espécie de animal se assemelha a outra espécie.”

Esses pensamentos alcançam apenas o suficiente para admitir um ser espiritual dentro do corpo físico, mas, como as forças que moldam tal ser não são derivadas de causas existentes em vidas anteriores, seria necessário que, cada vez que uma nova personalidade aparecesse, um ser espiritual surgisse de uma Primeira Causa Divina. Com essa hipótese, não haveria possibilidade de explicar a relação que certamente existe entre as potencialidades que lutam para emergir do ser mais íntimo do homem e aquilo que se impõe a partir de seu ambiente terreno exterior no curso de sua vida. O ser mais íntimo do homem, emanando no caso de cada pessoa de uma Primeira Causa Divina, acharia o que lhe confronta na vida terrena bastante estranho e alheio. Somente então isso não poderia ser o caso — como, de fato, não é — se já houvesse existido uma conexão entre o homem interior e o mundo exterior, somente se o homem interior não estivesse agora vivendo nele pela primeira vez.

O educador imparcial pode, sem dúvida, observar: “Estou trazendo ao meu aluno algo dos resultados da vida terrena, que é certamente alheio às suas qualidades puramente herdadas, mas que, no entanto, lhe dá a impressão de que o trabalho, do qual os resultados surgem, havia sido feito por ele no passado.” Somente as repetidas vidas na Terra, em conjunção com os fatos expostos pela ciência oculta como ocorrendo nas regiões espirituais entre duas vidas terrenas — somente essa visão pode oferecer uma explicação satisfatória da vida humana presente, considerada sob todos os aspectos.

Digo expressamente “presente”

em UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

vida humana, pois a investigação oculta mostra que o ciclo da vida terrena certamente teve um começo, e que então o ser espiritual do homem, que adentrou uma estrutura corporal, existiu sob condições diferentes. No capítulo seguinte, voltaremos a essa condição primordial da existência humana. Quando tiver sido demonstrado, a partir dos relatos da ciência oculta, como os seres humanos receberam sua forma atual em conexão com a evolução da Terra, será também possível indicar mais precisamente como o germe espiritual do ser do homem desce dos mundos suprafísicos para uma forma corporal, e como a lei espiritual de causalidade, ou “destino humano”, se desenvolve.

CAPÍTULO IV

A Evolução do Mundo e do Homem

A partir das observações anteriores, ver-se-á que o ser do homem é constituído de quatro princípios: o corpo físico, o corpo etérico, o corpo astral e o veículo do ego. O ego atua dentro dos três outros princípios e os transforma. Por meio dessa transformação, formam-se, em um nível inferior, a alma senciente, a alma racional ou intelectual e a alma autoconsciente; em um nível superior, o Espírito-Próprio, o Espírito de Vida e o Espírito Humano. As relações existentes entre esses princípios humanos e o universo inteiro são do mais variado caráter, e a evolução dos princípios está ligada à do universo. Ao estudar esta última evolução, obtém-se uma visão dos mistérios mais profundos do ser do homem.

É claro que a vida humana está conectada, nas mais diversas direções, com o ambiente ou morada em que se desenvolve. A ciência física, através dos fatos que lhe são apresentados, já foi levada à opinião de que a própria Terra, a morada do homem no sentido mais amplo da palavra, passou por uma evolução.

A ciência aponta para condições primitivas da história da Terra, quando o homem, em sua forma atual, ainda não existia em nosso planeta; ela mostra como o homem evoluiu lenta e gradualmente até sua condição presente, a partir de estados primitivos de civilização. A ciência física, portanto, chega também à conclusão de que há uma conexão entre a evolução do homem e a do corpo celeste em que ele vive — a Terra.

A ciência oculta traça essa conexão por meio daquele conhecimento que obtém seus dados da observação acelerada por órgãos espirituais de percepção. Ela rastreia o homem para trás em seu curso de desenvolvimento, e o fato torna-se evidente para a ciência oculta de que o verdadeiro ser espiritual interior do homem progrediu através de uma série de vidas nesta Terra. Mas a pesquisa oculta chega, dessa maneira, a uma época muito recuada no passado remoto, quando pela primeira vez aquele ser interior do homem fez sua entrada na "vida externa", como atualmente se entende. Foi nessa primeira encarnação terrena que o ego começou a funcionar nos três corpos — o corpo astral, o corpo etérico ou vital e o corpo físico — e, a partir daí, carregou os resultados dessa atividade para sua próxima vida.

Se em nossa investigação procedermos para trás, da maneira indicada, até aquela época, descobriremos que o ego encontra uma condição da Terra na qual os três corpos — físico, etérico e astral — já estão desenvolvidos e mantêm certa relação entre si.

O ego é, pela primeira vez, unido ao ser composto desses três corpos e, daí em diante, participa da evolução ulterior dos três corpos. Até então, até o estágio em que esse ego entrou em contato com eles, eles haviam evoluído sem um ego humano.

A ciência oculta deve agora recuar ainda mais em suas pesquisas se quiser responder às perguntas: "Como os três corpos alcançaram aquele estágio de evolução no qual foram capazes de receber um ego dentro deles?" e "Como esse próprio ego veio a existir e adquiriu a capacidade de atuar dentro desses corpos?"

É possível responder a essas perguntas somente quando o desenvolvimento gradual do próprio planeta Terra é estudado do ponto de vista oculto. Por tal investigação, chegamos a um começo do planeta Terra. Esse método de exame, baseado apenas nos fatos dos sentidos físicos, não pode chegar a conclusões sobre o começo da Terra. Um certo ponto de vista que se vale de tais conclusões chega ao resultado de que tudo o que é material na Terra foi formado a partir de uma essência primordial, ou vapor. Não é o propósito desta obra entrar mais detalhadamente em tais concepções sobre a origem do nosso planeta, pois na ciência oculta o importante não é meramente indagar sobre os processos materiais da evolução da Terra, mas, antes de tudo, descobrir as causas espirituais que estão por trás do que é material. Se vemos diante de nós um homem erguendo a mão, podemos considerar sua ação de duas maneiras diferentes: podemos examinar o mecanismo do braço e do restante do organismo, a fim de descrever o processo tal como ocorre do ponto de vista puramente físico, ou podemos dirigir a visão espiritual para o que se passa na alma do homem e constitui o motivo interno do erguer da mão. Dessa forma, o investigador, treinado na pesquisa oculta, vê processos espirituais por trás de todos os eventos do mundo dos sentidos físicos. A seus olhos, todas as transformações da parte material do planeta Terra são manifestações de forças espirituais que estão por trás do que é material.


Mas se a observação oculta desse tipo vai cada vez mais para trás na vida da Terra, chega àquele ponto da evolução em que as coisas materiais primeiro vieram a existir. O elemento material é evoluído a partir do espiritual. Até esse ponto, o elemento espiritual era o único existente. Pela investigação oculta, o elemento espiritual é percebido, e o observador pode ver como ele se condensa parcialmente, por assim dizer, em matéria. Temos diante de nós um processo que está ocorrendo — em um nível mais elevado — muito como se estivéssemos observando um bloco de gelo sendo formado por meios artificiais em um recipiente de água.

Assim como vemos o gelo se condensando a partir do que antes era apenas água, também podemos,

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM

Por meio da observação oculta, podemos contemplar a condensação, por assim dizer, das coisas materiais, processos e seres, a partir do que era anteriormente inteiramente espiritual. Dessa forma, o planeta Terra físico foi evoluído a partir de uma essência cósmica, e tudo o que está materialmente combinado com o planeta Terra foi condensado a partir do que antes estava unido a ele espiritualmente. Não devemos, contudo, pensar que tudo o que é espiritual foi, em algum momento, transformado em forma material, mas.

diante de nós temos meramente as porções transmutadas do que era originalmente espiritual. Assim, mesmo durante o período de evolução material, é sempre o Espírito que é realmente o princípio condutor e governante.

É evidente que o modo de pensamento que se restringe aos processos dos sentidos físicos — e ao que a razão é capaz de inferir deles — não pode expressar uma opinião sobre o elemento espiritual do qual estamos falando. Suponhamos que pudesse existir um ser para cujos sentidos o gelo fosse perceptível, mas não a condição mais sutil da água, da qual o gelo se desprende por refrigeração. Para tal ser, a água seria inexistente e só poderia tornar-se visível quando partes dela tivessem sido transformadas em gelo. Da mesma forma, o elemento espiritual por trás dos processos terrestres permanece oculto para um homem que admite a existência apenas do que seus sentidos físicos podem reconhecer. E se, a partir

116 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

dos fatos físicos que agora percebe, ele deseja tirar conclusões corretas sobre as condições anteriores do planeta Terra, ele só pode chegar até aquele ponto da evolução em que o que era anteriormente espiritual foi parcialmente condensado em substância material. Tal método de observação não descobre o elemento espiritual previamente existente, assim como não percebe a vida espiritual que, mesmo agora, rege invisível por trás do que é material.

Somente quando chegarmos aos capítulos posteriores desta obra poderemos tratar daqueles métodos pelos quais o homem adquire a faculdade de olhar para trás, por meio da percepção oculta, para aquelas condições anteriores da Terra que ora estão em discussão. Por enquanto, apenas insinuaremos que os fatos concernentes ao passado primordial não escaparam ao alcance da pesquisa oculta.

Se um ser entra em existência corpórea, sua parte material perece após a morte física. Mas não é assim que as forças espirituais, que chamaram a parte corporal à existência a partir de si mesmas, "desaparecem". Elas deixam atrás de si seus vestígios, suas cópias exatas, nos fundamentos espirituais do mundo. E qualquer um que seja capaz de elevar sua faculdade perceptiva através do mundo visível ao invisível atinge, por fim, um nível no qual pode ver diante de si o que pode ser comparado a um vasto panorama espiritual, no qual estão registrados todos os acontecimentos passados da história do mundo. Esses vestígios imperecíveis de tudo aquilo que está além do reino da matéria são chamados, na ciência oculta, de "Registros Akáshicos". Aqui deve-se repetir mais uma vez que as investigações das esferas suprassensíveis só podem ser realizadas com o auxílio da percepção espiritual e, consequentemente, só podem ser instituídas na esfera ora em consideração, pela leitura dos mencionados Registros Akáshicos. Não obstante, o que foi dito anteriormente neste livro em uma ocasião semelhante vale aqui também. Os fatos suprassensíveis só podem ser investigados por percepções suprassensíveis, mas, uma vez investigados e comunicados pela ciência oculta, podem ser apreendidos pelas faculdades ordinárias do pensamento, se estas forem exercidas honestamente, sem parcialidade. Nas páginas seguintes, as diversas condições da evolução da Terra, conforme apresentadas pela ciência oculta, serão detalhadas. As transformações do nosso planeta serão rastreadas até as condições de vida em que ora o encontramos. Qualquer um que observe o que se apresenta diante de si no tempo presente meramente através da evidência de seus sentidos, e então dê ouvidos ao que a ciência oculta tem a dizer sobre o assunto, ou seja, como aquilo que ora se apresenta diante dele evoluiu de um passado distante, poderá, se seu pensamento for genuinamente imparcial, dizer a si mesmo: "Em primeiro lugar, o que a ciência oculta relata é bastante lógico; em segundo lugar, posso, se assumir que os relatos da investigação oculta estão corretos, compreender como as coisas se tornaram o que ora parecem ser." Por "lógico" não se entende, naturalmente, nesta conexão, que erros não possam ser cometidos de um ponto de vista lógico em alguma descrição dada pela pesquisa oculta. Nós estamos

Aqui falando de "Lógica" tal como é entendida na vida ordinária do mundo físico: assim como uma demonstração lógica é ali aceita como o seria uma de pesquisa física, mesmo que um único investigador, em certo domínio de fatos, possa fazer afirmações ilógicas, assim também o é na ciência oculta. Pode até acontecer que um investigador que possua o poder de visão nas esferas supersensíveis cometa erros numa apresentação racional delas, e seja corrigido por outro que não tem percepção supersensível, mas possui, não obstante, capacidade de pensamento sólido. Na realidade, nada de peso pode ser dito contra as deduções lógicas da ciência oculta. E deveria ser desnecessário insistir que nada pode ser aduzido, em bases puramente lógicas, contra os próprios fatos. No domínio do mundo físico, nunca se pode provar pela lógica, mas apenas pela demonstração ocular, se existe ou não um animal como a baleia; similarmente, fatos supersensíveis só podem ser conhecidos através da percepção oculta.

Mas não se pode enfatizar suficientemente que uma obrigação é imposta ao explorador das regiões supersensíveis, antes de ele determinar-se a abordar os mundos invisíveis em sua própria consciência: adquirir antes de tudo a mencionada faculdade lógica, e isto não é menos essencial se ele admite que o mundo manifesto aos seus sentidos se tornará compreensível se ele aceitar as comunicações da ciência oculta como corretas. Todas as experiências no mundo supersensível não passam de um tatear incerto — na verdade, perigoso — no escuro, se desprezarmos o método de preparação que foi descrito. Portanto, neste livro, os fatos concernentes aos processos supersensíveis da evolução da Terra serão primeiro apresentados, antes que o caminho que conduz à obtenção do conhecimento supersensível seja tratado.


Temos também, é verdade, de levar em conta que o homem que, pelo puro pensar, chega a aceitar o que a pesquisa supersensível tem a transmitir, não se encontra de modo algum na mesma posição daquele que ouve o relato de um acontecimento físico que não pode ver. Pois o pensar é em si uma atividade supersensível. Quando relacionado aos sentidos, não pode por si mesmo conduzir a acontecimentos supersensíveis. Mas se o pensamento é dirigido para assuntos supersensíveis através dos relatos que deles nos são dados pela ciência oculta, ele cresce por sua própria atividade para dentro do mundo supersensível. Além disso, uma das melhores maneiras de adquirir percepção individual nas esferas supersensíveis é crescer para os mundos superiores pela meditação sobre o que foi comunicado pela ciência oculta. Isto é, tal modo de entrada assegura a maior clareza de resultados. Por esta razão, tal pensar é considerado por uma certa seção de investigadores ocultistas como o primeiro passo mais valioso a ser dado no treinamento oculto.


Será facilmente compreendido que é impossível mencionar neste livro todos os detalhes da evolução da Terra, tal como foi espiritualmente percebida pelos ocultistas, para ilustrar a maneira pela qual o mundo supersensível se reflete no mundo manifestado. Nem foi isso o que se pretendeu quando se disse que o invisível pode ser demonstrado em toda parte por seus efeitos manifestados. Antes, quis-se dizer que tudo o que o homem encontra pode, passo a passo, tornar-se claro e compreensível se ele trouxer os acontecimentos manifestados para a iluminação da ciência oculta. Apenas em alguns casos característicos será feita referência nas páginas seguintes a confirmações do invisível pelo manifestado, a fim de mostrar que isso pode ser feito em toda parte no curso da vida prática, se desejado.

Seguindo a evolução da Terra para trás, pelo método de pesquisa oculta mencionado acima, chegamos a uma condição espiritual (Pralaya) do nosso planeta. Mas se avançarmos mais para trás ao longo desse caminho de pesquisa, descobrimos que essa substância espiritual havia estado anteriormente em uma espécie de

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 121

encarnação física Assim, chegamos a uma condição planetária física passada, que foi posteriormente espiritualizada e, em seguida, transformada em nossa Terra por meio de repetidas materializações. Nossa Terra nos é, portanto, apresentada como a reencarnação de um planeta muito antigo. Mas a ciência oculta pode recuar ainda mais, e então encontra todo o processo repetido duas vezes. Nossa Terra passou, portanto, por três estados planetários anteriores, entre os quais existem estados intermediários de espiritualidade. A substância física, naturalmente, revela-se cada vez mais sutil quanto mais recuamos seguindo as encarnações.

Agora, o homem, na forma em que atualmente evolui, faz sua primeira aparição durante a quarta das encarnações planetárias descritas, na própria Terra. E a característica essencial de sua forma é que ela é composta de quatro princípios: o corpo físico, o etérico e o astral, e o ego. Mas essa forma não poderia ter aparecido se não tivesse sido preparada pelos acontecimentos precedentes da evolução. O método de preparação foi que, na encarnação planetária anterior, evoluíram seres que já possuíam três dos quatro princípios atuais do homem:

o corpo físico, o etérico e o astral. Esses seres, que em certo sentido podem ser chamados de ancestrais do homem, ainda não tinham ego, mas desenvolveram os três outros princípios e a conexão entre eles a tal ponto que se tornaram suficientemente maduros para receber um ego. Consequentemente, o ancestral do homem atingiu um certo grau de maturidade de seus três princípios durante a encarnação planetária anterior.


Esse estado passou para a espiritualidade, e da espiritualidade formou-se uma nova condição planetária, na qual os ancestrais amadurecidos do homem estavam contidos, por assim dizer, em embrião. Como o planeta inteiro havia passado por um processo de espiritualização e aparecera em uma nova forma, ele oferecia àqueles embriões, com seus corpos físico, etérico e astral, que estavam contidos dentro dele, não apenas a oportunidade de evoluir novamente até o nível em que anteriormente haviam se colocado, mas também a possibilidade adicional, após atingirem esse nível, de irem além de si mesmos mediante o recebimento do ego.

A evolução da Terra cai, portanto, em duas partes. Durante o primeiro período, a própria Terra aparece como uma reencarnação do estado planetário anterior. Mas esse estado reencarnante é um superior ao da encarnação anterior, em consequência do período intermediário de espiritualização. E a Terra contém dentro de si os germes dos ancestrais do homem pertencentes ao planeta anterior. Estes foram primeiramente desenvolvidos até o nível que haviam alcançado anteriormente. A obtenção desse nível marca o fim do primeiro período. Mas agora, devido ao seu próprio estágio mais elevado de evolução, a Terra é capaz de levar os germes ainda mais alto, isto é, qualificá-los para receber o ego. O segundo período da evolução da Terra é o do desenvolvimento do ego nos corpos físico, etérico e astral.


Da mesma forma que o homem foi assim levado um estágio adiante pela evolução da Terra, isso havia ocorrido durante as encarnações planetárias anteriores. Pois o homem havia, de certa medida, existido já desde a primeira delas. Lança-se, portanto, luz sobre a constituição presente do homem se sua evolução for rastreada até o passado remoto da primeira das encarnações planetárias mencionadas acima.

Na ciência oculta, a primeira delas é chamada "Saturno", a segunda é denominada "Sol", a terceira, "Lua", e a quarta é a Terra. Deve ser claramente entendido que esses termos ocultos não devem, a princípio, ser de modo algum associados aos nomes usados para designar os membros do atual sistema solar. Na ciência oculta, Saturno,

 Em diferentes capítulos deste livro, tem sido.

foi mostrado como o mundo da humanidade, e o próprio homem, passam, em sua evolução progressiva, por condições que foram denominadas Saturno, Sol, Lua, Terra, Júpiter, Vênus e Vulcano. Também foi indicada a relação em que a evolução humana se encontra com relação aos corpos celestes que existem além da Terra e que são chamados Saturno, Júpiter, Marte, e assim por diante. Estes últimos planetas também estão passando por sua evolução de maneira natural. No período atual, eles alcançaram tal estágio que suas porções físicas são vistas como aqueles corpos que a astronomia física chama de Saturno, Júpiter, Marte, e assim por diante. Ora, quando o Saturno dos dias atuais é observado pelo ocultismo, vê-se que ele é, em certo sentido, uma reencarnação do antigo Saturno. Ele veio a existir devido à presença de certos seres que, antes da separação do Sol da Terra, não puderam, como os outros, partir com o Sol. A razão disso foi que eles haviam adquirido tantas qualidades adequadas para uma existência saturnina que seu lugar não poderia ser onde as qualidades do Sol eram especialmente...

Sol e Lua são meramente nomes para formas passadas de evolução pelas quais a Terra passou. No decorrer do relato seguinte, será mostrado que relação esses mundos da antiguidade remota têm com os corpos celestes que compõem o atual sistema solar.

Se as condições das quatro encarnações planetárias nomeadas devem agora ser descritas, elas só podem ser esboçadas brevemente, pois os eventos, os seres e o destino desses seres em Saturno, Sol e Lua são, na verdade, tão variados quanto os da própria Terra. Portanto, apenas alguns detalhes característicos das condições predominantes podem ser selecionados para descrição, com o propósito de ilustrar a maneira pela qual as condições da Terra evoluíram a partir de suas formas anteriores. Deve-se também ter em mente, nessa conexão, que essas condições são vistas como cada vez mais diferentes das condições atuais quanto mais recuamos. E, no entanto, elas só podem ser descritas, quanto às suas principais características, por...

No Sol (do mesmo modo que Marte é um planeta habitado por seres cuja condição lunar era tal que os progressos na Terra nada podiam trazer-lhes), Marte é uma reencarnação do antigo estado lunar num estágio superior. O atual Mercúrio é a morada de seres que estão além da evolução da Terra, mas isso se deve justamente ao fato de terem desenvolvido certas qualidades de maneira mais elevada do que é possível na própria Terra. O atual Vênus é uma antecipação da futura condição venusiana de tipo semelhante. É, consequentemente, justificável dar às condições que precedem e seguem a Terra os nomes de seus correspondentes representantes no universo.


fazendo uso de ideias emprestadas das condições existentes na Terra. Se, por exemplo, luz, calor ou algo semelhante forem mencionados em conexão com essas condições anteriores, não se deve esquecer que não são exatamente os mesmos que aquilo que hoje chamamos de luz e calor. E, no entanto, tal terminologia é exata, pois para o observador clarividente dos estágios anteriores da evolução torna-se manifesto algo de onde surgiram a luz e o calor do tempo presente. E aquele que seguir as descrições assim dadas pela ciência oculta poderá bem inferir, pela conexão em que essas matérias são colocadas, quais ideias devem ser adotadas para se obterem imagens características e semelhanças dos eventos ocorridos num passado primevo. Naturalmente, haverá considerável dificuldade em tratar daquelas condições planetárias que precederam a encarnação lunar. Pois durante esta, prevaleceram condições que guardavam, de qualquer modo, alguma semelhança com as condições terrestres. Quem tenta descrever essas condições descobre que tais semelhanças com o tempo presente formam uma certa base sobre a qual ele pode representar claramente as observações feitas através da clarividência. Outra coisa é quando as evoluções de Saturno e do Sol devem ser descritas. Nesse caso, o que se apresenta à observação clarividente é totalmente diferente dos objetos e seres que agora pertencem à esfera da vida humana.

E essa diferença torna extremamente difícil trazer os fatos correspondentes dos tempos primevos para o âmbito da consciência clarividente.

X2b UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

Contudo, como a constituição atual do homem não pode ser compreendida sem remontar ao estado de Saturno, a descrição deve, não obstante, ser dada. E certamente ninguém interpretará mal tal descrição se tiver em vista a existência da dificuldade, e o fato de que, devido a ela, muito do que é dito deve ter a natureza de uma sugestão ou insinuação dos fatos em questão, em vez de uma descrição exata deles.

■

O corpo físico é o mais antigo dos quatro princípios atuais do ser do homem. É também aquele que, à sua maneira, alcançou a maior perfeição. A pesquisa oculta mostra que esta parte do homem já existia durante a evolução de Saturno.

Será mostrado no relato a seguir que a forma assumida pelo corpo físico em Saturno era, naturalmente, algo bastante diferente do corpo físico atual do homem.

O corpo físico humano terreno, por sua natureza, só pode existir estando em conexão com os corpos etérico e astral e com o ego, da maneira descrita anteriormente neste livro. Tal conexão não existia ainda em Saturno.

O corpo físico estava então passando pelo primeiro estágio de sua evolução, sem ter um corpo etérico humano, corpo astral ou ego incorporados a ele.

Durante a evolução de Saturno, ele estava crescendo.

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 12 j

pronto para a recepção de um corpo etérico. Para esse propósito, Saturno teve primeiro que passar a uma condição espiritual, e então ser reencarnado como Sol. Durante a encarnação do Sol, o corpo físico foi desenvolvido novamente, como a partir de um germe deixado para trás, até o ponto que havia alcançado em Saturno, e só então pôde ser interpenetrado por um corpo etérico. Por meio dessa incorporação de um corpo etérico, uma mudança ocorreu na natureza do corpo físico; ele foi elevado a um segundo estágio de perfeição. Algo semelhante ocorreu durante a evolução da Lua. O ancestral do homem, no ponto em que se havia desenvolvido ao passar do Sol para a Lua, incorporou dentro de si o corpo astral. Por esse meio, o corpo físico foi mudado pela terceira vez, e assim elevado ao seu terceiro estágio de perfeição; ao mesmo tempo, o corpo etérico foi igualmente mudado e passou ao seu segundo estágio de perfeição. Na Terra, o Ego foi incorporado ao ancestral do homem, composto dos corpos físico, etérico e astral. Com isso, o corpo físico alcançou seu quarto estágio de perfeição, o corpo etérico seu terceiro, e o corpo astral seu segundo estágio; o Ego está apenas agora no primeiro estágio de sua existência.

Se nos entregarmos a um exame imparcial da natureza do homem, não haverá dificuldade em traçar um quadro preciso desses vários estágios de perfeição de seus

T princípios Nesta conexão, temos apenas que comparar o físico com o corpo astral. É verdade que o corpo astral, como princípio psíquico, está em um nível mais elevado de evolução do que o corpo físico. E em eras futuras, quando o primeiro tiver sido aperfeiçoado, será de muito mais consequência para o ser completo do homem do que o presente corpo físico. Contudo, à sua maneira, este último alcançou um certo grau de perfeição. Considere a maravilhosa sabedoria com que a estrutura do coração é planejada, a surpreendente estrutura do cérebro — até mesmo de parte de um único osso, como a extremidade superior de um fêmur. Na extremidade desse osso, encontramos uma rede ou andaime, maravilhosamente construído e ajustado a partir de delicadas barras pequenas. O todo é tão arranjado que, com o menor gasto de substância material, a ação mais efetiva nas superfícies articulares é obtida — a distribuição mais judiciosa de fricção e, portanto, uma liberdade adequada de movimento. Da mesma forma, engenhosas invenções são encontradas em outras partes do corpo físico. E se continuarmos a observar a harmoniosa cooperação das partes com o todo, descobriremos que é certamente verdade que este princípio do ser do homem é, à sua maneira, perfeito. Além disso, não afeta a questão que em certas partes algo aparentemente inútil apareça, ou que distúrbios de estrutura ou funções possam ocorrer. Será até mesmo descoberto que tais distúrbios são as sombras necessárias da luz cheia de sabedoria que é derramada sobre todo o organismo físico.


E agora compare com isso o corpo astral como o meio, ou veículo, de prazer e dor, desejos e paixões. Que incerteza reina nele com relação ao prazer e à dor, como os desejos e paixões dos quais ele é o cenário contrariam o objetivo mais elevado do homem, quão sem sentido eles frequentemente são. O corpo astral está apenas agora a caminho de alcançar a harmonia e o autocontrole interno que o corpo físico já possui.

Da mesma forma, poderia ser demonstrado que o corpo etérico é certamente mais perfeito à sua maneira do que o astral, mas menos perfeito do que o corpo físico. E resultará igualmente de um estudo correspondente do ego que este, o verdadeiro núcleo do ser humano, está agora apenas no início de sua evolução. Pois quanto de sua missão já foi realizado até agora, que é transformar os outros princípios do ser humano de tal maneira que eles se tornem uma revelação da própria natureza do ego?

O resultado de um exame externo desse tipo é intensificado para o estudante ocultista por algo mais. Poder-se-ia apontar que o corpo físico é atacado por doenças. Ora, a ciência oculta está em condições de mostrar que uma grande proporção de todas as doenças deve sua origem ao fato de que as ações perversas e os erros do corpo astral são transmitidos ao corpo etérico, e indiretamente, por seu intermédio, destroem a perfeita harmonia do corpo físico. A conexão mais profunda, que aqui só pode ser sugerida, e a verdadeira causa de muitas das condições de doença, escapam àquele tipo de observação científica que se limita exclusivamente aos fatos obtidos por meio dos sentidos físicos. A conexão, na maioria dos casos, ocorre de tal maneira que uma lesão ao corpo astral não causa manifestações de doença no corpo físico na mesma encarnação em que a lesão ocorre, mas em uma posterior. Portanto, as leis ora consideradas só têm significado para aquele que é capaz de admitir que a vida terrena humana se repete repetidamente. Mas mesmo que um conhecimento mais profundo desse tipo seja desprezado, a observação comum da vida torna evidente que os seres humanos se entregam a prazeres e desejos em número excessivo, que minam a harmonia do corpo físico. E a sede do prazer, do desejo, da paixão, não está no corpo físico, mas no astral. Este último é ainda tão imperfeito, em muitos aspectos, que é capaz de destruir a harmonia do corpo físico.


Deve-se mencionar também aqui que tais explicações não se destinam de modo algum a servir como provas das afirmações da ciência oculta quanto à evolução dos quatro princípios do ser humano. As provas são extraídas da pesquisa espiritual, que mostra que o corpo físico tem por trás de si uma transformação, realizada quatro vezes,

A EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM

para graus mais elevados de perfeição, e que os outros princípios do homem foram aperfeiçoados em grau menor, como foi descrito. Deseja-se apenas indicar aqui que essas comunicações feitas pela pesquisa espiritual relacionam-se a fatos que são visíveis em seus efeitos até mesmo à observação comum, nos graus de perfeição alcançados

pelo corpo físico, corpo etérico, e assim por diante.

4:

Ele

Se desejarmos traçar um quadro aproximadamente verdadeiro das condições prevalecentes durante a evolução de Saturno, devemos levar em conta que, enquanto ela durou, praticamente ainda não existiam nenhuma das coisas e criaturas que agora pertencem à Terra e estão incluídas nos reinos mineral, vegetal e animal. Os habitantes desses três reinos foram formados durante períodos posteriores da evolução. Somente o homem, dos seres terrestres agora perceptíveis aos sentidos físicos, existia então, e dele apenas seu corpo físico, como descrito. Mas há atualmente na Terra não apenas os habitantes dos reinos mineral, vegetal, animal e humano, mas também outros seres, que não se manifestam em uma corporificação física. Tais entidades também estiveram presentes durante a evolução de Saturno, e sua atividade no cenário de ação de Saturno trouxe à tona a subsequente evolução do homem.

Se os órgãos da percepção espiritual são primeiramente dirigidos, não ao começo e ao fim, mas ao

32 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

período médio da evolução durante a encarnação de Saturno, ver-se-á um ser cósmico, que consiste apenas em calor. Nada se encontra composto de constituintes gasosos, fluidos ou mesmo sólidos. Todos esses estados aparecem somente em encarnações posteriores. Suponhamos que um ser humano, com os atuais órgãos dos sentidos, se aproximasse das condições de Saturno como espectador. Nenhuma das impressões sensoriais possíveis para ele se apresentaria ali, exceto a sensação de calor. Mesmo supondo que tal ser se aproximasse de Saturno, ele apenas sentiria, ao alcançar a porção do espaço que iria ocupar, que esta tinha uma temperatura diferente do resto do seu ambiente espacial. Mas ele não acharia essa porção do espaço de modo algum igualmente quente em toda a sua extensão, pois partes mais quentes e mais frias se alternariam da maneira mais promíscua. Calor radiante seria sentido ao longo de certas linhas. E as linhas não se estenderiam apenas em linha reta, mas formas geométricas seriam formadas pelas variações de calor. Algo seria discernido como um ser cósmico, organicamente construído em si mesmo, aparecendo em condições mutáveis, e consistindo apenas de calor.

É difícil para um homem dos dias atuais formar uma ideia de algo que consiste apenas de calor, pois ele não está acostumado a pensar no calor como algo que existe por si mesmo, mas como uma qualidade perceptível de corpos quentes ou frios, gasosos, líquidos ou sólidos.

Para aquele que adotou as concepções físicas do nosso tempo, parecerá particularmente absurdo falar de calor da maneira acima. Ele dirá, talvez: "Existem corpos sólidos, líquidos e gasosos, mas o calor apenas denota uma condição assumida por uma dessas três formas de corpo. Se as menores partículas de um gás estão em movimento, o movimento será sentido como calor. Onde não há gás, não pode haver movimento, consequentemente não há calor."


Para um investigador oculto, o fato aparece de maneira diferente. Para ele, o calor é algo de que fala no mesmo sentido em que fala de gases, de líquidos ou de corpos sólidos. Para ele, é simplesmente uma substância ainda mais sutil que o gás. E um gás, para ele, nada mais é do que calor condensado, no mesmo sentido em que um líquido é vapor condensado, ou um corpo sólido é líquido condensado. Assim, o ocultista fala de corpos de calor exatamente como fala de corpos formados de gás e vapor.

Se quisermos seguir o investigador espiritual até essa região, basta admitir que existe algo como a percepção psíquica. No mundo, tal como se apresenta aos sentidos físicos, o calor aparece inteiramente como uma condição dos corpos sólidos, líquidos ou gasosos, mas essa condição é meramente a aparência externa do calor, ou o seu efeito. Os físicos falam apenas desse efeito do calor, não de sua natureza íntima. Tentemos, por uma vez, deixar completamente de lado qualquer efeito do calor recebido através dos corpos externos, e realizar apenas a experiência interior que provém de dizer as palavras "sinto calor", "sinto frio". Essa experiência interior é a única coisa capaz de dar uma ideia do que Saturno foi durante o seu período de evolução descrito acima. Teria sido possível atravessar inteiramente a porção do espaço que ele ocupava — não haveria gás algum ali para exercer pressão, nenhum corpo sólido ou líquido do qual pudessem provir impressões de luz —, mas em cada ponto do espaço ocupado, ter-se-ia sentido interiormente, sem qualquer impressão externa: "Aqui há tal e tal grau de calor".


Em um corpo cósmico dessa constituição não há condições para os organismos animais, vegetais e minerais de hoje. Os seres cuja esfera de ação era esse Saturno¹ estavam em um estágio de evolução completamente diferente do dos atuais habitantes da Terra, que são perceptíveis aos sentidos. Em primeiro lugar, havia seres que não possuíam um corpo físico como o do homem contemporâneo. Devemos também nos resguardar de pensar na atual encarnação física do homem quando se faz menção a um "corpo físico" nessa conexão. Antes, devemos distinguir cuidadosamente entre o corpo físico e o corpo mineral. Um corpo físico é um corpo governado por

¹ Portanto, talvez seja quase desnecessário observar que o que foi descrito acima jamais poderia realmente acontecer. Um homem contemporâneo não pode, como é, aproximar-se do antigo Saturno como espectador. O relato foi dado meramente para fins de ilustração.


As leis físicas que hoje são observáveis no reino mineral. Ora, o corpo físico atual do homem não é apenas regido por essas leis físicas, mas ainda é parcialmente composto de matéria mineral. Não pode haver, por enquanto, em Saturno, um corpo físico-mineral desse tipo. Existe apenas uma forma corporal física, governada por leis físicas, mas essas leis se manifestam somente por meio da ação do calor.

Portanto, o corpo físico é um corpo de calor fino, sutil e etéreo, e todo o Saturno consiste em tais corpos de calor. Eles são os primórdios do atual corpo humano físico-mineral. Este último foi formado a partir do primeiro, porque foram incorporadas ao corpo original as substâncias gasosas, líquidas e sólidas formadas mais recentemente.

Entre os seres de que agora falamos, que, além do homem, eram habitantes de Saturno, havia, por exemplo, alguns que não precisavam de um corpo físico de modo algum. O princípio mais baixo de sua natureza era um corpo etérico ou vital. Por outro lado, eles possuíam um princípio mais elevado do que os princípios da natureza humana. O princípio mais elevado do homem é o Espírito-Homem (Atma). Esses seres possuem um ainda mais elevado. E entre o corpo etérico e o Espírito-Homem, eles têm todos os princípios descritos neste livro como também encontrados no homem: o corpo astral, o ego, o Espírito-Self e o Vida-Spírito. Assim como a nossa Terra é cercada por uma atmosfera, também Saturno o era, apenas que, neste caso, a “atmosfera” era de natureza espiritual. Ela realmente consistia dos seres recém-nomeados e de alguns outros. Ora, havia constante ação recíproca entre os corpos de calor de Saturno e os seres que descrevemos. Estes projetavam os princípios de seu ser para baixo, nos corpos físicos de calor de Saturno. E, enquanto não havia vida nesses próprios corpos de calor, a vida de seus vizinhos era expressa neles. Eles poderiam ser comparados a espelhos, apenas que neles se refletiam, não as imagens dos seres vivos acima mencionados, mas suas condições de vida.


Portanto, embora nada de vivo pudesse ter sido descoberto no próprio Saturno, ele tinha, no entanto, um efeito vivificante sobre seu ambiente no espaço celestial, porque devolvia ao espaço, como um eco, o reflexo da vida que lhe fora enviada. Todo o Saturno aparecia como um espelho da vida celestial. Os seres muito elevados cuja vida era refletida por Saturno são chamados na ciência oculta de "Senhores da Sabedoria". Sua atividade em Saturno não começou apenas durante o período médio de sua evolução, que foi descrito. De certa forma, ela já havia então cessado. Antes que pudessem estar em posição de se regozijar no reflexo de sua própria vida a partir dos corpos de calor de Saturno, eles tiveram que tornar esses corpos capazes de produzir tal reflexo. Portanto, sua atividade começou logo após o início da evolução de Saturno. Quando isso aconteceu, o corpo de Saturno era ainda matéria caótica, que não poderia ter refletido nada.

Ao olhar para essa matéria caótica, transportamo-nos, por observação espiritual, para o início da evolução de Saturno. O que ali deve ser observado ainda não possui nada do caráter posterior do calor. Se desejamos descrevê-lo, só podemos falar de uma qualidade que pode ser comparada com a vontade humana. De princípio a fim, não é nada além de "Vontade". Portanto, é uma condição inteiramente espiritual que nos encontra aqui. Se perguntarmos de onde veio essa vontade, vemos que ela procede da efusão de seres exaltados, que trouxeram sua evolução, por passos apenas vagamente concebíveis, até tal ponto que, quando a evolução de Saturno começou, eles foram capazes de derramar vontade de sua própria natureza. Quando essa efusão durou certo tempo, a atividade dos Senhores da Sabedoria descrita acima foi unida à vontade. Por esse meio, a vontade que até então não tinha atributos gradualmente recebeu a qualidade de refletir a vida de volta ao espaço celestial. Na ciência oculta, os seres que encontraram sua felicidade no início da evolução de Saturno em derramar vontade são chamados de "Senhores da Vontade". Na ciência esotérica cristã, eles são chamados de "Tronos".¹

¹ Na ciência espiritual cristã, eles levam o nome de "Kynotetes", isto é, "Dominações".

Após um certo estágio da evolução de Saturno ter sido alcançado, mediante a cooperação da vontade e da vida, estabelece-se a influência de outros seres, que também estão dentro do ambiente de Saturno. Estes são os "Senhores do Movimento".¹ Eles não têm corpo físico nem etérico. Seu princípio mais baixo é o corpo astral. Quando os corpos de Saturno adquiriram a capacidade de refletir a vida, essa vida refletida pode ser interpenetrada com as qualidades que então se espalharam nos corpos astrais dos Senhores do Movimento. Em consequência disso, parece como se expressões de sentimentos, emoções e forças psíquicas semelhantes tivessem sido lançadas de Saturno para o espaço celestial.

Todo Saturno parece como um ser animado, manifestando simpatias e antipatias.

Essas manifestações psíquicas, no entanto, não são de forma alguma próprias dele, mas meramente a atividade dos Senhores do Movimento refletida de volta.

Tendo isso também durado por um certo período, começa a atividade de ainda outros seres, isto é, dos "Senhores da Forma".² Seu princípio mais baixo também é um corpo astral, mas esse corpo está em um estágio de evolução diferente do dos Senhores do Movimento; enquanto estes comunicam apenas manifestações gerais de sentimento à vida refletida, o corpo astral dos Senhores da Forma opera de tal maneira que as manifestações de sentimento são lançadas no espaço cósmico como se viessem de seres individuais. Poder-se-ia dizer que os Senhores do Movimento fazem todo Saturno parecer um ser animado. Os Senhores da Forma separam essa vida em seres vivos individuais, de modo que Saturno agora aparece como um conglomerado de tais seres psíquicos.

¹ A "Dynamis" cristã, ou "Principados".
² A "Exusiai" cristã, ou "Poderes".

Imaginemos, para fins de ilustração, uma amora ou framboesa, composta, como é, de pequenas bagas individuais. Assim, para a visão clarividente, Saturno, no período de evolução ora descrito, é composto de seres saturnianos individuais, que certamente não têm vida nem alma próprias, mas refletem a vida e a alma de seus habitantes. Nessa condição de Saturno, entram então seres cujo corpo astral é também o seu princípio mais baixo, mas que o trouxeram a um estágio tão elevado de desenvolvimento que ele opera da mesma maneira que o atual ego humano. Por meio desses seres, o ego no ambiente de Saturno olha para baixo, para aquele planeta, e imparte a sua natureza aos seres vivos individuais de Saturno. Assim, algo é enviado de Saturno para o espaço cósmico, que tem um efeito similar ao da personalidade humana nas atuais condições de vida. Os seres que causam esse efeito são designados "Filhos da Personalidade". Eles conferem aos corpos saturnianos a aparência de personalidade.

Personalidade

(Os "Arcontes" cristãos, ou "Primeiros Princípios") Ele próprio, no entanto, não está presente em Saturno, mas apenas, por assim dizer, sua imagem refletida, a casca ou invólucro da personalidade. A personalidade real desses espíritos está no ambiente de Saturno. Como resultado desses Filhos da Personalidade deixarem sua essência fluir de volta dos corpos de Saturno, da maneira descrita, aquela substância sutil é concedida a esses corpos, a qual foi anteriormente descrita como calor. Em todo Saturno não há subjetividade, mas os Filhos da Personalidade reconhecem a imagem de sua própria subjetividade, quando ela flui de volta para eles a partir de Saturno como calor.


Quando tudo isso está ocorrendo, os Filhos da Personalidade estão no mesmo nível em que o homem agora se encontra. Eles estão então passando por seu período "humano". Para contemplar esse fato com um olhar imparcial, devemos imaginar ser possível que um ser seja humano sem estar na forma exata em que o homem agora existe. Os Filhos da Personalidade são "seres humanos" em Saturno. Como seu princípio mais baixo, eles não têm o corpo físico, mas o corpo astral com o ego. Portanto, eles não podem expressar as experiências de seu corpo astral em um corpo físico e etérico, como o homem contemporâneo é capaz de fazer; eles não apenas têm um ego, no entanto, mas estão cientes desse fato, porque o calor de Saturno faz esse ego fluir de volta para sua consciência. Na verdade, eles são seres humanos sob circunstâncias diferentes daquelas da Terra.


Na sequência da evolução de Saturno, fatos seguem de um tipo diferente daqueles já relatados. Enquanto tudo até então era um reflexo da vida exterior e do sentimento, agora começa uma espécie de vida interior. No mundo de Saturno, tem início uma vida de luz, tremeluzindo aqui e ali, e tornando-se obscura novamente. Um brilho trêmulo é visto em alguns lugares, algo como relâmpagos em outros. Os corpos de calor de Saturno começam a cintilar, a faiscar e até a emitir raios. Porque este estágio de evolução foi alcançado, surge novamente a possibilidade de certos seres desenvolverem sua atividade. São aqueles conhecidos pela ciência oculta como "Filhos do Fogo". Esses seres certamente possuem um corpo astral, mas neste estágio particular de sua existência são incapazes de dar sugestões aos seus próprios corpos astrais; não seriam capazes de excitar qualquer sentimento ou emoção, a menos que pudessem atuar sobre os corpos de calor que atingiram o estágio de evolução de Saturno descrito. Essa ação lhes oferece a possibilidade de reconhecer sua própria existência a partir do efeito que produzem. Eles não podem dizer a si mesmos: "Eu estou aqui", mas sim: "Meu ambiente me permite estar aqui." Eles têm percepções, e o que percebem são os efeitos de luz em Saturno que foram descritos. Estes são, de certa maneira, o seu ego. Isso lhes dá

Os "Archangeloi" cristãos, ou "Arcanjos" uma espécie peculiar de consciência. Ela é designada como “consciência pictórica”. Pode ser representada como tendo a natureza da consciência de sonho humano, exceto que o grau de atividade que desfruta deve ser pensado como muito maior do que é nos sonhos humanos, e também que não se trata de imagens oníricas sombrias flutuando de um lado para outro, mas de imagens que têm uma conexão real com o jogo de luz em Saturno. Durante essa ação recíproca entre os Filhos do Fogo e os corpos de calor de Saturno, os germes dos órgãos dos sentidos humanos tornam-se incorporados para fins de evolução. Os órgãos, por meio dos quais o homem contemporâneo se torna ciente do mundo físico, começam a brilhar em seus primeiros e delicados contornos etéreos. Fantasmas humanos, exibindo ainda nada além das formas de luz originais dos órgãos dos sentidos, tornam-se discerníveis dentro de Saturno, para a faculdade clarividente de percepção. Esses órgãos dos sentidos são, portanto, o resultado da atividade dos Filhos do Fogo, mas não são apenas esses espíritos que trouxeram à existência o seu início. Outros seres chegam à cena de Saturno ao mesmo tempo que esses Filhos do Fogo — seres tão avançados em sua evolução que são capazes de fazer uso dos germes dos órgãos dos sentidos para contemplar os eventos cósmicos que ocorrem na vida de Saturno. Eles são os “Senhores do Amor”. Se eles não estivessem lá, os Filhos do Fogo não poderiam ter a consciência descrita acima. Eles contemplam os eventos em Saturno com uma consciência que lhes torna possível transmitir esses eventos como imagens aos Filhos do Fogo. Eles próprios renunciam a todas as vantagens que poderiam advir-lhes da contemplação dos eventos em Saturno; eles renunciam a todas as alegrias e prazeres, eles abrem mão de tudo isso para que os Filhos do Fogo possam entrar em posse deles.


Um novo período da existência de Saturno sucede a esses acontecimentos. Algo mais é acrescentado ao jogo de luz. Se o que aqui se apresenta à percepção clarividente for relatado, pode parecer um absurdo para muitos. Dentro de Saturno, sensações entremeadas de paladar parecem estar surgindo. Doce, amargo, azedo são percebidos dentro de Saturno em todos os tipos de lugares, e fora, no espaço, tudo isso é ouvido como som, como uma espécie de música.

Os Serafins Cristãos No curso desses processos, há novamente certos seres que acham possível desenvolver atividade em Saturno. Estes são os “Filhos do Crepúsculo, ou da Vida”¹. Eles entram em ação recíproca com as forças do gosto, que sobem e descem dentro de Saturno. Por esse meio, seu corpo etérico ou vital atinge um estado de tal atividade que pode ser chamado de uma espécie de metabolismo.


Eles trazem vida para o interior de Saturno. Portanto,

¹Os “Angeloi” cristãos, ou “Anjos”.


processos de nutrição e excreção ocorrem em Saturno. Essa vida interior torna possível que ainda outros seres venham ao planeta, os “Senhores da Harmonia”². Eles conferem uma espécie obscura de consciência aos Filhos da Vida, que é ainda mais vaga e obscura do que a consciência de sonho do homem contemporâneo. É do tipo que agora chega ao homem no sono sem sonhos e é, de fato, de uma ordem tão baixa que não entra, por assim dizer, na consciência do homem. No entanto, está lá. Ela difere da consciência de vigília em grau e também em sua natureza. As plantas também têm essa consciência de sono sem sonhos no tempo presente. Embora não produza quaisquer percepções de um mundo externo, no sentido humano das palavras, ela regula os processos vitais e os coloca em harmonia com os processos do mundo exterior.

Esse ajuste não pode ser percebido pelos Filhos da Vida no estágio da evolução de Saturno agora descrito, mas os Senhores da Harmonia o percebem e, portanto, são eles que realmente fazem o ajuste. Toda essa vida se desenrola nos fantasmas humanos já descritos. Para a visão clarividente, eles consequentemente aparecem animados, mas, no entanto, sua vida é apenas uma aparência de vida. É a vida dos Filhos da Vida, que de alguma forma usam os fantasmas humanos para se manifestarem na vida.

²Os “Querubins” cristãos.


Voltemos agora nossa atenção para os fantasmas humanos com sua aparência de vida. Durante o período de Saturno descrito, sua forma está em constante mudança. Às vezes apresentam um aspecto, às vezes outro. No curso posterior da evolução, suas formas tornam-se mais definidas e, ocasionalmente, permanentes. Isso se deve ao fato de serem interpenetrados pela ação dos Espíritos descritos no início da evolução de Saturno — os Senhores da Vontade (os Tronos). A consequência é que o próprio fantasma humano é visto como tendo a forma mais simples e obtusa de consciência. Isso deve ser pensado como ainda mais obtuso do que a consciência do sono sem sonhos. Sob as condições atuais, os minerais têm essa consciência. Ela traz o ser interior em harmonia com o mundo físico exterior. Em Saturno, são os Senhores da Vontade que regulam essa harmonia. E, por esse meio, o homem aparece como uma cópia da própria vida de Saturno. O que a vida de Saturno é em grande escala, o homem neste estágio é em pequena escala. E assim o primeiro germe é preparado para aquilo que ainda é apenas um germe no homem contemporâneo: o “Espírito-Homem” (Atma). Essa obtusa vontade humana dentro de Saturno manifesta-se à faculdade clarividente por efeitos que podem ser comparados a odores. Lá fora, no espaço celestial, há uma manifestação semelhante à de uma personalidade, que, no entanto, não é dirigida por um ego interior, mas regulada de fora, como uma máquina. Aqueles que a regulam são os Senhores da Vontade.

Tornar-se-á evidente, a partir de uma visão geral do que foi exposto, que, partindo da condição intermediária da evolução de Saturno inicialmente retratada, os passos dessa evolução poderiam ser descritos comparando seus efeitos com as percepções sensoriais do tempo presente. Poder-se-ia dizer que a evolução de Saturno se manifesta como calor; depois, um jogo de luz é acrescentado; em seguida, um jogo de gosto e som; por fim, algo aparece que se manifesta no interior de Saturno como sensações de olfato e, no exterior, como um ego humano que funciona como uma máquina.

O que as revelações de Saturno têm a dizer sobre o que precedeu a condição de calor? Ora, isto é o que não pode ser comparado com nada acessível à percepção sensorial externa. Um estado de coisas precede a condição de calor, que o homem contemporâneo experimenta apenas em seu ser interior. Quando ele se entrega a ideias que forma em sua própria alma, sem ter qualquer estímulo externo que atue sobre ele, então ele tem algo dentro de si que não pode ser percebido por nenhum sentido físico, mas é acessível apenas à percepção da visão clarividente superior. Manifestações precedem a condição de calor de Saturno, que só podem ser conhecidas por um clarividente. Três tais condições podem ser mencionadas: calor puramente psíquico, não perceptível externamente; luz puramente espiritual, que é escuridão externamente; e, por último, algo de natureza espiritual que é completo em si mesmo e não necessita de nenhum ser externo para tornar-se autoconsciente. Calor puro e interior acompanha o aparecimento dos Senhores do Movimento; luz pura e espiritual, o dos Senhores da Sabedoria; ser puro e interior está ligado à primeira emanação dos Senhores da Vontade.

Assim, com o aparecimento do calor em Saturno, nossa evolução emerge primeiramente da vida interior da espiritualidade pura para a existência manifesta externamente. É, naturalmente, particularmente difícil para a consciência atual compreender isso, mesmo que se deva acrescentar que o que se conhece como "tempo" aparece primeiramente durante a condição de calor de Saturno. Ou seja, as condições anteriores nada têm a ver com o tempo. Elas pertencem àquela esfera que pode ser chamada, na ciência oculta, de "duração". Consequentemente, tudo o que é dito neste livro sobre as condições existentes na "Esfera da Duração" deve ser entendido de tal maneira que, quando expressões referentes a condições de tempo são usadas, elas são aceitas apenas para fins de comparação e explicação. Aquilo que, em certo sentido, precede o "tempo" só pode ser expresso em linguagem humana por termos que implicam a ideia de tempo.

Mesmo se estivermos cientes de que a primeira, a segunda e a terceira condições de Saturno não foram encenadas "uma após a outra", no sentido atual das palavras, não podemos agir de outra forma.


do que descrevê-las uma após a outra. Na verdade, apesar de sua duração ou coexistência no tempo, elas são tão dependentes umas das outras que essa própria dependência pode ser comparada a uma sequência temporal.

Essa indicação das primeiras condições de evolução em Saturno também lança luz sobre quaisquer questões adicionais que possam ser feitas quanto à origem dessas condições. Do ponto de vista puramente intelectual, é, naturalmente, bem possível, ao lidar com a fonte de qualquer coisa, indagar sobre "a fonte da fonte". Mas diante dos fatos, isso não é possível. Uma comparação nos ajudará a perceber isso. Se encontrarmos sulcos em uma estrada, podemos perguntar: "A que se devem?" E pode-se responder: "A uma carruagem." Pode-se ainda perguntar: "De onde veio a carruagem? Para onde ia?" Uma resposta baseada em fatos é novamente possível. Podemos então prosseguir e perguntar: "Quem ocupava a carruagem? Qual era o propósito da pessoa que a usava? O que ela estava fazendo?" Por fim, porém, chegaremos a um ponto em que a investigação por meio de fatos encontra seu limite natural, e ao indagar mais adiante, nos afastamos das questões originais. Continuamos a investigação apenas mecanicamente, por assim dizer.

Em assuntos como o apresentado como comparação, é fácil ver onde os fatos exigem o fim da investigação. Não é tão evidente quando

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 7

estamos face a face com grandes questões cósmicas. Mas, como resultado de observação realmente exata, ver-se-á, no entanto, que toda investigação sobre origens deve chegar ao fim nas condições de Saturno retratadas acima. Pois alcançamos uma região em que seres e eventos não são mais justificados por aquilo de que procedem, mas por si mesmos.

Como resultado da evolução de Saturno, parece que o germe humano se desenvolveu até um certo ponto. Alcançou o estado baixo e obscuro de consciência descrito acima. Não devemos imaginar que sua evolução só começa no último dos estágios de Saturno. Os Senhores da Vontade realizam seu trabalho através de todas as condições. Apenas o resultado é mais marcante para a percepção clarividente no último período. Não há algo como uma fronteira fixa entre as atividades dos vários grupos de seres. Se se diz que os Senhores da Vontade trabalham primeiro, depois os Senhores da Sabedoria, e assim por diante, não se quer dizer que eles trabalham apenas naquele momento. Eles trabalham durante toda a evolução de Saturno, apenas sua atividade pode ser melhor observada durante os períodos especificados. Os vários grupos têm, por assim dizer, a liderança nesses momentos.

Assim, toda a evolução de Saturno aparece como um desdobramento do que emanou dos Senhores da Vontade através dos Senhores da Sabedoria, do Movimento, da Forma e dos demais. Por esse meio, esses próprios seres espirituais passam por evolução. Por exemplo, os Senhores da Sabedoria se encontram em um nível diferente depois de terem recebido sua vida refletida de volta de Saturno, daquele em que estavam anteriormente. O resultado dessa atividade eleva as faculdades de seu próprio ser. A consequência é que, ao completar tal atividade, algo semelhante ao sono humano sobrevém a eles. A seus períodos de atividade em conexão com Saturno sucedem outros períodos, durante os quais vivem, por assim dizer, em outros mundos. Nesses momentos, sua atividade é retirada de Saturno. Por essa razão, a percepção clarividente vê uma ascensão e um declínio na evolução de Saturno que foi descrita. A ascensão dura até a formação da condição de calor. Então, com o jogo da luz, a maré vazante se instala. E quando os fantasmas humanos assumiram forma através dos Senhores da Vontade, os seres espirituais também gradualmente se retiraram. A evolução de Saturno, como tal, esvai-se; como evolução, desaparece.


Uma espécie de pausa de descanso ocorre.

O germe humano, ao mesmo tempo, entra em um estado de dissolução, não, porém, em um estado em que se desvanece, mas um como o de uma semente de planta, descansando na terra para que possa amadurecer em uma nova planta. Assim, o germe humano, no seio do cosmos, repousa antes de seu próximo despertar. E quando o momento do despertar chegou, os seres espirituais descritos acima adquiriram, sob outras condições, as faculdades pelas quais podem avançar ainda mais o germe humano. Os Senhores da Sabedoria, em seu corpo etérico, ganharam a faculdade não apenas de desfrutar do reflexo da vida como faziam em Saturno, mas de derramar vida a partir de si mesmos e dotar outros seres com ela. Os Senhores do Movimento estão agora tão avançados quanto estavam os Senhores da Sabedoria em Saturno. Então, o princípio mais baixo do seu ser era o corpo astral; agora possuem um corpo etérico, ou vital, e em grau correspondente os outros seres espirituais alcançaram um estágio mais avançado de evolução. Todos esses seres espirituais são, portanto, capazes de agir de maneira diferente, na evolução posterior do germe humano, daquela como agiram em Saturno.


Mas o germe humano foi dissolvido ao final da evolução de Saturno. Para que os seres-espirituais mais altamente evoluídos pudessem retomar seu trabalho onde o haviam deixado, o germe humano deve, mais uma vez, recapitular brevemente os estágios pelos quais passara em Saturno. Isso, de fato, é o que aparece às faculdades clarividentes de percepção. O germe humano emerge de seu retiro e começa a se desenvolver por sua própria capacidade, por meio das forças que nele foram implantadas em Saturno. Ele emerge das trevas como um "ser de Vontade", e assume a aparência de vida, qualidades psíquicas (anímicas), e assim por diante, até aquela manifestação mecânica de personalidade que possuía ao final da evolução de Saturno.


O segundo dos grandes períodos de evolução mencionados, o "período do Sol", efetua a elevação do ser humano a um estágio mais alto de consciência do que aquele que alcançara em Saturno. Comparada ao estado atual de consciência do homem, a condição do Sol poderia certamente ser denominada "inconsciência". Pois é aproximadamente como aquela condição em que o homem contemporâneo se encontra durante o sono absolutamente sem sonhos. Ou poderia ser comparada ao baixo grau de consciência no qual o nosso mundo vegetal agora dormita. Para a ciência oculta não existe tal coisa como inconsciência, mas apenas diferentes graus de consciência. Tudo no mundo é consciente.

No curso da evolução do Sol, a natureza humana atinge um grau mais elevado de consciência através da incorporação, dentro dela, do corpo etérico, ou vital. Antes que isso possa ocorrer, as condições de Saturno devem ser recapituladas da maneira descrita acima. Essa recapitulação tem um significado bastante definido. Isto é, quando o período de repouso do qual se falou na declaração anterior chega ao fim, aquilo que anteriormente era Saturno surge, do “sono cósmico”, como um novo corpo celeste, o Sol. Mas as condições da evolução mudaram entretanto. Os seres-espíritos, cuja atividade em favor de Saturno retratamos, progrediram para condições diferentes. No entanto, a princípio, o germe humano aparece no Sol recém-formado na forma que possuía em Saturno. Ele tem, antes de tudo, de transformar os vários estágios de evolução que adotou em Saturno, de modo que se adaptem às novas condições do Sol. Consequentemente, a época do Sol começa com uma recapitulação dos acontecimentos em Saturno, ajustada às condições alteradas da vida solar. Agora, quando o ser do homem avançou até o ponto em que o estágio de evolução alcançado em Saturno foi adaptado às condições do Sol, os Senhores da Sabedoria, já mencionados, começam a fazer o corpo etérico, ou vital, fluir para dentro do corpo físico. O estágio mais elevado que o homem alcança no Sol pode, portanto, ser descrito desta maneira: o corpo físico, já formado em estado de germe em Saturno, é elevado a um segundo grau de perfeição ao se tornar veículo de um corpo etérico, ou vital. Este último corpo atinge seu primeiro grau de perfeição por conta própria durante a evolução do Sol. Para que, no entanto, o segundo grau de perfeição para o físico e o primeiro para o corpo etérico sejam alcançados, é necessária a interposição de ainda mais seres-espíritos durante o curso posterior da vida do Sol, de maneira semelhante àquela que foi descrita como ocorrendo durante o estágio de Saturno.



Quando os Senhores da Sabedoria começam a derramar-se no corpo etérico, o corpo solar, antes obscuro, começa a brilhar. Ao mesmo tempo, as primeiras manifestações de atividade interna são vistas no germe humano; a vida começou. O que teve de ser descrito como uma semelhança de vida em Saturno torna-se agora vida real. O influxo dura por certo tempo, ao fim do qual uma importante mudança se instaura no germe humano — isto é, ele se divide em duas partes. Enquanto até este ponto os corpos físico e etérico formavam um todo intimamente unido, o corpo físico agora começa a se separar como uma parte distinta. Contudo, mesmo esse corpo físico separado ainda é perpassado pelo corpo etérico. Portanto, temos agora diante de nós um ser humano composto de dois princípios. Uma porção é um corpo físico permeado por um corpo etérico; a outra é o corpo etérico e nada mais. Essa separação ocorre, no entanto, durante um período de repouso na vida solar. Durante essa pausa, o brilho que começara a aparecer se extingue. A separação se dá, por assim dizer, durante uma "noite cósmica" (Pralaya). Contudo, esse intervalo de repouso é muito mais curto do que aquele entre as evoluções de Saturno e do Sol mencionado acima. Ao expirar o período de repouso, os Senhores da Sabedoria

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 15

trabalham por um tempo sobre o ser de dois princípios do homem, assim como anteriormente haviam feito sobre o ser de um princípio. Então os Senhores do Movimento começam sua atividade. Eles fluem através do corpo etérico humano com seu próprio corpo astral. Por esse meio, o homem adquire a capacidade de executar movimentos internos no corpo físico. Esses movimentos podem ser comparados aos da seiva em uma planta de nossa época.

O corpo de Saturno consistia inteiramente de substância de calor. Durante a evolução do Sol, essa substância de calor é condensada no estado que pode ser comparado ao do nosso atual gás ou vapor. É a condição que a ciência oculta está acostumada a chamar de "ar". Os primeiros começos de tal estado são vistos depois que os Senhores do Movimento começaram sua atividade. O seguinte espetáculo se apresenta à consciência clarividente: dentro da substância de calor aparece algo como delicados organismos que são postos em movimento regular pelas forças do corpo etérico. Esses organismos representam o corpo físico humano no estágio de evolução que lhe é então próprio. Eles são penetrados de todo através de calor e também envolvidos, por assim dizer, em um invólucro de calor. De um ponto de vista físico, pode-se dizer que a natureza do homem é composta de estruturas de calor com formas de ar embutidas nelas — estas últimas em movimento regular. Portanto, se desejarmos manter a comparação anterior com uma planta dos dias atuais, devemos lembrar que não é um organismo vegetal sólido que temos de considerar, mas uma forma de ar ou gás, cujos movimentos podem ser comparados com a circulação da seiva nas plantas de hoje.

A evolução assim indicada continua. Após certo tempo, outro intervalo de repouso se instala; depois disso, os Senhores do Movimento continuam trabalhando até que sua atividade seja complementada pela dos Senhores da Forma. O efeito destes últimos é que as estruturas gasosas, que antes estavam em constante mudança, agora assumem formas duradouras. Isso também acontece porque os Senhores da Forma deixam suas forças fluírem para dentro e para fora do corpo etérico humano. Quando apenas os Senhores do Movimento atuavam sobre os organismos gasosos, estes estavam em movimento perpétuo, não mantendo sua forma por um instante. Agora, porém, eles assumem temporariamente formas distinguíveis. Novamente, após certo período, ocorre um tempo de repouso; mais uma vez, depois disso, os Senhores da Forma continuam sua atividade. Mas então condições inteiramente novas se instalam dentro da evolução do Sol.

Pois o ponto foi agora alcançado em que a evolução do Sol atingiu seu zênite. Este é o momento em que os Senhores da Personalidade, que alcançaram seu estágio humano em Saturno, ascendem a um grau mais elevado de perfeição. Eles avançam além do estágio humano, alcançam uma forma de

O gás parece à consciência clarividente através do efeito da luz que dele emana. Poderíamos, portanto, falar também de formas de luz, que são aparentes à visão espiritual.


consciência que o homem contemporâneo ainda não possui em seu curso normal de desenvolvimento na Terra. Ele a adquirirá quando a Terra — o quarto dos estágios planetários da evolução — tiver alcançado sua meta e tiver entrado no próximo período planetário. Então o homem não perceberá apenas ao seu redor o que seus atuais sentidos físicos lhe permitem conhecer, mas poderá ver em imagens as condições psíquicas internas dos seres que o cercam. Ele terá uma consciência de imagens (clarividente), embora retendo completa autoconsciência. Não haverá nada de sonhador ou vago em sua clarividência, mas ele sentirá o que é psíquico, certamente em imagens, mas de tal modo que essas imagens serão a expressão de realidades, como as cores e os sons físicos o são agora. O homem, atualmente, só pode atingir esse grau de clarividência através do treinamento oculto, que será tratado mais adiante neste livro.

Ora, essa clarividência é alcançada pelos Filhos da Personalidade, como dom de sua evolução normal, em meados do período do Sol, e é justamente por essa razão que eles se tornam capazes de atuar sobre o recém-formado corpo etérico do homem durante a evolução do Sol, de maneira semelhante àquela com que atuaram sobre o corpo físico em Saturno. Assim como ali o calor refletia de volta para eles sua própria personalidade, agora os organismos gasosos refletem de volta para eles, em clarões de luz, as

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imagens de sua consciência clarividente. Eles contemplam clarividentemente o que está ocorrendo no Sol. Essa visão não é de modo algum mera observação; é como se algo da força que os mortais chamam de amor se fizesse sentir nas imagens que emanam do Sol. E se um clarividente olhar mais de perto, encontrará a causa dessa aparência. Seres exaltados mesclaram sua atividade com a luz que está sendo irradiada do Sol. Eles são os Senhores do Amor (os Serafins cristãos), já mencionados. Doravante eles atuam, juntamente com os Filhos da Personalidade, sobre o corpo etérico, ou vital, humano.

Por meio dessa atividade, o corpo etérico avança um passo adiante em seu caminho de evolução. Adquire a capacidade não apenas de transformar as formas gasosas dentro de si, mas de elaborá-las de tal modo que as primeiras indicações de uma propagação de seres humanos vivos aparecem. De alguma forma, algo é segregado e expelido (como que exsudado) dos organismos gasosos que foram formados, e é moldado em formas semelhantes às suas formas-maternas.

Para descrever o curso posterior da evolução do Sol, deve-se fazer referência a um fato na formação dos mundos que é da maior significância possível. É este: — que de modo algum todo ser atinge a meta de sua evolução no curso de uma época; há alguns que ficam aquém dessa meta.

Assim, durante a evolução de Saturno, não foram todos os Filhos da Personalidade que realmente alcançaram o estágio humano para o qual, como descrito acima, estavam destinados, e tampouco todos os corpos físicos humanos, desenvolvidos em Saturno, atingiram o grau de maturidade que os qualifica para se tornarem veículos de um corpo etérico autossuficiente no Sol. A consequência é que seres e organismos estão presentes no Sol que não estão em harmonia com seu ambiente. Estes devem agora compensar, durante a evolução do Sol, o que não conseguiram atingir em Saturno. O seguinte pode, portanto, ser observado clarividentemente durante o período do Sol. Quando os Senhores da Sabedoria começam sua infusão do corpo etérico, o corpo do Sol é até certo ponto obscurecido. Estruturas são misturadas a ele que, propriamente falando, pertencem a Saturno. São organismos de calor que não são capazes de se condensar em ar da maneira adequada. Esses são os seres humanos deixados para trás no estágio de Saturno. Eles não são capazes de se tornar veículos de um corpo etérico aperfeiçoado da maneira normal.


Agora, a substância de calor de Saturno, que assim foi deixada para trás, divide-se em duas partes no Sol. Uma parte é absorvida, por assim dizer, pelos corpos humanos e, daí em diante, forma uma espécie de natureza inferior dentro do ser do homem. Assim, algo que realmente corresponde ao estágio de Saturno é incorporado na parte corpórea do homem no Sol.

Agora, assim como o corpo de Saturno do homem tornou possível que os Filhos da Personalidade se misturassem ao estágio humano, a parte saturnina do homem desempenha o mesmo ofício no Sol para os Filhos do Fogo. Eles se elevam ao estágio humano deixando suas forças fluírem para dentro e para fora da parte saturnina do homem, como fizeram os Filhos da Personalidade em Saturno.

Isso também ocorre no período médio da evolução do Sol. A parte saturnina da natureza humana está então tão amadurecida que, com sua ajuda, os Filhos do Fogo (Arcanjos) são capazes de passar por seu estágio humano. Outra parte da substância de calor saturnina se desprende e alcança uma existência independente ao lado e entre os seres humanos no Sol. Isso forma um segundo reino ao lado do reino humano, um reino que desenvolve no Sol apenas um corpo físico perfeitamente independente, como um corpo de calor. Em consequência disso, os Filhos da Personalidade plenamente evoluídos não conseguem dirigir sua atividade para qualquer corpo etérico independente da maneira antes descrita. Mas havia também certos Filhos da Personalidade que ficaram para trás no estágio de Saturno, que então ficaram aquém da humanidade. Existe um vínculo de atração entre eles e o segundo reino do Sol, que se tornou independente. Eles devem agora agir em relação ao reino atrasado no Sol como seus irmãos avançados fizeram em Saturno com respeito a

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 161

seres humanos. Estes últimos tinham apenas seu corpo físico aperfeiçoado ali. Mas não há possibilidade no Sol para tal trabalho por parte dos Filhos atrasados da Personalidade. Eles, portanto, separam-se do corpo do Sol e formam um corpo celeste autônomo fora dele. Esse corpo, consequentemente, afasta-se do Sol, e dele os Filhos atrasados da Personalidade atuam sobre os seres do segundo reino do Sol que foram descritos. Dessa forma, dois organismos mundiais foram formados a partir daquele que anteriormente era Saturno. O Sol agora tem em seu ambiente um segundo corpo celeste, que exibe uma espécie de renascimento de Saturno, um novo Saturno. Desse Saturno, o caráter da personalidade é conferido ao segundo reino do Sol. Portanto, dentro desse reino temos a ver com seres que não têm personalidade no próprio Sol. Mas ainda assim eles refletem de volta aos Filhos da Personalidade no novo Saturno a personalidade especial desses espíritos. A consciência clarividente é capaz de observar forças de calor entre os seres humanos no Sol, que atuam sobre o curso regular da evolução solar, e nas quais se vê a influência dos espíritos descritos como pertencentes ao novo Saturno.

Temos que notar os seguintes fatos sobre o ser humano durante o período médio da evolução do Sol. Ele está dividido em um corpo físico e um corpo etérico. Dentro destes, atua a atividade dos Filhos avançados da Personalidade em conjunto com a dos Senhores do Amor. Agora, parte da natureza atrasada de Saturno está misturada com o corpo físico. Nesta, atua a atividade dos Filhos do Fogo. Temos agora que ver em tudo o que os Filhos do Fogo efetuam sobre a natureza atrasada de Saturno os precursores dos atuais órgãos dos sentidos humanos. Foi mostrado como esses Filhos do Fogo já trabalhavam na elaboração dos germes dos sentidos na substância de calor em Saturno. O primeiro esboço das atuais glândulas humanas é reconhecido no que é realizado pelos Filhos da Personalidade em conjunto com os Senhores do Amor (Serafins). Mas quando isso é feito, o trabalho dos Filhos da Personalidade que habitam o novo Saturno ainda não está terminado. Eles não apenas estendem sua atividade ao segundo reino do Sol mencionado acima, mas estabelecem uma espécie de conexão entre esse reino e os sentidos humanos. As substâncias de calor desse reino fluem para dentro e para fora dos germes dos órgãos dos sentidos humanos.

Por esse meio, o ser humano no Sol adquire uma espécie de percepção do reino inferior situado fora dele. Essa percepção é, naturalmente, apenas uma percepção obscura, correspondendo de perto à opaca consciência de Saturno anteriormente tratada. E ela consiste essencialmente de vários efeitos de calor. Tudo o que aqui foi descrito como ocorrendo no meio da evolução do Sol dura por um período definido.


Então ocorre novamente um período de repouso. Depois disso, as coisas continuam por um tempo da mesma maneira até um certo ponto da evolução, no qual o corpo etérico humano está tão amadurecido que uma ação unida dos Filhos da Vida (Angeloi) e dos Senhores da Harmonia (Querubins) pode ter início. Aparecem então, à consciência clarividente, dentro do ser do homem, certas manifestações que podem ser comparadas com percepções de gosto, e que se tornam conhecidas externamente como sons.

Algo semelhante já foi afirmado sobre a evolução de Saturno. Mas aqui no Sol os processos relativos aos seres humanos são mais interiores e plenos de vida mais autônoma.

Os Filhos da Vida adquirem assim aquela obscura consciência de imagens que os Filhos do Fogo já haviam alcançado em Saturno.

Nisso, os Senhores da Harmonia são seus auxiliares. Eles realmente contemplam clarividentemente o que agora se desenrola dentro da evolução do Sol, apenas renunciam a todos os resultados dessa contemplação e ao gozo dessas revelações da Sabedoria que dela surgem, e permitem que elas fluam, como esplêndidas visões de encantamento, para a consciência onírica dos Filhos da Vida. Estes, por sua vez, trabalham essas imagens de suas visões no corpo etérico do homem, de modo que ele atinge estágios cada vez mais elevados de desenvolvimento.

Novamente um intervalo de repouso se instala, novamente tudo é erguido do "sono cósmico", e após

66 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

se apenas dirigirmos nossa visão espiritual a uma das ordens de seres já mencionadas, por exemplo, aos Senhores da Sabedoria. Eles não estavam evoluídos o suficiente em Saturno para poderem derramar de si mesmos um corpo etérico. Eles não estavam preparados para isso até terem passado por suas experiências em Saturno. Durante o repouso (Pralaya), eles transformam em faculdade real o que havia sido previamente preparado neles. Assim, no Sol, eles estão evoluídos o suficiente para derramar vida de si mesmos e dotar o ser humano de um corpo etérico próprio.

Após o intervalo de repouso, aquilo que anteriormente fora o Sol surge novamente do “sono dos mundos”. Isto é, torna-se novamente perceptível às faculdades clarividentes que puderam observá-lo antes, mas que o perderam de vista durante o período de repouso. Há agora dois pontos a serem observados com relação ao organismo planetário que aparece novamente, o qual pode, na ciência oculta, ser designado como “Lua” (e isso não deve ser confundido com a parte dela que é agora a lua da Terra). Em primeiro lugar, aquilo que se destacara durante o período do Sol como um “novo Saturno” está novamente dentro do novo corpo planetário. Esse Saturno foi, portanto, novamente unido ao Sol durante o período de repouso. Tudo o que estava no Saturno original reaparece inicialmente como um único organismo-mundo. Em segundo lugar, os corpos etéricos humanos que haviam sido formados no Sol foram absorvidos, durante o período de repouso, por aquilo que constitui o envoltório espiritual do planeta. Neste ponto do tempo, portanto, eles não aparecem unidos aos correspondentes corpos físicos humanos, mas estes últimos aparecem inicialmente separados. É verdade que eles contêm tudo o que havia sido adquirido para eles em Saturno e no Sol, mas estão sem o corpo etérico, ou vital. Na verdade, eles não podem incorporar esse corpo etérico imediatamente, pois ele também tem passado, durante o período de repouso, por uma evolução com a qual ainda não estão harmonizados. O que ocorre no início da evolução da Lua, para realizar esse ajuste, é, antes de tudo, outra recapitulação dos eventos saturnianos. A parte física do homem passa mais uma vez pelos estágios da evolução de Saturno, mas sob circunstâncias grandemente alteradas. Em Saturno havia apenas as forças de um corpo de calor atuando internamente; agora há também as do corpo gasoso que foi elaborado. Essas últimas forças, porém, não aparecem bem no início da evolução da Lua. Então tudo aparece como se o ser do homem fosse composto apenas de substância de calor, e como se as forças gasosas estivessem adormecidas.

Dentro dessa substância, chega então um momento em que as primeiras indicações dessas forças fazem sua aparição e, por fim, no último período da recapitulação de Saturno, o ser do homem tem a mesma aparência que durante sua condição de vida no Sol. Contudo, mesmo agora, toda a vida ali se revela apenas como uma aparência de vida.

Em seguida, ocorre um período de descanso, semelhante aos curtos períodos de descanso da evolução do Sol.

Então, o influxo do corpo etéreo, para o qual o corpo físico agora se tornou maduro, recomeça. Como no caso da recapitulação de Saturno, esse influxo ocorre em três períodos, distinguíveis um do outro. Durante o segundo deles, o ser do homem está tão ajustado às novas condições da Lua que os Senhores do Movimento conseguem colocar em ação a faculdade que adquiriram. Essa faculdade consiste em derramarem o corpo astral de seu próprio ser para dentro do homem. Eles se prepararam para esse trabalho durante a evolução do Sol e, durante o tempo de descanso entre o Sol e a Lua, transformaram o que havia sido preparado na faculdade aludida. Esse influxo dura por um tempo; então, um dos intervalos mais curtos de descanso se instala. Depois disso, o influxo continua até que os Senhores da Forma iniciem sua atividade. Em consequência do derramamento do corpo astral no ser do homem pelos Senhores do Movimento, este adquire suas primeiras qualidades psíquicas. Ele começa a desenvolver sensações em conexão com os processos que nele ocorrem por possuir um corpo etéreo e que, durante a evolução do Sol, ainda eram de natureza vegetal; por meio desses processos, o ser do homem agora experimenta prazer e aversão. Mas isso não é nada mais do que um constante fluxo e refluxo interno de tal prazer e aversão, até que os Senhores da Forma intervenham. Então, esses sentimentos cambiantes são tão transformados que aparecem na natureza do homem o que pode ser considerado como os primeiros sinais de anseios e desejos. O ser se esforça por uma repetição do que uma vez causou prazer e tenta evitar o que foi sentido como antipático. Como, no entanto, os Senhores da Forma não entregam sua própria natureza ao ser humano, mas apenas deixam suas forças fluírem para dentro e para fora, falta ao desejo profundidade de sentimento e independência. Ele é dirigido pelos Senhores da Forma e faz sua aparição com um caráter instintivo.


O corpo físico humano em Saturno era um corpo de calor; no Sol, iniciou-se uma condensação ao estado gasoso, ou ao "ar". Agora, como durante a evolução da Lua o elemento astral é derramado, e a parte física, em um momento definido, atinge um grau ulterior de condensação, ela chega a um estado que pode ser comparado ao de um líquido dos nossos dias. De acordo com o uso da ciência oculta, esse estado pode ser chamado de "água". Mas por esse termo não se entende a água que temos hoje, mas toda forma líquida existente. O corpo físico humano agora gradualmente assume uma forma composta de três tipos de estruturas materiais. O mais denso é um "corpo de água"; através deste fluem correntes de ar, e através desses dois passa ainda a atividade do calor.


Agora, todos os organismos não atingem plena e adequada maturidade durante o estágio do Sol. Portanto, há organismos formados na Lua que estão apenas no estágio de Saturno, e outros que apenas alcançaram o estágio do Sol. Dessa forma, dois outros reinos surgem ao lado do reino humano normalmente evoluído. Um consiste de seres que pararam no estágio de Saturno e, portanto, têm apenas um corpo físico, que mesmo na Lua ainda não é capaz de se tornar o veículo de um corpo etérico independente. Este é o mais baixo dos reinos da Lua. Um segundo consiste de seres que ficaram para trás no estágio do Sol e que, portanto, não são maduros o suficiente na Lua para incorporar dentro de si um corpo astral independente.

Estes formam um reino entre o mencionado acima e o reino humano que progride regularmente.

Mas há ainda algo mais acontecendo: as substâncias com apenas forças de calor e aquelas com apenas forças de ar permeiam também o humano Assim, acontece que estes últimos possuem dentro de si, na Lua, uma natureza saturniana e uma natureza solar. Dessa forma, uma espécie de cisão ocorreu na natureza humana, e por meio dessa divisão, algo muito importante é evocado na evolução lunar após o início da atividade dos Senhores da Forma. Uma cisão no corpo celeste da Lua começa a ser preparada. Pois uma parte de suas substâncias e seres se separa da outra; dois corpos celestes são formados a partir de um. Um destes se torna a morada de certos seres superiores que estavam anteriormente mais intimamente ligados ao corpo celeste indiviso, enquanto o outro é ocupado por seres humanos, os dois reinos inferiores descritos acima, e certos seres superiores que não passaram para o primeiro corpo celeste.


O primeiro corpo celeste, com os seres superiores, aparece como um Sol recém-nascido, porém refinado; o outro é realmente a nova formação, a "velha Lua". O Sol regenerado, ao sair, leva consigo apenas "calor" e "ar" das substâncias que foram formadas na Lua; no que resta como Lua, há a condição líquida, bem como as outras duas substâncias. Por essa separação, acontece que os seres que se retiraram com o Sol recém-nascido não são, num primeiro momento, impedidos em sua evolução posterior pelos seres mais densos da Lua. Assim, eles podem continuar seu próprio progresso sem impedimentos.

Mas, por esse meio, eles adquirem muito mais poder, de modo que agora podem, a partir de seu Sol, influenciar os seres da Lua. Estes também adquirem, com isso, novas possibilidades de evolução. O mais importante de tudo, os Senhores da Forma ainda estão em união com eles. Estes confirmam os apetites e a natureza do desejo, e isso também se expressa gradualmente numa maior condensação do corpo físico humano. O que antes era apenas líquido nesse corpo assume uma forma densamente viscosa, e os organismos de ar e calor são correspondentemente condensados. Processos semelhantes ocorrem nos dois reinos inferiores.

O resultado da separação do corpo lunar do corpo solar é que o primeiro mantém a mesma relação com o último que o corpo de Saturno outrora manteve com toda a evolução cósmica que o circundava. A esfera de Saturno foi formada a partir do corpo dos "Senhores da Vontade" (os Tronos). De sua substância refluiu para o espaço cósmico tudo o que foi experienciado em sua periferia pelos seres espirituais acima mencionados. E essa radiação, por graus, despertou vida independente, por meio dos seguintes processos. Toda evolução é, de fato, devida ao fato de que o ser independente é primeiro separado da vida que o circunda, que em seguida o ambiente é impresso, como que por reflexão, sobre o ser separado, e que então esse ser destacado evolui independentemente. Assim foi o corpo lunar destacado do corpo solar, refletindo a princípio a vida deste último. Se nada mais tivesse então acontecido, o seguinte processo cósmico teria ocorrido. Haveria um corpo solar no qual seres espirituais adaptados a esse corpo teriam vivido suas experiências nos elementos de calor e ar. Em oposição a esse corpo solar, teria havido um corpo lunar, no qual outros seres, de natureza semelhante aos seres solares, teriam passado por suas experiências nas condições de calor, ar e água. O progresso da evolução solar para a da Lua teria consistido em os seres solares terem sua própria vida, após os eventos na Lua, refletida diante de si em um espelho, e em poderem desfrutá-la, o que lhes era impossível durante a encarnação solar. Mas a evolução não permaneceu nesse estágio. Algo aconteceu da mais profunda significação para toda a evolução vindoura. Certos seres adaptados ao corpo lunar apoderam-se do elemento da vontade (a herança dos Tronos) que estava à sua disposição e, por meio dele, desenvolvem uma vida própria, que toma forma independentemente da vida solar. Ao lado daquelas experiências lunares que estão inteiramente sob a influência do sol, surgem experiências lunares independentes — como que estados de rebelião ou motim contra os seres solares. E os vários reinos que surgiram no Sol e na Lua, primeira e principalmente o reino dos ancestrais do homem, são atraídas para essas condições. Dessa forma, o corpo da Lua contém dentro de si, espiritual e materialmente, dois tipos de vida: uma que está em união interior com a vida do Sol, e outra que dele "se afastou" e segue seu próprio caminho de forma independente. Essa divisão em uma vida dupla aparece em todos os eventos subsequentes da encarnação da Lua. O que se apresenta à consciência clarividente nesse período de evolução pode ser percebido a partir das seguintes imagens. Toda a composição básica da Lua é formada por uma substância semiviva, que ora se move lentamente, ora rapidamente. Ainda não é uma massa mineral no sentido de ser composta pelas rochas e constituintes da Terra sobre a qual o homem contemporâneo caminha. Poderíamos chamá-la de um reino de vegetais-minerais, apenas temos de imaginar que o corpo principal da Lua consiste dessa substância vegetal-mineral, assim como a Terra hoje consiste de rochas, terra e outras substâncias. Assim como agora temos massas elevadas de rocha, havia então porções mais duras incrustadas na massa da Lua; estas podem ser comparadas a estruturas de madeira dura ou formações de chifre, e assim como as plantas agora surgem do solo mineral, a superfície da Lua era coberta e penetrada pelo segundo reino, consistindo de uma espécie de vegetais-animais. Sua substância era mais macia que a massa geral da Lua e mais móvel. Esse reino se estendia sobre o outro, como um mar viscoso. O próprio homem, naquela época, pode ser chamado de homem-animal. Ele tinha em sua natureza os componentes dos outros dois reinos, mas seu ser era completamente interpenetrado por um corpo etérico e um corpo astral, sobre os quais atuavam as forças de seres superiores que emanavam do Sol separado. Sua forma foi assim levada a maior perfeição. Enquanto os Senhores da Forma lhe davam uma estrutura que o adaptava à vida lunar, os Espíritos do Sol lhe davam uma natureza que o elevava além dessa vida. Ele tinha o poder de enobrecer sua própria natureza com as faculdades que lhe eram dadas por esses Espíritos — de fato, de elevar o que era afim aos reinos inferiores a um nível mais alto.




Visto espiritualmente, os eventos agora em consideração podem ser descritos da seguinte maneira: o ancestral do homem havia sido levado a maior perfeição por seres que haviam caído do reino do Sol. Esse aperfeiçoamento estendia-se especialmente a tudo o que podia ser experimentado no elemento da água. Sobre esse elemento, os seres solares, que eram regentes nos elementos do calor e do ar, tinham menos influência. A consequência disso foi que, no organismo do ancestral do homem, dois tipos de seres se fizeram sentir. Uma parte do organismo era inteiramente interpenetrada pelas influências dos seres solares. Na outra parte, os rebeldes seres lunares atuavam. Devido a isso, esta última parte era mais independente do que a primeira. Na primeira, só podiam surgir estados de consciência nos quais os seres solares viviam; na última, vivia uma espécie de consciência universal, como fora especialmente o caso em Saturno, apenas que agora em um plano mais elevado.

O ancestral do homem, consequentemente, parecia a si mesmo uma "imagem do universo", enquanto sua "parte solar" sentia-se apenas uma "imagem do Sol". Os dois seres entraram então em uma espécie de conflito na natureza do homem. Um acordo desse conflito foi efetuado pela influência do ser solar, por meio da qual o organismo material que tornava possível a consciência universal independente foi tornado frágil e perecível. De tempos em tempos, essa parte do organismo tinha de ser separada. Durante e algum tempo após a separação, o ancestral do homem era um ser inteiramente dependente da influência solar. Sua consciência tornava-se menos independente; ele vivia dentro dela, inteiramente entregue à vida solar. Então a porção lunar independente era renovada mais uma vez. Após algum tempo, esse processo sempre se repetia. Assim, o ancestral do homem vivia na Lua em condições alternadas de consciência mais clara e mais obscurecida, e a alternância era acompanhada por uma mudança de seu ser em aspecto material. De tempos em tempos, ele deixava de lado seu corpo lunar e o reassumia mais tarde. Visto fisicamente, grande variedade aparece nos reinos da Lua que foram mencionados.

As plantas-minerais, os animais-plantas e os homens-animais são diferenciados em grupos. Isso será compreendido quando se tiver em mente que, em consequência de os organismos serem deixados para trás em cada um dos estágios anteriores da evolução, formas possuidoras das mais variadas qualidades foram incorporadas. Há organismos que ainda mostram as qualidades elementares de Saturno, outros do período médio daquele mundo, outros do seu fim. Uma afirmação semelhante é verdadeira para todos os estágios da evolução do Sol.

Assim como os organismos relacionados ao planeta em evolução são deixados para trás, o mesmo ocorre com certos seres ligados a essa evolução. Através do progresso gradual do desenvolvimento até o período da Lua, muitos graus de tais seres já surgiram. Há os Filhos da Personalidade que nunca atingiram seu estágio humano no Sol, mas também estão presentes alguns que compensaram no período da Lua o tempo perdido e se tornaram humanos. Vários dos Filhos do Fogo, que deveriam ter atingido a humanidade no Sol, também foram deixados para trás. Agora, assim como durante a evolução do Sol certos Filhos da Personalidade se retiraram do Sol e causaram o reaparecimento de Saturno como um corpo separado, assim também acontece que, no curso da evolução da Lua, os seres descritos acima se separam e formam corpos celestes individuais. Até agora mencionamos apenas a separação em Sol e Lua, mas outros organismos-mundo se desprenderam, pelas razões já dadas, do corpo lunar que apareceu após o grande intervalo entre o Sol e a Lua.

Após certo tempo, temos de considerar um sistema de corpos celestes dos quais o mais avançado, como se pode facilmente ver, deve ser chamado o novo Sol. E exatamente tal vínculo de atração como foi descrito acima como existente entre o atrasado reino de Saturno e os Filhos da Personalidade no novo Saturno é formado entre cada um desses corpos e os correspondentes seres lunares. Levar-nos-ia longe demais seguir em detalhe todos os corpos celestes que vêm à existência. Deve bastar ter apontado a razão pela qual uma sucessão deles surge gradualmente do organismo-mundo indiviso que aparece como Saturno no início da evolução humana.

Após a intervenção dos Senhores da Forma na Lua, a evolução prossegue por um tempo da maneira descrita. Ao final desse período, há novamente uma pausa. Durante essa pausa, as porções mais grosseiras dos três reinos lunares encontram-se em uma espécie de estado de repouso, mas as partes mais sutis, em particular o corpo astral humano, desprendem-se desses organismos mais grosseiros. Elas alcançam uma condição em que as forças superiores dos exaltados Seres Solares são capazes de atuar sobre elas com muita intensidade. Após o intervalo de repouso, elas voltam a interpenetrar aquelas partes do ser humano compostas pelas substâncias mais grosseiras. Por terem recebido forças tão poderosas durante a pausa — em estado livre —, são capazes de tornar essas substâncias mais grosseiras aptas para a influência que, após certo tempo, será exercida sobre elas pelos Filhos da Personalidade e pelos Filhos do Fogo, que progrediram normalmente.

Nesse ínterim, esses Filhos da Personalidade elevaram-se a um nível em que possuem a “consciência de inspiração”. Aqui, eles não são apenas capazes — como era o caso da consciência de imagem clarividente — de observar em imagens o estado interior de outros seres, mas de apreender a natureza interior desses seres, como que em uma linguagem espiritual de sons. Mas os Filhos do Fogo elevaram-se àquela altura de consciência que, no Sol, é possuída pelos Filhos da Personalidade. Por esse meio, ambas as espécies de Espíritos podem intervir na vida em maturação da natureza humana. Os Filhos da Personalidade atuam sobre o corpo astral; os Filhos do Fogo, sobre o corpo etérico do ser humano. O corpo astral adquire assim o caráter de personalidade. Ele não apenas experimenta prazer e dor, mas os refere a si mesmo. Ainda não chegou a uma consciência completa do eu, que diz a si mesma: “Eu estou aqui”; mas sente-se sustentado e protegido por outros seres em seu ambiente. Ao olhar, por assim dizer, para esses seres, é capaz de dizer: “Este, meu ambiente, mantém-me vivo.”

Os Filhos do Fogo agora trabalham sobre o corpo etérico. Sob sua influência, o movimento das forças nesse corpo torna-se cada vez mais um de energia vital interna. O que então resulta encontra expressão física em uma circulação de fluidos e em fenômenos de crescimento. As substâncias gasosas condensaram-se em substâncias líquidas; podemos falar de um tipo de processo nutritivo, no sentido de que o que é recebido de fora torna-se transformado e elaborado internamente. Talvez, se pensarmos em algo intermediário entre nutrição e respiração, no significado atual dos termos, possamos ter uma ideia do que então aconteceu nessa direção. A matéria nutritiva era extraída do reino animal-vegetal pelo ser humano. Devemos pensar naqueles animais-plantas como flutuando ou nadando — ou mesmo quase fixos — em um elemento ao seu redor, como os peixes atuais vivem na água, ou os animais terrestres no ar. Contudo, o elemento não é nem água nem ar no sentido atual, mas algo intermediário entre os dois, uma espécie de vapor espesso no qual as substâncias mais heterogêneas movem-se de um lado para outro, como se dissolvidas, em correntes fluindo em todas as direções.


Os animais-plantas aparecem apenas como formas regulares condensadas desse elemento, muitas vezes diferindo fisicamente pouco de seu ambiente. Os processos respiratório e nutritivo estão ambos ativos. É como uma absorção e emanação de calor. Para a observação clarividente, é como se, durante esses processos, órgãos se abrissem e fechassem, através dos quais uma corrente de aquecimento entrava e saía, e através dos quais substâncias aéreas e aquosas também eram levadas para dentro e para fora. E uma vez que a natureza do homem, nesse estágio de evolução, já possui um corpo astral, a respiração e a nutrição são acompanhadas de sentimentos, de modo que uma espécie de prazer surge quando materiais que promovem a construção da natureza do homem são absorvidos de fora. Aversão é causada se substâncias nocivas fluem para dentro, ou mesmo se meramente se aproximam.

Assim como durante a evolução da Lua os processos respiratórios e nutritivos estavam intimamente ligados, como foi descrito, também o processo imaginativo estava em estreita conexão com a reprodução. Nenhum efeito imediato era produzido sobre qualquer um dos sentidos pelas coisas e seres no ambiente da humanidade lunar. A concepção era, ao contrário, de tal natureza que a presença de coisas e seres evocava imagens na consciência obscura e sonhadora. Essas imagens estavam muito mais intimamente ligadas à natureza real do ambiente do que as atuais percepções sensoriais, que mostram em cores,

152 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

sons, perfumes e assim por diante, apenas o lado externo dos seres.

Para se ter uma ideia mais clara da consciência humana na Lua, imaginemos os seres humanos imersos no ambiente vaporoso descrito acima. Os mais variados processos se desenrolam nesse elemento vaporoso. Matérias se unem, substâncias se separam umas das outras, algumas partes se condensam, outras se atenuam. Tudo isso acontece de tal maneira que os seres humanos não veem nem ouvem nada disso diretamente, mas isso evoca imagens em sua consciência. Essas podem ser comparadas às imagens de nossa atual consciência de sonho. É algo semelhante a quando um objeto cai ao chão, e um homem adormecido não discerne o que realmente aconteceu, mas percebe alguma imagem disso — por exemplo, ele pensa que um tiro foi disparado.

Mas as imagens na consciência lunar não são arbitrárias, como é o caso com tais imagens de sonho; é verdade que são símbolos, não representações, mas correspondem a eventos externos. Um evento externo definido pode evocar apenas uma imagem bastante definida.

O ser lunar está, portanto, em condições de regular sua conduta por meio dessas imagens, assim como o homem contemporâneo o faz por meio de suas percepções. Devemos, no entanto, observar cuidadosamente que a conduta regulada pela percepção é governada pela escolha, enquanto a ação sob a influência das imagens que descrevemos parece resultar de um instinto obscuro.


Não é de modo algum como se apenas processos físicos exteriores se tornassem perceptíveis através dessa consciência imagética, mas através das imagens também são representados os seres espirituais que regem por trás dos fatos físicos, e as atividades desses seres. Assim, os Senhores da Personalidade tornam-se visíveis, por assim dizer, no que concerne ao reino animal-vegetal; os Filhos do Fogo aparecem por trás e nos seres minerais-vegetais; e os Filhos da Vida aparecem como seres que o homem é capaz de imaginar sem conexão com qualquer coisa física — que ele vê, por assim dizer, como organismos etérico-psíquicos.

Embora essas imagens da consciência lunar não fossem representações, mas apenas símbolos das coisas exteriores, elas tinham, no entanto, um efeito muito mais importante sobre a natureza interior do homem do que as imagens agora causadas pela percepção. Elas eram capazes de pôr todo o ser interior em movimento e atividade. Os eventos interiores eram moldados em conformidade com elas. Eram genuínas forças formativas. O ser do homem tornava-se aquilo que essas forças formativas faziam dele; tornava-se, até certo ponto, uma representação dos eventos de sua consciência.

Quanto mais a evolução progride dessa maneira, mais resulta na ocorrência de uma mudança profundamente incisiva no ser do homem. O poder que emana das imagens na consciência gradualmente se torna incapaz de se estender sobre todo o arcabouço corporal humano, que então se divide em duas partes, ou duas naturezas. Membros são formados sujeitos à influência modeladora da consciência imagética, e tornam-se em grande medida uma cópia dessa vida de imaginação, da maneira recém-descrita. Mas outros órgãos escapam a tal influência. Eles são, por assim dizer, densos demais, determinados demais por outras leis, para se regularem pelas imagens da consciência. Estes se retiram da influência humana; mas caem sob outra, a dos próprios e exaltados Seres Solares. Um período de repouso, no entanto, é visto primeiro a preceder esse estágio da evolução. Durante essa pausa, os Espíritos Solares estão reunindo força para influenciar os seres lunares sob circunstâncias bastante novas.

Após esse período de descanso, o ser do homem é claramente dividido em duas naturezas. Uma delas é retirada da ação autônoma da consciência-imagem, assume uma forma mais definida e fica sob a influência de forças que, embora provenientes do corpo lunar, só entram em existência ali através da influência dos seres solares. Essa parte da natureza humana compartilha cada vez mais a vida que é estimulada pelo Sol; a outra parte se eleva como uma espécie de cabeça a partir da primeira. Ela é flexível, pode mover-se e toma forma em conformidade com a vida da consciência humana embotada.

Contudo, as duas partes estão intimamente ligadas entre si, trocam seus sucos, e membros se estendem de uma para a outra.

Uma harmonia significativa é agora alcançada pelo desenvolvimento, no decorrer do tempo em que tudo isso aconteceu, de tal conexão entre o Sol e a Lua que esteja de acordo com a tendência dessa evolução. Já foi indicado em uma passagem anterior que os seres que estão progredindo desprendem seus corpos celestes da massa cósmica geral através dos estágios de evolução pelos quais passam. Eles derramam, por assim dizer, forças em conformidade com as quais os materiais são organizados. O Sol e a Lua separaram-se assim um do outro, como era necessário para a preparação das moradas adequadas para os seres apropriados a eles. Mas essa determinação do material e de suas forças pelo Espírito é levada muito mais longe. Os próprios seres condicionam também certos movimentos dos corpos celestes e revoluções definidas deles em torno uns dos outros. Em consequência, esses corpos passam a ocupar posições variáveis em relação uns aos outros. E se a posição ou situação de um corpo em relação a outro é alterada, os efeitos de seus respectivos habitantes uns sobre os outros também mudam. Assim aconteceu com o Sol e a Lua. Pelo movimento da Lua em torno do Sol, que surgiu, os seres humanos vêm, periodicamente, ora mais para a esfera do

Influência do Sol; em outro momento podem afastar-se do Sol, sendo então lançados mais sobre seus próprios recursos. O movimento é uma consequência da “queda” de certos seres lunares, como descrito acima; e do assentamento do conflito que foi por isso ocasionado. É a expressão física da nova relação de forças espirituais criada por esse afastamento. A consequência da rotação de uma esfera em torno da outra é que os seres que habitam esses corpos celestes experimentam as condições alternadas de consciência acima descritas. Podemos colocá-lo assim: a Lua alternadamente volta sua vida para o Sol e afasta-se dele. Há um período solar e um período planetário, no último dos quais os seres lunares evoluem em um lado da Lua que está voltado para longe do Sol. Naturalmente, há outro movimento em andamento na Lua além dos movimentos planetários. Isto é, a consciência clarividente, ao olhar para trás, pode ver claramente os seres lunares vagando ao redor de seu próprio planeta, em períodos de tempo bastante regulares. Assim, em certos momentos eles buscam localidades onde podem entregar-se à influência solar; em outros períodos, vagam para lugares onde não estão sujeitos a essa influência, e onde podem, por assim dizer, refletir sobre si mesmos.

Para completar o quadro que deve ser traçado desses eventos, devemos ainda notar que os Filhos da Vida atingem seu estágio humano durante esse período. Os sentidos do homem, cujos começos já existiam em Saturno, não podem ainda, na Lua, ser usados para sua própria percepção de objetos externos. Mas no estágio lunar esses sentidos tornam-se os instrumentos dos Filhos da Vida, que os utilizam a fim de perceber através deles. Esses sentidos, pertencentes ao corpo físico humano, entram assim em relações recíprocas com os Filhos da Vida, pelos quais não são apenas usados, mas aperfeiçoados.


Agora surge uma mudança de circunstâncias, em consequência das relações cambiantes do Sol com a natureza humana. As coisas se configuram de tal modo que, quando o ser do homem está sujeito à influência do Sol, ele se entrega mais ao mundo em geral e aos seus fenômenos do que a si mesmo. Em tais momentos, ele sente a grandeza e a glória do universo e, por assim dizer, as absorve. Então, os seres elevados que habitam o Sol influenciam a Lua, que por sua vez influencia os seres humanos. Essa influência, contudo, não se estende ao homem inteiro, mas principalmente àquelas partes que se desvencilharam da influência de sua própria consciência de imagens. Os corpos físico e etérico, especialmente, alcançam nesse momento uma certa amplitude e forma. Por outro lado, os fenômenos da consciência recuam para o segundo plano. Mas quando a vida humana se volta para longe do Sol, ela se ocupa

188 ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

da natureza; uma atividade interna começa, especialmente no corpo astral. A forma externa, ao contrário, torna-se mais insignificante e menos perfeita em sua configuração.

Assim, durante a evolução lunar, há dois estados de consciência a serem claramente distinguidos, alternando-se entre si — mais opacos durante o período solar e mais claros durante o tempo em que a vida é deixada mais aos seus próprios recursos. O primeiro estado é certamente mais opaco, mas, por outro lado, é mais altruísta; o homem então vive uma vida mais dedicada ao mundo exterior, ao universo. É uma alternância de estados de consciência que, por um lado, pode ser comparada à alternância entre dormir e acordar no homem contemporâneo, bem como à sua vida entre o nascimento e a morte; por outro lado, pode ser comparada à existência mais espiritual entre a morte e um novo nascimento. O despertar na Lua, quando o período solar gradualmente cessa, poderia ser descrito como intermediário entre o despertar matinal do homem contemporâneo e o seu nascimento.

E, da mesma forma, o gradual entorpecimento da consciência na aproximação do período solar assemelha-se a uma condição intermediária entre adormecer e morrer. Pois na antiga Lua ainda não havia tal consciência de nascimento e morte como o homem agora possui. O homem entregava-se ao gozo do universo em uma espécie de vida solar. Durante esse período, ele era além de sua própria vida, ele viveu mais espiritualmente. Só podemos tentar uma descrição aproximada, uma por meio de comparação, do que o homem experimentava durante tais épocas. Ele sentia como se as forças do universo fluíssem para dentro dele e percorressem todo o seu ser. Ele estava como que intoxicado pelas harmonias do cosmos, com o qual coexistia.


Em tais épocas, seu corpo astral estava como que liberto do corpo físico; também parte do corpo etérico saía com ele do corpo físico. Esse organismo, consistindo dos corpos astral e etérico, era como um delicado e maravilhoso instrumento musical, das cordas do qual ressoavam os mistérios do universo. E os membros daquela parte da natureza humana sobre a qual a consciência tinha apenas uma leve influência eram moldados de acordo com as harmonias do universo. Pois os Seres do Sol atuavam nessas harmonias. Assim, essa parte do homem recebia sua forma pelos sons espirituais do universo, e ao mesmo tempo a alternância entre o estado de consciência mais claro durante o período do Sol e o mais obscuro não era tão abrupta quanto aquela entre o estado de vigília e o de sono absolutamente sem sonhos no homem contemporâneo.

É verdade que a consciência de imagens não era tão clara quanto a presente consciência de vigília, mas, por outro lado, a outra consciência não era tão obscura quanto o sono sem sonhos dos dias atuais.


Havia assim uma espécie de eco obscuro da "música das esferas" no corpo físico do homem, e naquela parte do seu corpo etérico que ainda estava unida ao corpo físico. Na época em que, por assim dizer, o Sol não brilhava sobre a humanidade, as concepções-imagens substituíam essas harmonias na consciência. Havia então um revivescimento daqueles membros dos corpos físico e etérico que estavam sob o poder imediato da consciência. Por outro lado, as outras partes da natureza humana, sobre as quais os poderes transformadores do Sol não atuavam, passavam por uma espécie de processo de endurecimento ou secagem. Quando o período solar novamente se aproximava, os velhos corpos decaíam; eles se separavam do ser do homem e, como que do túmulo de sua antiga forma corporal, surgia o ser humano, renovado interiormente, ainda que exteriormente de aparência insignificante. Uma renovação do processo vital havia ocorrido. Pela operação dos seres solares e de suas harmonias, o corpo recém-nascido se moldava novamente em sua perfeição, e o processo acima descrito se repetia. O homem sentia essa renovação como se fosse o vestir de novas vestes. O núcleo do seu ser não havia passado por um nascimento ou morte reais; apenas havia passado de uma consciência de tom espiritual, na qual estava entregue ao mundo exterior, para uma consciência de imagens, na qual estava mais voltado para si mesmo, para o seu ser interior. Ele havia trocado de pele. O velho corpo havia se tornado inútil, era lançado fora e renovado. Ao mesmo tempo, obtemos uma indicação mais exata do que foi caracterizado acima como uma espécie de reprodução, e da qual se observou que está intimamente ligada à percepção. O ser do homem produziu o seu semelhante com respeito a certas partes dos corpos físico e etérico. Não surge, contudo, um ser inteiramente diferente de seu progenitor, mas o núcleo do ser progenitor passa ao filho. Nenhum ser novo surge, mas o mesmo ser em uma nova forma.

Assim, o ser humano lunar experimenta uma mudança de consciência. Quando o período Solar se aproxima, suas imagens pictóricas tornam-se cada vez mais esmaecidas, e uma êxtase beatífica toma posse dele; as harmonias do universo ressoam em seu ser interior, que está em paz. Para o fim desse tempo, as imagens no corpo astral começam a ser animadas; ele começa a ser mais consciente de si mesmo e a sentir a si mesmo. O homem experimenta algo como um despertar da beatitude e tranquilidade em que estava envolto durante o período Solar.

Mas ao mesmo tempo começa outra experiência importante. Na nova iluminação das imagens da consciência, o homem vê a si mesmo como que envolto em uma nuvem, que desceu sobre ele vinda do universo como se fosse um ser. E ele sente como se esse ser lhe pertencesse, como se fosse complementar à sua própria natureza; sente como se fosse o que lhe dá a existência, como se fosse o seu ego. Esse ser é um dos Filhos da Vida. O homem sente em relação a ele algo assim: “Eu vivi nesse ser, mesmo quando estava entregue à glória do universo no período Solar — só que então ele não era visível para mim, agora ele é.” E é da força desse Filho da Vida que procede a influência que o homem exerce sobre sua própria forma corporal durante o período sem Sol. Então, quando o período Solar novamente se aproxima, o homem sente como se ele mesmo se tornasse um com o Filho da Vida. Mesmo que o homem não o veja, ele se sente intimamente unido a ele.

A conexão com os Filhos da Vida era tal que não cada indivíduo humano tinha um Filho da Vida para si, mas um grupo inteiro de pessoas sentia que tal ser lhes pertencia. Os seres humanos na Lua viviam assim, divididos em grupos, e cada grupo sentia em um Filho da Vida o “ego de grupo” que tinham em comum. Os corpos etéricos em cada grupo assumiam uma forma especial, e assim a diferença entre os grupos se fazia sentir. Mas como os corpos físicos se moldavam em conformidade com os corpos etéricos, as diferenças destes últimos também eram impressas nos primeiros; e os grupos humanos individuais apareciam como tantas variedades.


das pessoas. Se os Filhos da Vida olhavam para os grupos humanos que lhes pertenciam, viam-se, até certo ponto, reproduzidos nos seres humanos individuais. E, dessa maneira, sentiam sua própria individualidade. Eles eram, por assim dizer, refletidos naquelas pessoas. E, assim, sentiam a posse de seu próprio eu. Refletiam-se, por assim dizer, nos seres humanos. Essa era, de fato, a missão dos sentidos humanos naquele tempo. Já foi mostrado que os sentidos ainda não efetuavam qualquer percepção de objetos. Mas refletiam a natureza dos Filhos da Vida. O que esses Filhos da Vida percebiam através do reflexo lhes dava sua “consciência do eu”. O que era despertado no corpo astral humano pelo reflexo eram as imagens surdas e obscuras da consciência lunar. O efeito dessa ação, realizada conjuntamente com os Filhos da Vida, trouxe as condições para o sistema nervoso no corpo físico. Os nervos aparecem, pode-se dizer, como continuações dos sentidos, em conformidade com a natureza interna do corpo humano.

É evidente, a partir desta descrição, de que maneira os três tipos de Espíritos, os da Personalidade, os do Fogo e os da Vida, atuam sobre a humanidade lunar. Se observarmos o período principal ou médio da evolução lunar, podemos dizer que os Filhos da Personalidade estão, nesse momento, implantando no corpo astral humano a autossuficiência e o caráter da personalidade. É devido a esse fato que, durante aqueles tempos em que o sol não brilha sobre o homem, sua atenção pode voltar-se para dentro, e ele é capaz de trabalhar na formação de sua própria forma.

Os Filhos do Fogo ocupam-se do corpo etérico, na medida em que este se torna impresso com a formação independente do ser humano. Por meio deles, acontece que os seres humanos tornam-se novamente conscientes de si mesmos, como tais, toda vez que o corpo é renovado. Assim, uma espécie de memória é concedida ao corpo etérico através dos Filhos do Fogo.

Os Filhos da Vida atuam sobre o corpo físico de tal maneira que ele se torna capaz de ser a expressão do corpo astral, que agora se tornou independente. Eles tornam possível, assim, que o corpo físico se torne uma cópia fisionômica de seu corpo astral. Por outro lado, seres espirituais superiores, em particular os Senhores da Forma e do Movimento, interpõem-se nos corpos físico e etérico, na medida em que estes estão sendo desenvolvidos, durante os períodos solares, à parte do corpo astral independente.

A intervenção deles vem do Sol, da maneira descrita acima.

Sob a influência de tais fatos, o ser humano cresce em direção à maturidade, de modo a desenvolver gradualmente em si o germe do Espírito-Self, assim como durante a segunda metade da evolução de Saturno desenvolveu o germe do Espírito-Homem, e, no Sol, o do Espírito-Vida. Com isso, todas as condições da Lua são alteradas. Os seres humanos não apenas se tornaram cada vez mais nobres e refinados através de sucessivas transformações e renovações, mas também ganharam em poder. Por essa razão, a consciência pictórica foi cada vez mais mantida durante os períodos do Sol. Ela também ganhou influência na formação dos corpos físico e etérico, que até então haviam sido formados inteiramente pela ação dos Seres do Sol.


O que ocorreu na Lua por meio dos seres humanos e dos Espíritos a eles ligados tornou-se cada vez mais semelhante ao que anteriormente havia sido efetuado pelo Sol com seus seres superiores. A consequência foi que aqueles Seres do Sol puderam retirar-se cada vez mais e concentrar suas forças vantajosamente em sua própria evolução. Com isso, a Lua tornou-se, após algum tempo, madura o suficiente para ser novamente unida ao Sol. Para a visão espiritual, esses acontecimentos ocorrem da seguinte forma: os Seres rebeldes da Lua são gradualmente vencidos pelos Espíritos do Sol e compelidos, de então em diante, a submeter-se a eles, na medida em que suas ações trabalham em conjunto com as dos Espíritos do Sol, aos quais estão subordinados. É verdade que isso aconteceu somente após o decurso de longas eras, durante as quais os períodos da Lua tornaram-se cada vez mais curtos, e os períodos do Sol cada vez mais longos. Agora vem novamente uma evolução durante a qual o Sol e a Lua formam um organismo mundial. Nessa época, o corpo físico humano tornou-se completamente etérico.


Quando se diz que o corpo físico tornou-se etérico, não se deve imaginar que, sob tais circunstâncias, não exista um corpo físico. O que foi formado como corpo físico durante os períodos de Saturno, Sol e Lua ainda existe.

Neste assunto, é importante reconhecer o elemento físico onde ele se manifesta externa e fisicamente. Ele também pode estar presente onde mostra externamente uma forma etérica ou mesmo astral. Devemos distinguir entre a aparência externa e a lei interna. O que é físico pode tornar-se etérico e astral e, ao mesmo tempo, reter em si a lei física. As coisas acontecem assim quando o corpo físico do homem atingiu um certo grau de perfeição na Lua. Ele se torna etérico em forma.

Mas quando a observação clarividente, que pode perceber tais coisas, é dirigida a um corpo etérico desse tipo, vê-se que esse corpo é permeado por leis físicas, não etéricas.

O elemento físico foi, neste caso, levado para o mundo etérico, para ali repousar e ser acolhido como que sob o terno cuidado de uma mãe.

Mais tarde, ele emerge novamente em forma física, porém em um estágio superior. Se a humanidade da Lua tivesse mantido seu corpo físico na forma física grosseira, a Lua jamais teria podido unir-se ao Sol. Ao aceitar a forma etérica, o corpo físico torna-se mais intimamente relacionado ao corpo etérico e, por esse meio, pode novamente ser mais intimamente interpenetrado pelas partes dos corpos etérico e astral que, por força, tiveram de se retirar dele durante os períodos solares da evolução lunar. O homem, que apareceu como um ser de duas naturezas durante a separação do Sol e da Lua, torna-se novamente um ser indiviso. A parte física torna-se mais psíquica; por outro lado, o que é psíquico torna-se mais intimamente ligado ao que é físico. Agora, os Espíritos do Sol, em cuja esfera imediata esse ser humano uniforme e indiviso veio a se encontrar, podem atuar sobre ele de maneira bem diferente da influência anterior, exercida de fora sobre a Lua. O homem está agora em um ambiente mais psíquico-espiritual. Devido a isso, os Senhores da Sabedoria podem realizar algo de grande importância. Eles o imbuem e inspiram com sabedoria. Ele se torna, assim, em certo sentido, uma alma independente. E à influência desses seres acrescenta-se a dos Senhores do Movimento. Eles atuam principalmente sobre o corpo astral, de modo que, sob sua influência, este produz atividade psíquica e um corpo etérico preenchido de sabedoria. Este último é o fundamento do que foi descrito acima como a alma racional ou intelectual.



No homem contemporâneo, enquanto o corpo astral inspirado pelos Senhores de Ivlotion é o germe da alma senciente. E porque tudo isso se efetua no ser do homem em sua condição progredida de independência, esses germes da alma racional e senciente aparecem como expressão do Espírito-Próprio. A este respeito, não se deve cometer o erro de pensar que, neste período de evolução, o Espírito-Próprio era algo separado das almas intelectual e senciente. Estas últimas são apenas a expressão do Espírito-Próprio, o que significa sua unidade e harmonia superiores. É especialmente significativo que os Senhores da Sabedoria intervenham neste período da maneira descrita. Pois eles fazem isso não apenas com relação à humanidade, mas também em benefício dos outros reinos que foram elaborados na Lua. Na reunião do Sol e da Lua, esses reinos inferiores são atraídos para a esfera solar. Tudo o que neles era físico torna-se etéreo. Há, portanto, plantas-minerais e animais-plantas agora no Sol, assim como há humanidade lá. Mas essas outras criaturas ainda são dotadas de suas próprias leis de ser. Elas se sentem, portanto, como estranhas em seu ambiente. Elas surgem em cena com uma natureza pouco harmoniosa com seus arredores. Mas, como se tornaram etéreas, a influência dos Senhores da Sabedoria também pode se estender a elas. Tudo o que veio da Lua para o Sol agora se torna permeado pelas forças dos Senhores da Sabedoria. Portanto, o que se desenvolve a partir do organismo Sol-Lua durante este período de evolução pode ser chamado, na ciência oculta, de "Cosmos da Sabedoria".


Quando, portanto, o nosso sistema terrestre aparece, após um intervalo de repouso, como sucessor deste Cosmos de Sabedoria, todos os seres recém-vivos na Terra, desenvolvendo-se a partir de seus germes lunares, revelam-se plenos de sabedoria. Então se torna evidente a razão pela qual um mortal, ao refletir sobre as coisas que vê ao seu redor, é capaz de descobrir sabedoria na própria natureza delas. A sabedoria em cada folha de uma planta, em cada osso dos animais e dos homens, na maravilhosa estrutura do cérebro e do coração, enche-nos de admiração. Se o homem adquire sabedoria para compreender as coisas e, portanto, colhe sabedoria delas, isso mostra que há sabedoria nas próprias coisas. Pois por mais esforço que o homem faça para compreender as coisas por meio de concepções sábias, ele não poderia extrair delas qualquer sabedoria, a menos que esta tivesse sido primeiramente nelas depositada. Se alguém tenta, por meio da sabedoria, compreender coisas que não acredita terem recebido qualquer sabedoria, pode igualmente acreditar que pode esvaziar água de um copo no qual ela não foi primeiro derramada. Como será mostrado mais adiante neste livro, a Terra é a "antiga Lua" ressuscitada. E ela aparece como um organismo pleno de sabedoria, porque foi permeada pelos Senhores da Sabedoria e suas forças durante a época que foi descrita.


Será facilmente compreendido que esta descrição das condições da Lua pôde levar em conta apenas certas formas temporárias de evolução. Foi necessário deter-se em certas coisas no progresso dos acontecimentos e destacá-las para delineamento. É verdade que esse tipo de descrição oferece apenas quadros isolados e, por essa razão, pode-se lamentar que, no relato anterior, o esquema evolutivo não tenha sido reduzido a um sistema de concepções precisas e definidas. Mas, diante de tal objeção, convém salientar que a descrição foi intencionalmente dada em contornos menos claramente definidos.

Pois não se trata aqui tanto de dar ideias especulativas e construir teorias, mas de representar o que realmente se passa diante dos olhos espirituais da consciência clarividente, ao olhar para trás sobre esses eventos. No que diz respeito à evolução lunar, isso não pode ser feito em contornos tão claros e definidos como são visíveis às percepções terrenas. No período lunar, estamos principalmente preocupados com impressões variáveis, mutáveis, com imagens cambiantes, em movimento, e seus estágios transitórios. Temos, além disso, de ter em mente que estamos contemplando uma evolução que prossegue através de longos, longos períodos de tempo, e que de tudo o que ela oferece é possível apreender apenas imagens momentâneas e fixá-las para delineação.


O período lunar atingiu realmente seu ponto mais alto no tempo em que o corpo astral, implantado no homem, o trouxe tão longe no caminho evolutivo que seu corpo físico oferece aos Filhos da Vida a possibilidade de alcançar então o estágio humano. O homem atingiu então tudo o que esta época pode lhe dar para si mesmo, isto é, de benefício para sua natureza interior no caminho ascendente. A segunda metade, ou seguinte, da evolução lunar pode, portanto, ser denominada a "maré baixa", ou declínio. Mas mesmo durante essa maré baixa, vemos uma coisa muito importante ocorrendo nesta época com relação ao ambiente do homem, e até mesmo com relação a ele próprio. É agora que a sabedoria é implantada no corpo Sol-Lua. Foi mostrado que durante a maré baixa os germes das almas intelectual e sensível são implantados. Mas o desenvolvimento destas, também da alma autoconsciente, e com ele o nascimento do eu — a livre autoconsciência — não ocorrerá senão no período terrestre.

No estágio lunar, as almas racional e sensível não têm ainda nada de uma aparência que indicasse seu uso pelos seres humanos como meio de expressão; antes, parecem ser instrumentos daqueles Filhos da Vida que pertencem à humanidade. Se fôssemos descrever o sentimento do habitante humano da Lua a esse respeito, deveríamos dizer que ele sente isto: "O Filho da Vida vive em mim e através de mim; através de mim ele contempla o ambiente da Lua; em mim ele pondera sobre as coisas e os seres desse ambiente." O ser humano lunar sente-se ofuscado pelo Filho da Vida e considera-se o instrumento desse ser superior. Durante o tempo da separação do Sol e da Lua, ele sentiu um maior grau de independência quando o Sol se afastava dele, mas ao mesmo tempo também sentia como se o ego pertencente a ele, que havia desaparecido da consciência-imagem durante o período solar, agora se tornasse visível. Foi, para a humanidade lunar, o que pode ser descrito como uma mudança nos estados de consciência, de modo que o ser lunar tinha este sentimento:


"No período solar, meu ego me eleva para regiões superiores, para a presença de seres exaltados, e quando o Sol desaparece, ele desce comigo para mundos inferiores."

A evolução lunar propriamente dita foi precedida por um estágio preparatório. De certa forma, as evoluções de Saturno e do Sol foram recapituladas. Agora, após a reunião do Sol e da Lua, e também durante o que chamamos de maré vazante, duas épocas podem ser distinguidas uma da outra. No curso destas, até mesmo a condensação física ocorre até certo ponto. Portanto, condições espiritual-psíquicas do organismo Sol-Lua alternam-se com aquelas de natureza mais física. Em tais épocas físicas, os seres humanos e aqueles dos reinos inferiores aparecem como se estivessem preparando, em formas rígidas e ainda não autossuficientes, o tipo do que viriam a se tornar de maneira mais independente durante o período terrestre. Podemos, portanto, falar de duas épocas preparatórias na evolução lunar, e de outras duas durante a maré vazante, ou declínio. Na ciência oculta, tais épocas podem ser denominadas ciclos. Naquele período que se segue às duas épocas preparatórias e precede aquelas do declínio, ou maré vazante — isto é, durante o tempo da separação da Lua — três épocas podem novamente ser distinguidas. O período intermediário é o tempo em que os Filhos da Vida alcançaram o nível humano. É precedido por um período em que todas as condições conduzem a esse evento culminante, e é seguido por um que pode ser chamado de tempo de adaptação e de aperfeiçoamento das novas criações.


Dessa forma, o período médio da evolução da Lua é novamente dividido em três épocas, que, com os dois períodos preparatórios e os dois em que a maré está vazando, compõem sete ciclos lunares, ou rodadas. Pode-se, portanto,

na literatura teosófica atual eles são chamados de "rodadas". No entanto, se tivermos em mente a descrição mais gráfica já dada, nos resguardaremos contra uma representação demasiadamente formal de tais assuntos.


dizer que toda a evolução lunar passa por sete ciclos, ou rodadas. Entre eles há intervalos de descanso, que foram repetidamente mencionados na descrição acima. No entanto, só nos aproximamos da realidade do assunto ao nos proibirmos de pensar em transições súbitas de períodos de atividade para os de descanso. Por exemplo, os Seres Solares retiram gradualmente sua atividade da Lua. Começa para eles um tempo que, visto de fora, parece ser seu período de descanso, enquanto intensa atividade independente ainda continua na própria Lua. Assim, o período ativo de um tipo de ser se estende repetidamente para o tempo de descanso de outro. Se levarmos em conta tais coisas, podemos falar de uma ascensão e descida rítmica das forças em ciclos. De fato, divisões semelhantes são reconhecíveis mesmo dentro dos sete ciclos lunares mencionados.

Podemos então chamar toda a evolução lunar de um grande ciclo, ou cadeia planetária (Planetenlauf); e as sete divisões, ou rodadas, dentro dele, de ciclos "pequenos"; e, novamente, as partes separadas destes, de ciclos "menores". Esse arranjo sistemático em sete vezes sete divisões também é perceptível na evolução do Sol e indicado durante o período de Saturno. No entanto, devemos ter em mente que os limites entre as divisões são um tanto apagados mesmo no Sol, e ainda mais em Saturno.

Esses limites tornam-se mais e mais definidos à medida que a evolução se aproxima do período terrestre.


No final da evolução lunar, que foi esboçada nas páginas anteriores, todos os seres e forças a ela ligados entram em uma forma mais espiritual de existência. Isso está em um nível bastante diferente daquele do período lunar, e também daquele da evolução terrestre que se segue. Um ser dotado de faculdades tão altamente desenvolvidas a ponto de lhe permitir perceber todos os detalhes das evoluções lunar e terrestre não precisa necessariamente ser capaz de ver o que acontece durante o intervalo entre os dois períodos.

Para quem possuísse tal visão, os seres e forças, ao final do período lunar, desapareceriam, por assim dizer, no nada, e após um intervalo emergiriam novamente do crepúsculo sombrio do "ventre dos mundos". Apenas um ser dotado de faculdades consideravelmente superiores seria capaz de acompanhar os eventos espirituais que ocorrem durante esse intervalo.

Quando esse intervalo termina, os seres que participaram dos processos evolutivos em Saturno, Sol e Lua reaparecem dotados de novas faculdades.

Os seres de ordem superior ao homem conquistaram, por suas realizações anteriores, o poder de conduzir a evolução humana até um ponto em que ele pudesse desenvolver em si, durante o período terrestre, uma forma de consciência que se encontra um degrau acima da consciência imagética que possuíra durante o período lunar. Mas o homem deve primeiro ser preparado para receber esse dom.

Durante as evoluções de Saturno, Sol e Lua, ele incorporou em seu ser os corpos físico, etérico e astral. Mas esses princípios foram dotados apenas de tais faculdades e poderes que os qualificavam para viver com uma consciência imagética; os órgãos e formas por meio dos quais poderiam alcançar o conhecimento de um mundo de objetos sensoriais externos, como é necessário para o estágio terrestre, ainda faltavam. Assim como a nova planta desabrocha apenas o que está oculto na semente originada da planta antiga, os três princípios da natureza humana aparecem, no início do novo estágio de evolução, com tais formas e órgãos que lhes permitem desenvolver apenas uma consciência imagética. É necessário primeiro prepará-los para o desdobramento de um estado mais elevado de consciência.

Isso ocorre em três estágios preliminares. Durante o primeiro, o corpo físico é elevado a um nível em que se torna capaz de sofrer a remodelação necessária que servirá de base para a consciência objetiva.

Este é um dos estágios preliminares da evolução terrestre propriamente dita, e pode ser chamado de recapitulação do período de Saturno em um nível mais elevado. Pois durante este período, como durante o período de Saturno,

Seres superiores atuam apenas sobre o corpo físico quando este já progrediu o suficiente em sua evolução; todos os seres devem primeiro passar a uma forma superior de existência antes que o corpo etérico também possa avançar. O corpo físico deve, por assim dizer, ser refundido, para poder, ao desenvolver-se ainda mais, receber o corpo etérico de constituição mais elevada. Após esse intervalo dedicado a uma forma superior de existência, ocorre uma espécie de recapitulação da evolução do Sol em um nível mais elevado, com o propósito de moldar o corpo etérico. E, após outro intervalo, algo semelhante acontece para o corpo astral, por meio de uma recapitulação da evolução da Lua. Voltemos agora nossa atenção para os processos evolutivos que ocorrem após o encerramento da terceira recapitulação descrita. Todos os seres e forças passaram novamente a um estado de espiritualização. Durante esse estado, ascenderam a mundos superiores. O mais baixo dos mundos, no qual ainda se pode perceber algum indício deles durante esse período de espiritualização, é aquele em que o homem contemporâneo permanece entre a morte e um novo nascimento. Essas são as regiões do mundo espiritual. De lá, os seres e forças descem gradualmente novamente para mundos inferiores. Antes de a evolução física da Terra começar, eles já desceram tanto que suas manifestações mais baixas podem ser vistas no mundo astral ou psíquico. Tudo o que é humano existente naquele período ainda está em sua forma astral. Para compreender essa condição da humanidade, deve-se prestar atenção especialmente ao fato de que, embora o homem tenha dentro de si os corpos físico, etérico e astral, o corpo físico e o etérico não estão presentes em suas próprias formas, mas em forma astral. Não é a forma física que torna o corpo físico físico, mas o fato de ele incorporar leis físicas, embora possua uma forma astral. É um ser em forma psíquica com uma lei física de existência. Algo semelhante é verdadeiro para o corpo etérico.

Para a visão espiritual, a Terra, neste estágio de evolução, aparece primeiramente como um corpo celeste todo alma e espírito, no qual, portanto, até as forças físicas e vitais se manifestam sob forma psíquica. Nesse organismo mundial, tudo o que posteriormente será moldado nas criaturas da Terra física está contido em estado germinal. O globo é luminoso, mas sua luz ainda não é tal que pudesse ser vista por olhos físicos, supondo-se mesmo que existissem. O globo brilha apenas em luz psíquica para a visão aberta do vidente.

Algo agora ocorre neste globo, que pode ser chamado de "condensação". O resultado disso é que uma forma ígnea aparece após algum tempo no meio do globo psíquico, tal como Saturno era em seu estado mais denso. Essa forma ígnea é interpenetrada pela ação dos diversos seres que participam da evolução. A ação recíproca que se observa entre esses seres e o corpo planetário é como um surgir e um mergulhar no globo ígneo da Terra. Portanto, o globo terrestre não é de modo algum uma substância homogênea, mas tem algo do caráter de um organismo animado e espiritualizado. Os seres destinados a se tornarem humanos na Terra, na forma atual do homem, estão ainda em uma condição que os torna os menos capazes de compartilhar dessa atividade de mergulhar no globo ígneo. Eles permanecem quase inteiramente no ambiente não condensado. Ainda vivem no seio dos seres espirituais superiores. Nesse estágio, entram em contato com a Terra ígnea apenas em um ponto de sua forma psíquica, e isso faz com que uma parte de sua forma astral seja densificada. Com isso, a vida terrestre é acesa neles. Portanto, eles ainda pertencem aos mundos psíquico-espirituais no que diz respeito à maior parte de sua natureza, mas, pelo contato com o fogo da Terra, o calor vital os envolve.


Se desejamos traçar uma imagem material, porém supersensível, desses seres humanos no próprio início da evolução terrestre, devemos imaginar um ovoide psíquico, ou ovo, contido dentro da circunferência da Terra, e fechado em sua superfície inferior como uma bolota é fechada por sua cúpula. A substância da cúpula, no entanto, consiste unicamente de calor ou fogo. O processo de ser envolvido pelo calor não apenas acende a vida na natureza humana, mas uma mudança aparece simultaneamente no corpo astral. Neste corpo, incorpora-se o primeiro esboço grosseiro do que posteriormente se torna a alma senciente. Podemos, portanto, dizer que o homem, neste estágio de sua existência, consiste na alma senciente, no corpo astral, no corpo etérico e no corpo físico, sendo este último formado a partir do fogo. No corpo astral, surgem e desaparecem aqueles seres espirituais que estão conectados com a existência humana. O homem sente-se ligado ao corpo-terra pela alma senciente. Ele tem, portanto, neste momento, uma consciência pictórica preponderante, na qual se manifestam aqueles seres espirituais em cujo seio ele repousa, e a sensação de seu próprio corpo parece ser meramente um ponto dentro dessa consciência. Ele olha, por assim dizer, do mundo espiritual para uma possessão terrena, sobre a qual sente:


"Isso é seu."

Cada vez mais avança agora a condensação da terra e, ao mesmo tempo, a diferenciação das várias partes do homem, como foi descrita, torna-se cada vez mais definida. A partir de um ponto definido da evolução em diante, a terra está tão condensada que apenas parte dela é ígnea; outra parte assumiu uma forma substancial que pode ser denominada "gás" ou "ar". Uma mudança também ocorre agora no homem.


Ele não é apenas posto em contato com o calor da terra, mas a substância do ar é incorporada ao seu corpo de fogo. E assim como o calor acendeu a vida nele, o ar que o circunda cria um efeito dentro dele que pode ser chamado de som (espiritual). Seu corpo etérico começa a ressoar. Simultaneamente, uma parte do corpo astral separa-se do restante; essa parte é o início da alma racional que aparece mais tarde.

Para trazer diante de nossos olhos o que se passa na alma humana neste tempo, devemos notar que os seres superiores ao homem estão surgindo para cima e para baixo no corpo aéreo-ígneo da Terra. No calor do fogo, são primeiramente os Filhos da Personalidade que têm importância para o homem. E quando o homem é despertado para a vida pelo calor da Terra, sua alma sensível diz a si mesma: "Estes são os Filhos da Personalidade". Da mesma forma, os seres chamados "Arcanjos" anteriormente neste livro, de acordo com o esoterismo cristão, proclamam-se no corpo do ar. São as suas influências que o homem sente dentro de si como som quando o ar o envolve.

E a alma racional então diz a si mesma: "Estes são os Arcanjos". Assim, o que o homem neste estágio percebe, através de sua conexão com a Terra, não é ainda uma coleção de objetos físicos, mas ele vive em sensações de calor que sobem até ele, e em sons; nessas correntes de calor e ondas sonoras, porém, ele sente os Filhos da Personalidade e os Arcanjos. É verdade que ele não pode perceber esses seres diretamente, mas apenas, por assim dizer, através de um véu de calor e sons. Enquanto essas percepções estão penetrando da Terra em sua alma, continuam a ascender e descender dentro dela as imagens daqueles seres superiores em cujo terno cuidado ele se sente estar.

Agora a evolução dá um passo adiante, que é mais uma vez expresso em condensação. A substância aquosa é incorporada ao corpo da Terra, de modo que este passa a consistir de três partes: ígnea, aérea e aquosa. Antes que isso aconteça, algo de grande importância ocorre. Um corpo celeste independente é separado da Terra ígneo-aérea; esse novo corpo torna-se, em seu desenvolvimento posterior, o nosso atual Sol. Anteriormente, Terra e Sol haviam formado um único corpo. Depois que o Sol foi separado, a Terra ainda tem inicialmente dentro de si tudo o que está no presente e sobre a presente Lua. A separação do Sol ocorre porque os seres superiores não podiam mais usar, para sua própria evolução e para o que têm de fazer pela Terra, a matéria que se condensara em água. Eles separam da massa geral da Terra apenas as substâncias úteis a eles, e partem para fazer uma nova morada para si mesmos no Sol. De lá,

Nas próximas páginas, Sol e Lua são impressos com letras maiúsculas quando se referem às evoluções antigas, mas ficam como "sol" e "lua" quando o período da Terra é indicado — Tradutor agora trabalham sobre a Terra a partir de fora. O homem, no entanto, necessita para sua evolução posterior de um ambiente no qual a matéria se torne ainda mais condensada.


Com a incorporação da substância aquosa ao planeta Terra, ocorre também uma mudança no homem. Doravante, não apenas o fogo flui para ele e o ar o envolve, mas a substância aquosa é incorporada ao seu corpo físico. Ao mesmo tempo, sua parte etérica muda, isto é, ela agora é sentida pelo homem como um corpo de luz sutil. Anteriormente a isso, o homem sentia correntes de calor subindo até ele da Terra, e o ar penetrando nele através de sons; agora o elemento aquoso também penetra seu corpo ígneo-aéreo, e ele vê o influxo e o efluxo da água como um amanhecer e um desaparecimento da luz. Mas uma mudança também começou em sua alma. Aos começos da alma sensitiva e da alma intelectual acrescenta-se a da alma autoconsciente. Os "Anjos" trabalham no elemento da água; eles são também os verdadeiros criadores da luz.

Parece ao homem como se eles lhe aparecessem na luz.

Os seres superiores que estavam anteriormente no próprio planeta Terra agora o influenciam a partir do Sol. Por essa razão, todos os efeitos produzidos na Terra são diferentes. O ser humano acorrentado à Terra não seria mais capaz de sentir a influência dos Seres Solares dentro de si, se sua alma estivesse incessantemente voltada para a Terra, pois o fogo do qual seu corpo físico é tomado. Uma mudança agora aparece nas condições da consciência humana. Em certos momentos, os Seres Solares arrancam a alma do homem de seu corpo físico, de modo que o homem está agora alternadamente puramente psíquico, no seio dos Seres Solares, e, quando unido ao corpo, em uma condição na qual recebe influências terrestres. Quando no corpo físico, correntes de calor sobem até ele, substâncias aéreas ecoam ao seu redor, a água flui para dentro e para fora dele. Quando o homem está fora de seu corpo, as imagens dos seres superiores sob cujos cuidados ele está flutuam através dele.


A Terra atravessa dois períodos neste estágio de sua evolução. Em um deles, ela pode envolver as almas humanas com suas substâncias e revesti-las de corpos; no outro, as almas se retiraram dela, e apenas os corpos permanecem, estando os seres humanos em condição de sono. É perfeitamente conforme aos fatos dizer que, naqueles tempos de um passado remoto, a Terra passava por um período diurno e um período noturno. Isso se expressa em termos de espaço físico dizendo que, por meio da ação recíproca dos seres solares e dos seres terrestres, a Terra é levada a um movimento em relação ao Sol; assim se produz a alternância dos períodos diurno e noturno acima descritos. O período diurno é quando a superfície da Terra, sobre a qual o homem evolui, está voltada para o Sol; o período noturno, que é o tempo em que o homem leva uma existência puramente psíquica, é quando a superfície da Terra está voltada para longe do Sol. Não se deve, naturalmente, imaginar que, naquele tempo remoto, o movimento da Terra em torno do Sol fosse como o seu movimento atual. As condições eram ainda totalmente diferentes. Mas, mesmo neste ponto inicial, é útil compreender como os movimentos dos corpos celestes se devem às relações mútuas dos seres espirituais que os habitam. Causas espiritual-psíquicas produzem nos corpos celestes posições e movimentos que permitem a manifestação de condições espirituais no plano físico.


Se nosso olhar se voltasse para a Terra durante seu período noturno, seu corpo pareceria um cadáver. Pois ele consiste, em grande parte, dos corpos em decomposição daqueles seres humanos cujas almas estão em outro estado de existência. As estruturas organizadas, aquosas e aeriformes, das quais os corpos humanos eram formados, desintegram-se e dissolvem-se no restante da substância terrestre. Apenas aquela parte do corpo do homem que foi formada desde o início da evolução terrestre pela cooperação do fogo e da alma humana, e que subsequentemente se tornou cada vez mais densa, continua a existir como um embrião de aparência insignificante. Quando o período diurno começa, a Terra participa novamente diretamente da influência solar, e as almas humanas avançam para a esfera do físico.

216 Um Esboço da Ciência Oculta

Elas entram em contato com os embriões e fazem-nos brotar e assumir uma forma etérea, que aparece como uma cópia do ser psíquico do homem. É algo como uma delicada fertilização que então ocorre entre a alma humana e o embrião corporal.

As almas assim encarnadas começam agora, uma vez mais, a atrair as substâncias aeriformes e aquosas e a incorporá-las em seus próprios corpos. O ar é expelido e absorvido pelo corpo organizado, o primeiro começo do posterior processo respiratório. A água também é absorvida e expelida; o processo nutritivo em sua forma original teve início. Mas esses processos ainda não são percebidos como externos. Uma espécie de percepção externa ocorre na alma apenas durante o tipo de fertilização que descrevemos. Aqui, a alma sente vagamente seu despertar para a existência física quando entra em contato com o embrião que lhe é apresentado a partir da terra. Ela então sente algo que pode ser assim expresso em palavras: "Esta é a minha forma." E tal sentimento, que poderia até ser chamado de uma consciência nascente de si, permanece com a alma durante toda a sua união com o corpo físico. Mas a alma ainda sente o processo de absorção do ar de maneira bastante psíquica e espiritual, como uma imagem, que aparece sob a forma de imagens sonoras que surgem e descem; estas dão forma ao embrião que está sendo incorporado a elas. A alma, em toda parte, sente-se no meio de ondas sonoras e sente que está moldando o corpo de acordo com essas forças tonais. Assim se desenvolvem as formas humanas nesse estágio da evolução. Elas não podem ser observadas em nenhum mundo externo pela nossa consciência atual. Elas evoluem como formas vegetais e florais de substância sutil, mas são internamente flexíveis e, portanto, aparecem como flores que ondulam ao vento.


Durante seu período terrestre, o homem experimenta o sentimento beatífico de ser moldado em tais formas. A absorção das partes aquosas é sentida na alma como um acréscimo de força, ou um processo de fortalecimento interior. De fora, aparece como crescimento da estrutura física humana.

À medida que a influência direta do sol diminui, a alma humana perde o poder de controlar esses processos. Gradualmente, eles são postos de lado. Apenas aquelas partes são deixadas que permitem que o embrião acima descrito amadureça. Mas o homem deixa seu corpo e retorna à forma espiritual de existência. (Como não são todas as partes do corpo da Terra que são empregadas na construção dos corpos humanos, não devemos imaginar que, durante o período noturno da Terra, ela seja composta exclusivamente de cadáveres em desintegração e embriões aguardando serem despertados. Todos estes estão incrustados em outras estruturas, que são formadas a partir das substâncias da Terra. Como as coisas se passam com essas estruturas será explicado mais adiante.)

Mas agora o processo de condensação da substância da Terra é continuado. Ao elemento aquoso é adicionada a substância sólida ou "terrestre" ("terrestre" no sentido da ciência oculta). E quando isso acontece, o homem, também, durante seu período terrestre, começa a incorporar o elemento terrestre em seu corpo. Assim que essa incorporação começa, as forças que a alma traz consigo do estado desencarnado não têm mais o mesmo poder de antes. Anteriormente, a alma havia moldado seu corpo a partir dos elementos ígneo, aéreo e aquoso, de acordo com os tons que ressoavam e as imagens de luz que brincavam ao seu redor. A alma não pode fazer isso com relação à forma solidificada. Outras forças agora intervêm para moldá-la. O que é deixado para trás do homem, quando a alma se retira do corpo, não é apenas um embrião a ser animado pela alma que retorna, mas uma estrutura contendo em si mesma um poder reanimador. A alma, em sua partida, não apenas deixa sua imagem para trás na Terra, mas envia parte de seu poder animador para essa imagem. Agora, em sua reaparição na Terra, a alma sozinha não mais basta para despertar a imagem para a vida; a reanimação deve ocorrer na própria imagem. Os seres espirituais que influenciam a Terra a partir do sol agora sustentam a força reanimadora que está no corpo humano, mesmo que o homem em si não esteja sobre a Terra. Assim, em sua reencarnação, a alma não é apenas sensível aos sons e às imagens de luz que flutuam ao redor, nos quais ela sente o

seres imediatamente acima dele, mas, embora recebendo o elemento terreno, fica sob a influência daqueles seres ainda mais elevados que estabeleceram sua morada no Sol. Anteriormente, o homem sentia que pertencia aos seres espiritual-psíquicos com os quais estava unido quando livre do corpo. Seu ego ainda estava dentro deles. Agora esse ego o confronta durante a encarnação física, tanto quanto tudo o mais que o cerca durante esse período. Cópias independentes do ser psíquico-espiritual do homem passaram a existir doravante na Terra. Essas estruturas eram de material mais sutil do que o corpo humano atual. Pois havia apenas uma mistura de porções terrenas em seu estado mais sutil — de maneira muito semelhante a quando o homem dos dias atuais absorve as substâncias finamente distribuídas de um objeto através de seu órgão do olfato. Os corpos humanos eram como sombras. Mas, como estavam distribuídos por toda a Terra, ficaram sob influências terrenas, que variavam em sua natureza em diferentes partes da superfície terrestre. Enquanto anteriormente as cópias corporais correspondiam às almas humanas que as animavam e, por essa razão, eram essencialmente semelhantes em toda a Terra, diferenças agora apareciam entre as formas humanas. Dessa maneira, preparou-se o caminho para o que mais tarde surgiu como diferenças de raça.

Quando o corpo humano se tornou independente, a anterior união estreita dos mortais com o mundo espiritual-psíquico foi, até certo ponto, dissolvida. Doravante, quando a alma deixava o corpo, este continuava vivendo algo como uma continuação de vida. Se a evolução tivesse continuado a avançar dessa maneira, a Terra teria se endurecido sob a influência de seus constituintes sólidos. Aos olhos do vidente que olha para trás, para essas condições, os corpos humanos, quando abandonados por suas almas, parecem tornar-se cada vez mais solidificados. E, após algum tempo, as almas humanas que retornavam à Terra não teriam encontrado material disponível com o qual se combinar. Todas as substâncias disponíveis para o homem teriam sido usadas para preencher a Terra com os restos endurecidos de seres encarnados.

Então ocorreu um evento que deu uma nova direção a toda a evolução. Tudo o que, na substância terrestre sólida, podia contribuir para uma duração permanente foi eliminado. Nesse ponto, a nossa atual Lua deixou a Terra. E o que anteriormente conduzira diretamente a uma moldagem permanente das formas, passou a operar a partir da Lua, indiretamente e em grau diminuído. Os seres superiores, dos quais dependia essa moldagem das formas, haviam resolvido não mais deixar suas influências chegarem à Terra a partir do seu interior, mas sim de fora. Por esse meio, produziu-se na estrutura corporal do homem uma diferença que deve ser chamada de o começo da separação em um sexo masculino e um feminino.

E das formas humanas finamente constituídas que anteriormente habitavam a Terra, surgiram, através da cooperação mútua das duas forças, o embrião e a força animadora, as novas formas humanas, seus descendentes. Esses descendentes foram então remodelados. Em um grupo, o poder animador do elemento espiritual-psíquico era predominante; em outro, a vitalidade do embrião. Isso foi causado pelo enfraquecimento do poder do elemento sólido, em consequência da partida da Lua da Terra.


A influência das duas forças uma sobre a outra agora ocorria em um só corpo, e tornou-se mais tênue do que fora antes, e o descendente também se tornou mais frágil e refinado. Ele entrou na Terra em uma condição sutil, e somente gradualmente incorporou partes mais sólidas dentro de si.

Dessa forma, a possibilidade de união com o corpo foi novamente dada à alma humana que retornava à Terra. É verdade que a alma não mais animava o corpo a partir de fora, pois essa animação ocorria na própria Terra, mas ela se unia ao corpo e o capacitava a crescer.

Naturalmente, um certo limite foi estabelecido para esse crescimento. Através da separação da Lua, o corpo humano tornara-se, por um tempo, flexível; mas quanto mais continuava a crescer na Terra, mais as forças solidificantes ganhavam ascendência.

Por fim, a participação da alma na organização do corpo tornou-se cada vez menor. O corpo desintegrou-se quando a alma ascendeu a modos de existência espiritual-psíquicos.


Os poderes gradualmente adquiridos pelo homem durante as evoluções de Saturno, Sol e Lua podem ser rastreados participando gradualmente do progresso humano durante a formação da Terra, como temos descrito. A primeira parte a ser acesa pelo fogo da Terra é o corpo astral, ainda contendo dentro de si os corpos etérico e físico em estado de dissolução. Então o corpo astral é organizado em uma parte astral mais sutil, a alma sensitiva, e em uma parte etérica mais grosseira, que daqui em diante está em contato com o elemento terra; quando isso ocorre, o corpo etérico ou vital, já esboçado, faz o seu aparecimento. E enquanto as almas racional e autoconsciente estão sendo evoluídas no homem astral, são incorporadas ao corpo etérico aquelas partes mais grosseiras que são suscetíveis ao som e à luz. No momento em que o corpo etérico é ainda mais densificado, e de ser um corpo de luz torna-se um corpo de fogo ou calor, o estágio de evolução foi alcançado no qual, como descrito acima, partes do elemento sólido da Terra são incorporadas ao homem. Porque o corpo etérico desceu tanto a ponto de ser condensado em fogo, ele agora é capaz, por meio das forças do corpo físico previamente nele implantadas, de combinar-se com aquelas substâncias da Terra física que foram atenuadas até o estado de fogo. Mas por si só não seria mais capaz de introduzir também substâncias do ar no corpo que, entretanto, tornar-se mais solidificado. Então, como indicado acima, os seres superiores que habitam o sol interpõem-se e insuflam ar no corpo. Enquanto o homem, em virtude de seu passado, é capaz de, por si mesmo, tornar-se permeado pelo fogo terreno, seres superiores dirigem o sopro do ar para o seu corpo. Antes de o corpo etérico ser organizado, ele era capaz, como receptor do som, de dirigir a corrente de ar. Ele permeava o corpo físico com vida. Agora o corpo físico recebe vida de fora. O resultado disso é que essa vida torna-se independente da parte psíquica do homem. O homem, ao deixar a Terra, deixa para trás não apenas o embrião de sua forma, mas uma imagem viva de si mesmo. Os Senhores da Forma permanecem agora unidos a essa imagem, e a vida que eles concederam, transferem para os descendentes do homem, quando sua alma deixou o corpo. Assim surge o que pode ser chamado de hereditariedade, e quando a alma humana reaparece na Terra, ela sente que está em um corpo animado pela vida de seus ancestrais. Ela se sente especialmente atraída por exatamente esse tipo de corpo. Dessa forma, forma-se algo como uma memória de um ancestral com quem a alma se sente una. Essa memória perpassa a linhagem de descendentes sob a forma de uma consciência possuída em comum. O eu flui através das gerações. Nesse estágio da evolução, o homem, durante sua vida na Terra, era consciente de si mesmo como um ser independente. Ele sentia o fogo interior de seu corpo etérico.


corpo a ser combinado com o fogo externo da terra. Ele podia sentir como seu ego o calor que fluía através dele. Nessas correntes de calor, entrelaçadas com a vida, encontram-se os primeiros começos da circulação do sangue. Mas no que fluía para ele como ar, ele não sentia inteiramente o seu próprio ser. Na verdade, eram as forças dos seres superiores que descrevemos que atuavam nesse ar. Mas ainda restava a ele, dentro do ar que fluía através dele, aquela parte das forças que lhe pertencia em virtude de seus poderes etéricos previamente formados. Em uma parte dessas correntes de ar, ele era senhor. E nessa medida, não eram apenas os seres superiores que o moldavam, mas ele mesmo. Ele formava as partes aéreas do seu ser de acordo com as imagens do seu corpo astral. Enquanto o ar fluía assim para o seu corpo vindo de fora, um processo que se tornou a base da respiração, parte do ar foi formada dentro dele em um organismo que se fixou no homem e foi a base do sistema nervoso posterior. Assim, o homem nesse período estava conectado com a terra externa pelo calor e pelo ar.

Por outro lado, ele não estava consciente da introdução do elemento sólido na terra. Embora isso contribuísse para a sua própria encarnação, ele não podia perceber diretamente o que estava sendo fornecido, mas apenas através de uma consciência obscura na imagem dos seres superiores que estavam ativos.


Do processo. Sob a mesma forma de imagens, como expressão dos seres acima dele, o homem havia anteriormente percebido a introdução do elemento fluido na Terra. Através da densificação de sua forma terrena, as imagens sofreram agora uma mudança em sua consciência. O elemento sólido foi misturado ao fluido. Essa entrada do elemento sólido também deve ser vista como obra de seres superiores que operam a partir de fora. Não é possível que a alma humana tenha ainda o poder de dirigir o suprimento, pois esse suprimento agora tem de servir ao seu corpo, que está sendo construído a partir de fora. Ele estragaria sua forma se dirigisse o influxo ele mesmo. Portanto, o que ele transmite a si mesmo a partir de fora parece-lhe ser dirigido por ordens autoritativas emanadas dos seres superiores que trabalham na modelagem de seu corpo. O homem sente-se como um eu; ele tem dentro de si, como parte de seu corpo astral, sua alma racional, através da qual ele percebe internamente, sob a forma de imagens, o que está acontecendo externamente, e por meio da qual ele permeia seu delicado sistema nervoso. Ele se sente descendente de ancestrais, em virtude da vida que flui através das gerações. Ele respira essa vida e a sente como efeito dos seres superiores que foram descritos, os Senhores da Forma. E ele se submete a eles também quanto ao que lhe é transmitido por sua iniciativa a partir de fora, para sua nutrição. O que ele acha mais obscuro é sua origem como indivíduo. Quanto a isso, ele apenas sabe que esteve sob a influência dos Senhores da Forma, que se expressam nas forças terrestres. Em suas relações com o mundo exterior, o homem era guiado e governado. Isso vem à expressão pelo fato de ele estar consciente de atividades espirituais e psíquicas operando por trás de seu mundo físico. É verdade que ele não vê os seres espirituais em sua própria forma, mas ele está consciente em sua alma de sons e cores. Ele sabe, no entanto, que são as ações dos seres espirituais que se realizam através desse mundo de imagens. O que esses seres lhe comunicam chega até ele em sons; suas manifestações aparecem-lhe em imagens de luz.


O homem terreno é mais agudamente consciente de si mesmo por meio das imagens que lhe chegam através do elemento do fogo ou calor. Ele já pode distinguir entre seu próprio calor interno e as correntes de calor da periferia da Terra. Nestas últimas manifestam-se os Filhos da Personalidade.

Mas o homem tem apenas uma consciência obscura do que está por trás das correntes de calor externo. É nessas mesmas correntes que ele sente a influência dos Senhores da Forma. Quando efeitos poderosos de calor são produzidos no ambiente do homem, a alma sente: “Seres espirituais estão aquecendo a periferia da Terra; uma centelha foi destacada deles, que está permeando meu ser mais íntimo com calor.” Nos efeitos de luz, o homem ainda não distingue entre externo e interno exatamente da mesma maneira. Quando imagens de luz emergem ao seu redor, nem sempre produzem o mesmo sentimento na alma do homem terreno. Houve tempos em que ele as sentia como imagens externas. Isso foi durante o período em que ele acabara de descer do estado desencarnado para a encarnação. Foi o período de seu crescimento na Terra. À medida que o tempo se aproximava para o embrião ser formado como um novo ser terreno, aquelas imagens esmaeceram, e o homem reteve apenas algo como imagens de memória internas delas. As ações dos Filhos do Fogo (Arcanjos) estavam contidas naquelas imagens de luz, que apareciam ao homem como servidores dos espíritos do fogo, que enviavam uma centelha para dentro de seu próprio ser interior. Quando suas manifestações externas se extinguiram, o homem as sentiu internamente na forma de imagens (memórias). Ele se sentiu unido às suas forças. E de fato o estava. Pois por meio do que recebera deles, ele era capaz de atuar sobre a atmosfera ao seu redor. Esta, sob sua influência, começou a emitir luz.


Foi um tempo em que as forças da natureza e as forças humanas ainda não estavam separadas umas das outras como posteriormente vieram a estar. O que acontecia na Terra ainda emanava em grande medida das forças humanas. Naquela época, qualquer um que observasse os processos da natureza na Terra desde fora, veria Eles viram neles não apenas algo que é independente do homem, mas teriam visto forças humanas dentro desses processos. As percepções sonoras assumiram uma forma muito diferente para o homem terrestre. Desde o início da vida terrestre, elas foram ouvidas como sons externos. Ao passo que, até o meio da existência terrestre, imagens aéreas eram percebidas de fora, sons externos podiam ser ouvidos mesmo após esse período intermediário.


Somente em direção ao fim de sua vida é que o homem terrestre se tornou insensível a eles. E as imagens-memória desses sons permaneceram. Nelas estavam contidas as manifestações dos Filhos da Vida (Anjos). Quando, em direção ao fim de sua vida, o homem sentia-se interiormente unido àquelas forças, ele era capaz, ao imitá-las, de produzir efeitos poderosos no elemento aquoso da Terra. Sob sua influência, as águas agitavam-se para cima e para baixo, dentro e sobre a Terra. O homem teve percepções de paladar apenas durante o primeiro quarto de sua vida terrestre, e mesmo então elas pareciam à alma como uma memória da experiência de seu estado desencarnado. Enquanto duraram, seu corpo continuou a crescer cada vez mais sólido, assimilando substâncias externas. No segundo quarto da existência terrestre, o crescimento certamente continuou, mas a forma já estava plenamente desenvolvida. Nessa época, o homem só podia perceber outros seres vivos próximos a ele através de seus efeitos de calor, luz e som, pois ainda não era capaz de imaginar o elemento sólido. Durante o primeiro quarto de sua vida, ele recebeu as impressões gustativas descritas apenas através do elemento aquoso.


A forma corporal externa do homem era uma cópia dessa condição psíquica interna. As partes mais plenamente desenvolvidas eram aquelas que continham os primeiros começos da forma posterior da cabeça. Os outros órgãos apareciam apenas como apêndices. Estes eram sombrios e indistintos. Contudo, os seres terrestres variavam quanto à forma. Havia alguns em quem os apêndices eram mais ou menos desenvolvidos, conforme as condições terrestres sob as quais viviam. Isso variava com os diferentes lugares de habitação das pessoas na Terra. Onde estavam mais envolvidos nas coisas da Terra, os apêndices tornavam-se mais proeminentes. Aqueles seres humanos que, no início do desenvolvimento físico na Terra, eram os mais maduros, devido à sua evolução anterior, tendo entrado em contato com o elemento-fogo bem no começo, antes de a Terra ter sido condensada em ar, eram os que agora podiam desenvolver mais completamente os primeiros começos da cabeça. Essas eram as pessoas que possuíam mais harmonia interior.

Outros estavam prontos para o contato com o elemento-fogo somente quando a Terra já havia evoluído o ar dentro de si. Essas pessoas eram mais dependentes das condições exteriores do que as primeiramente mencionadas. Estes últimos sentiam distintamente os Senhores da Forma através do calor, e durante sua vida terrestre sentiam como se retivessem uma memória de ter pertencido àqueles espíritos e de terem sido um com eles no estado desencarnado. O segundo tipo de pessoas só tinha a memória do estado desencarnado em grau mais limitado; eles estavam conscientes de sua comunhão com o mundo espiritual principalmente através das influências de luz dos Filhos do Fogo (Arcanjos). Uma terceira variedade de seres humanos estava ainda mais enredada na existência terrestre. Foram eles que não puderam entrar em contato com o elemento-fogo até que a Terra estivesse separada do Sol e tivesse absorvido o elemento aquoso dentro de si. Seu sentimento de comunhão com o mundo espiritual era especialmente fraco no início da vida terrestre. Somente quando a influência dos Arcanjos, e mais especialmente dos Anjos, se fez sentir na vida interior formadora de imagens, é que eles sentiram essa conexão em algum grau. Por outro lado, no início do período terrestre, eles estavam cheios de impulsos ativos para realizar feitos que podem ser cumpridos sob condições propriamente terrestres. Neles, os órgãos suplementares eram particularmente fortemente desenvolvidos.


Quando as forças lunares, antes da separação da lua da terra, tendiam cada vez mais a solidificar esta última, aconteceu que, entre os descendentes dos embriões deixados para trás sobre a terra pelo homem, havia alguns nos quais

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 23 x

as almas humanas que retornavam do estado desencarnado não podiam mais ser encarnadas em consequência das forças lunares. A forma desses descendentes estava demasiado solidificada e, em virtude das forças lunares, havia se tornado demasiado diferente da forma humana para poder assumi-la. Consequentemente, certas almas humanas não encontraram mais possibilidade, sob essas circunstâncias, de retornar à terra. Somente as mais puras e fortes dessas almas podiam se sentir capazes de transformar o corpo terrestre durante o crescimento, de modo que ele pudesse desabrochar em forma humana. Apenas uma proporção dos descendentes corporais do homem tornou-se veículo de seres humanos terrestres. Outra seção só foi capaz, devido à forma solidificada, de receber almas em um nível inferior ao dos homens. Mas uma seção de almas humanas foi impedida de participar da evolução terrestre daquele tempo. Dessa maneira, foram levadas a embarcar em outro curso.

Houve almas que, já na separação do sol da terra, não encontraram lugar nesta última. Para sua evolução posterior, foram removidas para um planeta que, sob a orientação de seres cósmicos, estava sendo destacado da substância universal do mundo — aquela substância da qual a terra fazia parte no início de sua evolução física, e da qual o sol se havia separado. Esse planeta é aquele conhecido pela ciência externa, em sua expressão física, como "Júpiter". (Aqui falamos de corpos celestes, planetas, e seus nomes exatamente no sentido de uma ciência mais antiga, e como está em harmonia com a ciência oculta. Assim como a Terra física é apenas a expressão física de um grande organismo espiritual-psíquico, assim também o é todo outro corpo celeste. E assim como o vidente não denota apenas o planeta físico pela palavra "Terra", nem apenas a estrela fixa física por "Sol", assim também, ao falar de "Júpiter", "Marte" e dos outros planetas, ele significa conexões espirituais de longo alcance. A forma e a missão dos corpos celestes foram, no curso da natureza, essencialmente modificadas desde os tempos de que aqui falamos — em certo aspecto, até mesmo sua posição no espaço celeste está modificada. É possível apenas àquele que acompanha com a visão do vidente a evolução desses corpos celestes de volta às eras remotas do passado, apreender a conexão dos planetas contemporâneos com seus predecessores. Em Júpiter, as almas que foram descritas continuaram sua evolução.


E mais tarde, quando a Terra tendia cada vez mais à consolidação, outro lar teve de ser preparado para as almas para as quais era certamente possível ocupar os corpos solidificados por um tempo, mas que não o podiam fazer quando a solidificação tivesse progredido demasiadamente. Um lugar apropriado para sua evolução posterior foi encontrado em Marte. Já desde a época em que a alma ainda estava unida ao Sol, e incorporava em si os elementos aéreos do Sol, almas se mostravam inaptas a participar da evolução da Terra. Elas eram afetadas com demasiada intensidade pela forma corporal terrena. Por conseguinte, mesmo naquele tempo, tiveram de ser retiradas da influência direta das forças solares. Estas tiveram de influenciá-las desde fora. Saturno tornou-se o cenário de sua evolução posterior.


Assim, no curso da evolução da Terra, o número de formas humanas diminuiu, e surgiram formas que não haviam encarnado almas humanas. Estas foram capazes de receber apenas corpos astrais dentro de si, como os corpos físico e etérico humanos haviam feito na antiga Lua. Enquanto a Terra se despovoava no que diz respeito aos seres humanos, esses outros seres a estavam colonizando. Por fim, todas as almas humanas teriam sido compelidas a deixar a Terra se outra possibilidade não tivesse sido proporcionada pelo desprendimento da Lua. As formas humanas que ainda podiam ser animadas por almas humanas foram habilitadas a retirar a vida humana em germinação, durante a existência terrena, das forças lunares que procediam diretamente da Terra, e a deixar a vida amadurecer dentro de si até um ponto em que pudesse ser entregue àquelas forças. Enquanto a vida se desenvolvia dentro do homem, estava sob a influência dos seres que, sob a liderança do mais poderoso de seu número, haviam desprendido a Lua da Terra a fim de conduzir

um esboço da ciência oculta

a evolução desta última sobre um ponto crítico.

Quando a Terra havia desenvolvido o elemento ar dentro de si, estavam presentes seres astrais, como descrito acima, que haviam sido partes da antiga Lua e haviam ficado para trás. Estes haviam ficado aquém, em sua evolução, das almas humanas mais inferiores. Tornaram-se as almas daquelas formas que, mesmo antes da separação do Sol, tiveram de ser abandonadas pelo homem. Esses seres foram os ancestrais do reino animal. No decorrer do tempo, desenvolveram especialmente aqueles órgãos que no homem existiam apenas como apêndices.

Seu corpo astral teve de trabalhar sobre os corpos físico e etérico da mesma maneira que o corpo astral humano o fizera durante o período da antiga Lua. Agora, os animais que assim haviam passado a existir possuíam almas que não podiam habitar em animais individuais. A existência da alma também se estendia ao descendente da forma ancestral. Virtualmente, animais descendentes de uma forma têm uma alma em comum. Somente quando o descendente diverge do tipo ancestral através de influências especiais, uma nova alma animal se encarna. Nesse sentido, em conformidade com a ciência oculta, podemos falar de uma alma de espécie ou de raça, ou alma de grupo, nos animais.

Algo de natureza semelhante ocorreu na época da separação do Sol e da Terra. Emergiram do elemento aquoso formas não evoluídas além do que o homem fora antes da antiga Lua.


Eles só podiam receber uma impressão de algo de natureza astral quando este os influenciava de fora. Isso não podia acontecer até depois da separação do sol da terra. Sempre que o período solar da terra se iniciava, o elemento astral no sol estimulava essas formas de tal maneira que elas formavam seu corpo vital a partir da parte etérica da terra. Quando o sol se afastava da terra, esse corpo etérico era novamente dissolvido na vida comum da terra. E como resultado da cooperação da parte astral do sol com a parte etérica da terra, emergiram do elemento aquoso aquelas formas físicas que se tornaram os ancestrais do presente reino vegetal.

O homem tornou-se um ser psíquico individualizado na terra. Seu corpo astral, que havia fluído para ele na Lua através dos Senhores do Movimento, organizou-se na terra nas almas sensível, intelectual e da consciência. E quando a alma da consciência havia progredido o suficiente para formar para si, durante a vida terrena, um corpo adaptado a essa vida, os Senhores da Forma dotaram esse corpo com uma centelha de seu fogo. O “ego” foi aceso dentro dele. Toda vez que o homem deixava agora o corpo físico, ele estava no mundo espiritual, no qual encontrava os seres que, durante as evoluções de Saturno, Sol e Lua, lhe haviam dado seus corpos físico, etérico e astral, e o haviam desenvolvido até o estágio terrestre. Desde que a centelha do ego havia sido acesa durante a vida terrena, também ocorrera uma mudança na vida desencarnada. Até esse ponto da evolução, o homem não tinha independência dentro do mundo espiritual. Nesse mundo, ele não se sentia um ser separado, mas como se fosse um membro do organismo exaltado composto pelos seres superiores a ele. A “experiência do ego” na terra agora também produz efeito no mundo espiritual. Doravante, o homem sente-se, até certo grau, uma unidade nesse mundo. Mas sente também que está incessantemente ligado a ele. No estado desencarnado, ele encontra novamente os Senhores da Forma, em um aspecto superior, e esse aspecto ele havia percebido em sua manifestação na terra por meio da centelha de seu ego.

Na separação da Lua da Terra, a alma desencarnada começou a ter experiências no mundo espiritual que estavam ligadas a essa separação. De fato, só se tornou possível continuar desenvolvendo na Terra tais formas humanas que pudessem receber individualidade psíquica, através da transferência de parte das forças formativas da Terra para a Lua. Desse modo, a individualidade humana entrou na esfera dos seres lunares. E no estado desencarnado, a memória da individualidade terrena só podia operar porque, mesmo nesse estado, a alma permanecia dentro da esfera daqueles poderosos espíritos que haviam realizado a separação da Lua. O processo funcionava assim, — que imediatamente após deixar o corpo terreno, a alma só podia ver os exaltados seres solares como que em um brilho refletido dos seres lunares. E somente quando suficientemente preparada por contemplar esse esplendor refletido é que a alma alcançava a visão dos próprios exaltados seres solares. O reino mineral da Terra também surgiu daquilo que foi ejetado da evolução humana em geral. Suas estruturas são o que foi consolidado quando a Lua foi destacada da Terra. O único elemento da alma que se sentia atraído por essas estruturas era aquele que havia ficado para trás no estágio de Saturno e, portanto, era apenas adaptado para desenvolver formas físicas. Todos os acontecimentos tratados aqui e no que se segue ocorreram no curso de períodos extremamente longos. Mas a questão da cronologia não pode ser abordada aqui.


Os eventos descritos exibem a evolução da Terra vista de fora. Vistos espiritualmente de dentro, os fatos se apresentam da seguinte maneira: os seres espirituais que retiraram a Lua da Terra e incorporaram sua própria existência à Lua, tornando-se assim seres da Terra-Lua, provocaram uma certa formação do organismo humano por meio das forças que enviaram da Lua para a Terra. Suas

A influência afetou o ego que o homem havia adquirido e se fez sentir na interação desse ego com os corpos astral, etérico e físico. Por meio de sua influência, tornou-se possível ao homem refletir conscientemente dentro de si a sabedoria consumada da formação do mundo, reproduzi-la espelhada no conhecimento. Lembrar-se-á que, durante o antigo período lunar, o homem, devido à separação do sol naquela época, adquiriu certa independência em seu organismo, um estágio de consciência mais livre do que aquele que pudera derivar diretamente dos espíritos solares. Essa consciência livre e independente apareceu novamente — uma herança da antiga evolução lunar — durante o período terrestre em questão. Mas foi justamente essa consciência que, por meio da influência dos seres da terra-lua descritos, pôde novamente ser levada à união e harmonia com o universo, e ser feita um reflexo dele. Isso teria acontecido se nenhuma outra influência tivesse se afirmado.

Na ausência de qualquer outra influência, o homem teria se tornado um ser com uma consciência cujo conteúdo teria sido uma reprodução do mundo em imagens de percepção, e isso não por iniciativa própria, mas como por necessidade natural.

As coisas não aconteceram assim. Na época em que a lua se separou, interpuseram-se na evolução humana certos seres espirituais que haviam retido Tanta era a sua natureza lunar que não puderam participar do êxodo do sol da terra, e foram excluídos da influência dos espíritos que, a partir da terra-lua, haviam exercido sua atividade sobre a terra. Esses espíritos, com a antiga natureza lunar, foram, por assim dizer, banidos para a terra, mas com um desenvolvimento irregular. Em sua natureza lunar havia aquilo que se rebelara contra os espíritos solares durante a antiga evolução lunar, e que até então fora uma bênção para o homem, pois o conduzira a um estado de consciência livre e independente. As consequências do desenvolvimento peculiar desses espíritos durante o período terrestre acarretaram que se tornassem adversários dos espíritos que, agindo a partir da lua, desejavam fazer da consciência humana um reflexo automático do universo. O que havia ajudado o homem a um estado mais elevado de desenvolvimento na antiga Lua mostrou-se em oposição às possibilidades que haviam surgido através da evolução da terra. As forças opostas trouxeram consigo, de sua natureza lunar, o poder de atuar sobre o corpo astral humano, isto é, — de acordo com as afirmações acima, — o poder de torná-lo independente. Elas exerceram esse poder dando ao corpo astral um certo grau de independência — neste caso, para o período terrestre — em comparação com o estado de consciência automático (involuntário) que havia sido produzido pelos espíritos da terra-lua.



É DIFÍCIL expressar na linguagem de hoje os efeitos sobre o homem, naquele tempo remoto, dos seres espirituais referidos. Não devem ser pensados como análogos às influências da natureza do tempo presente, nem tampouco como semelhantes à influência de um ser humano sobre outro, quando o primeiro desperta no segundo poderes interiores de consciência por palavras que ajudam a segunda pessoa a compreender algo, ou a estimulam para a virtude ou o vício. O efeito referido como operante naquela era primeva não era uma força natural, mas uma influência espiritual, transmitida de maneira espiritual, e que descia sobre o homem como um influxo espiritual dos espíritos superiores, em conformidade com o estado de consciência do homem naquele tempo. Se pensarmos na influência como uma força natural, perderemos inteiramente sua realidade essencial. Se dissermos que os espíritos com a antiga natureza lunar tentaram o homem para desviá-lo para seus próprios fins, estamos usando uma expressão simbólica, que é boa desde que nos lembremos de que é apenas um símbolo e estejamos ao mesmo tempo claros em nossas mentes de que um fato espiritual subjaz ao símbolo.

A influência exercida sobre o homem pelos espíritos que permaneceram para trás durante a evolução lunar teve um resultado duplo. A consciência do homem foi despojada do caráter de ser meramente um espelho do universo, porque a possibilidade foi despertada no corpo astral humano de regular e controlar a partir deste corpo astral as imagens na consciência. O homem tornou-se o governante de seu próprio conhecimento. Mas, por outro lado, foi o corpo astral que foi o ponto de partida desse governo e, consequentemente, o ego colocado sobre o corpo astral veio a ser continuamente dependente dele. Assim, o homem ficou, a partir desse momento, exposto às influências duradouras de um elemento inferior em sua natureza. Foi-lhe possível, em sua vida, afundar abaixo da altura em que havia sido colocado pelos espíritos da terra-lua no curso do progresso do mundo. E subsequentemente ele ficou aberto à influência duradoura sobre sua natureza dos espíritos lunares irregularmente evoluídos. Podemos chamá-los de espíritos luciféricos, em distinção aos outros espíritos que, a partir da terra-lua, fizeram da consciência um espelho do universo, sem conferir qualquer livre arbítrio. Os espíritos luciféricos dotaram o homem com a possibilidade de desenvolver atividade livre em sua consciência e, ao mesmo tempo, criaram a possibilidade do erro e do mal.


O resultado desses eventos foi que o homem foi trazido a uma conexão diferente com os espíritos solares daquela que havia sido destinada a ele pelos espíritos da terra-lua. Estes haviam desejado desenvolver o espelho de sua consciência de tal modo que a influência dos espíritos solares deveria ter sido a predominante em toda a vida interior do homem. Esses propósitos foram cruzados, e foi criada na natureza humana uma oposição entre a influência dos espíritos solares e a dos espíritos irregularmente evoluídos na antiga Lua. Devido a essa oposição, surgiu também no homem a incapacidade de reconhecer as influências solares físicas como tais; elas foram ocultadas pelas impressões terrenas do mundo exterior. Preenchida com essas impressões, a parte astral do homem foi atraída para a esfera do ego. Esse ego, que de outra forma teria sentido apenas a centelha de fogo concedida a ele pelos Senhores da Forma, e teria se submetido ao comando desses espíritos em tudo o que dizia respeito ao fogo externo, daí em diante trabalhou sobre os fenômenos de calor externos através do elemento com o qual ele próprio havia sido inoculado. Um vínculo de atração foi assim estabelecido entre o ego e o fogo terrestre.

Dessa maneira, o homem tornou-se mais envolvido na materialidade terrena do que havia sido ordenado para ele. Enquanto anteriormente ele tinha um corpo físico consistindo principalmente de fogo, ar e água, com apenas uma ligeira mistura de substância terrestre, o corpo agora se tornou mais sólido e denso. E enquanto o homem anteriormente se movia de maneira flutuante e pairante sobre a terra sólida, como um ser finamente organizado, ele agora foi forçado a descer "da periferia da Terra" para partes dela que já estavam mais ou menos consolidadas. Que tais efeitos físicos das influências espirituais acima descritas pudessem ser produzidos É explicado pelo fato de que as influências eram do tipo que foi descrito, nem forças da natureza nem tais que atuem da alma de um ser humano sobre outro. A influência destas últimas não se estende tão profundamente na matéria quanto as forças espirituais que aqui estão em questão. Porque o homem se abriu às influências do mundo exterior, ao seguir suas próprias ideias, que estavam sujeitas ao erro, porque viveu para satisfazer desejos e paixões que não permitiu que influências espirituais superiores regulassem, a possibilidade da doença apareceu. Mas um efeito especial da influência luciférica foi que, de então em diante, o homem não podia sentir sua vida terrena individual como uma continuação do estado desencarnado. De então em diante, ele estava aberto a tais impressões terrenas que surgiam através do elemento astral com o qual havia sido inoculado, e estas se combinavam com as forças destrutivas do corpo físico. O homem sentia isso como a decadência de sua vida terrena. E dessa maneira a "morte" surgiu, causada pela própria natureza humana. Isso aponta para um significativo mistério na natureza do homem, a conexão do corpo astral humano com a doença e a morte. Condições particulares agora se estabeleceram, afetando o corpo etérico humano. Ele foi colocado em uma posição entre os corpos físico e astral, o que, até certo ponto, causou seu afastamento das faculdades adquiridas pelo homem através da influência luciférica. Parte do corpo etérico foi deixada de tal


um esboço da ciência oculta

Muito além do corpo físico que só poderia ser regido por seres superiores, não pelo ego humano. Os seres superiores eram aqueles que haviam deixado a Terra na separação do Sol, a fim de ocupar outra morada sob a orientação de um de seus associados exaltados. Se aquela parte do corpo etérico que foi descrita tivesse permanecido ligada ao corpo astral, o homem teria à sua disposição as forças suprassensíveis que outrora possuíra. Ele teria dirigido a influência lucífera para essas forças e, aos poucos, ter-se-ia libertado por completo dos seres do Sol. Seu ego ter-se-ia tornado inteiramente um ego terrestre. Nesse caso, teria ocorrido que esse ego terrestre, após a morte do corpo físico (em alguns casos, mesmo durante sua decadência), teria ocupado outro corpo físico, o de um descendente, sem passar pelo estágio de união com corpos espirituais superiores em estado desencarnado. O homem teria assim chegado à consciência de seu próprio ego, mas apenas de um ego terreno. Isso foi evitado pelo processo efetuado através dos espíritos da terra-lua. O verdadeiro ego individual foi assim libertado do mero ego terrestre, de modo que, embora o homem durante a vida terrena apenas parcialmente se sentisse como um ego, ao mesmo tempo sentia seu ego terrestre como uma continuação do de seus ancestrais através das gerações. A alma era consciente de uma espécie de "ego grupal" na vida terrena,

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 24 s

remontando a ancestrais remotos; o homem sentia-se membro desse grupo. Somente no estado desencarnado o ego individual podia ser consciente de si mesmo como um ser separado. Mas esse estado de isolamento era prejudicado porque o ego ainda estava sobrecarregado com uma memória da consciência terrena (ego terrestre). Essa memória perturbava sua visão do mundo espiritual, que começava a ser coberta por um véu entre o nascimento e a morte, da mesma maneira que os olhos físicos na Terra podem ser velados.

As muitas mudanças que ocorreram no mundo espiritual enquanto a evolução humana passava pelas condições recém-descritas encontraram expressão física no gradual ajustamento das relações mútuas existentes entre o Sol, a Lua e a Terra (e, além disso, entre outros corpos celestes).

A alternância do dia e da noite destaca-se como um dos resultados dessas relações (Os movimentos dos corpos celestes são regulados pelos seres que os habitam. O movimento da Terra, do qual o dia e a noite são o resultado, foi induzido pelas relações mútuas dos vários espíritos superiores ao homem. O movimento da Lua foi produzido da mesma maneira, para que, após a separação da Lua da Terra, os Senhores da Forma pudessem, por meio da revolução daquela ao redor desta, atuar sobre o corpo físico humano da maneira correta, e com o ritmo correto). O ego e o corpo astral do homem agora trabalhavam dentro dos corpos físico e etérico durante o dia; à noite, essa atividade cessava para o ego, e o corpo astral então deixava os corpos físico e etérico, e entrava completamente na esfera dos Filhos da Vida, ou Anjos, dos Filhos do Fogo, ou Arcanjos, dos Filhos da Personalidade, e dos Senhores da Forma. Além dos Senhores da Forma, os Senhores do Movimento, da Sabedoria e os Tronos também incluíam os corpos físico e etérico em sua esfera de influência nesse período. Os efeitos prejudiciais produzidos no homem pelos erros de seu corpo astral durante o dia podiam, assim, ser contrabalançados.

Agora que a humanidade estava mais uma vez em aumento na Terra, não havia mais razão contra a encarnação das almas humanas em seus descendentes. Como as forças lunares estavam então em ação, formaram-se sob sua influência corpos humanos totalmente adaptados para a ocupação pelas almas humanas. As almas anteriormente removidas para Marte, Júpiter e os outros planetas foram agora guiadas para a Terra, e havia assim uma alma pronta para cada ser humano nascido na linha física de descendência. Isso continuou por longos períodos até que a imigração de almas para a Terra correspondesse ao aumento dos seres humanos. As almas que agora deixavam seus corpos na morte física retinham o eco de sua individualidade terrena como uma memória no estado desencarnado.

O O resto dessa memória era que, quando um corpo adequado para elas renascia na Terra, aquelas almas eram mais uma vez encarnadas nele. No decorrer do tempo, houve na raça humana alguns cujas almas vinham de fora e apareciam na Terra pela primeira vez desde seus períodos mais remotos, e outros com almas que já haviam sido encarnadas na Terra em sua forma presente. Em períodos subsequentes da evolução terrestre, o número de almas jovens que aparecem pela primeira vez torna-se cada vez menor, e as almas reencarnadas tornam-se cada vez mais numerosas; contudo, por longas eras, a raça humana foi composta das duas variedades de pessoas condicionadas por esses fatos.


Daí em diante, o homem na Terra sentiu-se unido aos seus antepassados através do ego grupal que tinha em comum com eles. Por outro lado, a experiência do ego individual era tanto mais forte no estado desencarnado entre a morte e um novo nascimento. As almas que entravam nos corpos humanos a partir do espaço celestial estavam em uma posição diferente daquelas que tinham uma ou mais vidas terrestres atrás de si. As primeiras, como almas que entravam na vida física terrestre, traziam consigo apenas as condições às quais o mundo espiritual superior e suas experiências fora da esfera da Terra as sujeitavam. As outras haviam, por suas ações em vidas anteriores, acrescentado condições próprias.

O destino das primeiras era determinado apenas por fatos que jaziam além das novas condições terrestres; o das almas reencarnadas é também determinado pelo que elas mesmas fizeram em vidas anteriores sob condições terrestres. O Karma humano individual faz sua primeira aparição simultaneamente com a reencarnação.


Como o corpo etérico humano foi retirado do corpo astral da maneira acima indicada, a faculdade gerativa também não foi incluída na esfera da consciência humana, mas esteve sob o domínio do mundo espiritual. Quando chegara o tempo de uma alma descer à Terra, impulsos procriativos surgiam no ser humano. Todo o processo, até certo ponto, estava velado em obscuridade misteriosa no que dizia respeito à consciência terrena. Mas as consequências dessa separação parcial do corpo etérico do corpo físico também foram sentidas durante a vida terrena. As qualidades do corpo etérico eram capazes de ser especialmente nobilitadas pela influência espiritual. Na vida psíquica, isso se fazia sentir pela memória ser levada a um grau especial de perfeição. O pensamento lógico independente estava, nesse período, apenas em seu estágio mais rudimentar no homem; por outro lado, a faculdade da memória era quase ilimitada. Externamente, parecia como se o homem tivesse conhecimento direto das forças atuantes de todo ser vivo. Ele tinha à sua disposição as forças vitais e gerativas da natureza animal e, mais especialmente, da natureza vegetal.


Ele era capaz, por exemplo, de extrair de uma planta a força que a impele a crescer e de usar essa força, assim como usamos as forças da natureza inanimada — por exemplo, aquela adormecida no carvão é extraída e utilizada para impulsionar motores.

A vida psíquica interior do homem também foi transformada de muitas maneiras diferentes pela influência luciférica. Muitos tipos de sentimentos e emoções devidos a ela poderiam ser citados. Destes, apenas um pode ser mencionado. Antes dessa influência, a alma humana, naquilo que moldava e realizava, trabalhava sob a vontade e os propósitos de seres espirituais superiores. O plano de tudo o que deveria ser executado era determinado de antemão. E na proporção do grau em que a consciência humana era evoluída, era ela capaz de prever como as coisas deveriam se desenvolver no futuro, de acordo com esse plano preconcebido. Essa consciência do futuro foi perdida quando o véu das percepções terrenas foi tecido sobre as manifestações dos seres espirituais superiores, e nelas as forças reais dos Espíritos Solares estavam ocultas. Doravante, o futuro tornou-se incerto e, em consequência disso, a possibilidade do medo foi implantada na alma. O medo é um resultado direto do erro.

É, no entanto, evidente que, através da influência luciférica, o homem tornou-se independente de certas...

‘Fuillici miUculais este assunto será encontrado em meu livro, *Atlântida e Lemúria*, que trata dos ancestrais do homem.


forças definidas às quais ele anteriormente se submetia sem o exercício de sua vontade. Doravante, ele foi capaz de formar resoluções próprias. A liberdade é o resultado da influência lucífera, e o medo e sentimentos semelhantes são apenas os fenômenos que acompanham a evolução da liberdade humana.

Visto espiritualmente, o medo surge desta maneira: dentro das forças terrestres, sob a influência das quais o homem havia chegado por meio dos poderes luciféricos, outras forças estavam operando, que se haviam desenvolvido irregularmente muito antes no curso da evolução do que os poderes luciféricos. Com as forças terrestres, o homem admitiu em sua natureza a influência dessas outras forças. Elas deram aos sentimentos, que sem elas teriam operado de maneira bastante diferente, a qualidade do medo.

Elas podem ser chamadas de seres ahrimânicos. São os mesmos que Goethe chama de mefistofélicos.

Embora a influência lucífera a princípio se fizesse sentir apenas nos indivíduos mais avançados, logo se estendeu a outros. Os descendentes dos indivíduos avançados foram cruzados com os menos progressistas descritos acima, e dessa maneira a força lucífera foi transmitida a estes últimos.

Mas o corpo etérico das almas que retornavam dos planetas não pôde ser protegido na mesma medida que o possuído pelos descendentes daqueles que permaneceram na Terra. A proteção desse corpo emanava de um ser exaltado que tinha a direção do cosmos na separação do Sol da Terra. Esse ser é o regente do reino solar. Com ele, removeram-se para a morada no Sol aqueles espíritos elevados cujo desenvolvimento cósmico os havia amadurecido suficientemente. Mas havia outros seres que não haviam alcançado tal altura na separação do Sol; estes foram obrigados a buscar outras esferas. Foi por seu intermédio que Júpiter e outros planetas se desprenderam daquela substância cósmica geral que, no início, estava no organismo físico terrestre. Júpiter tornou-se então a morada daqueles seres que não eram suficientemente desenvolvidos para viver no Sol, e o mais avançado desses seres tornou-se o líder em Júpiter. O líder da evolução solar tornou-se o “eu superior” que atuava no corpo etérico dos descendentes daqueles que permaneceram na Terra.


De maneira semelhante, o líder em Júpiter tornou-se o "ego superior", passando como uma consciência comum através da posteridade que resultou do cruzamento dos descendentes daqueles que permaneceram na Terra com aqueles que apareceram na Terra pela primeira vez durante o período do elemento ar, como descrito acima, e que haviam passado para Júpiter.

Essa raça mista pode ser chamada, em conformidade com a ciência oculta, de "humanidade de Júpiter". Eles eram rebentos da raça humana que haviam adotado almas humanas já naquela época antiga, mas que, no início da evolução terrestre, ainda não estavam maduros o suficiente para participar do primeiro contato com o fogo. Eram almas intermediárias entre os reinos da alma humana e animal.

Agora, havia outros seres que, sob a liderança de um dos mais elevados, haviam destacado Marte da substância cósmica geral, para que fosse sua morada. Sob sua influência, surgiu um terceiro tipo de humanidade, formada por cruzamento, a "humanidade de Marte". (Por meio desse conhecimento, lança-se luz sobre a origem da formação dos planetas do nosso sistema solar, pois todos os membros desse sistema se originaram através dos vários estágios de maturidade alcançados pelos seres que os habitam. Mas, é claro, não é possível entrar em todos os detalhes da formação cósmica aqui.) Aquelas pessoas que sentiam em seu corpo etérico a influência do exaltado ser solar em si mesmo podem ser chamadas de "humanidade do Sol". O ser que vivia nelas como o ego superior — é claro, apenas na raça, não no indivíduo — é o mesmo a quem vários nomes foram dados em tempos posteriores, quando o homem adquiriu conhecimento consciente dele, e que aparece à raça humana hoje como o Cristo.

A "humanidade de Saturno" também deve ser distinguida naquele tempo. O "ego superior" dessa raça

apareceu como um ser que, com seus associados, fora forçado a abandonar a substância cósmica original antes da separação da parte solar do corpo físico, não menos que do corpo etérico dessas pessoas, estava isento da influência de Lúcifer. Mas o corpo etérico, não obstante, não estava suficientemente protegido nas raças mais inferiores da humanidade para resistir às influências da natureza luciférica. Essas pessoas podiam estender a ação livre da centelha do ego dentro de si a ponto de provocar efeitos potentes e perniciosos de fogo ao seu redor. O resultado foi uma poderosa catástrofe terrestre. Uma grande parte da então habitada Terra foi destruída por tempestades de fogo, e com ela os seres humanos que haviam caído em erro. Apenas uma proporção muito pequena, alguns dos quais permaneceram intocados pelo erro, conseguiu refugiar-se em uma região que até então estivera protegida da influência humana fatal. O país que ocupava aquela parte da Terra agora coberta pelo Oceano Atlântico mostrou-se particularmente adequado para a morada da nova raça humana. Para lá se dirigiram aquelas pessoas que permaneceram mais livres do erro. Somente aqueles separados do corpo principal da humanidade habitaram outras regiões. A ciência oculta dá o nome de "Atlântida" àquela parte da Terra que outrora existiu entre os atuais continentes da Europa, África e América. (Esta etapa particular da evolução humana tem sua nomenclatura especial na literatura teosófica. O período que precede o atlante é chamado de idade Lemúrica, enquanto aquele durante o qual as forças da Lua ainda não se haviam desenvolvido plenamente é chamado de idade Hiperbórea. A este precede ainda outro, que coincide com o período mais antigo da evolução da Terra física. A tradição bíblica descreve o período anterior à influência dos seres luciféricos como o tempo do Paraíso, e a descida à Terra, ou o enredamento da humanidade no mundo dos sentidos, como a expulsão do Paraíso.)



aquela parte do corpo etérico que foi separada do corpo astral na maneira descrita acima. Sob essas condições, a capacidade do corpo físico de percepção estava praticamente aniquilada, e o próprio corpo físico estava como se morto. Pois, através do corpo etérico, essas pessoas estavam totalmente unidas com o reino dos Senhores da Forma, e podiam aprender com eles como estavam sendo guiadas e dirigidas por aquele ser exaltado que era o líder na separação do sol e da terra — pelo "Cristo". Essas pessoas eram Iniciados. Mas, uma vez que a individualidade humana havia sido trazida para a esfera dos Seres da Lua, como descrito acima, esses Iniciados não podiam, como regra, entrar em contato direto com o Cristo; eles só podiam vê-lo refletido, por assim dizer, pelos Seres da Lua.

Nesse caso, eles não viam o Cristo diretamente, mas apenas sua glória refletida. Eles se tornaram líderes do restante da humanidade, a quem podiam transmitir os mistérios que haviam visto. Eles atraíram discípulos, a quem comunicaram os métodos para alcançar a condição que conduz à Iniciação. Somente aqueles que eram membros da Humanidade Solar mencionada acima podiam alcançar o conhecimento do Cristo. Eles cultivavam seu aprendizado místico e as ocupações que o promoviam em um local particular que, em conformidade com a ciência oculta, pode ser chamado de Oráculo de Cristo, ou Oráculo Solar, o termo "oráculo" sendo usado para denotar um lugar onde os propósitos dos seres espirituais são desvelados.


Outros oráculos foram criados pelos membros da humanidade de Saturno, Marte e Júpiter. A visão intuitiva de seus Iniciados estava confinada a ver aqueles seres que lhes eram revelados em seus corpos etéricos como seus respectivos "eus superiores". Assim surgiram adeptos da sabedoria de Saturno, Júpiter e Marte. Além desses métodos de Iniciação, havia outros para pessoas que haviam assimilado demasiado do espírito luciférico para permitir que uma parte tão grande do corpo etérico fosse separada do corpo físico como ocorria com a humanidade do Sol. O corpo astral dessas pessoas retinha ainda mais do etérico dentro do corpo físico do que a humanidade do Sol. Tampouco podiam ser levados à revelação do Cristo através das condições mencionadas acima. Porque seu corpo astral era mais influenciado pelo princípio luciférico, eram obrigados a passar por uma preparação mais difícil e, então, em um estado menos desencarnado que os outros, podiam receber a revelação, não do próprio Cristo, mas de outros seres exaltados.

Havia seres que, embora tivessem deixado a Terra na separação do Sol, não se encontravam em um nível tão elevado que pudessem continuar participando da evolução solar. Eles formaram para si uma morada afastada do Sol, após sua separação da Terra; isso era Vênus. Seu líder era o ser que agora se tornava o "eu superior" desses Iniciados e de seus adeptos. Algo semelhante aconteceu com o espírito principal de Mercúrio para outra variedade de pessoas. Dessa forma, surgiram os oráculos de Vênus e Mercúrio. Um tipo de seres humanos, que mais havia absorvido as influências luciféricas, só podia alcançar um dos seres superiores que, com seus associados, havia sido expulso mais cedo de todos da evolução solar. Esse ser não possui planeta particular no espaço, mas ainda vive dentro da periferia da Terra, com a qual foi uma vez mais unido após o retorno do Sol. As pessoas a quem esse ser foi revelado como seu eu superior podem ser chamadas de seguidores do oráculo de Vulcano. Sua atenção estava mais voltada para os fenômenos terrestres do que a dos outros Iniciados. Eles lançaram os primeiros fundamentos do que depois se tornaram as artes e ciências humanas. Por outro lado, os Iniciados de Mercúrio estabeleceram o estudo das coisas mais suprassensíveis, e os Iniciados de Vênus fizeram isso em grau ainda maior.


Os Iniciados de Vulcano, Mercúrio e Vênus diferiam dos de Saturno, Júpiter e Marte, pois estes últimos recebiam seus Mistérios mais como uma revelação do alto, e em estado mais completo, enquanto os primeiros adquiriam seu conhecimento mais sob a forma de seus próprios pensamentos — sob a forma de ideias. Os Iniciados de Cristo ocupavam uma posição intermediária. Juntamente com a revelação direta, recebiam a capacidade de revestir seus Mistérios em uma forma humana de concepção. Os Iniciados de Saturno, Júpiter e Marte eram obrigados a se expressar mais em imagens sensoriais; os Iniciados de Cristo, Vênus, Mercúrio e Vulcano podiam transmitir seu conhecimento mais através de ideias puras e simples.

Qualquer conhecimento dessa espécie que alcançava a humanidade atlante chegava indiretamente através dos Iniciados. Mas o restante da humanidade também recebeu faculdades especiais através do princípio Lúcifer, pois, por intermédio de seres cósmicos elevados, o que teria causado ruína foi convertido em um bom fim.

Uma dessas faculdades era a da fala.

Esta foi concedida ao homem através de sua materialização em substância física e através da separação de parte de seu corpo etérico de seu corpo físico. Nos tempos posteriores à separação da Lua, o homem a princípio se sentia conectado com seus ancestrais físicos através do ego grupal. Mas essa consciência comum, que ligava a posteridade aos seus ancestrais, foi gradualmente perdida no curso das gerações. Descendentes posteriores tinham uma memória interna apenas de seus ancestrais mais recentes, não mais de seus antepassados mais remotos.

Somente nas condições semelhantes ao sono, durante as quais a humanidade entrava em contato com o mundo espiritual, a lembrança de um ou outro ancestral emergia novamente. Então as pessoas se sentiam unidas àquele ancestral que acreditavam estar reaparecendo nelas. Essa era uma ideia errônea de reencarnação, que surgiu especialmente no período atlante posterior. A verdadeira doutrina da reencarnação só podia ser aprendida nas escolas dos Iniciados. Eles podiam ver como a alma humana atravessa o estado desencarnado em seu caminho de uma encarnação para outra, e somente eles eram capazes de transmitir a verdade real do assunto aos seus discípulos.

No passado remoto que ora consideramos, a forma física do homem era muito diferente de sua forma atual. Ela era ainda, em grande medida, a expressão das qualidades de sua alma. O homem era composto de uma substância mais suave e delicada do que aquela que desde então adquiriu.

O que hoje está solidificado era então, nos membros, macio, flexível e plástico.

A estrutura corporal dos seres humanos mais psíquicos e espirituais era delicada, flexível e expressiva. Aqueles menos evoluídos espiritualmente possuíam formas corporais mais grosseiras, pesadas e menos móveis. Um alto grau de maturidade psíquica contraía os membros, e a forma era mantida pequena; o atraso da alma e o enredamento na sensualidade expressavam-se externamente em tamanho gigantesco. Enquanto o homem crescia em maturidade, seu corpo ia sendo formado, de acordo com o que crescia em sua alma, de um modo que pareceria incrível e fantástico

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às ideias contemporâneas. Paixões depravadas, impulsos e instintos traziam em seu rastro um aumento colossal de matéria. A forma física atual do homem surgiu através de uma contração, espessamento e consolidação da forma humana atlante. E enquanto o homem, antes do período atlante, havia sido uma imagem fiel do ser de sua alma, os eventos da evolução atlante traziam em si as causas que conduziram à estrutura do homem pós-atlante, cuja forma física é sólida e comparativamente independente das qualidades da alma. (As formas do reino animal tornaram-se densas na Terra muito antes do homem.) As leis que hoje governam a formação das formas no reino da natureza certamente não devem ser pensadas como prevalecentes no passado remoto.

Em direção ao meio da evolução atlante, o mal gradualmente se fez sentir na humanidade. Os Mistérios dos Iniciados tiveram de ser cuidadosamente mantidos em segredo daqueles que não haviam purificado seus corpos astrais do erro. Tivessem estes obtido visão sobre aquele conhecimento oculto, sobre as leis por meio das quais seres superiores dirigiam as forças da natureza, eles teriam colocado essas forças à disposição de suas próprias necessidades e paixões pervertidas.

O perigo era tanto maior porque a humanidade estava chegando, como foi descrito, à esfera de seres espirituais inferiores, que não podiam participar da evolução regular da Terra e, portanto, trabalhavam contra ela. Estes, persistentemente influenciou a humanidade de tal maneira que lhe incutiu interesses que eram, na verdade, dirigidos contra o bem-estar humano. Mas a humanidade ainda tinha à sua disposição as forças de crescimento e reprodução pertencentes à natureza animal e humana.


Não apenas as pessoas comuns, mas também alguns dos Iniciados, estavam sujeitos à tentação por parte de seres espirituais inferiores. Eles foram induzidos a empregar as forças supersensíveis mencionadas acima para um propósito que contrariava a evolução humana. E para esse fim, buscaram associados que não eram iniciados e que faziam uso dos segredos das forças supersensíveis da natureza para fins baixos. O resultado foi uma grande corrupção da natureza humana. O mal espalhou-se cada vez mais, e, uma vez que as forças de crescimento e geração, se arrancadas de sua esfera original e usadas independentemente, têm uma conexão misteriosa com certas forças que atuam no ar e na água, foram assim desencadeadas, por meio da ação humana, poderosas forças naturais destrutivas que levaram à gradual ruína do território atlante pela ação de catástrofes de ar e água.

A humanidade atlante foi obrigada a peregrinar — aquela porção dela, pelo menos, que não pereceu nas tempestades.

Em consequência dessas tempestades, a terra assumiu um novo aspecto. De um lado, a Europa, a Ásia e a África gradualmente assumiram sua forma atual; de outro, a América apareceu.

Grandes companhias De viajantes que partiram para esses países. Aqueles que viajaram para o leste a partir da Atlântida são especialmente importantes para nós de hoje. A Europa, a Ásia e a África foram gradualmente colonizadas pelos descendentes dos atlantes. Várias raças fixaram sua morada nesses continentes. Elas estavam em diferentes estágios de desenvolvimento e também em diferentes níveis de corrupção. E com elas vieram os Iniciados, guardiões dos Mistérios do oráculo. Eles estabeleceram santuários em várias partes, nos quais os cultos de Júpiter, Vênus, etc., eram realizados, ora em bom espírito, ora em mau espírito. A traição dos Mistérios de Vulcano exerceu uma influência especialmente desfavorável, pois a atenção de seus adeptos estava mais direcionada para assuntos terrenos do que a dos outros. Por essa traição, a humanidade foi tornada dependente de seres espirituais que, como resultado de sua evolução passada, rejeitavam tudo o que emanava do mundo espiritual que havia sido evoluído através da separação da Terra do Sol. De acordo com a tendência que assim desenvolveram, eles atuaram sobre exatamente aquele elemento no homem que foi formado por suas percepções do mundo dos sentidos, atrás do qual o mundo espiritual está oculto. Doravante, esses seres adquiriram grande influência sobre muitos dos habitantes humanos da Terra, e sua influência primeiro se afirmou privando a humanidade cada vez mais do sentimento pelas coisas espirituais.



Uma vez que o tamanho, a forma e a flexibilidade do corpo físico humano ainda eram amplamente afetados pelas qualidades da alma, a consequência da traição dos Mistérios também apareceu em mudanças na raça humana nesses aspectos. Quando a corrupção humana se expressou no fato de que poderes supersensíveis foram tornados subservientes a impulsos, desejos e paixões inferiores, formas humanas disformes, grotescas em tamanho e forma, foram o resultado. Elas não foram capazes de sobreviver ao período atlante e se tornaram extintas. A humanidade pós-atlante foi formada fisicamente a partir daqueles ancestrais atlantes nos quais tal solidificação da forma corporal havia ocorrido que ela não mais cedeu aos poderes da alma, que doravante se tornaram anormais.

Houve um certo período na evolução atlante durante o qual, por meio das leis vigentes sobre e ao redor da Terra, exatamente aquelas condições foram obtidas que tendiam a consolidar a forma corporal do homem. Os tipos raciais humanos que haviam sido solidificados antes desse período certamente foram capazes de se reproduzir por muito tempo, mas as almas que neles encarnavam foram gradualmente tão comprimidas que as formas estavam fadadas a se extinguir. É verdade que muitos desses tipos raciais sobreviveram até os tempos pós-atlantes; aqueles que permaneceram suficientemente plásticos duraram até por muito tempo. As formas humanas que permaneceram flexíveis após o período descrito tornaram-se

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 261

lotes para tais almas que haviam em grande parte sofrido a influência perniciosa da traição descrita acima. Essas formas estavam destinadas à rápida extinção.

Em consequência do que havia acontecido dessa maneira, seres se fizeram sentir na esfera da evolução humana, desde meados do período atlante, cuja influência tendia a fazer a humanidade viver no mundo físico dos sentidos de maneira não espiritual. Isso foi tão longe que, em vez de o homem ver a forma real desse mundo, fantasmas, alucinações e ilusões de toda espécie lhe apareciam. A humanidade estava exposta não apenas à influência luciférica, mas também à daqueles outros seres mencionados acima, cujo líder pode ser chamado de Ahriman, segundo a denominação que lhe foi dada mais tarde na civilização persa (ele é o mesmo que Mefistófeles). Por meio dessa influência, o homem estava sujeito, após a morte, a poderes que o faziam parecer, mesmo então, um ser pertencente apenas às condições terrenas dos sentidos. A visão aberta dos eventos do mundo espiritual foi-lhe cada vez mais tirada. Ele era forçado a sentir-se no poder de Ahriman e, até certo ponto, excluído do intercâmbio com o mundo espiritual.

Havia um santuário-oráculo de especial importância que, no declínio universal, preservara o culto antigo em sua forma mais pura. Era um dos oráculos de Cristo e, por essa razão,

ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

ele foi capaz de preservar não apenas o próprio Mistério de Cristo, mas também aqueles dos outros oráculos. Pois na manifestação do mais elevado dos Espíritos Solares, também foram revelados os líderes de Saturno, Júpiter e dos outros planetas. No oráculo do Sol, conhecia-se o segredo de evocar, em um ou outro ser humano, tais corpos etéricos humanos como haviam pertencido aos melhores dos Iniciados de Júpiter, Mercúrio e outros. Por meio dos métodos utilizados para esse fim, que não podem ser aqui tratados em detalhe, as impressões dos melhores corpos etéricos dos antigos Iniciados foram preservadas, a fim de que pudessem posteriormente ser impressas em indivíduos adequados. O mesmo podia ser feito com os corpos astrais dos Iniciados de Vênus, Mercúrio e Vulcano.

Em certo ponto do tempo, o líder dos Iniciados de Cristo encontrou-se isolado com alguns associados, aos quais pôde transmitir, apenas em medida muito limitada, os mistérios do cosmos. Pois esses associados eram pessoas que haviam recebido como dom natural o menor grau possível de separação entre os corpos físico e etérico. Eles eram, naquela época, as melhores pessoas possíveis para promover o progresso ulterior da humanidade. Suas experiências no reino do sono tornavam-se cada vez mais raras. O mundo espiritual estava cada vez mais fechado para eles. Mas também lhes faltava a compreensão de tudo o que havia sido revelado ao homem nos tempos antigos, quando ele não estava em seu corpo físico, mas apenas em seu corpo etérico. As pessoas imediatamente ao redor do líder do oráculo de Cristo eram as mais avançadas no que diz respeito à união do corpo físico com aquela parte do corpo etérico que anteriormente havia sido separada dele. Essa união ocorreu na natureza humana pouco a pouco, como resultado da transformação que havia se processado com relação ao território atlante e à Terra em geral.


Os corpos físico e etérico do homem foram sendo cada vez mais recobertos. Por isso, a memória perdeu sua antiga capacidade ilimitada, e começou a vida humana de pensamento. Aquela parte do etérico que estava unida ao corpo físico transformou o cérebro físico em um verdadeiro instrumento de pensamento, e o homem, a partir desse momento, sentiu pela primeira vez realmente seu "eu" dentro de seu corpo físico. A autoconsciência despertou. Isso foi, a princípio, o caso apenas de um número limitado da raça humana, eminentemente dos associados do líder do oráculo de Cristo. A massa da humanidade, espalhada pela Europa, Ásia e África, reteve em graus variados os restos da antiga condição de consciência. Por isso, eles tinham experiência direta do mundo supersensível.

Os associados do Iniciado de Cristo eram pessoas de inteligência altamente desenvolvida, mas de menos experiência nas esferas supersensíveis do que qualquer um de seus contemporâneos.

O Iniciado viajou com eles para um país na Ásia central. Ele queria que eles fossem protegidos o máximo possível do contato com aqueles de consciência menos desenvolvida. Ele educou esses associados seus no espírito dos Mistérios que lhe foram revelados, e influenciou especialmente seus descendentes dessa maneira. Assim, ele reuniu ao seu redor um grupo de pessoas que haviam recebido em seus corações os impulsos correspondentes aos Mistérios da Iniciação de Cristo. Dessa companhia, ele escolheu os sete melhores, para que fossem dotados dos corpos etérico e astral que carregavam a impressão dos corpos etéricos dos sete melhores Iniciados Atlantes.


Assim, ele educou um sucessor para cada um dos Iniciados de Cristo, Saturno, Júpiter, Marte, Vulcano, Mercúrio e Vênus. Esses sete Iniciados tornaram-se os professores e líderes do povo que, no período pós-atlante, havia colonizado o sul da Ásia, especialmente a antiga Índia. Uma vez que esses grandes mestres eram realmente dotados dos corpos etéricos de seus ancestrais espirituais, o que estava em seu corpo astral, isto é, a ciência e o conhecimento que eles mesmos haviam elaborado, não era suficiente para o que lhes era revelado através de seu corpo etérico. Portanto, quando essas revelações estavam prestes a ser proferidas dentro deles, eles eram obrigados a impor silêncio à sua própria ciência e conhecimento. Então, os seres exaltados que também haviam falado aos seus ancestrais espirituais falavam a partir deles e através deles. Exceto durante os tempos em que esses seres falavam através deles, eles eram pessoas simples, dotadas da medida de inteligência e sentimento que haviam cultivado e elaborado por si mesmas.


Vivia nessa época, na Índia, uma raça de pessoas que conservara uma lembrança especialmente vívida da antiga condição anímica dos atlantes, a qual permitia experiências no mundo espiritual. Além disso, o coração e a alma de grande número dessas pessoas eram poderosamente atraídos por tais experiências. Por um sábio decreto do destino, a maioria da raça viera para o sul da Ásia dentre as melhores porções da população atlante. Além dessa maioria, outros atlantes haviam migrado para lá em diferentes épocas. O Iniciado Cristo, acima referido, designou seus sete grandes discípulos para serem os mestres dessa associação de pessoas, às quais eles transmitiram sua sabedoria e preceitos. Muitos desses antigos indianos precisavam de pouca preparação para reavivar dentro de si as faculdades quase extintas que conduziam à observação do mundo supersensível. Pois o anseio por esse mundo era realmente uma qualidade fundamental da alma indiana. Sentia-se que o lar original do homem estava nesse mundo. Dele ele é transplantado para este, que oferece apenas a observação externa dos sentidos e a inteligência a ela ligada.

O mundo supersensível era sentido como o mundo real, e o mundo dos sentidos como uma ilusão.


da capacidade humana de observação, uma ilusão (Maya). Por todos os meios possíveis, essas pessoas se esforçavam para abrir uma visão do mundo real. Não podiam interessar-se pelo mundo ilusório dos sentidos, ou, de qualquer modo, apenas na medida em que este se mostrasse um véu para o supersensível. O poder que emanava dos sete grandes mestres para pessoas como essas era imenso. O que eles podiam revelar penetrava profundamente na alma indiana, e, como a posse dos corpos etérico e astral transmitidos investia os mestres de elevados poderes, eles também podiam atuar magicamente sobre seus discípulos. Eles não ensinavam propriamente; atuavam como que por força mágica de uma personalidade a outra. Assim surgiu uma civilização completamente saturada de sabedoria supersensível. O conteúdo dos livros de sabedoria dos hindus, os Vedas, não nos dá a forma original da elevada sabedoria transmitida pelos grandes mestres nos tempos mais antigos, mas apenas um débil eco dela. Somente o olho do vidente, olhando para trás, é capaz de encontrar uma sabedoria original não escrita por trás das palavras escritas.

Uma característica especialmente proeminente dessa sabedoria antiga é o acordo harmonioso dos vários oráculos de sabedoria do tempo atlante. Pois cada um dos grandes mestres era capaz de desvelar a sabedoria de um desses oráculos, e esses diferentes aspectos da sabedoria estavam em completa harmonia, porque a sabedoria fundamental da Iniciação de Cristo Sobrepõem-se a eles. É verdade que o mestre que foi o sucessor do Iniciado do Cristo não transmitiu aos seus discípulos o que o próprio Iniciado do Cristo foi capaz de revelar. Este último permanecera em segundo plano durante esse período de evolução. A princípio, ele não pôde confiar seu alto ofício a nenhum pós-atlante. A diferença entre ele e o Iniciado do Cristo dos sete grandes mestres indianos era que o primeiro foi capaz de trabalhar sua visão do Mistério do Cristo completamente na forma de ideias humanas, enquanto o Iniciado do Cristo indiano só podia oferecer um reflexo do Mistério em sinais e símbolos, pois seu poder de concepção cultivado humanamente não bastava para tal Mistério. No entanto, da união dos sete mestres resultou um conhecimento do mundo supersensível, apresentado em um grande panorama de sabedoria, do qual apenas porções separadas puderam ser transmitidas nos antigos oráculos atlantes. Os grandes líderes do mundo cósmico foram revelados, e foi apenas indicado o único grande Espírito Solar, o Oculto, que governava sobre aqueles que se manifestavam através dos sete mestres.


O que aqui se entende por "antigos indianos" não é o mesmo que geralmente se entende por esse termo. Não existem documentos externos do período em questão. O povo geralmente conhecido como "indianos" pertence a um estágio de evolução histórica que se desenvolveu muito depois do tempo mencionado.


Aqui temos que distinguir um primeiro período pós-atlante da Terra, no qual a civilização indiana agora descrita era a predominante; depois veio um segundo período pós-atlante, no qual a civilização prevalecente foi aquela que mais adiante nesta obra é chamada de "antiga persa", e ainda mais tarde desenvolveu-se a civilização egípcio-caldeia, também a ser descrita. Durante a evolução dessas segunda e terceira épocas pós-atlantes, a "antiga" Índia também passou por uma segunda e terceira época, e a essa terceira época pertence o que geralmente se relata sobre a antiga Índia.

O que aqui é descrito não deve, portanto, ser aplicado à "antiga Índia" mencionada em outros lugares.

Outra característica dessa antiga civilização indiana é aquela que posteriormente levou à divisão da raça em castas. Os habitantes da Índia eram descendentes de atlantes que pertenciam aos vários tipos da humanidade de Saturno, humanidade de Júpiter, etc. Por meio dos ensinamentos supersensíveis, via-se que não é por acaso que uma alma encarna em uma casta particular, mas que a própria alma determinou sua sorte.

Tal compreensão dos ensinamentos supersensíveis era muito facilitada, porque era possível reviver em muitas pessoas a lembrança interior de seus ancestrais, descrita acima; isso, naturalmente, também poderia facilmente levar a uma ideia errônea de reencarnação. Assim como, na era atlante, somente através dos Iniciados a verdadeira ideia de reencarnação poderia ser realizada, assim na Índia, nos tempos mais antigos, isso só era possível através do contato direto com os grandes mestres. É verdade que a ideia errônea de reencarnação mencionada acima encontrou a mais ampla aceitação imaginável entre os grupos de pessoas que foram dispersos pela Europa, Ásia e África em consequência da catástrofe atlante. E porque os Iniciados que se desviaram durante a evolução atlante haviam transmitido o mistério da reencarnação a almas imaturas, a humanidade começou a confundir cada vez mais as ideias verdadeiras e errôneas. Muitas dessas pessoas de fato retinham uma espécie de clarividência obscura, como herança do período atlante. Assim como os atlantes entravam no mundo espiritual durante o sono, seus descendentes tinham experiência dele em estados anormais, intermediários entre o dormir e o acordar. Então surgiam nessas pessoas as imagens dos tempos antigos de seus antepassados. Elas acreditavam ser reencarnações de pessoas que haviam vivido naqueles tempos. Ensinamentos sobre a reencarnação, que divergiam das verdadeiras ideias dos Iniciados, foram amplamente espalhados pela terra.


Como resultado das longas migrações contínuas que se iniciaram de oeste para leste desde o começo da catástrofe atlante, estabeleceu-se no oeste da Ásia uma associação de pessoas

um esboço da CIÊNCIA OCULTA

cuja posteridade é conhecida na história como a nação persa e as tribos a ela aparentadas. Aqui estamos retrocedendo a um período muito anterior aos tempos históricos dessas nações. Temos primeiro de lidar com os ancestrais mais remotos dos persas posteriores, entre os quais surgiu a segunda grande civilização da evolução pós-atlante, a que se seguiu ao período indiano. Os povos desta segunda era tinham uma missão diferente da dos indianos. Suas afeições e anseios não estavam fixados apenas no mundo supersensível; eles eram aptos para o mundo físico dos sentidos, e seus sentimentos eram atraídos para a Terra. Valorizavam o que o homem é capaz de adquirir nela e o que pode conquistar por meio de suas forças. Suas realizações como povo guerreiro e os métodos que descobriram para adquirir os tesouros da Terra estão ligados a essa peculiaridade de sua natureza.

Não havia perigo de que voltassem as costas à "ilusão" dos sentidos físicos em seu anseio pelo supersensível, mas sim de que rompessem inteiramente a conexão de suas almas com o mundo supersensível, por meio de sua predileção pelo mundo físico.

Os santuários-oraculares, que haviam sido transferidos para cá do antigo território atlante, também refletiam, à sua maneira, o caráter geral da nação. Neles estavam presentes forças que outrora fora possível adquirir por meio de experiências no mundo supersensível.


forças que ainda podiam ser controladas em certas formas inferiores; essas forças eram utilizadas nos santuários para dirigir os fenômenos da natureza de modo a fazê-los servir aos interesses pessoais do homem. Esse antigo povo ainda possuía grande domínio sobre aquelas forças da natureza que posteriormente se retiraram da influência da vontade humana. Os guardiões dos oráculos governavam certas forças internas ligadas ao fogo e a outros elementos. Poderiam ser chamados de magos. O conhecimento e a força supersensíveis que haviam retido como herança dos tempos antigos eram certamente escassos em comparação com os poderes do homem no passado remoto. Mas, ainda assim, assumiam todas as formas, desde as artes nobres, cujo único objetivo era o bem-estar da humanidade, até as transações mais repreensíveis.

A influência luciférica dominava esse povo de maneira peculiar. Ela os colocara em conexão com tudo aquilo que desvia a humanidade dos propósitos dos seres exaltados que, sozinhos, teriam guiado a evolução humana, não tivesse a influência luciferina intervindo. Mesmo aqueles membros da raça que ainda eram dotados de alguns resquícios da antiga condição clarividente, descrita acima como um estado intermediário entre o sono e a vigília, sentiam-se poderosamente atraídos pelos seres inferiores do mundo espiritual. Para neutralizar essas qualidades características, foi necessário

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que um impulso espiritual fosse dado à nação. Um líder foi enviado a ela, pelo guardião dos Mistérios do oráculo do Sol, da mesma fonte da qual procedeu a vida espiritual da antiga Índia.

O líder da antiga civilização persa, que foi enviado pelo guardião do oráculo do Sol à nação agora em consideração, pode ser designado pelo mesmo nome do Zaratustra histórico, ou Zoroastro. Apenas o fato deve ser enfatizado de que a personalidade indicada pertence a um período muito anterior ao do possuidor histórico do nome. Nesse contexto, não se trata de pesquisa histórica externa, mas de conhecimento espiritual. E qualquer um que instintivamente pense em um tempo posterior em conexão com o portador do nome Zaratustra pode reconciliar essa ideia com a ciência oculta ao saber que o personagem histórico se apresenta como um sucessor do primeiro grande Zaratustra, cujo nome ele tomou, e no espírito de cujos ensinamentos ele trabalhou.

O impulso que Zaratustra teve de dar ao seu povo consistiu em mostrar-lhe que o mundo físico dos sentidos não é meramente a matéria morta, desprovida de espírito, que parece ser a um homem que se entrega exclusivamente à influência da natureza luciférica. A essa natureza o homem deve sua independência pessoal e seu senso de liberdade, mas estes devem atuar dentro dele, em harmonia com essa natureza espiritual que é o oposto. Entre os persas pré-históricos, tratava-se de manter vivo o sentido dessa última natureza espiritual. Através de seu afeto pelo mundo físico dos sentidos, eles estavam ameaçados de completa absorção pelos seres luciféricos. Agora, Zaratustra, por meio do guardião do oráculo do Sol, havia recebido tal Iniciação que o capacitava a receber as revelações dos grandes Espíritos Solares. Em estados particulares de sua consciência, produzidos por seu treinamento, ele podia ver o líder dos Espíritos Solares, que, como descrito acima, havia tomado sob sua proteção o corpo etérico humano.


Zaratustra sabia que esse espírito dirige o curso da evolução humana, mas que ele deveria primeiro, em certo tempo, descer à Terra a partir do espaço cósmico. Para esse propósito, era necessário que ele pudesse viver em um corpo astral humano, assim como, desde o advento da natureza luciférica, ele havia trabalhado no corpo etérico. Era portanto necessário que aparecesse um homem que tivesse transformado o corpo astral de volta a um nível tal como ele teria alcançado sem Lúcifer em certo período no passado (o meio da evolução atlante). Se Lúcifer não tivesse aparecido, o homem certamente teria atingido esse nível antes, mas sem independência pessoal ou a possibilidade de liberdade. Agora, no entanto, apesar dessas qualidades, ele deveria novamente elevar-se a essa altura. Zaratustra, dotado de visão profética, podia ver que no futuro uma personalidade seria possível, dentro da evolução humana, que teria um corpo astral adequado para esse propósito. Mas ele também sabia que o grande Espírito Solar não apareceria na Terra antes daquele tempo, embora pudesse ser percebido por um vidente na parte espiritual do Sol. Ao dirigir seu olhar de vidente para o Sol, Zaratustra podia ver esse espírito, a quem ele proclamava ao seu povo. Ele anunciou que o Espírito Solar deveria primeiro ser encontrado apenas no mundo espiritual, mas que mais tarde ele desceria à Terra.


Esta foi a proclamação do grande Espírito do Sol, ou Espírito da Luz (a aura do Sol, Ahura-Mazdao, Ormuzd). Ele foi revelado a Zaratustra e seus seguidores como o espírito que, por enquanto, voltava a luz do seu semblante para o homem a partir do mundo espiritual, e que se poderia esperar que aparecesse dentro da raça humana no futuro. Foi Cristo, antes de sua aparição na Terra, a quem Zaratustra proclamou como o Espírito da Luz. Por outro lado, ele representava Aíman (Angra Mainyu) como um poder que atua prejudicialmente na vida da alma humana, se esta o absorve completamente. Esse poder não é outro senão o descrito acima, que adquiriu domínio especial sobre a Terra desde a traição dos Mistérios de Vulcano.


Mistérios. Juntamente com a mensagem concernente ao Deus da Luz, Zaratustra proclamou ensinamentos sobre aqueles seres espirituais que se manifestam à percepção purificada do vidente como associados do Espírito da Luz. Estes estão em forte contraste com os tentadores que apareciam à clarividência não purificada, remanescente do período atlante. Tinha de ficar claro para os persas primitivos que, na alma do homem, na medida em que esta se concentra no trabalho e na luta no mundo físico dos sentidos, um conflito está em curso entre o poder do Deus da Luz e seu adversário. Também lhes tinha de ser mostrado como o homem deve agir para não ser engolfado por meio de Aíman, mas sim para transformar sua influência em bem através do poder do Deus da Luz.

A terceira era da civilização pós-atlante começou entre os povos que finalmente se reuniram na Ásia ocidental e no norte da África após as migrações. Essa civilização foi desenvolvida entre os caldeus, babilônios e assírios, por um lado, e entre os egípcios, por outro. Nessas nações, o gosto pelo mundo físico dos sentidos foi desenvolvido de uma forma diferente daquela que assumira entre os persas. Os primeiros adquiriram muito mais do que outras nações da disposição de espírito que está na raiz da faculdade de pensamento surgida desde os tempos atlantes, isto é, o dom da razão. Na verdade, era a missão de

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pós-atlante, a humanidade desenvolveu dentro de si aquelas faculdades da alma que era possível adquirir através dos poderes de pensamento e sentimento recentemente despertados. Esses poderes não podem ser diretamente estimulados a partir do mundo espiritual, mas resultam da observação do mundo dos sentidos pelo homem, de tornar-se familiarizado com ele e de trabalhar sobre ele. A conquista do mundo físico dos sentidos por essas faculdades humanas deve ser considerada como a missão da humanidade pós-atlante. Passo a passo, essa conquista prossegue.

Na Índia antiga, a atenção do homem já estava, pela constituição de sua alma, dirigida ao mundo dos sentidos, mas ele ainda o considerava como ilusão, e seu espírito voltava-se para o mundo suprassensível. Na nação persa, ao contrário, surgiu o esforço de conquistar o mundo físico dos sentidos, mas a tentativa ainda era feita em grande parte com aqueles poderes da alma que haviam sido deixados como herança do tempo em que o homem ainda podia alcançar o mundo espiritual diretamente. Entre os povos da terceira época de civilização, a alma havia, em sua maior parte, perdido as faculdades suprassensíveis. Ela foi obrigada a buscar manifestações do espiritual no mundo circundante dos sentidos e a continuar seu desenvolvimento descobrindo os meios de civilização existentes nesse mundo. Os homens procuraram investigar, através do mundo físico dos sentidos, as leis do mundo espiritual subjacente a ele, e dessa forma surgiram as ciências humanas. A habilidade técnica humana, o trabalho artístico e os instrumentos e métodos desses surgiram através do reconhecimento e uso das forças do mundo espiritual. Para um homem da raça caldaico-babilônica, o mundo dos sentidos não era mais uma ilusão, mas uma manifestação, em seus diferentes reinos, nas montanhas e mares, no ar e na água, da atividade espiritual de poderes existentes por trás dele, cujas leis o homem se esforçava por aprender.


Para o egípcio, a terra era um campo de trabalho, dado a ele em uma condição que ele deveria, por suas próprias forças de inteligência, transformar de modo que ela carregasse a impressão do poder humano. Da Atlântida, santuários-oráculos, originando-se principalmente do oráculo de Mercúrio, haviam sido transplantados para o Egito. Contudo, havia também outros — por exemplo, oráculos de Vênus. Uma nova semente de civilização foi semeada naquilo que era possível, através dos santuários-oráculos, cultivar na nação egípcia. Esse germe procedeu de um grande líder que havia recebido seu treinamento dentro dos Mistérios de Zaratustra, na Pérsia. (Ele era a personalidade reencarnada de um discípulo do próprio grande Zaratustra.) Ele pode ser chamado de "Hermes". Ao aceitar os Mistérios de Zaratustra, ele foi capaz de encontrar o caminho certo para guiar a nação egípcia.

Essa nação havia voltado sua atenção tão intensamente para o mundo físico dos sentidos, durante a vida terrena entre o nascimento e a morte, que era capaz apenas em medida limitada de contemplar diretamente o mundo espiritual por trás dos fenômenos, mas ainda assim reconhecia leis espirituais no mundo físico. Assim, ela não podia ser ensinada sobre o mundo espiritual como algo com o qual pudesse familiarizar-se durante a vida terrena. Mas, por outro lado, podia ser-lhe mostrado como o homem viverá, no estado desencarnado após a morte, com o mundo daqueles espíritos que, durante a vida terrena, aparecem através de suas contrapartes no reino do sentido físico.


Hermes ensinou que o homem se qualifica para a união com as forças espirituais após a morte, na proporção em que usa seus poderes na terra para promover os propósitos dessas forças espirituais. Em particular, aqueles que haviam trabalhado mais zelosamente dessa maneira entre o nascimento e a morte seriam unidos ao elevado Espírito Solar, Osíris. No lado caldaico-babilônico dessa corrente de civilização, a direção da mente humana para o mundo físico dos sentidos era mais conspícua do que no lado egípcio. As leis daquele mundo foram investigadas, e, com base nas imagens dos sentidos, elas foram observadas em arquétipos espirituais. Contudo, em muitos aspectos, a nação permaneceu ligada às coisas físicas. Em vez do espírito das estrelas, a estrela foi colocada em primeiro lugar, e, em vez de outros seres espirituais, suas contrapartes terrenas foram tornadas proeminentes. Apenas os líderes alcançaram conhecimento verdadeiramente profundo sobre as leis do mundo suprassensível e sua conexão com o Físico


O contraste entre o conhecimento dos Iniciados e a crença pervertida do povo afirmava-se mais fortemente nessas nações do que em qualquer outro lugar.

Circunstâncias bastante diferentes surgiram naquelas partes do sul da Europa e da Ásia ocidental onde se desdobrou a quarta época da civilização pós-atlante. Em harmonia com a ciência oculta, pode-se chamá-la de período greco-romano. Descendentes de povos que habitavam as partes mais distantes do mundo antigo se encontraram nesses países. Aqui havia santuários de oráculos que se conformavam aos vários oráculos atlantes; aqui havia pessoas com a herança da antiga clarividência como dom natural, e outras que eram capazes de adquiri-la, com relativa facilidade, por meio de treinamento. As tradições dos antigos Iniciados não eram apenas preservadas em lugares especiais, mas surgiram dignos sucessores deles, que atraíram discípulos capazes de ascender a elevados níveis de visão espiritual. Além disso, essas raças tinham dentro de si o impulso de criar no mundo dos sentidos um domínio no qual o espírito fosse expresso em substância física em formas consumadas.

A arte grega é, entre outras coisas, um resultado desse impulso. Basta olhar com o olho do espírito para um templo grego, a fim de ver que, nessa maravilha da arte, a substância material é tão trabalhada pelo homem que aparece em cada detalhe como expressão do espírito.

um esboço da CIÊNCIA OCULTA

Um templo grego é uma "Casa do Espírito". Em suas formas pode-se perceber o que, de outro modo, só é contemplado pelo olho espiritual do vidente. Um templo de Zeus (ou Júpiter) é construído de tal maneira que apresenta ao olho dos sentidos um santuário adequado para o que o guardião da Iniciação de Zeus, ou Júpiter, via com visão espiritual. E o mesmo se dá com toda a arte grega. Os ensinamentos de sabedoria dos Iniciados fluíam por caminhos misteriosos até poetas, artistas e pensadores. Os Mistérios dos Iniciados são encontrados novamente, sob a forma de concepções e ideias, nos sistemas de pensamento pelos quais os antigos filósofos gregos interpretavam o universo. As influências da vida espiritual, os Mistérios dos santuários asiáticos e africanos de Iniciação, fluíam para essas nações e seus líderes. Os grandes mestres indianos, os associados de Zaratustra e os seguidores de Hermes haviam atraído discípulos. Estes, ou seus sucessores, fundaram então santuários de Iniciação, nos quais a sabedoria antiga foi revivida sob uma nova forma. Esses eram os Mistérios do mundo antigo. Ali, discípulos eram preparados para serem conduzidos às condições de consciência através das quais poderiam alcançar a visão do mundo espiritual. Desses santuários de Iniciação, os Mistérios fluíam para aqueles que cultivavam os Mistérios Espirituais.

Informações mais detalhadas sobre esses Mistérios do mundo antigo encontram-se em meu livro:

*Das Christentum als mystische Tatsache*

Mais particularidades serão dadas no último capítulo da presente obra.

EVOLUÇÃO DO MUNDO E DO HOMEM 285

Na Ásia Menor, Grécia e Itália (Importantes centros de Iniciação foram formados no mundo grego nos Mistérios Órficos e Eleusínios. Na escola de sabedoria de Pitágoras, os grandes ensinamentos de sabedoria e os métodos da mais remota antiguidade estavam em vigor. Pitágoras, em suas viagens distantes, havia sido iniciado nos segredos das mais variadas espécies de Mistérios.)

Mas a vida humana entre o nascimento e a morte no período pós-atlante também teve influência sobre o estado desencarnado após a morte. Quanto mais os interesses do homem estavam fixados no mundo físico dos sentidos, maior era a possibilidade de Ahnman obter domínio sobre a alma durante a vida terrena e reter seu poder sobre ela após a morte. Esse perigo era menor entre os povos da antiga Índia, pois durante a vida terrena eles haviam sentido o mundo físico dos sentidos como uma ilusão e, portanto, haviam escapado do poder de Ahnman após a morte. Tanto maior era o perigo para os povos persas primitivos, que entre o nascimento e a morte haviam fixado sua atenção, com grande interesse, no mundo físico dos sentidos. Eles teriam caído em grande parte presa das artimanhas de Ahnman, não fosse Zaratustra ter apontado, de maneira impressionante, por meio de seu ensinamento sobre o Deus da Luz, que por trás do mundo físico dos sentidos existe o mundo dos Espíritos da Luz. Na medida em que o povo dessa civilização pôde receber em suas almas algo do mundo do pensamento assim criado, nessa medida puderam escapar das garras de Ahnman durante a vida terrena e, assim, iludi-lo na vida após a morte, pela qual seriam preparados para uma nova vida terrena. O poder de Ahnman na vida terrena tende a fazer com que a existência física dos sentidos pareça ser a única e, assim, a barrar o caminho para qualquer vislumbre de um mundo espiritual. Seu poder no mundo espiritual leva o homem ao isolamento completo e à concentração de todo o seu interesse em si mesmo. Aqueles que, no momento da morte, estão sob o poder de Ahnman, renascem como egoístas.


É agora possível para a ciência oculta descrever a vida entre a morte e um novo nascimento como ela realmente é, se a influência de Ahnman tiver sido, até certo ponto, superada.

Ela foi assim descrita pelo escritor em outras obras e nos primeiros capítulos deste livro, e deve ser assim descrita se se quiser tornar claro o que o homem pode experimentar nesse modo de existência, se ele tiver alcançado a visão puramente espiritual do que realmente ocorreu.

O grau em que o indivíduo faz essa experiência depende da extensão em que ele superou a influência de Ahnman.

O homem está se aproximando cada vez mais daquilo que lhe é possível tornar-se no mundo espiritual. Como o seu progresso pode ser interferido por outras influências deve ser claramente compreendido em nossa presente revisão do curso da evolução humana.


Hermes providenciou para que o povo da nação egípcia se preparasse, durante a vida terrena, para a comunhão com o Espírito de Luz. Mas, porque naquela época os interesses humanos entre o nascimento e a morte já estavam de tal modo constituídos que só era possível ver em um leve grau através do véu dos sentidos físicos, a visão espiritual da alma após a morte também se tornou perturbada. A percepção do mundo de luz permaneceu obscura.

O obscurecimento do mundo espiritual após a morte atingiu um clímax nas almas que passaram ao estado desencarnado a partir de um corpo pertencente à civilização greco-romana. Durante sua vida terrena, elas haviam aperfeiçoado o cultivo da existência dos sentidos físicos e, assim, condenaram-se a uma existência sombria após a morte. Daí o grego sentir a vida após a morte como uma existência de sombras, e não é mera retórica, mas a realização da verdade, quando o herói daquela época, entregue à vida dos sentidos, diz: "Melhor um mendigo na terra do que um rei no reino das sombras". Tudo isso era ainda mais acentuado naqueles povos asiáticos que haviam fixado sua atenção, com veneração e adoração, em imagens materiais em vez de seus arquétipos espirituais. Uma grande proporção da humanidade estava nessa condição na época da era de civilização greco-romana. Pode-se ver como a missão do homem nos tempos pós-atlantes, que consistia na conquista do mundo físico dos sentidos, deve necessariamente conduzir ao afastamento do mundo espiritual. Assim, a grandeza em um aspecto envolve necessariamente a deterioração em outro. A conexão do homem com o mundo espiritual foi mantida viva nos Mistérios. Através deles, os Iniciados, em estados especiais da alma, podiam receber revelações daquele mundo. Eles eram, mais ou menos, os sucessores dos guardiões dos oráculos atlantes. A eles foi revelado o que havia sido ocultado pela interposição de Lúcifer e Ahriman. Lúcifer ocultou do homem o que havia fluído do mundo espiritual sobre o corpo astral humano, sem sua cooperação, até meados do período atlante.


Se o corpo etérico não tivesse sido parcialmente separado do corpo físico, o homem teria podido experimentar dentro de si essa parte do mundo espiritual como uma revelação interior para sua alma. Como resultado da interferência de Lúcifer, isso só poderia ser feito em estados especiais da alma. Naqueles momentos, um mundo espiritual aparecia ao homem sob a forma do astral. Os correspondentes seres espirituais manifestavam-se em formas que encarnavam apenas os princípios superiores da natureza humana, e nesses princípios os símbolos das forças espirituais particulares eram visíveis astralmente. Formas sobre-humanas manifestavam-se dessa maneira. Após a interposição de Ahrman, outro tipo de Iniciação foi acrescentado a essa. Ahrman ocultou tudo no mundo espiritual que teria aparecido por trás da percepção sensorial física, não tivesse ele intervindo desde meados do período Atlante. Os Iniciados dos Mistérios deviam a revelação do que ele havia mantido oculto à circunstância de exercitarem dentro de suas almas todas aquelas faculdades que o homem havia adquirido desde então, e de as exercitarem em um grau além do necessário para obter impressões da vida dos sentidos físicos. Assim, foram-lhes revelados os poderes espirituais que jazem por trás das forças da natureza. Eles podiam falar de seres espirituais por trás da natureza. As forças criativas que atuam nas forças da natureza foram-lhes desveladas. Aquela parte de Saturno, do Sol e da antiga Lua que continuara atuando e formara os corpos físico, etérico e astral do homem, bem como os reinos mineral, vegetal e animal, era o que constituía o conteúdo de um tipo de Mistérios, ou seja, aqueles que Ahrman mantinha ocultos. O que havia conduzido às almas sensitiva, racional e consciente de si, e fora ocultado ao homem por Lúcifer, era revelado no segundo tipo de Mistérios. Mas o que os Mistérios só podiam profetizar era que, na plenitude dos tempos, apareceria um homem possuindo um corpo astral que, apesar de Lúcifer, poderia tornar-se consciente do mundo de luz do Espírito Solar através do corpo etérico, independentemente de qualquer condição especial da alma. E o corpo físico desse ser humano necessariamente ser tal que tudo lhe seria manifestado no mundo espiritual, o que é possível para Ahnman, até o momento da morte física, ocultar. A morte física não poderia trazer mudança alguma à vida de tal ser, isto é, não poderia ter poder sobre a sua vida. O ego assim entra em manifestação nele, de modo que toda a natureza espiritual é compreendida dentro da vida física. Tal ser é o veículo do Espírito de Luz, até o qual o Iniciado ascende de duas direções, sendo conduzido, em condições especiais da alma, quer ao Espírito do Superumano, quer ao que está por trás das forças da natureza. Quando os Iniciados dos Mistérios predisseram o aparecimento, na plenitude dos tempos, de tal ser humano, eles foram profetas do Cristo.



Surgiu uma personalidade, como profeta especial dessa manifestação vindoura, dentro de uma nação que possuía, por herança natural, as qualidades dos povos da Ásia ocidental e, por educação, o saber dos egípcios.

Essa era a nação hebraica, e o profeta era Moisés. As influências da Iniciação haviam penetrado tão profundamente em sua alma que, em certos estados de consciência, foi-lhe revelado o espírito que havia assumido, no curso regular da evolução, moldar a consciência humana a partir da Lua. No trovão e no relâmpago, Moisés percebia não meramente fenômenos físicos, mas manifestações desse espírito. Ao mesmo tempo, o outro tipo de Mistérios havia influenciado sua alma, de modo que ele era capaz de distinguir, em visão astral, como o superumano se torna humano por meio do ego. Assim, de duas direções, aquele que havia de vir foi revelado a Moisés como a forma mais elevada do ego.


E em Cristo, o elevado Espírito Solar apareceu em forma humana como o grande ideal para a vida humana na Terra. Na sua vinda, toda a sabedoria dos mistérios teve, em alguns aspectos, de assumir uma nova forma. Até então, essa sabedoria existira exclusivamente com o propósito de induzir o homem a colocar-se em uma condição de alma na qual pudesse contemplar o reino do Espírito Solar fora da evolução terrestre. Doravante, a missão do ensinamento dos Mistérios era tornar o homem capaz de reconhecer no Cristo, encarnado na natureza humana, o princípio original do ser. A partir desse ponto central de toda sabedoria, o homem foi habilitado a compreender os mundos natural e espiritual.

Naquele ponto de sua vida em que o corpo astral de Cristo Jesus continha tudo o que é possível que a influência luciférica oculte, ele se apresentou como o mestre da humanidade. A partir desse momento, foi implantada na evolução terrena humana a faculdade de assimilar aquela sabedoria por meio da qual a meta física da Terra pode ser gradualmente alcançada. 

O que ainda há a dizer sobre este assunto será dado em um capítulo posterior que trata do conhecimento suprassensível.


No momento em que o evento do Gólgota foi consumado, a natureza humana foi dotada de outra faculdade, aquela pela qual a influência de Ahrman pode ser voltada para o bem. Doravante, o homem foi capaz de levar consigo através do portal da morte aquilo que o salva do isolamento no mundo espiritual. O que aconteceu na Palestina foi o ponto central não apenas da evolução física humana, mas também dos outros mundos aos quais o homem pertence, e quando o "Mistério do Gólgota" foi consumado, quando a "morte da cruz" foi suportada, Cristo apareceu naquele mundo onde as almas permanecem após a morte e estabeleceu limites ao poder de Ahrman. A partir desse momento, a região que os gregos chamavam de "reino das sombras" foi iluminada por luz espiritual, que mostrou aos seus habitantes que a escuridão não deveria mais continuar. O que havia sido conquistado para o mundo físico pelo "Mistério do Gólgota" lançou luz também no mundo espiritual.

Até esse evento, a evolução pós-atlante humana havia sido um tempo de ascensão no mundo físico dos sentidos, mas de descida no que diz respeito ao mundo espiritual. Tudo o que fluía para o mundo dos sentidos procedia do que havia estado no mundo espiritual desde eras remotas. Desde a vinda de Cristo, aqueles que alcançam o Mistério de Cristo são capazes de levar consigo para o espiritual o que conquistaram no mundo físico.

E do mundo espiritual ele então flui de volta para o mundo terreno dos sentidos, pois as almas reencarnadas, ao reentrarem na vida, trazem consigo o que ganharam através do impulso de Cristo no mundo espiritual entre a morte e um novo nascimento.


O que fluiu para a evolução humana em consequência da vinda de Cristo atuou nela como uma semente. Pouco a pouco uma semente amadurece. Apenas uma proporção muito limitada das profundezas da nova sabedoria fluiu até o presente tempo para a existência física. Esta existência está apenas agora no início da evolução cristã, que, durante os períodos que se sucederam à vinda de Cristo, só pôde revelar tanto de sua natureza interior quanto os indivíduos e as nações eram capazes de receber, e quanto seu poder de pensamento podia realizar. A primeira forma na qual essa essência do Cristianismo pôde ser derramada pode ser descrita como um ideal abrangente de vida. Como tal, opôs-se àquelas formas de vida que haviam sido desenvolvidas na humanidade pós-atlante. As condições que operam na evolução humana desde a repovoação da Terra no período lemuriano foram descritas acima. De acordo com essas condições, as almas dos seres humanos descendem de vários espíritos que foram encarnados, de outros mundos, nos descendentes corporais dos antigos lemurianos. As várias raças humanas são uma consequência desse fato, e os mais diversos interesses vitais apareceram nessas almas reencarnadas, como resultado de seu Karma. Enquanto tudo isso estava sendo elaborado, não poderia haver ideal de "humanidade universal". A natureza humana originou-se na unidade, mas a evolução terrestre até o presente tempo levou à divisão. Na pessoa de Cristo é dado um ideal que se opõe a toda ideia de separação, pois no homem que carrega o nome de Cristo vive o elevado Espírito Solar, em quem cada ego humano encontra sua causa primeira. A nação hebraica ainda se sentia como uma nação, e cada judeu individual como membro dessa nação. Quando a mera ideia foi apreendida de que em Cristo Jesus vive o ser humano ideal sobre quem as condições de separação não têm efeito, o Cristianismo tornou-se o ideal da fraternidade universal. O sentimento de que o ego mais íntimo de cada ser humano tem a mesma origem ultrapassou os limites de todos os interesses separados e relações privadas. (O Pai comum da raça humana aparece além de todos os progenitores terrestres. "Eu e o Pai somos um.")


Nos séculos quarto, quinto e sexto depois de Cristo, preparava-se a era de civilização em que ainda vivemos. Ela estava destinada a dissolver gradualmente a quarta civilização, ou greco-romana. É o quinto período pós-atlante.

As raças que, após muitas peregrinações e as mais variadas vicissitudes, se tornaram os veículos dessa nova civilização eram descendentes daqueles atlantes que haviam permanecido menos afetados do que outros pelo que, entretanto, se passara durante os quatro períodos precedentes de civilização. Eles não haviam penetrado nos países em que essas respectivas civilizações se enraizaram. Ao contrário, haviam, à sua maneira, transmitido as formas de civilização atlantes. Havia muitos entre eles que conservaram em alto grau a herança da antiga clarividência obscura, o estado descrito acima como intermediário entre o dormir e o velar. Tais pessoas conheciam o mundo espiritual por experiência própria e podiam revelar a seus semelhantes o que ali ocorre. Assim surgiu um grande número de narrativas de seres e eventos espirituais, e os tesouros nacionais de lendas e sagas tiveram sua origem em experiências espirituais dessa espécie. Pois a clarividência obscura perdurou, em muitas pessoas, até tempos não muito distantes do presente. Houve outras pessoas que, embora tivessem perdido a clarividência, desenvolveram, contudo, as faculdades que adquiriram para uso no mundo físico dos sentidos, de acordo com sentimentos e emoções que correspondiam a experiências clarividentes. E mesmo os oráculos atlantes tiveram seus sucessores na nova civilização.


Havia Mistérios em toda parte, mas neles se cultivava sobretudo o Mistério da Iniciação, que conduz ao desvelamento daquela parte do

ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

mundo espiritual que Ahnman mantém oculto. Os poderes espirituais existentes por trás das forças da natureza foram aqui revelados. Nas mitologias das nações europeias estão contidos os remanescentes do que os Iniciados desses Mistérios puderam revelar aos homens. É verdade que essas mitologias também contêm o outro tipo de mistério, embora de forma mais imperfeita do que aquela em que os Mistérios do Sul e do Oriente o possuíam. Seres sobre-humanos também eram conhecidos na Europa, mas eram vistos em perpétuo conflito com os associados de Lúcifer. E o Deus da Luz também foi proclamado, mas de tal forma que era duvidoso se ele venceria Lúcifer. Por outro lado, esses Mistérios foram iluminados pela aparição da forma futura do Cristo. Dele foi anunciado que seu reino despedaçaria o reino daquele outro Deus da Luz.

Por influências como essas, surgiu uma cisão na alma do povo da quinta época da civilização que ainda continua e se manifesta nos mais diversos fenômenos. A alma não havia retido dos tempos antigos uma atração suficientemente forte pelas coisas espirituais para poder manter firme a conexão entre os mundos do espírito e dos sentidos. A atração existia apenas como um treinamento de sentimento e emoção,

Todas as sagas concernentes ao crepúsculo dos deuses e tradições similares tiveram sua origem nesse conhecimento dos Mistérios na Europa.


não como visão direta do mundo espiritual. Por outro lado, o olhar do homem foi cada vez mais dirigido para o mundo dos sentidos, e a conquista desse mundo, e os poderes intelectuais que haviam sido despertados na última parte do período atlante, todos aqueles poderes humanos dos quais o cérebro físico é o instrumento, foram concentrados no mundo dos sentidos, e em obter conhecimento e domínio sobre ele. Dois mundos, por assim dizer, foram desenvolvidos dentro do homem. Um é dirigido para a vida dos sentidos físicos; o outro é suscetível às manifestações do espírito de tal maneira a permear o espírito com sentimento e emoção, embora sem visão intuitiva. A tendência a essa cisão da alma já existia quando o ensinamento concernente ao Cristo foi introduzido em vários países europeus.

Esta mensagem do mundo espiritual foi recebida nos corações dos homens, e o sentimento e a emoção foram por ela permeados, mas não foi possível transpor o abismo entre esse estado da alma e o que a inteligência humana, concentrada no mundo dos sentidos, investigava na esfera da existência física.

O que hoje se conhece como a contradição entre a ciência externa e o conhecimento espiritual é meramente uma consequência desse fato. O misticismo cristão de Eckhart, Tauler e outros é um resultado da permeação do sentimento e da emoção pelo Cristianismo.

A ciência dirigida exclusivamente ao mundo dos sentidos, e os efeitos da ciência sobre a vida, são o resultado da outra tendência da alma, e todas as realizações na esfera da civilização material externa se devem à divergência das duas tendências.


Uma vez que aquelas faculdades humanas das quais o cérebro é o instrumento foram concentradas exclusivamente na vida física, elas puderam atingir aquele grau de perfeição que torna possíveis a ciência contemporânea, as artes técnicas e outras formas de vida mental. Tal civilização material só poderia originar-se entre as nações da Europa, pois elas são aqueles descendentes de ancestrais atlantes que apenas converteram sua inclinação para o mundo físico dos sentidos em faculdade, quando esta atingira um certo grau de maturidade. Anteriormente, eles a haviam deixado adormecida, e viviam do que lhes restara da clarividência atlante e das comunicações de seus Iniciados.

Enquanto a cultura mental estava exteriormente bastante entregue a essas influências, amadurecia lentamente o desejo pela conquista material do mundo.

No entanto, o alvorecer da sexta era pós-atlante de civilização já está próximo, pois o que deve surgir em certo tempo na evolução humana amadurece lentamente na era precedente. O que agora é possível desenvolver em seus primórdios é a descoberta do fio que une as duas tendências da natureza humana: aquela voltada para a civilização material e aquela voltada para a vida no mundo espiritual. Para isso, é necessário que, por um lado, os resultados da visão espiritual sejam compreendidos e, por outro, que as manifestações do espírito sejam reconhecidas nas observações e experiências do mundo dos sentidos. O sexto período de civilização trará a harmonia entre essas duas à plena perfeição.


Chegamos agora a um ponto em nossos estudos em que podemos passar da consideração do passado para a do futuro. Mas é melhor que essa perspectiva seja precedida por um relato do conhecimento que foi alcançado concernente ao mundo superior e à Iniciação. Posteriormente, um panorama do futuro, tanto quanto possível dentro dos limites desta obra, será brevemente acrescentado.

Na explicação do efeito do ser Crístico sobre a evolução humana, apenas o aspecto mais externo foi descrito. O lado interno será tratado no relato da Iniciação.

CAPÍTULO V

A Percepção de Mundos Superiores (Sobre a Iniciação)

Em seu atual estágio de desenvolvimento, o homem ordinariamente vive entre o nascimento e a morte em três condições da alma: as de vigília, de sono e, novamente, entre essas duas, a do estado de sonho. É minha intenção aludir brevemente a este último estado em uma parte subsequente deste livro. Por ora, contudo, contentar-nos-emos em fazer um panorama da vida sob suas duas principais condições alternadas, as de vigília e de sono. O conhecimento de mundos superiores é obtido pelo homem quando, além de dormir e acordar, ele alcança ainda um terceiro estado da alma. Durante a vigília, a alma está entregue, por assim dizer, às impressões dos sentidos e a tais conceitos que são excitados pelas impressões sensoriais.

Durante o sono, contudo, não apenas a impressão sensorial está latente, mas a própria alma perde sua consciência, sendo os eventos do dia mergulhados em um oceano de inconsciência. Imaginemos agora que a alma pudesse se tornar consciente durante o sono, mesmo se as impressões sensoriais estivessem ausentes, como é o caso sob condições de sono profundo. Mesmo a memória dos acontecimentos do dia não estaria presente.

Contudo, estaria a alma então em um estado de vacuidade? Seria ela incapaz de ter quaisquer experiências? Esta é uma questão que só pode ser respondida se as condições em discussão puderem ser realmente estabelecidas. Se a alma é capaz de experimentar algo, mesmo quando a experiência sensorial e a recordação de tais experiências estão ausentes, então essa alma, no que concerne ao mundo externo, estaria "adormecida", e ainda assim a alma não estaria dormindo, mas desperta para um mundo real.

Esta é uma condição de consciência que pode ser alcançada por aqueles que seguem as direções que lhes são dadas pela ciência oculta e que aplicam as mesmas à experiência de sua alma. E tudo o que a alma possa comunicar acerca daqueles mundos que transcendem os sentidos foi descoberto sob condições semelhantes de consciência. Nas partes anteriores deste livro, certas comunicações foram feitas quanto aos mundos superiores, e nas páginas seguintes, tanto quanto possa ser dito em tal livro, será relatado sobre os meios pelos quais a condição de consciência necessária para tais estudos pode ser adquirida.

Apenas de uma maneira este estado de consciência se assemelha ao do sono, e isto reside no fato de que, devido a ele, toda atividade externa dos sentidos cessa, e todos os pensamentos, tais como possam ser despertados pela ação dos sentidos, igualmente desaparecem. Mas, enquanto no sono comum a alma se encontra sem o poder necessário para a experiência consciente, é justamente esse poder que o referido estado de consciência deve colocar em sua posse. E, por seu auxílio, é dada à alma a capacidade que a habilitará a estar desperta para tais experiências como, sob as condições ordinárias da vida, só podem ser provocadas pela ação dos sentidos. O despertar da alma para um tal estado superior de consciência é chamado Iniciação.


Os métodos de iniciação afastam o homem do estado de consciência diurna ordinária para uma condição da alma durante a qual ele faz uso de órgãos espirituais de observação. Os embriões desses órgãos estão adormecidos em cada alma e, para seu desenvolvimento, requerem cultivo. Ora, pode acontecer que uma pessoa, em algum ponto definido de sua carreira terrena, faça por si mesma a descoberta do desenvolvimento desses órgãos superiores dentro de sua alma, e em tais casos temos que lidar com uma espécie de autodespertar. Tal pessoa se tornará consciente de uma mudança que afeta todo o seu ser; as experiências de sua alma terão sido enriquecidas além de qualquer medida. Ele então descobrirá que nenhuma experiência adquirida no mundo exterior possuiu, em qualquer época, o poder de espiritualizar e satisfazer sua condição de ser, de a inundar com tal senso de calor interior, como o faz essa experiência à qual ele agora obteve acesso, invisível que seja ao olho físico e eludindo o toque físico. Deste mundo espiritual, poder e um senso de

A PERCEPÇÃO DOS MUNDOS SUPERIORES

a segurança da vida fluirá sobre ele, fortalecendo sua vontade.

Há instâncias de tal auto-iniciação, mas elas não devem dar origem à crença de que o único caminho correto é esperar pela chegada de tal auto-iniciação e abster-se de fazer qualquer coisa no sentido de um treinamento regular, com vistas a provocar a iniciação. Não precisamos aqui dedicar mais espaço ao assunto da auto-iniciação, precisamente porque ela ocorre espontaneamente, por assim dizer, e sem levar em conta regras de qualquer espécie.

O que temos aqui a considerar é como o treinamento pode desenvolver aqueles órgãos rudimentares da alma destinados a servir como instrumentos para a percepção superior. Aqueles que não se sentem especialmente impelidos a fazer algo pelo seu próprio desenvolvimento podem facilmente dizer que o homem está sob a orientação de poderes espirituais, que tal orientação não deve, portanto, ser interferida, e que o momento considerado por esses poderes como o certo para revelar à alma um outro mundo deve ser aguardado com paciência. Na verdade, pessoas que são dessa opinião tendem a considerar uma espécie de presunção, ou curiosidade injustificável, que alguém interfira na sabedoria de tal orientação espiritual.

Os que pensam dessa maneira mudarão de opinião somente se alguma outra forma de apresentar o caso causar uma impressão suficientemente forte sobre eles. Se dissessem a si mesmos: "A sábia orientação dotou-me de certas faculdades, e o fez não para que eu as deixasse ociosas, mas antes para que eu as utilizasse. Na verdade, a própria sabedoria de tal orientação reside no fato de ter colocado em mim os rudimentos daqueles órgãos necessários para o estado superior de consciência. Posso, portanto, compreender corretamente essa orientação somente quando a considero meu dever fazer tudo ao meu alcance que possa servir para levar tais crescimentos rudimentares ao seu devido desenvolvimento." Caso tais pensamentos causem uma impressão suficientemente forte na mente, as dúvidas quanto à legitimidade de tal treinamento para a obtenção da consciência superior desaparecerão.


Existe, é verdade, outro escrúpulo que pode surgir na mente com relação a tal treinamento. Uma pessoa poderia dizer a si mesma: "Este desenvolvimento das faculdades interiores da alma significa uma invasão direta do santuário mais oculto do homem. Envolve uma certa mudança de todo o ser humano; os meios de tal mudança não podem ser elaborados por qualquer procedimento ordinário de pensamento, pois a maneira pela qual os mundos superiores são alcançados só pode ser conhecida por aqueles para quem o caminho se tornou visível por meio da experiência.

Se, portanto, eu recorro a tal pessoa, estou permitindo que ela exerça sua influência sobre o santuário mais íntimo da minha alma." Qualquer um dado a essa atitude de espírito dificilmente achará tranquilizador se os meios para induzir tais estados de consciência superior lhe forem transmitidos em forma de livro. Pois não se trata de receber comunicações verbalmente ou de alguma pessoa que, tendo o conhecimento, o registrou em um livro ao qual temos acesso. Ora, há pessoas que possuem um conhecimento das regras para desenvolver os órgãos espirituais de percepção que são de opinião que essas regras não deveriam ser confiadas a um livro. Essas pessoas, em sua maioria, consideram a comunicação de certas verdades relativas ao mundo espiritual como inadmissível. Mas essa visão deve ser caracterizada, em certo sentido, como ultrapassada diante do estágio atual da evolução humana. É verdade que a comunicação das regras referidas só pode ser feita até certo ponto. Contudo, o que é transmitido conduz tão longe que aquele que o aplica à sua vida da alma faz tal progresso em conhecimento que é capaz de prosseguir por si mesmo. O caminho então conduz adiante de uma maneira da qual uma ideia verdadeira só pode ser obtida através do que foi previamente experimentado. De todos esses fatos, escrúpulos podem surgir sobre o caminho para o conhecimento espiritual.


Tais dúvidas, como aqui foram apresentadas, desaparecem tão logo apprehendamos claramente a natureza de um processo de desenvolvimento para o qual, em nossa geração atual, a escola de treinamento aqui

306 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

inculcada é mais particularmente adaptada. Este método será aqui abordado, enquanto outras escolas também serão brevemente referidas.

O treinamento que agora será tratado coloca nas mãos daquele que possua a vontade de empreender o seu próprio desenvolvimento superior os meios que o habilitarão a iniciar essa obra de transformação. Qualquer invasão questionável na personalidade do estudante só seria possível caso o professor procedesse à mudança por métodos que retirassem a consciência do pupilo. Mas nenhum verdadeiro professor da ciência oculta em nossos dias faria uso de tal método, pelo qual, de fato, o pupilo seria reduzido a uma ferramenta cega. O professor dá ao seu pupilo instruções quanto às regras de conduta que este deve seguir, e deixa ao pupilo a tarefa de executá-las. Ao mesmo tempo, caso o caso pareça exigir, o professor não retém as razões que justificam essas regras de conduta.

A aceitação das regras, e a sua aplicação por uma pessoa que busca o desenvolvimento espiritual, não precisa ser uma questão de crença cega.

Tal crença deveria estar totalmente fora de questão nessa esfera.

Aquele que estuda a natureza da alma humana até onde ela pode ser acompanhada pela auto-observação comum, sem treinamento oculto, pode, após aceitar as regras recomendadas pelo treinamento espiritual, perguntar a si mesmo: "Como essas regras atuam na vida do [indivíduo]?" Essa pergunta pode ser


satisfatoriamente respondida, antes de qualquer treinamento, por um uso imparcial do senso comum. Antes de essas regras serem adotadas, concepções verdadeiras podem ser obtidas quanto ao modo como elas operam. Naturalmente, o processo só pode ser experimentado durante o treinamento, mas mesmo então a experiência será sempre acompanhada por uma compreensão da experiência, se cada passo a ser dado for testado por um julgamento sólido. E por ora, a verdadeira ciência espiritual apenas sugerirá tais regras para o treinamento que possam ser justificadas pelo julgamento sólido. Aqueles que tiverem a vontade de se render apenas a essas condições de confiança, e que por nenhuma espécie de preconceito predisponente estiverem inclinados a se render em fé cega, verão todas as dúvidas se afastarem deles, e as objeções levantadas contra um curso regular de treinamento com o objetivo de alcançar estados superiores de consciência não mais os perturbarão.

Mesmo aquelas pessoas que possam ter chegado a esse estado de maturidade interior — uma maturidade que, mais cedo ou mais tarde, levaria ao autodespertar desses órgãos espirituais de percepção — mesmo para tais pessoas, o treinamento não é de modo algum supérfluo.

Pelo contrário, o treinamento é especialmente adaptado para eles. Pois há poucos casos em que a iniciação pessoal não precisa percorrer caminhos tortuosos e desviados, e o treinamento os poupa de atravessar tais atalhos, conduzindo-os adiante

308 ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

na linha direta. Nos casos em que tal auto-iniciação chega a uma alma, a razão é que esse grau de maturidade já havia sido alcançado no curso de encarnações anteriores.

Pode facilmente acontecer que tal alma possua uma certa intuição obscura de sua própria maturidade e, por causa desse mesmo sentimento, assuma uma atitude de desinclinação em relação ao treinamento. Um sentimento desse tipo pode ser o resultado de um certo grau de orgulho, que se recusa a depositar confiança em um professor. Além disso, um grau especial de desenvolvimento da alma pode, em algumas pessoas, permanecer oculto até uma idade específica, revelando-se somente então, e em tais casos o treinamento pode ser exatamente o meio necessário para provocar seu aparecimento. Se a pessoa então se mantiver afastada de tal treinamento, pode acontecer que o poder permaneça adormecido durante esse período de vida e só se reafirme no curso de encarnações futuras.

 4 :

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A elevação a um estado superior de consciência só pode proceder de uma condição de consciência comum de vigília diurna. É nessa consciência que a alma vive antes de sua elevação, e o treinamento a dotará dos meios que conduzem à transcendência de tal consciência. O treinamento a ser primeiramente observado aconselha, em primeira instância, tais medidas que ainda podem ser tomadas durante a consciência comum de vigília.

De fato, aqueles métodos que são os mais significativos consistem em atos silenciosos realizados pela alma. Isso requer que a alma se entregue a concepções particulares, e essas concepções são tais que, por sua própria natureza, podem exercer um poder despertador sobre certas faculdades ocultas da natureza interior do homem. Diferem, portanto, das concepções da vida diária desperta, cujo objetivo, em primeira instância, é de outra espécie, a saber, o de apresentar objetos externos. Quanto mais fielmente apresentam essas coisas, mais verdadeiras são. É, de fato, de acordo com sua natureza que devam ser verdadeiras nesse sentido, mas essa não é a missão daquelas concepções que a alma deve considerar, quando seu objetivo é a busca do treinamento espiritual, e elas são, portanto, formadas de modo a não apresentar nada externo, tendo antes, dentro de si mesmas, o poder de atuar sobre a alma. Essas representações são emblemáticas, ou simbólicas. Outras concepções, porém, podem ser utilizadas. Pois não depende de modo algum do que as concepções contêm, mas unicamente do fato de a alma empregar todas as suas forças para não ter nada na consciência exceto a concepção em questão.


Ao passo que, na vida ordinária da alma, suas forças são divididas entre muitas coisas e as concepções mudam rapidamente, o ponto importante no treinamento espiritual é a concentração de toda a vida interior em uma única concepção. E essa concepção deve ser voluntariamente trazida ao centro da consciência. Concepções simbólicas são melhores do que aquelas que refletem objetos ou eventos externos, porque estas últimas estão em contato com o mundo exterior, e a alma tem de depender menos de si mesma do que no caso das concepções simbólicas, formadas a partir de sua própria energia interior. O principal objetivo a se almejar é a intensidade da força a ser exercida pela alma. Não é o que está diante da alma que é essencial, mas a grandeza do esforço e a duração do tempo durante o qual ela se concentra em uma única concepção. A força ascende de profundezas desconhecidas da alma, das quais é extraída pela concentração em uma única concepção. A ciência oculta contém muitas dessas concepções, todas as quais se provaram possuidoras do poder acima aludido.

O importante é aplicar essas concepções da maneira correta. Isso se realiza pela prática do chamado recolhimento, ou meditação. Mas uma certa espécie dessa absorção interior tem primeiro de ser considerada em conexão com concepções simbólicas, e podemos apreender mais facilmente esse modo de meditação quando começamos por evocar na alma a concepção de alguma lembrança.

Digamos, por exemplo, que deixamos o olho repousar sobre uma árvore e depois nos afastamos do objeto, de modo que ele não mais se apresente à nossa vista; no entanto, seremos capazes de reter a imagem da árvore na alma.

Ora, essa imagem ou concepção da árvore, que temos quando ela já não está à vista, é uma recordação da árvore. Tomaremos então que essa recordação é retida na alma, e deixaremos a alma repousar, por assim dizer, nessa recordação, cuidando de excluir todas as outras concepções da memória. A alma então habita nessa concepção-memória da árvore, e temos então a ver com o recolhimento da alma em uma concepção. Contudo, essa concepção é a impressão de uma coisa real concebida pelos sentidos e, por essa razão, não pode, no sentido acima especificado, qualificar-se como um instrumento para despertar as faculdades da alma. Se, porém, o mesmo processo for empreendido, selecionando-se em vez disso uma daquelas concepções que já foram testadas pela ciência oculta, torna-se então capaz, gradualmente, de alcançar esse resultado.


Apenas um exemplo de meditação baseada em uma concepção simbólica será agora apresentado ao leitor. Tal concepção deve primeiro ser construída na alma, e isso pode ser feito da seguinte maneira. Podemos pensar em uma planta, lembrando-nos de como ela está enraizada no solo, do modo como folha após folha brota, até que finalmente a flor também se desabrocha. E então podemos imaginar um ser humano colocado ao lado dessa planta, e evocamos em nossa alma o pensamento de que esse ser possui qualidades e características que, quando comparadas com as da planta, verificar-se-ão mais perfeitas. Detemo-nos no fato de que esse ser é capaz de se mover de um lado para outro, segundo sua vontade e seus desejos, enquanto a planta permanece fixa, enraizada no solo.


Então, contudo, pode-se dizer: “O homem certamente atingiu um estágio mais elevado de perfeição do que a planta; contudo, posso recordar qualidades no homem que não estão presentes na planta, cuja ausência, de fato, parece de certo modo tornar a planta mais perfeita que o homem. O homem é pleno de paixões e desejos, e segue-os em suas ações. Posso tomar nota dos erros cometidos em razão de seus impulsos e de suas paixões, ao passo que na planta posso observar como a lei pura de seu crescimento é transmitida de folha em folha, e como a flor sem paixão abre suas pétalas aos raios puros do sol.” Então posso dizer: “O homem é possuidor de certas faculdades que excedem as da planta, mas alcançou-as ao custo de permitir que seus impulsos, paixões e desejos se misturem em seu ser com as forças mais puras que pareço reconhecer na planta.” E então recordo a seiva verde que flui através da planta, e a concebo como a expressão da lei pura e sem paixão do crescimento. Em seguida, recordo o sangue vermelho que corre pelas veias do homem e, reconhecendo-o como expressivo dos instintos do homem, de suas paixões e desejos, construo a partir de todas essas coisas um pensamento intenso e poderoso dentro de minha alma.

Reflito então sobre a capacidade de desenvolvimento do homem; concebo como seus próprios instintos, paixões e desejos podem ser purgados e purificados pelas faculdades superiores de sua alma; e medito sobre como a escória em tais qualidades é expelida, sendo as próprias qualidades, por assim dizer, renascidas num plano superior, de modo que o sangue possa finalmente ser recordado como a expressão da paixão e do desejo, purificados e limpos.


Agora contemplo em espírito a rosa, dizendo a mim mesmo: “No suco vermelho da rosa está a antiga seiva verde da planta — agora transformada em carmesim — e a rosa vermelha segue as mesmas leis puras e impassíveis de crescimento que a folha verde”. Assim, o vermelho da rosa pode oferecer-me um símbolo de um tipo de sangue que é a expressão de impulsos e paixões purificados, expurgados de todos os elementos inferiores, e assemelhando-se em sua pureza às forças que atuam na rosa vermelha. Esse pensamento, procuro não apenas trazê-lo à minha inteligência, mas vivificá-lo em meus sentimentos, e posso experimentar uma sensação de êxtase se conceber a natureza pura e impassível da planta em crescimento, enquanto posso produzir em mim mesmo o sentimento de que certas perfeições superiores devem ser adquiridas por meio da posse de paixões e desejos. Eis, então, um pensamento que pode transformar o sentimento de bem-aventurança da alma, há pouco concebido, em um sentimento mais sério, enquanto, em seu rastro, uma sensação de felicidade libertadora pode agitar-se em mim, se eu me entregar a esse pensamento do sangue vermelho que pode assim tornar-se o veículo de experiências interiores e puras, tal como ocorre com o suco vermelho da rosa. Mas tudo depende de não se entrar nessa linha de pensamento, necessária para a construção de tais símbolos, sem que o sentimento esteja presente, e, após ter-se seguido a tendência desses pensamentos e sentimentos, é bom transformá-los na seguinte concepção simbólica. Imagine diante de você uma cruz negra, e que esta represente o símbolo da parte aniquilada das paixões e desejos inferiores; e então, ali onde os braços da cruz se cruzam, imagine sete rosas vermelhas brilhantes dispostas em círculo. Essas rosas são, então, o símbolo daquele sangue que é a expressão de paixões e desejos purificados e expurgados.

Essa concepção simbólica deve agora ser evocada diante da alma, como foi ilustrado anteriormente, por uma concepção de memória. Uma concepção como esta, quando se torna objeto de concentração e meditação, possui um poder de despertar, e toda outra ideia deve ser, por enquanto, excluída da mente. Esse único símbolo deve flutuar mentalmente diante da alma com a maior clareza possível.

Não tem importância alguma se os pensamentos acima são ou não corroborados por quaisquer pontos de vista da ciência natural. Pois o objetivo é desenvolver alguns pensamentos sobre a planta e o homem que possam — independentemente de todas as teorias — ser obtidos por meio de contemplação simples e direta. Tais pensamentos são importantes ao lado de representações teóricas não menos significativas das coisas no mundo externo, e aqui os pensamentos não são aduzidos para provar um fato cientificamente, mas para construir um símbolo que se mostre eficaz, independentemente de quaisquer objeções que esta ou aquela pessoa possa levantar contra a sua construção.


Não é sem significado que este símbolo tenha sido introduzido como uma mera representação de despertar, mas foi construído a partir de certas concepções sobre a natureza da planta e do homem. Pois o efeito de tal símbolo depende do fato de ser montado dessa maneira definida, antes de empregá-lo como instrumento de meditação. Se for evocado sem um processo prévio de construção como o aqui delineado, a imagem permanecerá fria e será muito menos eficaz do que se tivesse, por preparação prévia, reunido força para animar a alma.

Durante a meditação, porém, todos os pensamentos preparatórios não devem ser chamados à alma, permitindo-se que apenas a imagem flutue, como se estivesse viva, diante da mente, e ao mesmo tempo permitir que vibre o sentimento que foi criado pelos pensamentos que a ela conduziram. Assim, o símbolo torna-se um signo, conectado a uma experiência interior. E a permanência da alma nessa experiência é o que produz o efeito desejado. Quanto mais tempo for possível fazer isso, sem que outras concepções surjam para impor um elemento perturbador, mais forte será o efeito de todo o processo.

No entanto, é aconselhável que o estudante dedique algum tempo extra, além do dedicado à meditação propriamente dita, a repetir a construção da imagem por pensamentos e sentimentos, da maneira descrita acima, e quanto maior a paciência aplicada na realização desses atos de repetição, mais importante se revelará a impressão causada na alma por essa imagem.

3i6 um esboço da ciência oculta

Um símbolo como o que acaba de ser descrito não representa nenhum objeto ou entidade externa produzida pela natureza e, por essa mesma razão, possui um poder vivificante para certas faculdades interiores. Algumas pessoas poderiam, é verdade, objetar a isso, dizendo: "A Rosa Cruz como um todo não é, evidentemente, um produto da natureza; no entanto, cada parte separada dela — como, por exemplo, a cor negra e as rosas — pode ser percebida pelos sentidos." Mas qualquer um sobre quem a objeção aqui levantada tenda a agir como influência perturbadora deve lembrar que não é a apresentação desses objetos sensoriais à qual se deve a influência vivificante das faculdades superiores da alma, mas puramente a maneira pela qual a conjunção das partes separadas foi efetuada; é isso que produz o resultado desejado. Essa conjunção não reproduz nada que esteja presente no mundo dos sentidos.

Em minhas explicações sobre "Como se Alcança o Conhecimento dos Mundos Superiores", traduzidas sob o título de O Caminho da Iniciação e começando no Capítulo II, são dados vários outros exemplos de métodos de meditação, e será considerada especialmente eficaz uma que trata do surgimento e do desaparecimento de uma planta; também outra pode ser particularmente recomendada, baseada no poder formativo adormecido na semente de uma planta, e outras sobre a forma e a estrutura dos cristais e de outras substâncias; mas, dentre os abundantes materiais para meditação que se apresentam, escolhi neste caso um a fim de mostrar a natureza da meditação.


Tal símbolo é destinado como um exemplo para mostrar o processo de meditação eficaz para a alma. Múltiplas imagens desse tipo são prescritas no treinamento oculto, as quais são construídas ou elaboradas segundo métodos variados. Certas sentenças, fórmulas e também palavras isoladas podem ser dadas ao estudante sobre as quais ele terá de meditar, e em todos os casos os meios empregados têm o mesmo objetivo, a saber, o de separar a alma da percepção dos sentidos e despertar nela aquelas atividades adormecidas para as quais as impressões dos sentidos físicos são sem importância ou relevância — o despertar dessas faculdades adormecidas da alma sendo, por si só, o essencial.

Há, além disso, meditações cujos objetos são os sentimentos, as emoções, e assim por diante. Tais meditações mostram-se especialmente eficazes. Tomemos o sentimento de alegria. No curso normal da vida, a alma tende a experimentar prazer quando a causa geradora é algo externo. Se uma alma sadia percebe algum ato realizado por uma pessoa, indicativo da bondade de coração do agente, então a alma certamente sentirá prazer pela ação assim praticada. Mas a alma é ainda capaz de refletir sobre um ato dessa natureza, e pode dizer a si mesma que um ato praticado por pura bondade de coração é aquele em que o agente segue os interesses de seus semelhantes, em vez dos próprios, e tal ato pode ser chamado moralmente bom. Mas a alma, enquanto contempla, pode libertar-se, durante a concepção de qualquer caso particular no mundo exterior que lhe tenha causado alegria ou prazer, e, em vez disso, pode construir para si a ideia geral de bondade de coração. Poderia pensar, por exemplo, em como a bondade de coração poderia surgir através de uma alma que, por assim dizer, reúne dentro de si todos os interesses pertencentes a alguns outros, tornando os interesses dessas outras almas seus próprios. A alma que assim medita encontra-se agora em posição de regozijar-se com a ideia moral de tal bondade de coração.

Aqui, portanto, não temos o prazer que pode ser provocado por esta ou aquela ocorrência no mundo dos sentidos, mas o prazer numa ideia como tal. E se o estudante tentar concentrar-se por algum espaço de tempo sobre tal alegria como aqui é indicada, permitindo que ela se torne um fator vivo em sua alma, isso pode ser chamado de meditar sobre um sentimento ou emoção. Mas o agente potente aqui, ao qual se deve o despertar das faculdades interiores da alma, não é a ideia, mas sim o domínio sustentado, dentro da alma, de uma impressão que não se originou em qualquer sentimento devido a impressões externas.

Estando a ciência oculta em posição de penetrar muito mais profundamente no ser das coisas do que pode ser feito pela apresentação comum, o professor poderá indicar ao aluno sentimentos e emoções que são muito mais poderosos como despertadores das faculdades superiores.

agentes para o desdobramento das faculdades da alma quando usados como objetos de meditação. Contudo, por mais necessário que isso seja para os graus mais elevados de treinamento, deve-se lembrar que meditar energicamente sobre temas como a bondade de coração pode levar o estudante muito longe em seu caminho.

Sendo as naturezas das pessoas tão diferentes, é óbvio que, para determinados indivíduos, métodos especiais de treinamento se tornam necessários. Quanto à duração do tempo a ser dedicado à meditação, podemos lembrar ao estudante que quanto maior o período de tempo durante o qual ele puder meditar ininterruptamente, mais forte será o efeito produzido. Mas todo excesso nessas questões pode se tornar prejudicial. Com o tempo, porém, o estudante provavelmente se tornará consciente de uma certa "marcação de tempo" interior — resultado dessa meditação habitual — que indicará automaticamente a duração do tempo a que ele deve se ater. Aqueles que prosseguem seus estudos na ciência oculta sob a orientação pessoal de um mestre receberão dele instrução precisa e conselhos sobre esses particulares. No entanto, deve-se compreender enfaticamente que somente ocultistas experientes estão em condições de transmitir tais conselhos.

Tais exercícios de concentração interior geralmente exigirão prática por um tempo considerável antes que o estudante possa se tornar ciente de qualquer resultado. O que é essencial à ciência oculta é a paciência e a perseverança. Aquele que não consegue despertar essas qualidades e não pode prosseguir seus exercícios com contínua quietude, de modo a tornar essas qualidades os tons fundamentais, por assim dizer, de sua alma, jamais poderá esperar fazer grande progresso.


Pelo que foi dito acima, o leitor pode agora ter compreendido que a meditação é um meio de adquirir conhecimento dos mundos superiores, mas que não é qualquer assunto tomado ao acaso que produz esse resultado, e sim apenas aqueles que a experiência adquirida na ciência oculta considerou adequados, desde que seja realizada da maneira ora narrada.

O caminho aqui indicado conduz, em primeiro lugar, ao que se chama conhecimento imaginativo, e este É o primeiro passo para o conhecimento superior. O conhecimento, dependente das percepções sensoriais e do processamento dessas percepções pelo raciocínio, que é limitado aos sentidos, é, para usar o termo oculto, conhecido como "cognição objetiva". Além desse passo, outros se elevam, sendo o estágio imaginativo, como dissemos, o primeiro. Ora, o termo "imaginação" poderia suscitar suspeita na mente de alguns, para quem imaginação equivale a "invenção" — ou seja, a concepções, em suma, que carecem de realidade. Na ciência oculta, contudo, por "imaginativo" deve-se entender aquele tipo de concepção que é trazido à existência pela alma em seu estado de consciência superior; as coisas percebidas nesse estado de consciência são fatos espirituais e seres espirituais, aos quais os sentidos não têm acesso, e — uma vez que essa condição da alma é causada pela meditação sobre símbolos, ou "imaginações" — a esfera à qual pertence essa condição de consciência superior pode ser denominada mundo imaginativo, e o conhecimento a ela relativo, conhecimento imaginativo. "Imaginativo" significa, portanto, nesse sentido, aquilo que é "real" em um sentido mais elevado do que os fatos e seres comuns à percepção sensorial física.

Uma objeção muito pronta ao uso das imagens simbólicas aqui caracterizadas é que sua formação encoraja pensamentos sonhadores, que poderiam surgir de uma imaginação caprichosa e, portanto, ter consequências duvidosas. Mas quaisquer tais dúvidas são injustificadas no que diz respeito aos símbolos transmitidos pelas verdadeiras escolas ocultas. Pois os símbolos são escolhidos de tal maneira que podem ser contemplados inteiramente à parte de sua conexão com a realidade sensorial externa, e seu valor reside apenas no poder com que atuam sobre a alma quando esta volta sua atenção totalmente para longe do mundo exterior, quando suprime todas as impressões sensoriais e exclui todo pensamento que possa ser estimulado de fora. O processo de meditação é melhor demonstrado pela comparação com o sono. Em um aspecto, é como o estado de sono; em outro, é exatamente o oposto dele. É um sono que representa um estado mais elevado de ser.

2 ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

mais desperto do que a consciência desperta ordinária. O ponto é que, pela concentração na concepção ou imagem dada, a alma é obrigada a evocar forças muito mais fortes de suas próprias profundezas do que aquelas que usa na vida ou no conhecimento ordinário. Sua atividade interna é, assim, intensificada. Ela se torna desapegada do corpo, como o faz no sono, mas, em vez de passar, como neste último caso, para a inconsciência, ela experimenta um mundo que não conhecia antes. Embora, quanto ao desapego do corpo, essa condição possa ser comparada ao sono, ainda assim é tal que, comparada à consciência desperta ordinária, pode ser denominada um estado de vigília mais intenso. Por esse meio, a alma aprende a conhecer a si mesma em seu verdadeiro, interior e independente ser. Mas, na vida ordinária, devido ao desenvolvimento mais fraco de suas forças, é somente com a ajuda do corpo que a alma chega à autoconsciência, e, portanto, ela não aprende a conhecer a si mesma, mas apenas se vê na imagem — uma espécie de imagem refletida — traçada dela pelo corpo, ou, na verdade, pelos processos do corpo.

Os símbolos construídos da maneira acima descrita ainda não são indicativos de algo real no mundo espiritual, mas servem para desapegar a alma humana das observações sensoriais e daquele instrumento, o cérebro, ao qual a razão está imediatamente atrelada. Esse desapego não é efetuado até que o homem seja capaz de sentir.

agora estou Imaginando para mim mesmo algo por meio de faculdades às quais nem meus sentidos nem meu cérebro servem como instrumentos”, e a primeira coisa que o homem assim experimenta é uma sensação de liberdade dos grilhões dos órgãos físicos. Ele pode então dizer a si mesmo: “Minha consciência não desaparece quando cesso de tomar conhecimento das percepções sensoriais e do pensamento racional comum. Posso elevar-me acima dessas condições e então sentir-me como uma entidade separada, ao lado daquilo que eu era antes” — e esta é a primeira das experiências puramente espirituais: a observação de um ego, um ser que possui natureza de alma e espírito, que surgiu como um novo eu a partir daquele que está acorrentado aos sentidos físicos e ao entendimento físico. Se esse desligamento do mundo dos sentidos e da razão tivesse sido efetuado sem meditação, a pessoa que assim o fizesse teria caído no nada do estado inconsciente. Esse ser de alma e espírito era nossa posse também antes da meditação, porém então lhe faltavam os órgãos para a observação do mundo espiritual, e ele poderia, de fato, ter sido comparado ao corpo físico sem o olho para ver — sem o ouvido para ouvir. A força assim despendida na meditação tem sido, na verdade, o meio criativo pelo qual esses órgãos de alma e espírito foram formados a partir de uma entidade de alma e espírito anteriormente não organizada. Mas aquilo que o homem assim cria para si mesmo é também a primeira coisa a ser por ele percebida, a primeira experiência sendo uma espécie de autocognição. É da essência do treinamento espiritual que a alma, através da autoeducação que dá a si mesma neste ponto de seu desenvolvimento, esteja plenamente consciente de que a princípio se percebe a si mesma no mundo das imagens (imaginações), que aparecem como resultado dos exercícios descritos. É verdade que essas imagens fazem sua aparição como um mundo novo, mas a alma deve reconhecer que, no entanto, elas são a princípio nada mais que o reflexo de seu próprio ser, que foi fortalecido pelos exercícios. E ela não deve apenas reconhecer isso por raciocínio correto, mas deve ter chegado a tal cultivo da vontade que seja capaz, a qualquer momento, de afastar e obliterar as imagens da consciência.



A alma deve ser capaz de agir com total independência na presença das imagens. Isso faz parte do verdadeiro treinamento espiritual nesta etapa. Se não pudesse fazê-lo, estaria na mesma posição, na esfera das experiências espirituais, que uma alma no mundo físico que, ao olhar para um objeto, tem sua atenção tão capturada por ele que não consegue desviar o olhar. Uma exceção a essa possibilidade de obliteração é formada por um grupo de experiências imaginativas interiores que não devem ser extintas nesta etapa do treinamento espiritual. Elas correspondem ao núcleo mais íntimo do ser da alma, e o estudante ocultista reconhece nessas imagens aquilo que forma a base de sua natureza.


e passa por repetidas vidas terrenas. Nesse ponto, o conhecimento das repetidas vidas terrenas torna-se uma experiência real. Em relação a tudo o mais, a liberdade mencionada deve prevalecer. E somente após adquirir a faculdade de obliterar experiências é que o mundo espiritual exterior é verdadeiramente abordado. O que é obliterado retorna em outra forma e é experimentado como uma realidade espiritual exterior. Experimentamos como, a partir de algo indefinido, crescemos espiritualmente para algo definido. E essa auto-observação deve então prosseguir até uma percepção de um mundo de alma e espírito exterior. Isso acontece quando podemos ordenar nossa experiência interior conforme o modo a ser indicado nas páginas seguintes. No início, a alma do estudante ocultista é frágil em tudo o que diz respeito à percepção do mundo da alma e do espírito, e ele precisará, portanto, de toda a energia interior que puder reunir para, durante a meditação, manter firme controle sobre os símbolos ou outras imagens que construiu tão arduamente a partir das sugestões que lhe foram fornecidas pelo mundo exterior. Se, no entanto, desejar alcançar, além disso, uma contemplação genuína do mundo superior, não lhe bastará apenas manter o controle sobre essas imagens; ele também deverá, após ter feito isso, ser capaz de permanecer em uma condição na qual não apenas nenhuma influência do mundo exterior dos sentidos possa afetar a alma, mas na qual também as representações imaginativas acima caracterizadas tenham sido apagadas.

6 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

de sua consciência. Somente então entrará no plano de sua consciência aquilo que foi previamente formado por meio da meditação. Torna-se, portanto, uma questão de importância que haja uma quantidade adequada de força da alma à disposição do estudante, para que aquilo que foi formado possa também ser discernido espiritualmente e não escape à atenção, pois isso necessariamente ocorrerá quando as energias interiores ainda estiverem fracamente desenvolvidas.

O que aqui se evolui como um organismo da alma e do espírito, e que deveria ser um objeto de apreensão consciente, é efêmero e delicado, e as influências perturbadoras do mundo exterior dos sentidos, por mais que tentemos excluí-las, são, no entanto, grandes. Não se trata apenas daquelas perturbações às quais podemos prestar atenção, mas muito mais daquelas que, na vida comum, escapam constantemente à nossa percepção. Em razão, porém, da própria natureza do homem, uma certa condição de transição tornou possível, neste particular, aquilo que a alma, em seu estado de vigília, era impotente para efetuar, devido às perturbações do mundo físico; isto é, de fato, capaz de realizar durante o sono. Aquele que se entrega à meditação séria, se suficientemente atento, tornar-se-á ciente de um certo aspecto no qual seu sono é afetado. Tal pessoa sentirá que, enquanto dorme, não está ainda completamente adormecida, mas que sua alma tem períodos durante os quais ela está ativo de certa forma durante o sono. Sob tais condições, os processos naturais têm um efeito inibidor sobre as influências do mundo externo, que a alma não é forte o suficiente para afastar por si mesma. Quando, porém, o hábito da meditação começa a surtir efeito, a alma se liberta durante o sono das condições de inconsciência e percebe que está em um mundo de alma e espírito. Isso pode acontecer de duas maneiras: a pessoa pode, enquanto dorme, tornar-se consciente de que está em outro mundo, ou pode, ao despertar, lembrar-se de que esteve em um mundo diferente. Mas estabelecer o primeiro desses dois sentimentos exige o maior grau de energia interior, razão pela qual o segundo é o mais comum entre estudantes em treinamento ocultista. Mas pode gradualmente acontecer que o estudante se torne consciente de ter estado durante todo o tempo de seu sono nesse outro mundo, dele emergindo apenas ao despertar. E sua memória dos seres e fatos relacionados a esse outro mundo tornar-se-á cada vez mais distinta, mostrando assim que, de uma forma ou de outra, ele entrou agora no estado conhecido pela ciência oculta como continuidade da consciência (a continuação da consciência durante o sono).


Ainda assim, para que isso aconteça, não é necessário que a consciência do homem continue sempre durante o sono.

Muito já terá sido alcançado em matéria de continuidade da consciência se a pessoa, cujo sono é em geral o do indivíduo comum, tiver certos períodos durante suas horas de sono em que esteja ciente de estar em um mundo da alma e do espírito, ou se, ao despertar, for capaz de lembrar-se de tal estado.


Condição de consciência. Deve-se ter em mente que o que aqui se descreve deve ser entendido apenas como um estado de transição. É bom passar por esse estado com o auxílio do treinamento, mas não se deve imaginar que quaisquer visões conclusivas a respeito do mundo da alma e do espírito possam ser colhidas durante esse estado de transição, pois nessa condição a alma é incerta e ainda incapaz de confiar em suas próprias experiências. E, no entanto, é através de tais experiências que a alma sempre adquire força, capacitando-a, durante as horas de vigília, a afastar as influências perturbadoras que circulam tanto no mundo físico interno quanto no externo, e assim alcançar um estado de observação quanto ao espírito e à alma no qual nenhuma impressão dos sentidos se intrometerá — uma condição em que a razão acorrentada ao cérebro se cala, e quando até mesmo os pressentimentos para a meditação, que eram apenas um meio preparatório para a visão espiritual, terão passado da consciência. O que quer que seja publicado, de uma forma ou de outra, através da ciência oculta, nunca deve ser extraído de qualquer outro tipo de observação da alma e do espírito senão daquela que é empreendida em plena consciência desperta.


Há duas experiências da alma que são de importância durante o progresso do treinamento oculto. A primeira é quando o estudante diz a si mesmo: "Embora desconsiderando tudo o que o mundo externo possa me oferecer em termos de impressões, eu, no entanto, ao voltar meu olhar para dentro, não vejo um ser cuja atividade tenha sido inteiramente extinta. Pelo contrário, contemplo um que é autoconsciente em um mundo do qual nada sei, enquanto me permito ser apenas impressionado por sensações vindas de fora." E nesse momento a alma terá a sensação de ter dado à luz um novo ser, tendo esse recém-nascido qualidades bastante diferentes daquelas que estavam anteriormente na alma.

A segunda experiência consiste em tornar-se consciente daquele eu anterior, doravante destacado, por assim dizer, e estando ao nosso lado na forma de uma segunda entidade. Aquilo dentro do qual até então estivemos aprisionados evolui agora para algo que somos capazes de confrontar; sentimos, de fato, em certos momentos, exteriores àquilo que estávamos acostumados a considerar como nossa própria personalidade, como nosso próprio ego. É como se agora vivêssemos em dois egos — um, aquele que conhecemos até agora, o outro, um ser recém-nascido, superior ao primeiro — e nos tornamos conscientes de que o ego anterior adquire certa independência em sua relação com o segundo, assim como o corpo físico tem certa medida de liberdade em sua relação com aquele primeiro ego.


Ora, este é um evento de grande importância, pois por meio dele o homem chega a conhecer o que é viver naquele mundo que tem sido seu esforço alcançar por meio do treinamento. É este segundo ego, este recém-nascido, que pode ser levado ao conhecimento do mundo espiritual, e nele pode ser desenvolvido aquilo que tem tanta significância para o mundo espiritual quanto nossos órgãos dos sentidos têm para o mundo físico dos sentidos. Se esse desenvolvimento tiver atingido o grau necessário, o estudante não apenas estará consciente de si mesmo como um ego recém-nascido, mas reconhecerá os fatos e entidades espirituais ao seu redor, assim como percebe o mundo físico por meio da ação de seus sentidos físicos, e esta é uma terceira experiência importante.

Para passar corretamente por esta fase do treinamento espiritual, deve-se levar em conta que o fortalecimento dos poderes da alma produz um grau de amor-próprio e egoísmo que é completamente desconhecido na vida comum da alma. Seria um erro para qualquer um pensar que se trata apenas de amor-próprio comum neste ponto. O amor-próprio torna-se tão forte nesta fase do desenvolvimento que adquire a força de uma força da natureza dentro da alma, e um treinamento vigoroso da vontade é necessário para conquistar esse poderoso egoísmo. Esse treinamento da vontade deve positivamente andar de mãos dadas com o resto do O treinamento espiritual Existe uma forte inclinação a nos sentirmos absolutamente felizes em um mundo que gradualmente criamos para nós mesmos. E devemos ser capazes de obliterar, da maneira acima descrita, aquilo a que anteriormente nos dedicamos com todas as nossas forças. Devemos nos apagar no mundo imaginativo que alcançamos. Mas esse apagamento é oposto pelos mais fortes impulsos do egoísmo.


A crença pode facilmente surgir de que os exercícios do treinamento espiritual são algo exterior, separado do desenvolvimento moral da alma. A esse respeito, deve-se dizer que a força moral necessária para a conquista do egoísmo, como descrito, não pode ser obtida a menos que a condição moral da alma seja levada a um estágio correspondente. O progresso no treinamento espiritual é impensável a menos que o progresso moral ocorra ao mesmo tempo. A conquista do egoísmo é impossível sem força moral. Qualquer conversa sobre treinamento espiritual que não seja ao mesmo tempo treinamento moral está realmente fora de questão.

Somente aqueles que não experimentaram tais manifestações poderiam apresentar a seguinte objeção, dizendo: "Como pode alguém saber que, ao pensar, está percebendo manifestações espirituais, que está lidando com realidades e não com meras imaginações, visões ou alucinações?" Ora, a questão se coloca assim: toda pessoa que foi sistematicamente treinada e que chegou ao estágio já caracterizado estará em posição de notar a diferença entre sua própria apresentação e uma realidade espiritual, tão bem quanto um homem dotado de senso sadio conhece a diferença entre a imitação de uma barra de ferro quente e a presença real de tal barra quando a toca com a mão. A diferença é determinada pela experiência e por nada mais; e no mundo espiritual também a vida é a pedra de toque. Assim como sabemos que no mundo dos sentidos a mera representação de uma barra de ferro quente não queima os dedos de ninguém, assim também o ocultista treinado sabe se está experimentando um fato espiritual ou se seus órgãos espirituais de percepção despertos estão sob a impressão de fatos ou entidades reais. As regras que o estudante deve observar nesse sentido, para não cair vítima de ilusões, serão tratadas nas páginas seguintes.


É DA MAIOR importância que o estudante tenha alcançado uma condição bem definida da alma no momento em que começa a consciência do ego recém-nascido. Pois é devido a este ego, e por meio dele, que o homem é o governante de suas próprias sensações, sentimentos e concepções; de seus impulsos, seus desejos e suas paixões.

As observações e concepções não podem ser deixadas na alma para seguir seus próprios caprichos; devem ser reguladas de acordo com as leis do pensamento.

E é o ego que, por assim dizer, maneja essas leis do pensamento, e por meio delas traz ordem à vida da concepção e do pensamento.


O mesmo ocorre com relação aos desejos e paixões, inclinações e impulsos. As leis éticas fundamentais tornam-se os guias dessas forças da alma, e em razão do juízo moral o ego torna-se o guia da alma dentro desse domínio. Ora, se uma pessoa destaca de seu ego comum um ego superior, o primeiro torna-se, até certo ponto, independente, sendo-lhe retirada tanta força vital quanto deva servir para o uso desse ego superior. Mas consideremos o caso: se essa pessoa ainda não tiver desenvolvido certa habilidade e firmeza no exercício das leis do pensamento e no poder de julgamento, e se, no entanto, desejar provocar o nascimento de seu ego superior sobre essa base insuficiente, ela então só poderia atribuir ao seu ego comum exatamente a mesma capacidade de pensamento que houvesse sido desenvolvida anteriormente; e se a quantidade desse pensamento sistemático for demasiado pequena, então o ego comum, agora independente, afundará a um nível de pensamento e julgamento confusos e fantásticos; e, além disso, como nesse caso o ego recém-nascido inevitavelmente também será fraco, o ego inferior desordenado ganhará a supremacia, e a pessoa perderá o equilíbrio no que diz respeito ao discernimento e ao poder de julgamento. Se tivesse desenvolvido suficiente capacidade e firmeza no pensar logicamente, poderia calmamente

um esboço da ciência oculta

tenha deixado seu ego ordinário seguir seu próprio caminho. Na esfera ética, isso é precisamente o mesmo. Se uma pessoa não tiver alcançado firmeza na questão de seu julgamento moral, se não tiver se tornado suficientemente senhor de suas inclinações, de seus impulsos e de suas paixões, ela tornará seu ego ordinário independente — quando ainda está em uma condição em que será dominada por todas essas forças da alma. Pode então acontecer que essa pessoa se torne pior do que era antes, devido ao nascimento de seu ego superior. Se ela tivesse esperado para provocar esse nascimento até ter desenvolvido suficientemente seu eu ordinário, alcançando firmeza na questão do julgamento ético, estabilidade de caráter e profundidade na questão de sua consciência, ela então estaria em posição de ter todas essas virtudes permanecendo dentro daquele primeiro ego quando o nascimento do segundo ocorresse. Negligenciar isso, no entanto, a expõe ao perigo de perder seu equilíbrio moral, o que, sob o curso correto de treinamento, não pode acontecer. Duas coisas devem aqui ser lembradas: primeiro, que os fatos acima relatados devem ser levados a sério o quanto possível; e segundo, que, por outro lado, eles não devem de modo algum dissuadir as pessoas de empreender tal treinamento.

Qualquer um que tenha a firme intenção de fazer tudo o que estiver em seu poder para dar confiança ao primeiro ego na execução daquilo que ele tem a cumprir, nunca precisa se desanimar quando o segundo ego se desprende como resultado de tal treinamento espiritual. No entanto, ele deve lembrar que o poder da auto-ilusão pode ser muito grande e pode assim levá-lo à crença errônea de que já alcançou o estágio de "maturidade".


Durante o treinamento espiritual aqui descrito, o estudante desenvolve sua vida de pensamento a tal ponto que não fica exposto aos perigos que frequentemente se acredita estarem ligados ao treinamento. Esse cultivo do pensamento produz todas as experiências interiores necessárias, mas faz com que sejam encenadas de modo que a alma as vivencie sem choques prejudiciais. Sem um desenvolvimento adequado do pensamento, essas experiências podem produzir um sentimento de grande incerteza na alma. O método aqui enfatizado evoca experiências de tal maneira que elas podem produzir todo o seu efeito e, ainda assim, não causar choques graves. Ao desenvolver a vida de pensamento, o estudante torna-se mais um espectador das experiências de sua vida interior, enquanto, sem tal desenvolvimento do pensamento, ele está no meio da experiência e é abalado por todos os choques a ela incidentes.

No treinamento sistemático, certas qualidades são mencionadas que o estudante deve adquirir por meio de exercícios para encontrar o caminho para os mundos superiores, e especial ênfase é dada às seguintes: — controle da alma sobre seus pensamentos.


sua vontade e seus sentimentos. A maneira como esse controle é adquirido por meio do exercício tem um duplo objetivo. Por um lado, a alma deve, por essa prática, adquirir uma firmeza, confiança e equilíbrio que não a abandonem mesmo após o nascimento do segundo ego; e, por outro lado, esse último ego deve ser provido de força e fortaleza interior para sua jornada.

O que se requer é que o poder de pensar do homem se conforme aos fatos em todos os domínios. No mundo físico dos sentidos, a vida é o grande professor do ego humano com relação à realidade. Se a alma permitisse que seus pensamentos vagueassem sem rumo, daqui para ali, ela logo seria corrigida pela vida, a menos que estivesse disposta a entrar em combate com seu mentor; a alma deve conformar seus pensamentos aos fatos da vida. Agora, quando o homem afasta seus pensamentos do mundo dos sentidos físicos, ele perde a influência corretiva deste último. Se seu pensamento não for capaz de ser seu próprio mentor, será tão instável quanto um fogo-fátuo. Consequentemente, o pensamento do estudante deve ser exercitado de tal maneira que seu curso e seu objeto sejam autodeterminados.

Firmeza interior e capacidade de concentrar-se estritamente em um único objeto — é isso que tal pensamento deve, por si mesmo, engendrar. E, por essa razão, os exercícios de meditação não devem lidar com objetos complicados, ou com aqueles que são estranhos à vida diária, mas devem, ao contrário, tratar de tais como são simples e familiares. Qualquer um que consiga fixar sua mente, por um período de vários meses e por um espaço de pelo menos cinco minutos por dia, em objetos tão comuns como um alfinete ou um lápis, excluindo durante esse tempo todos os outros pensamentos não relacionados ao objeto em contemplação, terá realizado muito na direção certa. (Um novo objeto pode ser escolhido a cada dia, ou o mesmo pode ser mantido por vários dias.)


Aqueles, também, que se consideram "pensadores" não precisam desprezar esse método de preparação para o treinamento oculto, porque, ao fixarmos nossa atenção por um tempo sobre um objeto realmente familiar, podemos ter certeza de que estaremos pensando de acordo com os fatos, e qualquer um que se faça as perguntas: "Quais são as partes constituintes de um lápis?", "Como esses materiais são preparados?", "Como são depois reunidos?", "Quando os lápis foram inventados?" e assim por diante, estará adaptando sua concepção mais às realidades do que aquele que medita sobre a descendência do homem, ou se pergunta o que é a vida.

Temas simples de meditação nos preparam mais para uma concepção precisa do mundo dos estágios de desenvolvimento de Saturno, Sol e Lua do que aqueles baseados em ideias eruditas e complicadas, pois o principal não é meramente pensar, mas pensar com precisão por meio de uma força interior. Uma vez que se tenha sido treinado para a precisão por meio de um processo físico óbvio e real, o desejo de pensar em conformidade com os fatos terá se tornado habitual, mesmo quando o pensamento não se sente sob o controle do mundo sensorial físico e suas leis, e então nos libertamos da tendência de deixar nossos pensamentos derivarem sem rumo.


E mesmo como governa no mundo do pensamento, assim a alma deve exercer domínio no reino da vontade. No mundo sensorial físico, é a vida que também aqui mantém o domínio. Ela impõe ao homem isto ou aquilo como necessidade, e a vontade sente-se constrangida a satisfazer essas mesmas carências. Mas, seguindo o treinamento superior, o homem deve acostumar-se a obedecer estritamente às suas próprias ordens, e aquele que adquire esse hábito sentir-se-á cada vez menos inclinado a desejar aquilo que não tem importância. Toda insatisfação e instabilidade na vida da vontade provêm do desejo por coisas, cuja realidade não formamos concepção distinta. Tal insatisfação pode, quando o ego superior deseja deixar a alma, lançar toda a vida interior dessa pessoa em desordem, e é um bom exercício dar a si mesmo, por espaço de vários meses, alguma ordem a ser cumprida em uma hora determinada do dia, como, por exemplo: "Hoje, a esta ou àquela hora particular, você fará isto ou aquilo." Por tais meios, chegamos com o tempo a "ordenar" o tempo em que a coisa deve ser feita e a maneira como deve ser realizada, de modo a admitir que seja cumprida com a máxima exatidão. Assim, elevamo-nos acima do hábito pernicioso de dizer: "Eu gostaria disto" e "Eu quero aquilo", enquanto não exercemos nenhum pensamento em direção à sua realização.


Na segunda parte do Fausto, Goethe coloca as seguintes palavras na boca de uma vidente: "Den heb ich, der Unmögliches begehrt" ("Amo aquele que anseia pelo impossível"), e o próprio Goethe, em seus Provérbios Prosaicos, diz: "In der Idee leben heisst, das Unmögliche behandeln, als wenn es möglich wäre" ("Viver na ideia significa tratar o impossível como se fosse possível").

Contudo, tais sentimentos não devem ser apresentados como objeções contra o que aqui foi exposto, pois as exigências feitas por Goethe e por sua vidente (Manto) só podem ser cumpridas por aqueles que primeiro se educaram até o desejo pelo que é possível, e, ao fazê-lo, chegaram a ser capazes, por meio de seu forte "querer", de tratar o impossível de tal maneira que, através da vontade, ele se transforma em possível.

No que diz respeito ao mundo dos sentimentos, uma certa resignação deve permear a alma do estudante ocultista. E, para que assim seja, é necessário que a alma tenha domínio sobre as expressões de alegria e tristeza, prazer e dor. Mas o próprio fato de adquirir essa característica pode despertar preconceito; as pessoas podem temer tornar-se insensíveis e indiferentes se não se "alegrarem com os que se alegram e chorarem com os que choram". No entanto, não é esse o caso. O que é prazeroso deve alegrar a alma, e a tristeza deve causar-lhe dor, mas o que a alma deve aprender a alcançar é a conquista sobre os sinais de alegria e de tristeza. Ao fazer esse esforço, o estudante perceberá que, longe de se tornar "insensível e indiferente", estará se tornando cada vez mais receptivo a toda a alegria e tristeza ao seu redor. Mas é verdade que o estudante descobrirá aqui que precisa observar-se cuidadosamente por um tempo considerável para adquirir a faculdade indicada. Ele deve ter cuidado para participar plenamente da dor e do prazer, sem, no entanto, entregar-se a qualquer um deles a ponto de dar-lhe expressão involuntária. A tristeza justificável não deve ser reprimida, mas o choro involuntário deve ser contido. A repulsa por uma má ação não é condenada; mas a paixão cega da raiva o é. Tampouco a precaução contra perigos é considerada injustificada, embora o "medo" infrutífero deva ser desencorajado, e assim por diante.

É somente por meio de tais exercícios que o estudante ocultista pode obter a quietude interior necessária à sua alma, para que, no nascimento do ego superior, a alma não se encontre como uma espécie de duplo levando uma segunda vida doentia ao lado do eu superior. É mais especialmente em Estas questões não devem nos levar a qualquer autoengano. Algumas pessoas podem ser da opinião de que já possuem na vida cotidiana um certo grau de equanimidade e que, portanto, não necessitam de tais exercícios; no entanto, são precisamente essas que duplamente deles necessitam. Pois é bem possível permanecer equânime ao contemplar as coisas desta vida e, ao ascender ao mundo superior, demonstrar evidências de uma falta de equanimidade tanto maior por ter sido apenas contida. Pois deve-se compreender enfaticamente que, no que diz respeito ao treinamento oculto, não se trata tanto daquilo que possamos ter aparentemente possuído anteriormente, mas sim de perseverar na prática cuidadosa e regular daquilo de que necessitamos. Por mais contraditória que esta frase possa parecer, é, no entanto, verdade que, embora a vida possa ter-nos moldado para isto ou aquilo, as qualidades que nos servem no treinamento oculto são aquelas que temos de adquirir por nós mesmos. Se a vida nos tornou excitáveis, devemos treinar-nos para vencer esse traço; mas se a vida engendrou em nós equanimidade, devemos despertar-nos por nossos próprios esforços, para que a alma seja capaz de responder às impressões que recebe. O homem que não consegue rir de coisa alguma tem tão pouco controle sobre seu riso quanto aquele que se entrega perpetuamente a risos descontrolados.


O pensamento e o sentimento podem ser cultivados por ainda outro meio, a saber, pela aquisição do característica conhecida como positividade. Há uma bela lenda contada sobre Cristo Jesus, na qual se relata como Ele, com outros, passou na estrada pelo corpo morto de um cão. Os companheiros de Nosso Senhor desviaram-se da visão hedionda, mas Cristo Jesus referiu-se com admiração aos belos dentes da criatura. E nós mesmos podemos praticar a obtenção dessa condição de espírito em relação ao mundo, que é assim indicada na lenda. O erro, o vício e a feiura não devem impedir a alma de ver a verdade, a bondade e a beleza, onde quer que se encontrem. Tampouco essa positividade deve ser confundida com falta de discernimento, com um fechamento deliberado dos olhos para o que é mau, falso e inferior. Aquele que pode admirar os belos dentes de um animal em decomposição também pode ver o cadáver em decomposição — contudo, o cadáver não o impede de observar a beleza dos dentes. Assim, embora o que é mau não possa ser considerado bom, nem o erro aclamado como verdade, podemos ainda assim nos treinar para que o que é mau não nos impeça de reconhecer o que é bom, nem os erros nos tornem insensíveis ao que é verdadeiro.


O pensamento, combinado com a vontade, atinge certa maturidade se nos esforçarmos para nunca permitir que o que já experimentamos ou aprendemos nos roube a receptividade imparcial para novas experiências. Tal pensamento como "nunca ouvi isso antes, não acredito" deveria perder todo o seu significado no que diz respeito ao estudante ocultista.


De fato, ele deve se esforçar, por um período fixo de tempo, para permitir que cada coisa e cada criatura transmita algo novo à sua mente. Cada respiração do ar, cada folha na árvore, o balbuciar de uma criança — cada um e todos nos ensinarão algo, desde que estejamos dispostos a trazer um ponto de vista diferente para aplicar sobre isso, diferente daquele que mantivemos até agora. Pode, é claro, ser possível ir longe demais nesse particular, e devemos ter cuidado, em um período da vida, para não perder de vista as experiências que tivemos em outro período com relação a certas coisas. De fato, o que experimentamos no presente deve ser julgado de acordo com a soma de nossas experiências passadas. Estas devem ser colocadas em um prato da balança, enquanto no outro o estudante ocultista deve colocar sua inclinação por sempre reunir novos conhecimentos — acima de tudo, mantendo sua mente aberta ao fato de que novas experiências podem contradizer as antigas. Assim, chegamos aqui à enumeração daquelas cinco qualidades da alma que o estudante ocultista deve, por meio de treinamento definido, esforçar-se para tornar suas: controlar a tendência de seus pensamentos, controlar os impulsos da vontade, equanimidade em relação à tristeza e à alegria, positividade em seu julgamento do mundo e imparcialidade em sua visão da vida. Depois de dedicar períodos consecutivos de tempo à aquisição dessas qualidades por meio de prática contínua, o estudante deve ir ainda mais longe e ver que todas estas são mescladas em um todo harmonioso dentro de sua alma, para alcançar o que ele terá que praticar os exercícios em pares, ou três e um, simultaneamente, de modo a produzir a harmonia aqui desejada.

Os exercícios indicados acima são assim transmitidos pelo ensinamento oculto porque não apenas produzem — se fielmente executados — como resultado direto os efeitos desejados, mas também porque são calculados para trazer indiretamente muito daquilo que é útil ao estudante em seu caminho rumo aos mundos superiores. Aquele que pratica suficientemente esses exercícios, ao fazê-lo, tornar-se-á ciente de muitas carências e muitas falhas em sua própria vida da alma, e ao mesmo tempo encontrará neles os próprios meios necessários para dar força e segurança ao intelecto, bem como às tendências emocionais e ao caráter. Ele certamente necessitará de muitos exercícios adicionais, de acordo com suas capacidades, seu temperamento e seu caráter; estes, porém, apresentar-se-ão se os acima forem abundantemente executados. Na verdade, eles acabarão por revelar-se como contendo mais do que à primeira vista aparentaria, como, por exemplo, quando uma pessoa dotada de pouca autoconfiança chega, com o tempo, a descobrir que pela prática persistente a confiança necessária em si mesma se estabeleceu — e tal pode ser o caso com muitas outras qualidades da alma.

Exercícios especiais que entram em maiores detalhes sobre este assunto podem ser encontrados em meu livro intitulado *O Caminho da Iniciação* (Theosophical Publishing Society, 161, New Bond St., London, W), começando no Capítulo II.


É um fato significativo que o estudante ocultista seja capaz de elevar essas capacidades a uma potência superior, e ele deve conseguir controlar seus pensamentos e sentimentos de tal modo que a alma tenha poder de manter completa quietude interior por certos períodos de tempo — períodos durante os quais o estudante possa manter afastados de sua mente e de seu coração todas aquelas coisas que de qualquer maneira concernem à vida cotidiana exterior, suas alegrias e suas tristezas, seus prazeres e seus cuidados, até mesmo suas tarefas e suas exigências.

Em tal momento, nada deve ter permissão de entrar na alma, exceto o que a própria alma admite. Uma objeção pode facilmente ser feita a isso; o pensamento poderia surgir de que a alienação da vida resultaria se o estudante se retirasse, em coração e espírito, da vida e de seus deveres por certa parte do dia. No entanto, na realidade, este não é de modo algum o caso. Pois aqueles que, da maneira acima, se entregam a períodos de quietude e paz interiores descobrirão que deles surge tal reserva de energia para o cumprimento dos deveres externos da vida que estes não são apenas não pior realizados, mas certamente melhor.

Seria bom para um homem, em tais momentos, desligar-se inteiramente de pensamentos de seus próprios assuntos pessoais, elevando-se ao que afeta não apenas a si mesmo, mas a humanidade em geral. Se ele então for capaz de encher sua alma com mensagens de outro mundo, um mundo espiritual, e se estas tiverem o poder de arrebatar sua alma a um grau tão intenso quanto qualquer preocupação ou cuidado pessoal, então, de fato, sua alma terá colhido fruto de valor especial.

Aqueles que assim se esforçam para regular sua vida da alma chegarão até à possibilidade de tal auto-observação que lhes permitirá rever seus próprios assuntos pessoais com a mesma tranquilidade com que veem os dos outros; e ver as próprias experiências, as próprias alegrias e tristezas, sob a luz em que as de outro aparecem, é uma boa preparação para o treinamento oculto. Assim, com o tempo, podemos levar este exercício ao grau necessário para que, após o trabalho do dia, imagens dos acontecimentos do dia passem diante do olho da mente; e deveríamos então perceber a nós mesmos dentro dessas experiências, em outras palavras, o estudante deveria olhar para si mesmo em sua vida diária como um observador externo.

Tendo-se adquirido certa prática em auto-observação pela concentração da atenção em curtas divisões da vida cotidiana, o estudante tornar-se-á cada vez mais perito nesse tipo de retrospecto; a prática continuada habilitando-o a rever esses curtos períodos completa e rapidamente. Tornar-se-á então, cada vez mais, o ideal do estudante ocultista assumir tal atitude com relação aos acontecimentos da vida que se lhe apresentam, que ele possa aguardar sua aproximação com absoluta calma e confiança interior, não mais julgando-os pelo estado de sua própria alma, mas pelo poder de cativar sua alma a um grau tão intenso quanto qualquer preocupação ou cuidado pessoal, então, de fato, sua alma terá colhido fruto de valor especial.



de acordo com seu próprio significado interno e valor interno. E é olhando para esse ideal que ele criará uma condição de alma que lhe permitirá meditar profundamente, como descrito acima, sobre pensamentos e sentimentos simbólicos e outros.

As condições aqui descritas devem ser cumpridas, porque a experiência supersensível é construída sobre o fundamento no qual o estudante se encontra em sua vida ordinária da alma, antes de entrar no mundo supersensível. De uma dupla maneira, toda experiência supersensível depende do ponto de partida da alma antes de entrar nesse mundo. Aquele que não está atento, desde o início, em fazer das sólidas faculdades de julgamento o fundamento de seu treinamento espiritual desenvolverá capacidades supersensíveis que percebem o mundo espiritual de forma imprecisa e inverídica. Até certo ponto, seus órgãos espirituais de percepção se desenvolverão erroneamente. E assim como um homem com um olho defeituoso ou doente não pode ver corretamente no mundo dos sentidos, também não é possível ter percepções verdadeiras com órgãos espirituais que não são construídos sobre o fundamento de sólidas faculdades de julgamento. Aquele que parte de um estado imoral da alma sobe aos mundos espirituais com sua visão espiritual confusa e obscurecida. Com relação aos mundos supersensíveis, ele é como alguém no mundo dos sentidos que faz observações em estado de perplexidade. Este último, no entanto, não chegará a fazer afirmações de consequência, enquanto o observador espiritual, mesmo em seu perplexidade, está mais desperto do que uma pessoa no estado ordinário de consciência, e os resultados de suas observações serão, portanto, erros com relação ao mundo espiritual.


O valor interior do grau de conhecimento imaginativo é assegurado pelo recolhimento da alma, ou meditação, descrito acima, auxiliado pelo fato de o estudante habituar-se ao que se pode chamar de "pensamento livre dos sentidos". Ora, quando formulamos uma ideia baseada em observações feitas no mundo físico dos sentidos, nosso pensamento não pode deixar de ser colorido por esses sentidos. Contudo, não é como se o homem pudesse formular apenas tais ideias; o pensamento humano não precisa tornar-se vazio e sem significado simplesmente por não estar preenchido com observações derivadas através dos canais dos sentidos. O caminho mais direto e seguro para o estudante ocultista adquirir essa atitude "livre dos sentidos" em relação aos seus pensamentos é familiarizar-se com aqueles fatos concernentes aos mundos superiores que a ciência oculta é capaz de apresentar, tornando-os os objetos de seus pensamentos.

Esses fatos não podem ser observados por meio dos sentidos físicos; no entanto, o estudante descobrirá que será colocado em posição de compreendê-los — se tão somente tiver paciência e perseverança suficientes. Ninguém pode explorar os mundos superiores, nem fazer suas próprias observações neles, sem ter sido treinado. Mas, apesar disso, é perfeitamente possível, sem o treinamento superior, compreender tudo aquilo que os investigadores possam estar em posição de comunicar sobre essas regiões. Se alguém perguntar: "Como posso aceitar sob confiança tudo o que o ocultista possa dizer, sendo eu mesmo ainda incapaz de ver qualquer coisa?", tal objeção seria infundada, pois é perfeitamente possível chegar, através da mera reflexão pensante, à convicção segura de que as matérias assim comunicadas são verdadeiras. Se um homem é incapaz, após refletir, de sentir esse senso de certeza, a falta surgirá não da ausência de poder para "crer" em algo que não pode ver, mas simplesmente porque ele ainda não aplicou suas faculdades de pensamento reflexivo de maneira suficientemente imparcial, abrangente e profunda.


Para ser claro sobre este ponto, deve-se ter em mente que o pensamento humano, se se agita energicamente, com força interior, pode compreender mais do que geralmente imagina ser possível para si mesmo. Pois no pensamento há uma essência interior que está em conexão com o mundo supersensível.

A alma não está geralmente consciente dessa conexão, porque costuma treinar sua faculdade de pensamento apenas através do mundo dos sentidos.

Por esta razão, considera incompreensível o que lhe é transmitido do mundo supersensível. O que assim é comunicado, no entanto, não é apenas inteligível para o pensamento que foi espiritualmente treinado, mas para qualquer pensamento que esteja plenamente consciente de seu poder e disposto a fazer uso dele.

Pela assimilação perseverante do que os mestres ocultistas são capazes de nos transmitir, podemos habituar-nos a uma linha de pensamento que não deriva da observação dos sentidos, e então aprendemos a reconhecer como, dentro da alma, o pensamento se alia ao pensamento, e como um pensamento busca outro, mesmo quando a conexão das ideias não é ocasionada por nenhum poder da observação sensorial. O ponto essencial é que, por este método, tornamo-nos conscientes do fato de que o mundo do pensamento possui uma vida interior, e que, enquanto estamos engajados no pensamento, estamos, de fato, nos reinos de um poder vivo supersensível. Assim, podemos dizer a nós mesmos: "Há algo dentro de mim que constitui um organismo de pensamento; no entanto, eu sou uno com esse algo." Portanto, no curso de nos entregarmos a essa maneira de pensar livre dos sentidos, chegamos ao conhecimento de que há algo real que flui para dentro de nossa vida interior, assim como os atributos dos objetos dos sentidos, quando os observamos, fluem para dentro de nós através dos canais de nossos órgãos físicos.

Um observador no mundo dos sentidos poderia observar: "Lá fora, no espaço, há uma rosa; ela não me é desconhecida, pois tanto o perfume quanto a cor proclamam sua presença." E de maneira semelhante, quando o pensamento livre dos sentidos atua dentro de nós, precisamos apenas ser suficientemente imparciais para podermos dizer: "Algo real proclama sua presença para mim, ligando pensamento a pensamento e constituindo um organismo de pensamento" — apenas com a diferença de que há esta distinção a ser notada entre a comunicação que chega ao observador do mundo exterior dos sentidos e aquela que efetivamente alcança o pensador livre dos sentidos. O primeiro sente que está de fora — diante da rosa — enquanto aquele que se entregou ao pensamento que não é tolhido pelos sentidos sentirá dentro de si mesmo o que quer que assim proclame sua presença; ele se sentirá uno com isso.


Aqueles que, mais ou menos inconscientemente, só podem aceitar como real aquilo que lhes vem de fora, é verdade, pouco poderão acolher esse sentimento, pois o que é em si mesmo uma realidade só pode ser proclamado a mim através do meu estar em unidade com ela. Para ver algo aqui, é necessário ter a seguinte experiência interior: devemos aprender a distinguir entre as combinações de pensamentos que criamos por nossa própria vontade e aquelas que experimentamos sem qualquer exercício voluntário de nossa vontade. Neste último caso, podemos então dizer: "Estou inteiramente tranquilo dentro de mim mesmo, não dou origem a nenhuma sequência de ideias, entrego-me àquilo que pensa em mim". E, nesse caso, temos toda a justificativa para dizer: "Dentro de mim, algo é em si mesmo uma realidade", dizendo-o, de fato, com tanta justificação quanto podemos dizer: "A rosa causa-me uma impressão", quando vemos um vermelho particular e nos tornamos conscientes de um perfume particular.


Tampouco há qualquer contradição em ter derivado o conteúdo de nossas ideias das comunicações feitas pelo vidente oculto. As ideias estão, é verdade, presentes; nós as encontramos ali à disposição, se apenas nos rendermos a elas; contudo, elas não podem ser "pensadas" sem que, em cada caso, as recriemos dentro da alma. É por isso que o mestre oculto procura despertar em seus ouvintes e leitores tais pensamentos que eles devem primeiro evocar de dentro de si mesmos, ao passo que aquele que descreve algum objeto ligado às realidades sensoriais está aludindo a algo que o ouvinte ou leitor pode observar no mundo dos sentidos. (O caminho que conduz ao pensamento livre dos sentidos por meio das comunicações feitas pela ciência oculta é inteiramente seguro. Mas há também outro método, ainda mais seguro e, sobretudo, mais exato, porém, por essa mesma razão, mais difícil para a maioria.

Esse método está exposto em meus dois livros:

*A Teoria do Conhecimento segundo a Concepção de Goethe do Universo* e *A Filosofia da Liberdade*. Essas obras expõem o que o pensamento humano pode alcançar por si mesmo, se, em vez de confiar nas impressões derivadas do mundo externo dos sentidos, ele se render à contemplação interior. Nesse momento, o pensamento puro atua dentro da pessoa, assim como um ser vive Dentro dele, ao mesmo tempo, nada em nenhuma dessas vontades é derivado de comunicações devidas à própria ciência oculta. E, no entanto, aqui se mostra que o pensamento claro e autoconcentrado pode obter explicações sobre o mundo, a vida e o homem.


Esses escritos ocupam, portanto, uma posição intermediária muito importante entre o conhecimento do mundo dos sentidos e o do mundo espiritual. Eles oferecem aquilo que o pensamento pode alcançar quando se eleva acima da observação dos sentidos, evitando ainda o portal da ciência oculta. Qualquer pessoa que permita que esses livros atuem sobre sua alma em sua totalidade já se encontra dentro do mundo espiritual, embora a impressão que terá seja a de estar no mundo do pensamento. E aqueles que se sentem em condições de buscar as influências peculiares a esse caminho intermediário estarão seguindo uma estrada segura e clara, pois poderão assim conquistar para si sentimentos concernentes aos mundos superiores, tais como, por todo o tempo, lhes assegurarão os resultados mais abundantes.

O objetivo de meditar sobre as concepções e sentimentos simbólicos acima descritos é, estritamente falando, o treinamento dos órgãos superiores de cognição dentro do corpo astral do homem. Eles são, em primeiro lugar, criados a partir da substância do corpo astral, e esses novos órgãos de observação proporcionam um novo mundo no qual o homem aprende a conhecer a si mesmo como um novo eu.

Um esboço da ciência oculta

Esses novos órgãos de percepção distinguem-se prontamente daqueles do mundo físico dos sentidos pelo fato de serem órgãos ativos. Enquanto o olho e o ouvido são passivos, permitindo que a luz e o som atuem sobre eles, pode-se dizer desses órgãos perceptivos da alma e do espírito que, enquanto cognoscentes, estão em perpétuo estado de atividade, e que apreendem, por assim dizer, seus objetos e seus fatos. Isso dá origem ao sentimento de que a cognição da alma e do espírito é uma união com — um "habitar dentro" — dos fatos correspondentes.

Esses órgãos da alma e do espírito, que evoluem separadamente, podem ser comparados a "flores de lótus", de acordo com a aparência que apresentam à consciência clarividente à medida que são formados a partir da substância do corpo astral.

Tipos muito especiais de meditação são usados para afetar o corpo astral, a fim de que este ou aquele órgão da alma e do espírito possa formar este ou aquele lótus, e toda meditação sistemática empreendida com vistas ao conhecimento imaginativo exerce sua influência sobre um ou outro desses órgãos.

Um curso sistemático de treinamento organiza e ordena os exercícios separados a serem praticados pelo

' Deve-se, naturalmente, compreender claramente que uma designação como "lótus" não tem mais relação com a matéria do que teria a expressão "asa", caso fosse aplicada aos lóbulos de um pulmão.

Em meus livros, intitulados *O Caminho do Conhecimento* e *Iniciação e seus Resultados*, alguns desses métodos de meditação e exercícios para atuar sobre esses diferentes órgãos são apresentados.


estudante ocultista para que esses órgãos possam, simultânea ou sucessivamente, atingir seu desenvolvimento adequado, e nesse processo o estudante terá de trazer muita paciência e perseverança. Aqueles, de fato, que não possuem mais do que a quantidade média de paciência com a qual o homem, sob as condições atuais da vida, é dotado, dificilmente podem esperar que essa provisão seja suficiente. Pois leva tempo — muitas vezes muito tempo, na verdade — até que esses órgãos atinjam um ponto em que o estudante ocultista possa usá-los para observar as coisas nos mundos superiores. Nesse ponto surge o que é conhecido como "iluminação", em contraposição à preparação, ou "purificação", que consiste nas práticas empreendidas para a formação desses órgãos. (O termo "purificação" é usado porque os exercícios acima, em alguns aspectos, purificam a vida interior do discípulo daquelas coisas que pertencem apenas ao mundo da observação sensorial.)

Pode, no entanto, também acontecer que, antes dessa iluminação efetiva, o estudante receba repetidos "relâmpagos de luz" do outro mundo. Tais "relâmpagos" devem, de fato, ser aceitos com gratidão, pois já podem torná-lo testemunha dos reinos espirituais. Contudo, ele não deve vacilar caso isso nunca lhe seja concedido durante todo o seu período de preparação, e caso sua duração consequente lhe pareça longa demais. Na verdade, aqueles que cedem à impaciência "porque ainda não conseguem ver nada" ainda não adotaram a atitude correta em relação aos mundos superiores. Somente aqueles estarão em condições de compreender o que podem ver aqueles que encaram os exercícios que empreendem como um


objeto em si mesmos. Pois esta prática é, em si mesma, um trabalho sobre algo que é da alma e do espírito, ou seja, sobre o próprio corpo astral do homem; e, mesmo sem “ver”, podemos, não obstante, “sentir” que estamos trabalhando sobre o espírito e a alma. É somente quando nos entregamos a uma noção preconcebida sobre o que “queremos ver” que nos tornamos incapazes de experimentar o sentir. Nesse caso, podemos, de fato, considerar como nada o que é, em realidade, de imensurável importância. Antes, deveríamos anotar cuidadosamente tudo o que experimentamos durante a prática, experiências que são tão fundamentalmente diferentes daquelas do mundo exterior. Tornar-nos-emos então conscientes de que não podemos trabalhar sobre nosso corpo astral como se fosse uma substância indiferente; que, ao contrário, um mundo inteiramente diferente tem aqui seu ser, e um mundo do qual nada sabemos através do mundo exterior.

Entidades superiores atuam sobre o corpo astral da mesma maneira como o mundo dos sentidos físicos atua sobre o corpo físico, e nós “nos deparamos” com essa vida superior em nosso próprio corpo astral, desde que não nos excluamos dela. Se estamos perpetuamente dizendo “não percebo nada”, então é geralmente o caso em que decidimos como essas experiências devem se apresentar à nossa visão, e, não vendo nada que esteja de acordo com essas ideias preconcebidas, dizemos: "Não posso ver nada". Aquele, porém, que for capaz de adquirir a atitude de espírito correta em relação à prática durante seu treinamento, descobrirá que obtém algo mais desses exercícios, algo que ele preza por si mesmo — tanto assim que não poderá mais prescindir de uma função vital tão incalculavelmente importante. Mas então saberá que, por meio dessas próprias práticas, ele está adentrando o mundo da alma e do espírito, e aguardará com paciência e resignação aquelas coisas que possam ainda se manifestar. O sentimento do qual o estudante então se torna consciente pode ser melhor expresso em palavras como estas: "Farei todos os exercícios que me são adequados, pois sei que, durante o tempo assim empregado, todas as coisas que me são importantes virão a mim. Não peço essas coisas com impaciência, mas me preparo para recebê-las." E a isso nenhuma objeção pode ser levantada, como, por exemplo, que o estudante é primeiro deixado a tatear no escuro, possivelmente por um período considerável de tempo — e que ele só poderá saber que está no caminho certo quando os resultados se lhe manifestarem. Pois não é verdade que esses resultados sejam a primeira evidência do método correto de sua prática. Caso a atitude tomada em relação a esses exercícios seja a correta, ele sentirá uma sensação de satisfação como resultado dos exercícios, e isso lhe mostrará claramente que está no caminho certo, mesmo antes de quaisquer resultados poderem ser registrados.



O uso correto dos exercícios no treinamento oculto alia-se a uma satisfação que não é mera satisfação, mas conhecimento — conhecimento, isto é, que proclama:

"Estou fazendo algo que me mostra que está me conduzindo pelo caminho certo." Todo estudante oculto pode ter esse conhecimento a qualquer momento, se prestar atenção cuidadosa a todas as suas experiências. Caso não traga essa atenção, ele passará por tais eventos, assim como um homem absorto em pensamentos pode caminhar pelas árvores que crescem à beira de uma estrada, sem sequer observá-las — embora pudesse tê-las visto se tivesse olhado para elas.

Não é de modo algum desejável que resultados, outros que não aqueles que são sempre devidos a tal prática, sejam de qualquer forma apressados.

Pois isso poderia facilmente ser apenas um grau infinitesimal do que realmente deveria ocorrer. De fato, no iniciado do desenvolvimento oculto, resultados parciais são mais frequentemente a causa de considerável atraso no desenvolvimento completo. Mover-se entre tais formas da vida espiritual que correspondem a resultados parciais tende apenas a embotar as faculdades perceptivas às influências dos poderes que conduzem aos estágios superiores de desenvolvimento, enquanto o valor derivado deles — o de ter visto o mundo espiritual — é meramente aparente, pois esse tipo de "ver" não pode produzir a verdade, mas apenas ilusões infundadas.


K 4-

Os órgãos da alma e do espírito, chamados "flores de lótus", moldam-se de tal maneira que, à consciência clarividente, aparecem nas proximidades de órgãos físicos particulares do corpo da pessoa em treinamento. Entre o seu número, enumerarei os seguintes: no espaço entre as sobrancelhas está a chamada flor de lótus de duas pétalas; perto da laringe está localizada a de dezesseis pétalas; nas proximidades do coração encontramos a flor de lótus de doze pétalas. A quarta está perto do umbigo, e há outras que aparecem em estreita conjunção com outras partes do corpo físico.

As flores de lótus são formadas a partir do corpo astral, e quando uma ou outra se desenvolve, nós mesmos chegaremos a saber que estamos de posse dela. Sentimos então que podemos fazer uso dela, e que, ao fazê-lo, realmente entramos em um mundo superior. As impressões recebidas desse mundo ainda se assemelharão em muitos aspectos às dos sentidos físicos, e qualquer pessoa com conhecimento imaginativo poderá aludir a

A designação "duas pétalas" ou "dezesseis pétalas", e assim por diante, é usada porque o órgão em questão pode ser desenvolvido até um número correspondente de pétalas.

as sensações que emanam deste novo e superior mundo em termos como "sensações de calor ou de frio" — "sons, ou impressões de palavras" — "efeitos de luz ou de cor" — pois é assim que ele se torna consciente delas. No entanto, ele estará ciente do fato de que essas impressões recebidas no mundo imaginativo expressam algo diferente do que expressam no mundo real dos sentidos, e reconhece que há causas por trás delas que nada têm a ver com a matéria física, mas estão ligadas a coisas que são da alma e do espírito.

Se receber uma impressão de calor, não a atribuirá, por exemplo, a um pedaço de ferro quente, mas a considerará como a emanação de algum processo anímico, tal como até então experimentou apenas na vida interior de sua alma. Ele sabe que por trás das experiências imaginativas, coisas e processos têm seu ser, os quais são da alma e do espírito, assim como por trás das percepções físicas temos entidades físicas e fatos materiais. E, no entanto, essa similaridade aparente entre o mundo da imaginação e o mundo físico é modificada por uma diferença importante. Há algo presente no mundo físico que, quando encontrado no mundo imaginativo, assume uma aparência bastante diversa. No primeiro, estamos cientes de um fluxo e refluxo perpétuo, uma alternância entre nascimento e morte. Mas no mundo imaginativo aparece, no lugar desse fenômeno, uma contínua metamorfose de um no outro. No mundo físico vemos, por exemplo, como uma planta murcha, mas no mundo imaginativo emerge, na proporção em que a planta murcha, a forma de outra figura, não fisicamente discernível, na qual a planta que definha se transforma.


Quando a planta tiver desaparecido por completo, essa forma ter-se-á desenvolvido plenamente em seu lugar. Nascimento e morte são concepções que perdem seu valor no mundo imaginativo, dando lugar a uma compreensão da transmutação de um no outro.

Sendo este o caso, aquelas verdades sobre as quais já fizemos certas comunicações em um capítulo anterior deste livro (ver Capítulo II, "A Natureza do Homem") tornam-se acessíveis à concepção imaginativa. A cognição dos sentidos físicos, por outro lado, só é capaz de perceber o que ocorre no corpo físico, processos que se desenrolam dentro do "domínio do nascimento e da morte". Os outros princípios da natureza humana, a saber, o corpo etérico ou vital, o corpo de sentimento e o ego, estão sujeitos à lei da transmutação, e a percepção deles é desbloqueada pelo entendimento imaginativo.

Qualquer um que tenha alcançado até aqui observará que aquilo que vive sob outras condições de ser parece desprender-se, por assim dizer, do corpo físico pelo processo de morrer.

62 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

Mas o desenvolvimento não chega aqui a uma parada dentro do mundo imaginativo. Qualquer um que tentasse permanecer estacionário nele seria, é verdade, capaz de notar as entidades em processo de transmutação, mas seria incapaz de interpretar o significado desses processos de mudança. Ele não estaria em posição de se orientar nesse mundo recentemente alcançado. Pois o mundo imaginativo é um reino de inquietude — não há nada nele senão movimento e mudança, nenhum lugar tranquilo se encontra ali; um lugar de descanso só é alcançado pela pessoa que, tendo transcendido o estágio do conhecimento imaginativo, atingiu aquele grau de desenvolvimento conhecido pela ciência oculta como "entendimento através da inspiração".

Não é necessário para aquele que busca conhecimento do mundo supra-físico desenvolver suas capacidades de tal forma que o entendimento imaginativo tenha sido adquirido em plena medida, antes de avançar para o estágio da "inspiração". Seus exercícios podem, de fato, ser regulados de modo que dois processos ocorram simultaneamente, um levando à imaginação e o outro à inspiração.

O estudante então, no devido tempo, entrará em um mundo superior, no qual não apenas percebe, mas onde também pode se orientar, por assim dizer, e que se torna capaz de interpretar. O progresso é, é verdade, geralmente marcado pelo estudante ter alguns fenômenos do mundo imaginativo apresentados a ele, e então, depois de um pouco de tempo, ele terá a sensação de que agora está começando a saber onde se encontra.


Contudo, o mundo da inspiração é algo bastante novo em comparação com o da mera imaginação. Por meio desta última, aprendemos a conhecer a transformação de um evento em outro, enquanto através da primeira (inspiração) chegamos a reconhecer as qualidades internas das entidades em transformação. A imaginação nos mostra a expressão anímica de tais entidades; a inspiração penetra para dentro, até mesmo em seu núcleo espiritual. Acima de tudo, tornamo-nos conscientes de uma multiplicidade de entidades espirituais e de suas relações umas com as outras. No mundo físico dos sentidos, temos também, é claro, de lidar com uma multiplicidade de entidades diversas; contudo, no mundo da inspiração, essa multiplicidade possui um caráter diferente. Ali, a relação de cada entidade com a outra é de natureza definida, não determinada, como no mundo físico dos sentidos, por impressões exteriores sobre a entidade, mas surgindo de sua natureza interna.

Quando nos tornamos conscientes de uma entidade no mundo da inspiração, nenhuma impressão externa feita sobre qualquer coisa é aparente, tal como poderia ser comparada à influência de um ser físico sobre outro; no entanto, uma relação existe que é puramente o resultado da constituição interna das duas entidades.

Essa relação pode ser comparada àquela na qual os sons ou letras separados de uma palavra permanece para o outro no mundo físico. Se a palavra “homem” vem antes de nós, a impressão produzida é devida a uma união dos sons “h-o-m-e-m”, nenhum impacto, nem qualquer outra influência, procede do “h” para o “o”, mas ambos os sons trabalham juntos, fazendo-o dentro de “um todo” devido à sua constituição interna. Por esta razão, as observações feitas no mundo da inspiração só podem ser comparadas à leitura. As letras neste mundo causam a impressão no observador dos caracteres escritos que ele tem de aprender, e a conexão entre os quais lhe é revelada como que em escrita supersensível. É por isso que a ciência oculta chama o conhecimento derivado da inspiração de “leitura da escrita secreta”. A maneira como as coisas são lidas por essa escrita secreta, e como aquilo que foi assim lido pode ser comunicado, será agora esclarecida por uma referência a capítulos anteriores deste livro. Ali, o ser do homem foi primeiramente descrito como é construído de diferentes princípios. Foi então mostrado como o ser-mundo sobre o qual o homem se desenvolve passa por várias condições, as de Saturno, Sol, Lua e Terra. A percepção por meio da qual somos capazes, por um lado, de discernir os princípios da entidade humana e, por outro lado, os estados sucessivos da Terra e suas transformações anteriores, é revelada ao entendimento imaginativo.


Mas é agora ainda necessário compreender as relações existentes entre o estado de Saturno e o corpo físico do homem, entre o estado do Sol e o corpo etérico, e assim por diante. O que deve ser explicado é que mesmo durante o estado de Saturno o germe do corpo físico do homem veio a existir, e que ele então se desenvolveu até sua forma presente durante os períodos de Sol, Lua e Terra.


Foi necessário mostrar quais mudanças ocorreram na entidade humana devido à separação do Sol da Terra, e também que algo semelhante ocorreu novamente em conexão com a Lua. Tivemos, além disso, de tornar claro o que contribuiu para a produção de tais mudanças com relação à humanidade, como aquelas que ocorreram na era Atlante, como foram expressas nos períodos subsequentes indiano, persa antigo, egípcio e outros. A descrição dessa sequência de eventos não é o resultado da percepção imaginativa, mas do conhecimento inspiracional derivado da leitura da escrita secreta. Para tal leitura, as percepções imaginativas são como as letras, ou sons, embora tal leitura não seja necessária apenas para interpretações como as acima. Seria impossível compreender todo o processo vital do homem por meio do entendimento imaginativo. Poder-se-ia, possivelmente, estar em posição de notar como, no processo de morrer, os princípios psíquicos e espirituais se dissociam do que permanece no mundo físico, mas seria impossível compreender a conexão entre o que acontece ao homem após a morte e os estágios precedentes e seguintes, se não fôssemos capazes de encontrar nosso caminho através dos fatos obtidos pela cognição imaginativa. Sem o conhecimento inspiracional, todo o mundo imaginativo permaneceria mera escrita, na qual poderíamos fitar, mas que seríamos incapazes de ler.


À medida que o estudante progride da imaginação para a inspiração, logo verá como seria errado negligenciar esse conhecimento das grandes condições mundiais e limitar-se meramente àqueles fatos que, até certo ponto, tocam nossos interesses pessoais mais próximos. Na verdade, aqueles que não são iniciados nessas matérias podem ser inclinados a dizer: "A única coisa que me parece importante é que eu deva averiguar o destino da alma humana após a morte. Se alguém puder me dar informações sobre esse assunto, isso será suficiente, mas de que serve a ciência oculta envolver-me em assuntos tão remotos como os estados de Saturno e do Sol, ou a separação da Lua e do Sol, e assim por diante?"

Aqueles, porém, que foram devidamente instruídos nessas coisas reconhecerão que uma verdadeira compreensão do que desejam aprender não poderia ser obtida sem conhecimento prévio sobre essas matérias, que lhes parecem tão desnecessárias. Uma descrição dos estados do homem após A morte permaneceria totalmente incompreensível e sem valor para o homem que não fosse capaz de conectá-la com ideias derivadas daqueles eventos remotíssimos. Mesmo as observações mais elementares feitas por um clarividente exigem seu conhecimento de tais coisas.


Quando, por exemplo, uma planta passa da floração ao estado de frutificação, o clarividente pode notar uma mudança que se processa numa entidade astral que, enquanto a planta está em flor, pairou acima e ao redor dela à semelhança de uma nuvem. Não tivesse ocorrido a frutificação, essa entidade astral ter-se-ia transformado numa forma bem diferente daquela que agora assume em consequência dessa fertilização. Mas podemos compreender todo o processo assim observado clarividentemente se aprendermos a compreender nossa própria natureza a partir daquele grande processo cósmico, no qual a Terra e todos os seus habitantes estiveram envolvidos na época da separação do Sol.

Antes de sua fertilização, a planta encontra-se em condição semelhante à de toda a Terra antes de ocorrer aquela separação do Sol, e após a fertilização a flor se mostra de tal maneira que recorda o estado da Terra quando o Sol já havia se separado e quando os poderes lunares ainda estavam a ela ligados.

Aqueles que assimilaram completamente a ideia a ser obtida pela compreensão dessa separação do Sol poderão agora apreender adequadamente o significado do processo de fertilização da planta, quando se diz que "a planta antes da frutificação está num 'estado de sol', e depois deste, no 'estado de lua'". De fato, pode-se dizer até mesmo do menor acontecimento no mundo que ele só pode ser plenamente compreendido quando nele se reconhece o reflexo dos grandes eventos cósmicos. A menos que seja esse o caso, tal acontecimento deve permanecer tão incompreensível em sua natureza real quanto o seria a Madona Sistina de Rafael, se estivesse tão coberta que apenas uma pequena mancha de azul fosse visível.


Tudo o que acontece ao homem é um reflexo de todos aqueles grandes eventos cósmicos que têm a ver com sua existência. Aqueles que desejam compreender as observações feitas pelo clarividente.

A consciência dos fenômenos que ligam o intervalo entre o nascimento e a morte, e novamente entre a morte e um novo nascimento, poderão fazê-lo se primeiro adquirirem a faculdade de interpretar observações imaginativas por meio das concepções que obtiveram refletindo sobre os grandes eventos cósmicos. Essas visões, de fato, fornecem a chave para a compreensão da vida humana. Portanto, os estudos de Saturno, Sol e Lua são, do ponto de vista da ciência oculta, ao mesmo tempo estudos do homem.

Por meio da inspiração, alcança-se um conhecimento das relações entre os seres do mundo superior, e, num estágio posterior da cognição, torna-se possível obter conhecimento do ser interior dessas entidades. Esse grau, ou passo, do entendimento é conhecido pela ciência oculta como o do conhecimento intuitivo.


A cognição de um ser sensorial implica estar fora dele e julgá-lo segundo a impressão externa. A cognição intuitiva de uma entidade espiritual implica estar em unidade com ela, unindo-se ao ser interior dessa entidade. Passo a passo, o estudante ocultista ascende em direção a tal conhecimento. A imaginação o levou a não mais sentir as impressões que recebe como qualidades externas das entidades, mas sim como eflúvios da alma e do espírito. A inspiração o conduz ainda mais, ao interior dessas entidades, e por ela ele aprende o que esses seres são uns para os outros; por meio da intuição, ele penetra dentro das próprias entidades.

Aqui podemos novamente ilustrar, por meio dos capítulos anteriores, o que significa intuição. Naqueles capítulos anteriores, não apenas foi declarado como progrediram as evoluções de Saturno, Sol e Lua, mas também que seres participaram de maneiras amplamente diversas nesses desenvolvimentos, e foi feita menção aos Tronos, ou

* Intuição é, na vida cotidiana, uma palavra muito abusada, usada para designar uma visão vaga e incerta de um assunto, uma espécie de "noção" que, embora possa possivelmente "atingir" a verdade, não pode, no entanto, dar prova imediata dela. Desnecessário dizer que esse tipo de intuição não é o que aqui se entende. Intuição, neste caso, significa conhecimento da mais alta e mais humana clareza, da qualificação da qual o possuidor está, no sentido mais pleno, consciente.

como Senhores da Vontade, os Senhores da Sabedoria, os Senhores do Movimento, e assim por diante. Em conexão com o desenvolvimento da Terra, fez-se referência aos espíritos luciféricos e aos espíritos de Ahriman. A estrutura do mundo foi remontada àqueles seres que nela participaram. O conhecimento alcançável acerca desses seres é derivado do conhecimento intuitivo, e tal conhecimento torna-se imperativo, se desejamos compreender o curso da vida do homem.


Aquilo que é liberado do corpo físico humano na morte passa através de diversos estados no futuro. As condições mais imediatas após a morte poderiam, até certo ponto, ser descritas referindo-se ao conhecimento imaginativo, mas aquilo que ocorre quando o homem avançou mais profundamente nesse tempo entre a morte e um novo nascimento seria inteiramente incompreensível para a imaginação, se a inspiração não viesse em seu auxílio. Pois somente a inspiração pode revelar o que pode ser manifestado acerca da vida do homem após sua purificação na "terra dos espíritos". Ali, contudo, ocorre algo para o qual a inspiração, por sua vez, mostra-se inadequada, e quanto ao qual ela perdeu, até certo ponto, o fio condutor. Pois há um período no desenvolvimento humano, entre a morte e um novo nascimento, no qual a entidade humana é acessível apenas à intuição.

Contudo, essa parte da entidade humana está sempre dentro do homem, e se quiséssemos compreendê-la em sua verdadeira interioridade, devemos também buscá-la, por meio da intuição, no tempo entre o nascimento e a morte. Qualquer um que tentasse sondar o homem apenas por meio da imaginação e da inspiração estaria perdendo aquilo que acontece ao ser mais íntimo, aquilo que continua de encarnação em encarnação. É, portanto, somente pelo conhecimento intuitivo que uma pesquisa adequada sobre a reencarnação e o Karma se torna possível, e todo conhecimento genuíno acerca desses processos é derivado de pesquisa empreendida por meio da intuição. Se um homem quisesse conhecer seu próprio eu interior, ele só poderia fazê-lo pela intuição; com seu auxílio, ele se torna consciente daquilo que avança dentro dele de encarnação em encarnação, e se coubesse a alguém saber algo sobre suas encarnações anteriores, isso só poderia ocorrer através do conhecimento intuitivo.

O conhecimento por meio da inspiração e da intuição só é alcançável mediante exercícios da alma e do espírito, e eles se assemelham àquelas meditações praticadas para a obtenção da faculdade imaginativa que já foram descritas. Contudo, enquanto nos exercícios para o desenvolvimento da imaginação se estabelece uma conexão com impressões pertencentes ao mundo dos sentidos físicos, tais vínculos devem ser gradualmente deixados de lado no caso da inspiração. Para se obter uma concepção clara do que deve acontecer aqui, seria bom recordar o símbolo da "rosa cruz". Quando meditamos sobre ele, temos diante de nós uma imagem cujas partes componentes foram tiradas do mundo dos sentidos: há a cor preta da cruz e as rosas, e, no entanto, a combinação dessas várias partes na "rosa cruz" não é derivada do mundo dos sentidos. Se o estudante agora se esforça para banir de sua consciência tanto a cruz preta quanto as rosas vermelhas, em suas capacidades de realidades sensoriais, retendo apenas em sua alma aquela energia espiritual que esteve ativa ao reunir as coisas acima, ele estará de posse de um meio para tal meditação que o conduzirá gradualmente à inspiração. Ele deve colocar a si mesmo a pergunta, de certo modo, da seguinte maneira: "O que fiz interiormente para formar aquele símbolo da cruz e das rosas? Bem, o que fiz, sendo um ato de minha própria alma, disso me apegarei; mas a imagem em si deixarei desaparecer de minha consciência. Poderei então sentir dentro de mim tudo o que minha alma fez para produzir a imagem, embora não me recorde mais da imagem em si. Agora viverei inteiramente no interior. Viverei na minha própria atividade que criou a imagem. Não meditarei sobre uma imagem, mas sobre os poderes de minha própria alma, que são capazes de criar imagens."

Tais são as meditações que devem agora ser empreendidas com respeito a muitos símbolos.

Isto é a percepção dos mundos superiores.


conduz o conhecimento através da inspiração. Aqui está outro exemplo, o de meditar sobre o crescimento e o subsequente murchamento de uma planta. A imagem de uma planta que cresce gradualmente é permitida a aparecer diante da alma, como ela cresce a partir da semente e, desdobrando folha após folha, atinge o estágio de floração e, depois, o de dar frutos. Então, que sua meditação seja sobre seu declínio, até seu completo murchamento, sua dissolução. Com a ajuda de meditações sobre tal símbolo como este, o estudante gradualmente alcança um sentimento concernente ao crescimento e à decadência, dos quais a planta é apenas um símbolo. Se os exercícios forem perseverados continuamente, pode-se evoluir desse sentimento a imagem da transformação que subjaz ao crescimento e à decadência físicos.

Mas se alguém quisesse atingir o estágio correspondente na inspiração, este exercício tem de ser praticado de forma diferente. A própria atividade da alma deve ser lembrada — aquilo que se obteve da imagem da planta como concepção de crescimento e decadência. A planta deve agora ser permitida a desaparecer completamente da consciência, e a atenção deve ser concentrada inteiramente sobre a própria atividade interior do estudante. É somente tais exercícios como estes que nos ajudam a ascender à inspiração.

Mas, no início, o estudante não achará fácil compreender plenamente como iniciar tal exercício, devido ao fato de que as pessoas estão acostumadas a permitir que sua vida interior seja determinada por impressões externas; daí uma tendência à incerteza — uma oscilação geral — quando se trata de desdobrar uma vida da alma que se libertou de todas as impressões exteriores. Aqui, o estudante deve compreender claramente que só deve empreender esses exercícios se, juntamente com eles, cultivar tudo o que possa levar à firmeza e à certeza em seu julgamento, sua vida emocional e seu caráter; essas precauções são ainda mais necessárias do que ao buscar adquirir a faculdade da imaginação. Caso ele as tome, será duplamente bem-sucedido, pois, em primeiro lugar, não perderá o equilíbrio de sua personalidade através dos exercícios e, em segundo lugar, adquirirá a capacidade de ser capaz


para realizar o que é exigido nesses exercícios. Eles serão considerados difíceis apenas enquanto o estudante estiver em falta quanto à atitude particular da alma e aos sentimentos e emoções precisos necessários para sua completa execução; enquanto aquele que, com paciência e perseverança, cultiva dentro de sua alma tais qualidades favoráveis ao crescimento do conhecimento supersensível não tardará em adquirir tanto o entendimento quanto a faculdade para essas práticas. Qualquer um que possa adquirir o hábito de entrar frequentemente no silêncio de sua própria alma e que, em vez de se preocupar consigo mesmo, utilize esse tempo para transformar e ordenar as experiências que teve na vida, ganhará muito.

A PERCEPÇÃO DOS MUNDOS SUPERIORES 37

Pois ele perceberá que pensamentos e sentimentos se enriquecem ao conectar as experiências da vida umas com as outras. Ele se tornará ciente de que obtém tesouros de novo conhecimento não apenas através de novas impressões e novas experiências, mas também ao deixar que as antigas sejam digeridas dentro de si.

Aquele que é capaz de se pôr a trabalhar e a ponderar o valor de suas experiências — até mesmo as opiniões que possa ter formado — fazendo-o de tal maneira que se exclua a si mesmo, juntamente com suas simpatias e antipatias, seus interesses pessoais e seus sentimentos, estará de fato fazendo muito para preparar o terreno para o conhecimento do tipo supersensível, e estará, em verdade, cultivando o que pode ser chamado de uma rica vida interior. Mas o que é de importância primordial é o equilíbrio e a ponderação das qualidades da alma. As pessoas são demasiadamente propensas, ao se entregarem a certas atividades da alma, a se tornarem unilaterais. Assim, quando uma pessoa chega a conhecer as vantagens da contemplação e de se demorar sobre imagens derivadas de seu próprio mundo de pensamentos, ela tende a desenvolver uma inclinação para se retirar das impressões do mundo exterior. No entanto, tal passo apenas leva a um ressecamento e definhamento da vida interior; e irá mais longe aquele que conseguir manter uma receptividade sem entraves para todas as impressões do mundo exterior, enquanto ainda possuir o poder de se retirar para dentro de seu próprio eu interior. Não é de modo

176 um esboço da ciência oculta

meios necessários para pensar os chamados eventos importantes da vida apenas a cada um, em cada esfera da vida, sejam suas quatro paredes por mais humildes que sejam, possuirá experiência suficiente, desde que sua mente seja verdadeiramente receptiva. As experiências não precisam ser buscadas — elas abundam por toda parte. Aqui é de particular importância considerar como a experiência pode ser utilizada pela alma humana. Por exemplo, alguém pode fazer a descoberta de que uma pessoa que ele ou outro grandemente venera possui alguma qualidade que não pode deixar de ser considerada como uma falha em seu caráter. Uma experiência desse tipo pode levar a pessoa a quem ela ocorre a pensamentos que tenderão em uma de duas direções diferentes. Ela pode simplesmente sentir que nunca mais poderá olhar para a pessoa em questão com o mesmo grau de veneração, ou, por outro lado, pode dizer a si mesma: "Como foi possível que essa pessoa reverenciada se tornasse sobrecarregada com tal falha? Como posso apresentar essa questão à minha mente de modo a ver nessa falha não uma mera falta, mas antes algo que é o resultado de sua vida, possivelmente até causado por suas grandes qualidades?" Quem puder colocar a questão assim diante de sua própria mente pode, talvez, chegar à conclusão de que sua veneração por seu amigo não precisa sofrer a menor diminuição, devido à falha que veio à luz.

Experiências dessa natureza, cada vez que são encontradas, acrescentarão algo à nossa compreensão da vida. No entanto, certamente seria uma coisa ruim para qualquer um permitir-se, em razão do valor dessa visão da vida, desculpar tudo naqueles de quem ele por acaso gosta, ou cair no hábito de ignorar toda ação censurável, a fim de buscar nela algum benefício para seu próprio desenvolvimento interior. Pois este último não ocorre se o ímpeto, não apenas de culpar falhas, mas de compreendê-las, vem de nós mesmos. A vantagem do tipo exemplificado só pode advir quando nossa atitude foi produzida pelo caso em si, e é irrelevante se a pessoa que emite o julgamento sobre isso tem algo a ganhar ou a perder. É incontestavelmente verdade que não podemos aprender condenando uma falha, mas apenas compreendendo-a, mas, ao mesmo tempo, se, devido à compreensão dela, excluirmos toda desaprovação dela, não podemos ir muito longe, tampouco.


Novamente, o assunto não depende tanto da unilateralidade, seja numa direção ou noutra, mas sim da proporção e do equilíbrio de todas as qualidades na alma, e isto é especialmente o caso com uma dessas qualidades que é de importância primordial para o desenvolvimento do homem: este é o sentimento de devoção. Aqueles que podem cultivar esse sentimento, ou sobre quem a natureza mesma conferiu dom tão inestimável, têm uma boa base para os poderes do conhecimento supersensível. Aqueles que, na infância e na juventude, puderam olhar para certas pessoas com sentimentos de admiração devotada, vendo nelas algum alto ideal, já possuirão nas profundezas de suas almas o solo no qual o conhecimento supersensível pode florescer abundantemente. E aqueles que, possuindo o julgamento mais maduro da vida posterior, podem dirigir seu olhar para os céus estrelados e entregar-se sem reservas às revelações dos Poderes Superiores, estão de igual modo amadurecendo seus sentidos para a aquisição de conhecimento com respeito aos mundos supersensíveis. Assim também é com aqueles que podem admirar os poderes que regem a própria vida humana. Não é de pequena importância para um homem que atingiu a maturidade poder sentir-se preenchido de reverência, mesmo da mais exaltada espécie, por outros nos quais ele acredita existirem, ou pensa reconhecer, qualidades superlativas. Pois é somente onde veneração como esta está presente que uma vista dos mundos superiores pode ser revelada. Aqueles que não possuem senso de reverência nunca irão muito longe em sua obtenção de cognição, pois daqueles que se recusam a apreciar qualquer coisa neste mundo, a essência de todas as coisas certamente será retida. No entanto, qualquer um que permita que seus sentimentos de reverência e devoção sufoquem sua saudável autoconsciência e autoconfiança é culpado de pecar contra as leis do equilíbrio e da ponderação. Assim, o estudante oculto deve ver que ele trabalha perpetuamente para amadurecer sua própria natureza; então, de fato, ele pode adquirir levemente confiança em seu


própria personalidade, e acreditar que seus poderes estão aumentando cada vez mais. Qualquer um que chegue à conclusão correta a esse respeito pode então dizer a si mesmo: “Há dentro de mim poderes ocultos, e sou capaz de evocá-los de dentro. Se, portanto, vejo algo que me enche de reverência porque está acima de mim, não preciso mais meramente venerá-lo, mas posso confiantemente supor que, se eu desenvolver tudo o que há em mim, poderei elevar-me ao nível do objeto da minha veneração.”

Quanto mais capaz um homem é de fixar sua atenção naqueles eventos da vida que não exigem primariamente qualquer medida de crítica pessoal, maior será a possibilidade de prover a si mesmo de uma base para o crescimento em mundos superiores. O exemplo seguinte tornará isso evidente. Suponhamos que alguém seja colocado em uma posição em que depende dele fazer ou deixar de fazer certa coisa. Seu julgamento lhe ordena: “Faça isto”, enquanto pode haver, ao mesmo tempo, algo indefinível em seus sentimentos que o dissuade do ato. Pode acontecer que a pessoa em questão não dê atenção a esse algo inexplicável, realizando a ação de acordo com seu julgamento. Mas pode também acontecer que a pessoa assim colocada dê ouvidos a essa persuasão interior e não realize a ação. Agora, prosseguindo com o assunto, ela pode descobrir que um mal teria resultado de seguir os ditames de sua razão, e que uma bênção aguardava sua omissão do ato. Qualquer experiência dessa natureza pode conduzir os pensamentos de um homem a um canal bastante definido, quando ele colocará a questão para si mesmo assim: “Há algo dentro de mim que é um guia mais seguro do que aquela medida de julgamento da qual atualmente sou possuidor. Devo, portanto, manter uma mente aberta com respeito a esse algo interior, à altura do qual minha própria capacidade de julgamento ainda não atingiu.”

A alma obtém grande benefício de a atenção ser dirigida a ocorrências da vida como estas, pois elas demonstram que as premonições saudáveis do homem trazem em si algo de maior importância do que ele, com seu presente grau de discernimento, é capaz de perceber. A atenção nessa direção tem o efeito de ampliar a vida da alma. Contudo, aqui também podem surgir certas peculiaridades que são em si mesmas perigosas. Qualquer um que se habitue a um contínuo exame de seu julgamento, devido a esta ou àquela “premonição”, poderia bem tornar-se um fuso de tear, lançado à mercê de todo tipo de impulso indefinido; na verdade, não é raro que tal indecisão habitual conduza a um estado de absoluta superstição.

Toda superstição é desastrosa para o estudante da ciência oculta. A possibilidade de obter admissão por meios legítimos aos reinos do ser espiritual deve depender de uma cuidadosa exclusão de toda fantasia supersticiosa e devaneio. Aquele que se compraz em ter tido uma certa experiência que não pode ser apreendida pela razão humana não se aproximará do mundo espiritual da maneira correta. Nenhuma parcialidade pelo “inexplicável” fará jamais um estudante ocultista. Isso é certo, e as pessoas devem inteiramente despojar-se da ideia de que um místico é alguém que pressupõe o inexplicável e o insondável sempre que, e onde quer que, neste mundo, julgue conveniente. O sentimento correto que deveria inspirar o estudante da ciência oculta é o reconhecimento, em toda parte, de forças ocultas e seres ocultos, e também o sentimento de que as forças até agora insondadas são capazes de ser compreendidas sempre que os poderes corretos se tornem disponíveis. Há uma disposição peculiar de mente que, a cada passo de seu desenvolvimento, é de grande importância para o estudante ocultista. Esta consiste em não assumir, em sua busca pela verdade, uma atitude tal que o torne particularmente ansioso quanto ao modo pelo qual esta ou aquela questão pode ser respondida. Ele deveria antes concentrar suas energias em tentar como melhor pode desenvolver esta ou aquela faculdade dentro de si, e quando, por meio de tal paciente trabalho interior, várias faculdades tiverem sido alcançadas, ele descobrirá que a resposta a certas questões virá por si mesma.


Esta é a atitude de alma que o estudante ocultista deve sempre cultivar, pois por seu auxílio ele é levou-o a trabalhar sobre si mesmo, a conduzir a sua natureza a maior maturidade, e a ser capaz de resistir ao impulso de forçar uma resposta a certas questões. Ele aguardará, até que na plenitude do tempo as respostas lhe cheguem. Contudo, aqui mais uma vez, aqueles que tendem a tornar-se unilaterais pouco podem alcançar, e o estudante ocultista pode estar certo de que, dentro de um certo tempo, estará em condições de resolver até mesmo os maiores problemas, de acordo com a medida das suas forças; também aqui o equilíbrio e a equanimidade da alma desempenham um papel significativo.


Muitas outras qualidades da alma poderiam ser discutidas, cujo cultivo e desenvolvimento são desejáveis, caso o estudante deseje prosseguir os exercícios necessários à inspiração; mas em tudo deve ser enfatizado que a harmonia e o equilíbrio são os pontos principais; ambos preparam o entendimento e a capacidade para os exercícios aqui descritos — exercícios para a obtenção da inspiração.

Os exercícios para a obtenção da intuição exigem que o estudante não apenas banir da sua consciência as imagens pelas quais alcançou os poderes da imaginação, mas também a vida naquela atividade da sua própria alma na qual ele mergulhou para a obtenção da inspiração. Ele deve — e isto deve ser tomado literalmente — reter na sua alma nada do que até então conheceu, seja por experiência interna ou externa. Mas se, após este lançar fora tanto das experiências internas quanto das externas, nada permanecer na sua consciência, — Isto é, se sua consciência desaparecesse inteiramente e ele fosse mergulhado na inconsciência — ele então poderia reconhecer sua inaptidão para empreender ainda os exercícios que conduzem à intuição, e deveria portanto continuar aqueles requisitos para a imaginação e a inspiração. Há de chegar um tempo em que sua consciência não será mais um vazio após rejeitar aquelas experiências interiores e exteriores — quando, ao contrário, tal rejeição ainda deixará um certo resíduo ao qual o estudante poderá então se dedicar em meditação interior, assim como em ocasiões anteriores ele se entregou ao que deve sua existência às impressões interiores e exteriores. Esse algo é, no entanto, de natureza muito especial, pois em comparação com todas as experiências anteriores, verificar-se-á que é algo absolutamente novo. Quando ocorre, reconhecemo-lo como algo que jamais conhecemos antes. É uma percepção, tal como um som real que fere o ouvido, mas que só pode entrar em nossa consciência por meio de nossa intuição, assim como o som só pode alcançar o âmbito de nossa consciência por meio do ouvido. E assim, com a intuição, os últimos resquícios do físico e do sensorial são despojados das impressões do homem, enquanto o mundo espiritual começa a se expandir diante do entendimento sob uma forma que nada tem em comum com as características do mundo dos sentidos físicos.



Cognição imaginativa é alcançada pelo desenvolvimento das flores de lótus a partir do corpo astral. Devido aos exercícios empreendidos para a obtenção de inspiração e intuição, movimentos, formações e tendências particulares, que antes estavam ausentes, agora aparecem no corpo etérico ou vital humano. Esses são os órgãos por meio dos quais o homem aprende a ler a escrita secreta e toma para a esfera de suas faculdades o que está além dessa escrita. Para tal clarividente, as mudanças que ocorrem no corpo etérico de uma pessoa que atinge a inspiração e a intuição são exibidas da seguinte maneira. Perto do coração físico está situado um novo centro que se desenvolve em um órgão etérico. Desse órgão, movimentos e correntes fluem em direção às diferentes partes do corpo humano, fazendo-o da maneira mais variada. Os mais importantes desses movimentos aproximam-se das flores de lótus, atravessando-as bem como suas pétalas separadas, e daí direcionando seu curso para fora, onde irradiam sua luz para o espaço exterior. Quanto mais desenvolvida uma pessoa é, maior será a circunferência ao seu redor na qual esses raios serão perceptíveis. Esse centro perto do coração não é, no entanto, o que, sob treinamento correto, primeiro tende a evoluir.

Ele tem primeiro que ser preparado, até que seja formado primeiramente um centro provisório na cabeça, que depois se move para baixo, para a região da laringe, de onde é finalmente transferido para a vizinhança do coração. Sob um curso irregular de desenvolvimento, seria possível que o órgão em questão se desenvolvesse perto do coração em primeiro lugar, caso em que haveria o perigo de que o estudante assim treinado, em vez de chegar a tempo a uma clarividência adequada e tranquila por meios regulares, se tornasse um sonhador visionário.

O desenvolvimento subsequente capacita o estudante ocultista a tornar essas correntes e partes organizadas de seu corpo etérico independentes de seu corpo físico; ele então se torna capaz de usá-las separadamente, e as flores de lótus passam a servir-lhe como instrumentos para pôr em movimento seu corpo etérico. Contudo, antes que isso possa ocorrer, certas correntes e radiações devem entrar em ação ao redor de todo o seu corpo etérico, envolvendo-o, por assim dizer, com uma fina rede, e assim revestindo-o como se fosse uma entidade separada. Quando isso ocorre, os movimentos e correntes dentro do corpo etérico são capazes de se colocar em contato com o mundo da alma e do espírito exterior a eles, unindo-se a esse mundo de tal maneira que os acontecimentos da alma e do espírito, que se desenrolam externamente, combinam-se e misturam-se com o mundo interior, com o do corpo etérico.

Quando isso acontece, chegou o momento em que o homem pode observar conscientemente o mundo da inspiração. Esse conhecimento ocorre de maneira um tanto diferente do conhecimento do mundo físico-sensorial. Neste último, tomamos consciência do mundo por meio de nossos sentidos e, a partir dessas percepções, formamos nossas ideias, opiniões e concepções. Mas no caso do conhecimento por inspiração não é assim.

O que é assim reconhecido está imediatamente presente à mente; não há pensamento posterior à percepção. O que, no caso da cognição físico-sensorial, só é obtido por meio de uma ideia e subsequentemente traduzido em termos, é, no caso da inspiração, simultâneo à percepção. Portanto, correr-se-ia o risco de tornar-se fundido com o mundo circundante da alma e do espírito, e de ser incapaz de diferenciar-se dele, se a fina rede acima aludida não tivesse sido previamente formada no corpo etérico.

Quando se praticam exercícios para a obtenção da intuição, eles não afetam apenas o corpo etérico, mas estendem sua influência às forças suprassensíveis do corpo físico. Mas não se deve, naturalmente, imaginar que sejam produzidos no corpo físico efeitos discerníveis pela observação sensorial comum, pois os efeitos são tais que somente o clarividente é capaz de avaliar, e nada têm a ver com quaisquer poderes externos de percepção.

Eles surgem como resultado de uma consciência amadurecida, quando esta é capaz de ter experiências intuitivas, mesmo que ...despojou-se de todas as experiências anteriores, internas e externas. As experiências da intuição são, contudo, sutis e delicadas, e de natureza tão íntima que o corpo físico humano, em seu atual estágio de desenvolvimento, é grosseiro em comparação com elas, e por isso se revela um obstáculo determinado para o êxito de quaisquer exercícios destinados a alcançar a intuição. No entanto, se estes forem prosseguidos com energia e perseverança, e com a necessária calma interior, acabarão por superar esses poderosos obstáculos do corpo físico. O estudante ocultista perceberá isso quando notar como, gradualmente, determinadas ações de seu corpo físico que até então ocorriam sem sua própria volição passam agora ao seu controle. Ele também perceberá que, por um curto período, sentirá a necessidade, por exemplo, de regular sua respiração (ou algum ato semelhante) de modo a colocá-la em uma espécie de acordo harmonioso com o que quer que esteja se desenrolando dentro de sua alma, sejam exercícios ou outras formas de concentração interior.


O desenvolvimento ideal seria que nenhum exercício fosse realizado por meio do corpo físico, mas sim que tudo o que precisa ocorrer dentro dele resultasse apenas como consequência de exercícios para a intuição. Como, porém, o corpo físico oferece impedimentos tão poderosos, o treinamento pode permitir alguns alívios.

Estes consistem em exercícios que afetam o corpo físico; contudo, tudo o que nesse domínio não tenha sido diretamente transmitido pelo mestre, ou por aqueles que têm conhecimento e experiência dessas coisas, está repleto de perigo. Tais exercícios, por exemplo, incluem um certo processo regulado de respiração a ser realizado por um espaço de tempo muito curto. Essas regulações da respiração correspondem, de maneira bastante definida, a leis particulares do mundo da alma e do espírito. A respiração é um processo físico, e quando esse ato é realizado de modo a ser a expressão de uma lei da alma e do espírito, a existência física recebe o cunho direto, por assim dizer, da espiritualidade, e o sensório-material é transformado.


Por essa razão, a ciência oculta é capaz de chamar a mudança devida a tal influência espiritual de uma transmutação direta do físico, e esse processo representa o que é chamado de "trabalhar com a pedra filosofal" por aqueles que têm conhecimento dessas matérias.

E aqui é importante que todas as superstições, o embuste e o charlatanismo que, no decorrer do tempo, se acumularam em torno dessa fórmula sejam postos de lado; o significado do processo será tanto mais significativo para aquele que o compreende, precisamente porque, como estudante do oculto, toda superstição está bem distante dele.

Quando adquirimos uma ideia clara sobre um assunto de importância, é presumivelmente permitido chamar essa ideia pelo seu nome correto, ainda que erro e absurdo se tenham associado a esse nome por meio de mal-entendidos e coisas muito piores.


Toda intuição verdadeira é um “trabalhar com a pedra filosofal”, pois cada um desses atos apela diretamente a poderes que são derivados do mundo suprassensível e são trazidos para atuar sobre o mundo dos sentidos.

À medida que o estudante do oculto sobe o caminho que conduz ao conhecimento dos mundos superiores, ele se torna consciente, em um ponto particular, de que a coesão dos poderes de sua própria personalidade está assumindo uma forma diferente daquela que possui no mundo dos sentidos físicos. Neste último, o ego efetua uma cooperação uniforme dos poderes da alma — principalmente do pensamento, do sentimento e da vontade. Esses três poderes da alma estão, na verdade, sob condições normais da vida humana, em perpétua relação uns com os outros. Por exemplo, vemos um objeto particular no mundo externo, e ele agrada ou desagrada à alma, isto é, a representação da coisa será seguida por um sentimento de prazer ou aversão. Possivelmente podemos desejar o objeto, ou ter o impulso de alterá-lo de alguma forma, isto é, o desejo e a vontade se associam tanto à representação quanto ao sentimento. Ora, essa associação se deve ao fato de que o ego coordena a representação (pensamento), o sentimento e o querer, e dessa maneira introduz ordem entre os

poderes da personalidade. Esse arranjo saudável seria interrompido caso o ego se mostrasse impotente nesse aspecto, se, por exemplo, os desejos seguissem um caminho diferente dos sentimentos ou das pressentimentos. Nenhum homem estaria em um estado mental saudável que, embora pensasse ser isto ou aquilo correto, desejasse, no entanto, fazer algo que não considerasse certo. O mesmo se aplicaria caso uma pessoa desejasse não a coisa que lhe agradava, mas aquela que lhe desagradava. Ora, a pessoa que progride em direção à cognição superior torna-se consciente de que o sentimento, o pensamento e a vontade realmente assumem uma certa independência, que, por exemplo, um pensamento particular não mais a impele, como que por si só, a uma certa condição de sentimento e vontade. A questão se resolve assim: podemos perceber algo corretamente por meio do pensamento, mas, para chegar a um sentimento ou resolução sobre o assunto, podemos necessitar de um impulso adicional independente, vindo de dentro. Pensamento, sentimento e vontade não permanecem mais três poderes, irradiando do ego como seu centro comum, mas tornam-se, por assim dizer, entidades independentes, como se fossem três personalidades separadas. Por essa razão, portanto, o próprio ego de uma pessoa deve ser fortalecido, pois não apenas deve introduzir ordem entre três poderes, mas a liderança e a orientação de três entidades recaíram sobre ele. E isso é o que é conhecido na ciência oculta como

A PERCEPÇÃO DE MUNDOS SUPERIORES

A clivagem da personalidade. Aqui se revela mais uma vez claramente quão importante é acrescentar aos exercícios do treinamento superior outros que deem certeza e firmeza ao julgamento, e à vida do sentimento e da vontade. Pois se a certeza e a firmeza não forem trazidas para o mundo superior, ver-se-á imediatamente quão fraco o ego se mostra, e como ele não pode ser um governante adequado sobre os poderes do pensamento, do sentimento e da vontade. Diante dessa fraqueza, a alma seria arrastada por três personalidades diferentes em outras tantas direções, e sua privacidade interior cessaria. Mas se o desenvolvimento do estudante de ocultismo prosseguir pelas linhas corretas, essa multiplicação de si mesmo, por assim dizer, provará ser um passo real adiante, e ele continuará, não obstante, como um novo ego, a ser o forte governante sobre as entidades independentes que agora constituem sua alma. No curso subsequente do desenvolvimento, essa divisão ou clivagem é levada adiante; o pensamento, agora funcionando independentemente, desperta as atividades de uma quarta entidade distinta da alma e do espírito, uma que pode ser descrita como um influxo direto no indivíduo de correntes que guardam semelhança com pensamentos. O mundo inteiro então aparece como uma estrutura de pensamento, confrontando o homem assim como os mundos vegetal e animal o fazem no domínio dos sentidos físicos. Da mesma maneira, o sentimento e a vontade, que se tornaram independentes, estimulam dois poderes dentro da alma a trabalhar nela como entidades separadas. E, ainda assim, um sétimo poder e entidade deve ser acrescentado, que se assemelha ao próprio ego. Assim, o homem, ao alcançar um estágio particular de desenvolvimento, encontra-se composto de sete entidades, todas as quais ele tem de guiar e controlar.


Toda essa experiência torna-se associada a uma outra. Antes de entrar no mundo supersensível, o pensamento, o sentimento e a vontade eram conhecidos pelo homem meramente como experiências interiores da alma. Mas, tão logo ele se encontra dentro desse mundo supersensível, torna-se ciente de coisas que nada expressam da natureza do mundo físico, mas que pertencem à alma e ao espírito. Por trás das características do novo mundo do qual ele se tornou ciente, ele agora percebe entidades espirituais. Estas se apresentam a ele como um mundo externo, assim como as coisas no domínio dos sentidos físicos — pedras, plantas e animais — costumavam se apresentar aos seus sentidos. Agora, o estudante de ocultismo é capaz de observar uma diferença importante entre o mundo espiritual que se desdobra diante dele e o mundo que ele até então estava acostumado a reconhecer por meio de seus sentidos físicos. Uma planta do mundo dos sentidos permanece o que é, independentemente do que a alma do homem pense ou sinta a respeito dela. Este não é o caso, de início, com relação às imagens do mundo da alma e do espírito, pois estas mudam de acordo com os próprios pensamentos e sentimentos do homem. O homem imprime nelas uma impressão que é o resultado do seu próprio ser.

Imaginemos uma determinada imagem apresentando-se ao homem no mundo imaginativo. Enquanto ele mantém indiferença em relação a ela, ela continuará a mostrar uma forma particular. Tão logo, porém, ele seja movido por sentimentos de agrado ou desagrado com relação a ela, sua forma mudará. As imagens, portanto, a princípio apresentam não apenas algo independente e exterior ao próprio homem, mas também refletem aquilo que o homem é. Essas imagens são permeadas de ponta a ponta pelo próprio ser do homem.

Isso cai como um véu sobre os outros seres. Nesse caso, o homem, mesmo confrontado por um ser real, não o vê, mas vê o que ele mesmo criou. Assim, ele pode ter algo verdadeiro diante de si e, no entanto, ver o que é falso. De fato, isso não é apenas o caso com respeito ao que o homem observou sobre sua própria entidade, mas tudo o que está nele imprime-se sobre o mundo espiritual.

Se, por exemplo, uma pessoa tem inclinações secretas que, devido à educação e ao caráter, são impedidas de se revelar na vida, essas inclinações, no entanto, terão efeito no mundo da alma e do espírito, que é assim colorido de maneira peculiar, devido à entidade dessa pessoa, independentemente de quanto ela possa ou não saber de seu próprio ser. E, para poder avançar mais a partir desse estágio de desenvolvimento torna-se necessário que o homem aprenda a distinguir entre si mesmo e o mundo espiritual exterior a ele. É necessário que ele aprenda a eliminar todos os efeitos produzidos por sua própria natureza sobre o mundo circundante de alma e espírito. Isso só pode ser feito adquirindo-se um conhecimento do que nós mesmos levamos conosco para este novo mundo. Portanto, é principalmente uma questão de autoconhecimento, para que possamos nos tornar capazes de perceber claramente o mundo circundante de alma e espírito. Ora, acontece que certos fatos do desenvolvimento humano devem levar, como consequência natural, a tal autoconhecimento, quando o estudante entra nos mundos superiores. No mundo comum dos sentidos físicos, o homem costuma desenvolver seu ego, sua autoconsciência, e esse ego então atua como um ponto de atração para tudo o que pertence ao homem. Todas as propensões pessoais, simpatias, antipatias, paixões, opiniões e assim por diante, possuídas por uma pessoa, agrupam-se, por assim dizer, em torno de seu ego, e de maneira semelhante o ego se torna o ponto de atração para o que é chamado de Karma da pessoa. Se víssemos esse ego desvelado, também seria possível notar os destinos que ainda o aguardam durante esta e futuras encarnações, conforme ele possa ter vivido de uma maneira ou de outra durante encarnações anteriores e tenha adquirido esta ou aquela qualidade. Sobrecarregado como está por tudo isso, o ego deve ser a primeira imagem que se apresenta à alma humana, ao ascender para o mundo da alma e do espírito. Este duplo do homem está, de acordo com uma lei do mundo espiritual, ligado a ser sua primeira impressão nesse mundo. É fácil, se considerarmos a seguinte afirmação, explicar a nós mesmos essa lei fundamental. Na vida dos sentidos físicos, o homem se conhece apenas na medida em que está interiormente consciente de si mesmo em seu pensar, sentir e querer. Esse conhecimento é interior; não se apresenta a ele externamente, como pedras, plantas e animais; e, novamente, mesmo no caso de experiências interiores, o homem aprende a se conhecer apenas parcialmente, pois tem dentro de si algo que impede qualquer sondagem mais profunda no autoconhecimento.



Esse algo é um impulso de, ao mesmo tempo, começar a alterar qualquer qualidade que ele possa ter descoberto dentro de si, por meio do autoconhecimento, e sobre a qual não se permite ilusões. Se ele não ceder a esse impulso, mas simplesmente desviar sua atenção de seu próprio eu — permanecendo como está —, ele, naturalmente, priva-se até mesmo da possibilidade de se conhecer em relação a esse assunto particular. Contudo, se ele "explorar" a si mesmo, encarando esta ou aquela qualidade sua sem autoengano, ele estará ou em condições de melhorá-las em si mesmo, ou, em sua presente condição de vida, será incapaz de fazê-lo. Neste último caso, um sentimento se insinuará em sua alma, que devemos designar

96 UM ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

como um sentimento de vergonha. Assim, em verdade, age a natureza saudável do homem, e o autoconhecimento engendra nela múltiplas espécies de vergonha. Mesmo na vida comum, esse sentimento tem um certo efeito definido. Uma pessoa mentalmente saudável que se impregna desse sentimento em consequência de alguma qualidade dentro de si cuidará para que essa qualidade não se expresse em atos externos e se faça sentir por seus efeitos. Assim, o senso de vergonha é uma força que urge o homem a ocultar algo dentro de si e não permitir que se torne exteriormente aparente.

Se ponderarmos isso suficientemente, descobriremos que é possível compreender por que a ciência oculta deveria atribuir efeitos de alcance muito maior a uma outra experiência interior da alma, muito intimamente aliada a esse sentimento de "estar envergonhado". À ciência oculta revela-se, dentro da alma, uma espécie de sentimento secreto de vergonha, do qual o homem, em sua vida dos sentidos físicos, não tem consciência. No entanto, esse sentimento secreto age de maneira muito semelhante ao sentimento consciente de vergonha da vida comum, ao qual aludimos; ele impede que a entidade mais íntima do homem possa confrontá-lo em uma imagem reconhecível, ou duplo. Se esse sentimento não estivesse presente, o homem se veria como ele é na verdade; não apenas experimentaria interiormente seus pensamentos, ideias, sentimentos e decisões, mas os perceberia como agora percebe pedras, animais e plantas. Esse sentimento, portanto, é o que obscurece o homem de si mesmo e, ao mesmo tempo, esconde dele todo o mundo espiritual. Pois, devido a essa obscuração do eu interior do homem, ele se torna incapaz de perceber aquelas coisas por meio das quais deve desenvolver órgãos para penetrar no mundo da alma e do espírito, e se torna incapaz de transformar seu próprio ser de modo a torná-lo capaz de obter esses órgãos espirituais de percepção.

Se ele, no entanto, seguindo o curso correto de treinamento, trabalhar de tal maneira a se tornar possuidor desses órgãos de cognição, então a primeira impressão que se apresentará a ele será a de si mesmo como ele é; ele se torna consciente de seu próprio duplo. Esse reconhecimento de si mesmo é inseparável da percepção do restante do mundo da alma e do espírito. Na vida cotidiana do mundo dos sentidos físicos, o sentimento de vergonha aqui descrito age de tal maneira que está perpetuamente fechando a porta, por assim dizer, para a entrada do homem no mundo da alma e do espírito. Se o homem der apenas um passo, a fim de penetrar nesse mundo, imediatamente esse sentimento de vergonha, diretamente presente, mas não realmente consciente, esconde aquela porção do mundo espiritual que estava pronta para ser revelada. Os exercícios aqui descritos, no entanto, abrem esse mundo, e acontece que o mencionado sentimento oculto age como um grande benfeitor para o homem, pois tudo o que podemos ter ganho, à parte do treinamento oculto, em matéria de julgamento,

sentimento e caráter é insuficiente para nos sustentar quando confrontados por nossa própria entidade em sua forma verdadeira; sua aparição nos roubaria todo sentimento de eu, autoconfiança e autoconsciência. E para que isso não aconteça, deve-se providenciar o cultivo de juízo sólido, bom sentimento e caráter, ao mesmo tempo em que são dados exercícios para a obtenção do conhecimento superior. Um método correto de ensino transmite ao estudante tanto da ciência oculta quanto, em combinação com os muitos meios providos para o autoconhecimento e a auto-observação, o capacite a encontrar seu duplo com força assegurada. Então parecerá ao estudante que ele vê, em outra forma, uma imagem do mundo imaginativo com o qual já se familiarizou no mundo físico. Qualquer um que primeiro aprendeu no mundo físico, por meio de seu entendimento, a apreender corretamente a lei do Carma, não é provável que fique muito perturbado quando vê seu destino marcado na imagem de seu duplo.

Qualquer um que, por meio de suas próprias faculdades de julgamento, se familiarizou com a evolução do universo e o desenvolvimento da raça humana, e que está ciente de que, numa época particular desse desenvolvimento, os poderes de Lúcifer penetraram na alma humana, terá pouca dificuldade em suportar a visão da imagem de sua própria individualidade, quando sabe que ela inclui esses poderes luciféricos e todos os seus efeitos acumulados.


Isso será, portanto, suficiente para mostrar quão necessário é que ninguém demande admissão no mundo espiritual antes de ter aprendido a compreender certas verdades a respeito dele, aprendendo-as por meio de seu próprio julgamento, tal como desenvolvido neste mundo dos sentidos físicos. Tudo o que foi transmitido neste volume antes da explicação sobre a "cognição dos mundos superiores" deveria ter sido assimilado pelo estudante no curso de seu desenvolvimento regular, por meio de seu julgamento ordinário, antes de ter qualquer desejo de buscar ele próprio a entrada nos mundos supersensíveis.

Quando o treinamento foi tal que deu pouca atenção à firmeza e segurança do julgamento, e à vida do sentimento e do caráter, pode acontecer que o estudante se aproxime do mundo superior antes de possuir as capacidades internas necessárias. O encontro com seu duplo, nesse caso, o subjugaria. Mas o que também poderia acontecer é que o encontro fosse totalmente evitado, e a pessoa em questão, assim introduzida no mundo supersensível, seria totalmente incapaz de conhecer esse mundo em sua forma verdadeira, pois seria impossível para ela diferenciar entre a aparência que as coisas lhe apresentam através de sua própria entidade e aquilo que elas realmente são.

Pois essa diferenciação só se torna possível quando uma pessoa contemplou ela mesma a imagem de sua própria entidade e, assim, separou de seu entorno tudo o que procede de seu próprio ser interior.


Com respeito ao mundo dos sentidos físicos, o duplo do homem age assim: o já mencionado senso de vergonha faz com que ele desapareça instantaneamente quando o homem se aproxima do mundo da alma e do espírito, mas, ao fazê-lo, faz também com que todo esse mundo se torne invisível.

O duplo permanece diante da entrada como um "guardião", pronto a negar admissão a todos os que ainda não estão aptos, e por isso é designado na ciência oculta como o "guardião do limiar do mundo da alma e do espírito". Na verdade, podemos chamá-lo de "guardião menor", pois há outro, de quem falaremos mais tarde. E além desse encontro com seu duplo ao entrar no mundo supersensível, conforme aqui exposto, o homem encontra o Guardião do Limiar ao passar pelos portais da morte física, e ele gradualmente se revela durante aquele desenvolvimento da alma e do espírito que ocorre entre a morte e um novo nascimento. Quando, porém, o encontro não pode de modo algum nos esmagar, pois então conhecemos outros mundos dos quais somos ignorantes durante a vida entre o nascimento e a morte. Uma pessoa que entrasse no mundo da alma e do espírito sem ter encontrado o Guardião do Limiar estaria sujeita a cair presa de uma ilusão após outra. Pois ela nunca seria capaz de distinguir entre aquilo que ela mesma traz para esse mundo e para o que verdadeiramente lhe pertence. Mas o treinamento correto deve conduzir o estudante ao domínio da verdade, não do erro, e com tal treinamento o encontro deve, em algum momento, inevitavelmente ocorrer, pois é o remédio essencial, na observação dos mundos supersensíveis, contra a possibilidade de engano e fantasma.


É uma das precauções mais incumbentes a todo estudante ocultista conduzir seu trabalho de treinamento de modo a não degenerar em um visionário, sujeito à sugestão ou à autossugestão, e onde quer que o correto treinamento oculto seja seguido, as causas de tais enganos são destruídas em sua fonte. Seria, naturalmente, impossível aqui falar exaustivamente dos muitos detalhes a serem incluídos em tais precauções, e só podemos indicar do que elas dependem em geral. As ilusões a serem consideradas surgem de duas fontes. Em parte, procedem do fato de que nossa própria entidade anímica tende a colorir a realidade. Na vida ordinária do mundo dos sentidos físicos, o perigo decorrente dessa fonte de engano é comparativamente pequeno, pois aqui temos o mundo externo sempre pronto a afirmar suas próprias formas com clareza suficiente, por mais que o observador escolha colori-las de acordo com seus próprios desejos e interesses. Assim que, porém, entramos no mundo imaginativo, todas as imagens são alteradas por tais desejos e interesses, e nós temos então diante de nós aquilo que nós mesmos formamos ou, de qualquer modo, ajudamos a formar. Ora, como por esse encontro com o Guardião do Limiar o estudante ocultista se torna ciente de tudo o que há dentro dele, do que, portanto, ele pode estar levando consigo para o mundo espiritual, essa fonte de ilusão é removida, e a preparação que terá sido dada ao estudante antes de entrar nesse mundo é em si calculada para acostumá-lo a excluir o eu — mesmo em assuntos pertencentes ao mundo físico — ao fazer suas observações, permitindo assim que as coisas e os acontecimentos falem por si mesmos. Qualquer um que tenha praticado suficientemente esses exercícios preparatórios pode aguardar esse encontro com o Guardião do Limiar com toda tranquilidade; por esse encontro será conclusivamente provado se ele está realmente em condição de excluir sua própria entidade quando confrontado com o mundo da alma e do espírito.


E, além disso, há outra fonte de ilusão. Isso se torna evidente quando interpretamos erroneamente uma impressão que recebemos. Podemos ilustrá-lo por meio de um exemplo muito simples, extraído do mundo dos sentidos físicos. É a ilusão que encontramos quando, sentados num vagão de trem, pensamos que as árvores se movem na direção oposta ao trem, enquanto, na verdade, somos nós que nos movemos com o trem.

Embora haja muitos casos em que tais ilusões ocorridas no mundo físico sejam mais difíceis de corrigir do que o simples exemplo que aduzimos, é fácil ver que, mesmo dentro desse mundo, podem ser encontrados meios para nos livrarmos dessas ilusões, se uma pessoa de bom senso aplicar tudo o que possa ajudar a esclarecer o assunto.


Mas, tão logo penetramos no mundo da alma e do espírito, tais elucidações se tornam menos fáceis. No mundo dos sentidos, os fatos não são alterados pelas ilusões humanas a seu respeito; é possível, portanto, corrigir uma ilusão pela observação imparcial dos fatos. Mas, no mundo supersensível, isso não é imediatamente possível. Se, desejando estudar uma questão supersensível, nós a abordamos com um espírito de julgamento equivocado, então levamos esse julgamento errôneo para dentro da própria coisa, e ele se entrelaça com o fato, tornando-se os dois não imediatamente distinguíveis, pois o erro não está mais na pessoa e o fato correto exterior a ela, mas o erro terá se tornado um componente do fato exterior. Não pode, portanto, ser esclarecido simplesmente pela observação imparcial do fato. Isso basta para indicar uma fonte extremamente fértil de ilusão e engano para aquele que ousasse abordar o mundo supersensível sem preparação adequada. E, à medida que o estudante ocultista se torna capaz de excluir ilusões que poderiam tingir os fenômenos do mundo supersensível com a cor de sua própria entidade, assim também deve adquirir o atributo adicional de tornar ineficaz a segunda fonte de tais ilusões. Ele pode eliminar o que surge dentro de si mesmo após o encontro com o seu próprio duplo, e será capaz de remover a segunda fonte de ilusão quando tiver adquirido a capacidade de avaliar, pela natureza de um fato visto no mundo supersensível, se ele é real ou ilusório. Ora, se as ilusões fossem exatamente da mesma aparência que as realidades, a diferenciação seria impossível. Mas não é esse o caso. As ilusões vistas no mundo supersensível têm suas próprias características, que permitem que sejam distinguidas das realidades, e o importante é que o estudante oculto saiba por quais qualidades ele poderá reconhecer a realidade.


Nada parece mais óbvio do que aqueles que são ignorantes do treinamento oculto dizerem aqui: "Como, então, há alguma possibilidade de se guardar contra ilusões, visto que suas causas são tão numerosas?" E ele pode ainda objetar assim: "Pode um estudante oculto estar algum dia seguro da possibilidade de que todas as suas assim chamadas experiências superiores não venham a se revelar baseadas em nada mais do que sugestão e autossugestão?" E, no entanto, qualquer um que apresente essas objeções ignora o fato de que todo verdadeiro treinamento oculto procede de tal maneira que remove essas fontes de ilusão uma a uma. Em primeiro lugar, o verdadeiro oculto

A PERCEPÇÃO DOS MUNDOS SUPERIORES 40 1;

O estudante, durante sua preparação, ter-se-á tornado possuidor de tanto conhecimento sobre aquelas matérias que podem levar à ilusão e à auto-ilusão, que estará em posição de evitá-las. Ele terá, em todas essas coisas, uma oportunidade sem igual de se tornar sensato e capaz de julgamento correto para a jornada da vida. Tudo o que aprende ensina-lhe a não confiar em vagos pressentimentos e premonições. O treinamento torna-o tão cauteloso quanto lhe é possível ser e, além disso, todo treinamento verdadeiro conduz, em primeiro lugar, a concepções sobre os grandes eventos cósmicos — a matérias, portanto, que exigem o exercício do julgamento, um processo pelo qual esse poder é tanto refinado quanto afiado. Mas aqueles que se recusam a ocupar-se com esses assuntos remotos e preferem ater-se a revelações mais próximas poderiam perder o fortalecimento daquele são poder de julgamento que dá certeza em distinguir entre ilusão e realidade. Contudo, nem mesmo isso é o mais importante, pois o mais importante consiste nos exercícios em si, que são realizados durante um curso sistemático de treinamento oculto. Estes são dispostos de tal modo que a consciência do estudante é capacitada, durante a meditação interior, a examinar minuciosamente tudo o que passa em sua alma. Para produzir a imaginação, a primeira coisa a fazer é formar um símbolo. Nisso, ainda há elementos tomados da observação externa; a pessoa em si não está somente envolvida.

Em seu conteúdo, ele não os produz a si mesmo. Ele pode, portanto, cair em erro quanto ao modo como são produzidos e pode atribuir sua origem a fontes erradas. Mas quando o estudante ocultista prossegue aos exercícios para a inspiração, ele afasta esses conteúdos de sua consciência e imerge apenas na atividade da alma que foi ocasionada pelo símbolo. Mesmo aqui, o erro ainda é possível; a educação e o estudo induziram um tipo particular de atividade da alma no homem. Ele é incapaz de saber tudo quanto à origem de tais atividades. Agora, porém, o estudante ocultista põe-se a trabalhar para remover sua própria atividade da alma de sua consciência; se então algo restar, nada pode aderir a ela que não possa ser facilmente examinado, nada pode se intrometer que não seja facilmente investigado quanto a todo o seu conteúdo.

Em sua intuição, portanto, o estudante de ocultismo possui algo que lhe mostra como uma realidade pura dentro do mundo da alma e do espírito é constituída, e caso ele aplique esse teste reconhecido a tudo o que encontra em sua observação no reino das realidades espirituais, ele será bem capaz de distinguir a aparência da realidade, ao mesmo tempo em que pode ter certeza de que a aplicação dessa lei protege contra ilusões no mundo espiritual tão efetivamente quanto o conhecimento, no mundo físico, de que um pedaço imaginário de ferro em brasa não pode queimá-lo.


É óbvio que esse teste se aplica apenas às nossas próprias experiências no mundo suprassensível, e não às comunicações que nos são feitas e que temos de apreender por meio de nosso entendimento físico e de nosso são senso de verdade. O estudante de ocultismo deve esforçar-se para traçar uma linha distinta de demarcação entre o conhecimento que adquire por um meio e por outro. Ele deve estar pronto, por um lado, para aceitar comunicações que lhe são feitas a respeito dos mundos superiores, e deve buscar compreendê-las usando seus poderes de julgamento. Quando, porém, ele se depara com uma "experiência", que pode assim nomear por ser devida à observação pessoal, ele primeiro testará cuidadosamente a mesma para verificar se ela possui exatamente aquelas características que aprendeu a reconhecer por meio da intuição infalível.

O encontro com o Guardião do Limiar terminado, o estudante de ocultismo terá de enfrentar outras novas experiências, e a primeira coisa de que se tornará consciente é a conexão interna que existe entre esse Guardião do Limiar e aquela força da alma que já caracterizamos, ao descrever a cisão da personalidade, como sendo o sétimo poder a se resolver em uma entidade independente. Essa sétima entidade é, de fato, em certos aspectos, nada mais que o duplo, ou o próprio Guardião do Limiar.

e impõe uma tarefa particular ao estudante. Pois o que ele é em seu eu ordinário, que agora lhe aparece em uma imagem, tem de ser conduzido e guiado pelo eu recém-nascido, de modo que surge uma espécie de guerra contra o duplo, que se verá constantemente se esforçando para obter a supremacia. Esse esforço para estabelecer a relação correta, esse cuidado em não permitir que ele faça algo além do que possa resultar da influência do ego recém-nascido, é o que confere firmeza e vigor às forças do homem.

Essa questão do autoconhecimento é, em certos aspectos, diferente nos mundos superiores do que é no mundo físico dos sentidos. Pois enquanto neste último o autoconhecimento ocorre apenas como uma experiência interior, o ego recém-nascido torna-se imediatamente perceptível como uma visão espiritualmente exteriorizada. Vemos nosso ego recém-nascido diante de nós, mas não podemos percebê-lo em sua totalidade, pois, qualquer que seja o degrau a que tenhamos subido em nossa jornada aos mundos supersensíveis, haverá sempre degraus mais altos ainda, e nestes perceberemos visões ainda mais claras do nosso "eu superior". Ele pode, portanto, revelar-se apenas parcialmente ao estudante, em qualquer estágio em que ele se encontre. A tentação que aqui assalta o homem é tremenda, pois, tendo uma vez vislumbrado esse eu superior, ele se inclina a considerá-lo do ponto de vista que adquiriu no mundo dos sentidos físicos. E, no entanto, mesmo essa tentação é salutar, é de fato necessária, se o desenvolvimento do homem deve prosseguir da maneira correta. Pois o estudante deve aqui notar o que é que aparece como seu duplo, como o Guardião do Limiar, e colocá-lo sempre diante do eu superior, a fim de que ele possa observar corretamente a disparidade entre o que é e o que deve se tornar. Mas, enquanto assim se ocupa na observação, descobrirá que o Guardião do Limiar assumirá um aspecto bastante diferente, pois agora se revelará como uma imagem de todos os obstáculos que se opõem ao desenvolvimento do ego superior, e então nos tornamos conscientes de quão grande é o fardo que o ego ordinário tem de arrastar consigo.


Então, caso as preparações do estudante não o tenham tornado suficientemente forte para poder dizer: “Não permanecerei neste ponto, mas trabalharei persistentemente para ascender em direção ao eu superior”, ele se enfraquecerá e recuará desanimado diante do que ainda lhe resta. Então, embora tenha mergulhado no mundo espiritual, desistirá de tentar avançar mais e se tornará cativo daquela imagem que, como Guardião do Limiar, agora se apresenta à alma. E o notável aqui é que a pessoa assim situada não terá sentimento algum de ser cativa. Pelo contrário, pensará estar passando por uma experiência bastante diferente, pois a imagem evocada pelo Guardião do Limiar pode ser tal que desperte na alma do observador a impressão de que, nas imagens que surgem nesse estágio de desenvolvimento, tem diante de si todos os mundos possíveis em sua totalidade — a impressão de ter alcançado o cume de todo o conhecimento e de que, portanto, nada resta a almejar. Assim, em vez de se sentir cativo, o estudante acreditaria ser rico além de toda medida e possuidor de todos os segredos do universo. Nem essa experiência deveria causar surpresa a ninguém, embora seja o inverso do fato, pois devemos lembrar que, quando essas experiências são sentidas, já estamos dentro do mundo da alma e do espírito, e que a peculiaridade especial desse mundo é que ele representa os eventos na ordem inversa àquela em que realmente ocorrem — fato já aludido em nossa análise da vida após a morte.

A imagem vista pelo estudante ocultista nesse estágio de desenvolvimento mostra-lhe um aspecto diferente daquele em que o Guardião do Limiar se revelou pela primeira vez. Na primeira manifestação, viam-se todas aquelas qualidades que, como resultado da influência de Lúcifer, são possuídas pelo ego comum do homem. Mas, no curso do desenvolvimento humano, outro poder, em consequência da influência de Lúcifer, também investiu a alma do homem, sendo este o poder conhecido como o de Aíman, e é esse poder que, durante sua existência física, impede o homem de se tornar ciente daquelas entidades do mundo da alma e do espírito que se ocultam por trás da superfície do mundo exterior. Tudo o que a alma do homem se tornou sob a influência desse poder pode ser discernido na imagem que se revela durante a experiência há pouco descrita. Aqueles que foram suficientemente preparados para essa experiência poderão, quando assim confrontados, atribuir-lhe o seu verdadeiro significado, e então outra forma logo se tornará visível — uma que podemos descrever como o "Guardião Maior do Umbral", e esta dirá ao estudante que não se contente com o grau a que chegou, mas que trabalhe energicamente. Ela despertará nele a consciência de que o mundo que ele conquistou só se tornará uma verdade, e não uma ilusão, se o trabalho assim iniciado for continuado de maneira correspondente. Aqueles, porém, que, tendo sido treinados de acordo com um sistema errôneo de ciência oculta, enfrentarem essa experiência despreparados, ao encontrarem o Guardião Maior do Umbral serão tomados por sentimentos de pavor sem limites e horror incomensurável.


Assim como o encontro com o "Guardião Menor" dá ao estudante ocultista a oportunidade de julgar se está ou não imune a delírios, tais como os que poderiam surgir do entrelaçamento de sua própria personalidade com o mundo supersensível, do mesmo modo ele deve poder comprovar, pelas experiências que finalmente conduzem ao "Guardião Maior", se é capaz de resistir àquelas ilusões que remontam à segunda fonte mencionada mais atrás neste capítulo. Se ele se mostrar imune à poderosa ilusão pela qual o mundo de imagens a que chegou lhe é falsamente apresentado como uma posse rica, quando na verdade ele é apenas um cativo, então estará também protegido contra o perigo de tomar a aparência por realidade no curso ulterior de seu desenvolvimento.


Até certo ponto, o Guardião do Umbral assumirá uma forma diferente no caso de cada indivíduo. O encontro com ele corresponde exatamente ao modo como a natureza pessoal das observações supersensíveis é superada. A possibilidade é então dada de adentrar um reino de experiência que está livre de qualquer matiz de

personalidade e que está aberto a todo ser humano.

Quando o estudante ocultista tiver passado pelas experiências acima, ele será capaz de distinguir no mundo espiritual entre o que ele mesmo é e o que é exterior a ele, e então reconhecerá por que um entendimento das ocorrências cósmicas narradas neste livro é necessário à compreensão do homem sobre a própria humanidade e seu processo de vida. Na verdade, só podemos entender o corpo físico quando reconhecemos a maneira pela qual ele foi construído nos desenvolvimentos sofridos nos períodos de Saturno, Sol, Lua e Terra, e chegamos a entender o corpo etérico quando seguimos sua evolução através do desenvolvimento dos estágios de Sol, Lua e Terra. Compreendemos ainda o que está ligado ao nosso desenvolvimento terrestre no presente se pudermos apenas apreender como todas as coisas procedem pelo processo de evolução gradual, de modo que o treinamento ocultista nos coloca em posição de reconhecer a conexão entre tudo o que está dentro do homem e os fatos e entidades correspondentes existentes no mundo exterior a ele. Pois a situação é esta: cada princípio do homem está em alguma conexão com o resto do mundo. Neste livro, naturalmente, só foi possível sugerir essas coisas de modo muito geral; deve-se, no entanto, ter em mente que o corpo físico, na época do desenvolvimento de Saturno, por exemplo, não tinha mais do que seus primeiros começos rudimentares; seus órgãos — como coração, pulmões e cérebro — desenvolveram-se mais tarde durante os períodos de Sol, Lua e Terra, razão pela qual coração, pulmões e cérebro estão relacionados ao processo evolutivo de Sol, Lua e Terra.

O mesmo ocorre com relação aos membros do corpo etérico, do corpo de sensações e da alma de sensações. O homem é o resultado de todo o mundo que o cerca, e cada coisa singular nele corresponde a algum processo, a alguma entidade, no mundo externo. No estágio adequado de seu desenvolvimento, o estudante ocultista chega a reconhecer a conexão de seu próprio

entidade com o cosmos, e esta etapa do desenvolvimento pode, no sentido oculto, ser descrita como tornar-se consciente da relação do pequeno mundo, o microcosmo — isto é, o próprio homem — com o grande mundo, o macrocosmo. E quando o estudante oculto avançou até este ponto, ele pode tornar-se consciente de uma nova experiência: começa a sentir-se, por assim dizer, fundido com toda a estrutura do mundo, embora permaneça plenamente consciente de sua própria independência. Isso é uma fusão dentro do universo, um tornar-se "um" com ele, sem, no entanto, perder a identidade pessoal. A ciência oculta descreve esta etapa como o "tornar-se um com o macrocosmo", e é importante que esta condição não seja imaginada como aquela em que a consciência separada cessa, com a entidade humana fluindo para dentro do todo, pois tal pensamento seria apenas a expressão de uma opinião resultante de um raciocínio não instruído.

Após esta etapa de desenvolvimento, algo ocorre que, na ciência oculta, é descrito como "beatitude". Não é possível nem necessário que esta etapa seja descrita mais de perto, pois nenhuma palavra humana tem o poder de retratar as experiências do homem nesse momento, e pode-se dizer com segurança que qualquer concepção desse estado só poderia ser adquirida por meio de um poder de pensamento que não mais dependesse do instrumento do cérebro humano. As etapas separadas

A PERCEPÇÃO DOS MUNDOS SUPERIORES 41

do conhecimento superior podem, seguindo as observações anteriores da iniciação, ser assim expostas:

O estudo da ciência oculta, no curso do qual fazemos uso, em primeiro lugar, dos poderes de raciocínio que adquirimos no mundo dos sentidos físicos.

1. Aquisição da cognição imaginativa

2. Leitura da escrita secreta (que corresponde à inspiração)

3. Trabalho com a pedra filosofal (correspondendo à intuição)

4. Cognição da relação entre o microcosmo e o macrocosmo

5. Tornar-se um com o macrocosmo

6. Beatitude

Não é necessário imaginar esses estágios como seguindo-se consecutivamente, pois o curso do treinamento pode muito possivelmente resolver-se de tal maneira que, de acordo com a individualidade do estudante, um passo pode ser apenas parcialmente dado quando ele já estará praticando exercícios para o próximo. Por exemplo, pode muito bem ser que, quando ele tiver conquistado, de maneira confiável, apenas algumas imagens imaginativas, ele já estará fazendo exercícios que o levam a atrair inspiração, intuição ou cognição da relação entre o microcosmo e o macrocosmo para a esfera de suas próprias experiências.

Quando o estudante tiver adquirido alguma experiência de intuição, ele chega a conhecer não apenas as imagens do mundo espiritual, nem é apenas capaz de ler por sua luz a escritura secreta, mas também adquire conhecimento daqueles seres a cuja cooperação se deve a criação do mundo, ao qual o próprio homem pertence. Assim, ele aprende a conhecer a si mesmo na forma verdadeira que possui como ser espiritual no mundo da alma e do espírito. Ele lutou até o conhecimento de seu eu superior e, ao fazê-lo, terá notado como deve continuar o trabalho para que possa dominar seu duplo, o Guardião do Limiar. Mais adiante, ele terá encontrado o “Guardião Maior”, que está diante dele, convocando-o perpetuamente a novos trabalhos. É esse Guardião Maior do Limiar que agora se torna o exemplo que ele deve se esforçar para imitar, e quando o estudante tiver adquirido esse sentimento, ele terá ascendido àquele estágio importante de desenvolvimento em que estará em posição de reconhecer quem é que realmente está diante dele como aquele “Guardião Maior”. Pois, daí em diante, na consciência do estudante, o Guardião é gradualmente transformado na figura de Cristo, cujo Ser e intervenção na evolução da Terra foram tratados em um capítulo anterior.

Assim acontece que o estudante, por meio de sua intuição, terá sido iniciado naquele mistério sublime que está ligado ao nome de Cristo — o Cristo revelando-se a ele como o “Grande Exemplo a ser apresentado à humanidade na Terra”.

Quando, dessa maneira e por meio da intuição, o Cristo se torna reconhecido no mundo do espírito, então também se nos torna possível compreender aqueles eventos que ocorreram historicamente na Terra durante o quarto período pós-atlante (a época greco-romana), e como se deu que, naquela época, o grande Espírito Solar, o Ser Crístico, interveio no desenvolvimento do mundo, e como Ele ainda continua a guiar a sua evolução. São estas questões que o estudante então conhecerá por experiência pessoal. Portanto, é através da intuição que o significado e a importância da evolução da Terra se revelam ao estudante ocultista.

O caminho que conduz ao conhecimento dos mundos suprassensíveis, como acima indicado, é um que todos os homens podem percorrer, qualquer que seja a sua posição nas condições atuais de vida. E ao falar de tal caminho, deve-se ter em mente que, embora a meta do conhecimento e da verdade seja a mesma em todos os tempos do desenvolvimento da Terra, contudo o ponto de partida para o homem variou consideravelmente em diferentes períodos.

Por exemplo, o homem dos dias atuais que deseja encontrar o seu caminho para os mundos suprassensíveis não pode partir do mesmo ponto que o candidato egípcio à iniciação de outrora. É por isso que é impossível simplesmente aplicar os exercícios dados ao estudante do antigo Egito às exigências da humanidade moderna. Pois desde aqueles tempos as almas dos homens passaram por diferentes encarnações, e essa passagem de encarnação em encarnação não foi sem significado e importância. As capacidades e qualidades das almas mudam de uma encarnação para outra. Aqueles que estudaram a história humana mesmo superficialmente estão em posição de julgar como os sentimentos e opiniões mudaram, desde os séculos XII e XIII da era cristã, em relação ao que eram em épocas anteriores. Na verdade, não apenas os sentimentos e opiniões, mas até mesmo as capacidades dos homens diferem do que eram anteriormente. O caminho aqui descrito para a aquisição do conhecimento superior é um que é adequado para almas que encarnam no presente imediato. Ele fixa o ponto de partida do desenvolvimento espiritual exatamente onde o homem dos dias atuais se encontra, em quaisquer condições de vida em que esteja colocado.

Assim como a vida externa muda suas formas, a evolução progressiva conduz a humanidade de uma forma a outra, à medida que época sucede a época, em relação aos caminhos para o conhecimento superior.

Pois em todos os tempos é necessário que perfeita harmonia reine entre a vida externa e a iniciação.

No próximo capítulo serão encontradas indicações da mudança que teve de ocorrer na antiga forma de iniciação pela qual os Mistérios conduziam aos mundos superiores, a fim de que se tornasse iniciação moderna — a obtenção do conhecimento supersensível em sua forma atual.


CAPÍTULO VI

A Evolução Presente e Futura do Mundo e da Humanidade

É IMPOSSÍVEL saber qualquer coisa, no sentido oculto, do presente e do futuro da evolução humana ou planetária sem compreender essa evolução no passado. Pois o que se apresenta à observação do estudante ocultista, quando ele observa os eventos ocultos do passado, contém ao mesmo tempo tudo o que ele pode aprender do presente e do futuro. Neste livro, falamos das evoluções de Saturno, Sol, Lua e Terra. Não podemos seguir a evolução da Terra, como o ocultista a compreende, a menos que observemos os eventos dos períodos evolutivos precedentes. Pois o que nos encontra hoje dentro dos limites do nosso globo terrestre compreende, em certo sentido, os fatos da evolução da Lua, do Sol e de Saturno. Os seres e as coisas que participaram da evolução da Lua continuaram a se desenvolver, e tudo o que agora pertence à Terra é o resultado desse desenvolvimento. Mas nem tudo o que foi evoluído da Lua para a Terra é perceptível à consciência sensorial. Uma parte daquilo que veio até nós da evolução da Lua é revelada

A EVOLUÇÃO PRESENTE E FUTURA

somente em certo estágio da consciência clarividente, no qual se alcança o conhecimento dos mundos suprassensíveis. Quando esse conhecimento é obtido, reconhece-se o fato de que nosso planeta terrestre está unido a um mundo suprassensível. Este último inclui aquela parte da existência lunar que não é suficientemente densificada para ser observada pelos sentidos físicos. A princípio, vemos nela essa parte tal como é no presente — não como era na época da evolução da Lua original. Mas a consciência clarividente pode obter um quadro das condições daquele período anterior. Pois, por meio da concentração nas imagens que a consciência clarividente pode obter hoje, vê-se que esse quadro gradualmente se divide em dois. Um apresenta a forma que a Terra assumiu durante a evolução lunar; o outro se mostra de tal maneira que reconhecemos como seu conteúdo uma forma ainda em estágio germinal, que se tornará realidade — no sentido em que a Terra é agora uma realidade — somente no futuro.

Em observação mais aprofundada, vê-se que os resultados, em certo sentido, do que está ocorrendo na Terra fluem continuamente para essa forma futura, de modo que nela temos diante de nós aquilo que nossa Terra finalmente se tornará. Os efeitos da existência terrestre se unirão aos eventos no mundo descrito, e disso surgirá o novo ser-mundial, no qual a Terra será transformada, assim como a Lua foi transformada na Terra. Essa forma futura é chamada na ciência oculta de condição de Júpiter. O observador clarividente desse estado de Júpiter vê a revelação de certos eventos que devem ocorrer no futuro. A razão disso é que, na parte suprassensível da Terra que teve origem na Lua, seres e coisas estão presentes que assumirão forma definida quando certos eventos tiverem realmente ocorrido no mundo físico.


Assim, haverá algo na condição de Júpiter que foi predeterminado pela evolução da Lua, e conterá novos fatores, que entram em toda a evolução somente em consequência de eventos terrestres. Dessa maneira, a consciência clarividente é capaz de aprender algo do que acontecerá durante o estado de Júpiter. Os seres e fatos observados nesse campo de consciência não têm a natureza de imagens sensoriais; eles nem sequer aparecem como estruturas aéreas sutis, das quais pudessem emanar efeitos que fossem reminiscentes de impressões sensoriais. Eles dão puramente impressões espirituais de som, luz e calor. Estas não são expressas através de quaisquer corporificações materiais. Elas só podem ser apreendidas pela consciência clarividente. E, no entanto, pode-se dizer que esses seres têm um "corpo". Esse corpo, porém, aparece dentro de sua parte anímica, que se manifesta como seu ser, por enquanto, como uma massa de memórias condensadas que eles carregam dentro de seu ser psíquico. É possível distinguir, dentro do seu ser, entre o que eles estão agora experimentando e o que eles experimentaram e agora recordam. Este último está contido dentro deles como um elemento corporal. Eles estão conscientes disso da mesma maneira que um ser humano terreno está consciente de seu corpo. Em um estágio de desenvolvimento clarividente mais elevado do que aquele apenas descrito como necessário para um conhecimento da Lua e de Júpiter, o estudante é capaz de perceber seres e objetos supersensíveis que são, de fato, formas mais altamente desenvolvidas daquelas presentes durante a condição do Sol, mas que agora alcançaram estágios de existência tão elevados a ponto de serem bastante imperceptíveis a uma consciência capaz apenas de observar as formas da Lua. Durante a meditação profunda, a imagem desse mundo também se divide em duas.


Uma leva ao conhecimento do estado do Sol do passado; a outra exibe uma forma futura da Terra — aquela na qual esta última será transformada quando os frutos de tudo o que ocorre nela e em Júpiter tiverem se fundido nas formas daquele outro mundo.

O que pode assim ser observado desse mundo futuro pode ser caracterizado, na fraseologia oculta, como a condição de Vênus.

De maneira semelhante, a uma consciência clarividente ainda mais evoluída, revela-se um estado futuro de evolução, que podemos chamar de estado de Vulcano. Ele está na mesma relação com o estado de Saturno como a condição de Vênus está com a do Sol, ou a de Júpiter

um esboço da ciência oculta

estado para a evolução da Lua Portanto, quando contemplamos o passado, presente e futuro da evolução da Terra, podemos falar das evoluções de Saturno, Sol, Lua, Terra, Júpiter, Vênus e Vulcano

Assim como essas condições abrangentes da evolução da nossa Terra são reveladas à visão clarividente, a mesma visão também é capaz de abranger o futuro mais próximo. Há uma imagem do futuro correspondente a cada imagem do passado.

Mas ao falar de tais coisas, um ponto deve ser enfatizado, cuja realização deve ser considerada absolutamente indispensável para reconhecer fatos dessa natureza: devemos absolutamente eliminar a ideia de que a mera reflexão filosófica sobre o assunto possa estabelecer qualquer coisa. Essas coisas não podem, e não devem, jamais ser investigadas por esse tipo de pensamento.

Qualquer um estaria sob uma prodigiosa ilusão se, após tomar conhecimento dos ensinamentos da ciência oculta sobre o estado da Lua, pensasse que poderia descobrir as condições futuras de Júpiter comparando aquelas da Lua e da Terra. Essas condições devem ser investigadas somente quando a consciência clarividente necessária tiver sido alcançada, mas uma vez comunicadas a outros após tal investigação, podem ser compreendidas sem qualquer consciência clarividente.

Agora, o ocultista encontra-se em uma posição bastante diferente, com relação às revelações concernentes ao futuro, daquela em que se encontra com relação às do passado. É impossível, a princípio, para o homem contemplar eventos futuros com a equanimidade que lhe é possível com relação ao passado. Eventos futuros excitam a vontade e o sentimento humanos, enquanto o passado nos afeta de maneira bastante diferente. Um estudante da vida sabe quão verdadeiro isso é na existência cotidiana, mas quão enormemente essa verdade é ampliada, e que íntima relação tem com os fatos ocultos da vida, só pode ser percebido por aquele que possui algum conhecimento do mundo superfísico.


Essa é a razão pela qual aqueles que conhecem tais coisas são muito estritamente limitados quanto ao que lhes é permitido divulgar. Certas questões relacionadas ao futuro podem, de fato, ser transmitidas apenas àqueles que, por si mesmos, decidiram seguir o caminho que conduz aos mundos supersensíveis. Tais pessoas adquiriram, por sua atitude mental, algo que lhes confere o desinteresse necessário para o recebimento desses ensinamentos. Por essa razão, certos fatos secretos, mesmo do passado e do presente, só podem ser revelados àqueles que estão preparados para eles.

São fatos tão intimamente ligados à evolução futura que seu efeito sobre a alma humana é semelhante ao produzido por comunicações relativas ao próprio futuro. Isso explica também por que as informações contidas neste livro sobre o presente e o futuro são dadas apenas em linhas gerais, em comparação com as descrições mais detalhadas da evolução do mundo e da humanidade no passado. O que aqui se diz não pretende, em grau mínimo, apelar ao amor pela sensação, nem mesmo despertá-lo. Apenas indicaremos onde a resposta pode ser encontrada por uma certa atitude definida da mente diante de questões vitais que naturalmente se apresentam.

Assim como a grande evolução cósmica pode ser retratada em uma série de condições que se sucedem, do período de Saturno ao período de Vulcano, isso também é possível para períodos de tempo mais curtos, por exemplo, para aqueles da evolução da Terra. Desde aquela poderosa convulsão que terminou a antiga vida atlante, períodos sucessivos da evolução humana se seguiram, os quais foram chamados nesta obra de antigo indiano, antigo persa, egípcio-caldeu e greco-romano. O quinto período é aquele em que a humanidade se encontra hoje — é o tempo presente. Este período gradualmente se originou nos séculos XI, XII e XIII d.C., após um período de preparação que começou nos séculos IV e V. O período greco-romano que o precedeu começou por volta do século VIII a.C. Quando um terço desse período havia decorrido, ocorreu a vinda do Cristo.

Durante a transição do período egípcio-caldeu para o greco-romano, a atitude da mente humana e, de fato, todas as capacidades humanas, passou por uma transformação [11 o primeiro desses dois períodos, aquele que agora conhecemos como reflexão lógica, como uma concepção compreensível do mundo, ainda faltava. O conhecimento que o homem agora adquire através de sua inteligência, ele então obtinha da maneira adequada àquele tempo — diretamente através de um conhecimento interior ou, em certo aspecto, clarividente. Ele via as coisas ao seu redor e, enquanto as percebia, a concepção — a visão delas que a alma necessitava — surgia dentro da consciência. Sempre que o conhecimento é adquirido dessa forma, não apenas imagens do mundo físico dos sentidos vêm à luz, mas das profundezas da consciência surge um certo conhecimento de fatos e seres que não pertencem ao mundo físico. Isso era um resquício da antiga clarividência obscura, outrora propriedade comum de toda a humanidade.


Durante o período greco-romano, um número cada vez maior de indivíduos apareceu sem essas capacidades. A reflexão inteligente sobre as coisas tomou seu lugar. Esses indivíduos estavam cada vez mais afastados da percepção imediata do mundo espiritual e cada vez mais restritos a formar uma imagem dele através de sua inteligência e sentimento. Essa condição durou mais ou menos durante toda a quarta divisão do período pós-atlante. Apenas aqueles indivíduos que haviam preservado o antigo estado mental como herança ainda podiam tornar-se diretamente conscientes do mundo espiritual. Mas esses eram retardatários de uma época anterior. Sua maneira de obter conhecimento não era mais adequada às condições posteriores. Pois, como consequência das leis da evolução, uma antiga faculdade da alma perde algo de seu antigo significado quando novas capacidades aparecem. A vida humana então se adapta a essas novas capacidades e não pode mais usar adequadamente as antigas.


Houve, no entanto, indivíduos que começaram, em plena consciência, a acrescentar às faculdades de inteligência e sentimento já adquiridas o desenvolvimento de outros e mais elevados poderes, o que lhes tornou possível penetrar mais uma vez no mundo espiritual.

Para esse fim, foram obrigados a trabalhar de maneira diferente daquela em que os alunos dos antigos Iniciados haviam sido treinados. Estes últimos não haviam sido obrigados a levar em conta aquelas faculdades da alma que só foram desenvolvidas no quarto período. O método de treinamento oculto que foi descrito nesta obra como o da época atual começou em seus primeiros rudimentos no quarto período. Mas estava então apenas em seu início; não pôde atingir a maturidade real até o quinto período (a partir dos séculos XII e XIII em diante). Aqueles que buscavam usar esse método para penetrar nos mundos suprafísicos podiam aprender algo das regiões superiores da existência por meio do exercício de sua própria imaginação, inspiração e intuição.

Aqueles que não foram além do desenvolvimento das faculdades da razão e do sentimento só podiam aprender, por meio da tradição, o que fora conhecido pela clarividência antiga. Isso era transmitido, seja oralmente ou por escrito, de geração em geração.


Nem aqueles que nasceram mais tarde poderiam saber algo da natureza real do evento de Cristo, exceto por tais tradições, se não o vissem a partir do nível dos mundos suprafísicos.

Iniciados certamente existiam que ainda possuíam as faculdades naturais de percepção nos planos superiores e que, pelo desenvolvimento dessas faculdades, ascendiam até lá, apesar de seu desprezo pelos novos poderes de inteligência e sentimento. Através deles, efetuou-se uma transição do antigo método de Iniciação para o novo. Tais pessoas viveram também em tempos posteriores. A característica essencial do quarto período é que, pela exclusão da alma da comunhão direta com o mundo psico-espiritual, as faculdades humanas de inteligência e sentimento foram por isso fortalecidas e vigorizadas. As almas cujos poderes de inteligência e sentimento se haviam desenvolvido naquela época em grande medida como resultado da encarnação carregaram consigo os frutos desse desenvolvimento para suas encarnações durante o quinto período. Como compensação por essa exclusão dos mundos superiores, poderosas tradições da Sabedoria Antiga então existiam, especialmente aquelas do evento de Cristo,

° que, pelo poder de seu conteúdo, davam aos homens conhecimento confiante dos mundos superiores.


Mas ainda havia certos indivíduos que haviam desenvolvido os poderes superiores do conhecimento, além das faculdades da razão e do sentimento. Coube a eles aprender os fatos dos mundos superiores, e especialmente o Mistério do evento de Cristo, por meio da percepção supersensível direta. Desses indivíduos sempre fluíam para as almas de outros homens tanto quanto lhes era inteligível e benéfico.

A primeira expansão do Cristianismo deveria ocorrer justamente numa época em que as capacidades para o conhecimento suprafísico estavam não desenvolvidas em grande parte da humanidade. Foi por essa razão que o poder da tradição era então tão enorme.

A força mais poderosa era necessária para conduzir indivíduos que não podiam eles próprios contemplar o mundo supersensível a crer nele. Como o Cristianismo atuou durante esse período foi mostrado nas páginas anteriores.

Havia sempre, contudo, aqueles que eram capazes de ascender aos mundos superiores através da imaginação, inspiração e intuição. Esses homens eram os sucessores pós-cristãos dos antigos Iniciados, os mestres e membros dos Mistérios. Sua tarefa era reconhecer novamente, através de suas próprias faculdades, o que o homem havia sido capaz de perceber através da antiga clarividência, e através dos métodos de ascensão aos mundos superiores ensinados nas antigas Iniciações; e, além disso, adquirir o conhecimento da verdadeira natureza do advento de Cristo.

Assim surgiu, entre esses "Novos Iniciados", um conhecimento que abrangia tudo o que estava contido na forma antiga de Iniciação, mas o ponto central desse ensinamento era o conhecimento superior concernente aos Mistérios da vinda do Cristo. Tal ensinamento só poderia filtrar-se na vida geral do mundo em medida escassa, pois as faculdades do intelecto e do sentimento deveriam ser fortalecidas na alma humana durante o quarto período; portanto, enquanto este durasse, a doutrina era em verdade secreta. Então começou o amanhecer do novo período designado como o quinto.

Sua característica essencial residia no progresso feito na evolução das faculdades intelectuais, que foram então desenvolvidas a um grau muito elevado, e se desdobrarão ainda mais no futuro. Esse processo tem ocorrido lentamente desde os séculos XII e XIII, tornando-se cada vez mais rápido desde o século XVI até o tempo presente.

Sob essas influências, a evolução do quinto período tornou-se um esforço cada vez maior para fomentar os poderes do intelecto, enquanto, ao contrário, o conhecimento por fé dos tempos passados e a sabedoria tradicional gradualmente perderam sua influência sobre a alma humana. Por outro lado, a partir dos séculos XII e XIII, um fluxo cada vez maior de conhecimento fluiu para a alma humana, o qual era da natureza da consciência clarividente moderna. A "doutrina secreta" flui, ainda que a princípio de forma bastante imperceptível, para os modos de interpretação humanos durante esse período. É, portanto, natural que até o presente as faculdades intelectuais tenham mantido uma atitude de negação com relação a esse conhecimento. Mas aquilo que deve acontecer se dará apesar de toda rejeição temporária. A "doutrina secreta" que, por essa via, vem a tomar posse da humanidade, e continuará a fazê-lo cada vez mais, pode ser chamada, simbolicamente, de "Sabedoria do Santo Graal".


Pois aquele que aprende a compreender esse símbolo em seu significado mais profundo, como é contado em histórias e lendas, descobrirá que ele ilumina significativamente a natureza do que foi chamado acima de conhecimento da nova Iniciação, tendo o Mistério de Cristo como seu ponto central. Os Iniciados modernos podem, portanto, ser chamados de "os Iniciados do Graal". O caminho para os mundos superfísicos, que foi descrito nesta obra em seus estágios preliminares, conduz à Sabedoria do Graal. É uma peculiaridade dessa sabedoria que seus fatos só possam ser investigados quando os poderes necessários, como descritos neste livro, tiverem sido adquiridos. Uma vez investigados, contudo, esses fatos podem ser compreendidos por meio daquelas mesmas forças da alma que são o resultado da evolução do quinto Na verdade, tornar-se-á cada vez mais evidente que, em medida sempre crescente, essas forças encontrarão satisfação através deste conhecimento. Vivemos agora numa época em que tais fatos devem ser absorvidos pela consciência universal em extensão muito mais plena do que era o caso anteriormente. E é deste ponto de vista que os ensinamentos contidos nesta obra são apresentados. O impulso dado pelo advento de Cristo crescerá cada vez mais poderoso na proporção em que a evolução humana assimilar a Sabedoria do Graal. O lado interno do desenvolvimento do Cristianismo será cada vez mais associado ao lado exotérico. Aquilo que pode ser aprendido em conexão com o Mistério de Cristo por meio da imaginação, da inspiração e da intuição, concernente aos mundos superiores, interpenetrará cada vez mais o mundo humano das ideias, do sentimento e da vontade.


O ensinamento secreto da sabedoria do Graal tornar-se-á manifesto e, como força interna, permeará cada vez mais as manifestações da vida humana. Através de todo o quinto período, o conhecimento concernente ao mundo supersensível fluirá para a consciência humana, e quando o sexto começar, a humanidade será capaz, em um nível mais elevado, de reaver aquilo que possuía numa época anterior em uma clarividência ainda obscura e indistinta.

Contudo, a nova aquisição assumirá uma forma bastante diferente da antiga. Nos tempos antigos, o conhecimento da alma sobre os mundos superiores não era permeado por suas próprias forças de inteligência e sentimento. Seu conhecimento era instintivo. No futuro, a alma não apenas terá intuições, mas as compreenderá e as sentirá como a essência de sua própria natureza. Quando a alma aprende um fato concernente a algum outro ser ou coisa, sua inteligência encontrará esse fato verificado através de sua própria natureza. Ou quando algum fato relativo a uma lei moral ou à conduta humana se fizer sentir, a alma dirá a si mesma: "Meu sentimento só se justifica quando eu realizo aquilo que está implicado neste conhecimento." Uma atitude de espírito como esta terá de ser desenvolvida em um número considerável de indivíduos no sexto período.


De certa maneira, o que a evolução humana realizou durante o terceiro período — o egípcio-caldaico — repete-se no quinto. Naquele tempo, a alma ainda podia perceber certos fatos dos mundos superfísicos, mas essa percepção estava desaparecendo rapidamente, pois as faculdades intelectuais estavam sendo preparadas para a evolução subsequente, e eram destinadas, em primeira instância, a excluir o homem dos mundos superiores. No quinto período, os fatos suprassensíveis que no terceiro eram percebidos em vaga clarividência tornam-se novamente manifestos, mas agora estão interpenetrados pela vida intelectual e emocional do homem individual.

Eles também estão imbuídos do que pode ser transmitido à alma por um conhecimento do Mistério de Cristo; portanto, assumem uma forma totalmente diferente da que tinham anteriormente. Enquanto em tempos antigos as impressões dos mundos superiores eram sentidas como forças que expulsavam o homem de um mundo espiritual, ao qual ele não pertencia propriamente, através do desenvolvimento em tempos posteriores essas impressões são sentidas como as de um mundo no qual o homem está crescendo, do qual ele cada vez mais se torna parte. Que ninguém suponha que uma repetição da civilização egípcio-caldaica possa ocorrer de tal maneira que a alma meramente readquirisse o que então existia e que foi transmitido desde aquela época. O impulso de Cristo, corretamente compreendido, impele a alma humana que o experimentou a sentir-se membro de um mundo espiritual, reconhecendo-o como um mundo ao qual pertence, fora do qual ela anteriormente existia.


Assim como durante o quinto período as características do terceiro são revividas, a fim de aperfeiçoar dentro da alma humana aquilo que o quarto contribuiu de novo, de maneira semelhante as coisas acontecerão no caso do sexto em relação ao segundo, e no caso do sétimo em relação ao primeiro, a antiga civilização indiana mencionada acima. Toda a maravilhosa sabedoria da Índia antiga, que os grandes mestres daquele dia puderam proclamar, reaparecerá no sétimo período, como verdade viva nas almas humanas.

Agora, as mudanças no ambiente terreno do homem ocorrem de uma maneira que guarda uma certa relação com a sua própria evolução. Quando o sétimo período tiver completado o seu curso, a Terra experimentará uma comoção que pode ser comparada àquela que separou os tempos atlantes dos pós-atlantes. E a Terra transformada continuará novamente a sua evolução em sete divisões de tempo. As almas humanas que então encarnarão experimentarão, em um nível mais elevado, o parentesco com os mundos superiores que os atlantes possuíam em um estágio inferior. Mas somente aqueles indivíduos poderão lidar com as novas condições da Terra que tiverem construído em suas almas as qualidades tornadas possíveis pelas influências da era greco-romana e dos períodos que a seguiram — o quinto, o sexto e o sétimo da evolução pós-atlante.


O conteúdo de tais almas estará então em relação luminosa com aquele estágio de evolução que a Terra tiver então alcançado. Todas as outras almas deverão então permanecer para trás, embora até aquele ponto tivessem podido escolher se criariam ou não para si mesmas as condições necessárias para avançar com as demais. Somente aquelas almas estarão maduras para as condições que surgirão após a próxima grande catástrofe que, no ponto de transição do quinto para o sexto período pós-atlante, tiverem alcançado a capacidade de interpenetrar o conhecimento supersensual com as forças da inteligência e do sentimento. O quinto e o sexto são, de certo modo, os períodos decisivos. Aquelas almas que tiverem alcançado a meta do sexto período continuarão, é verdade, a se desenvolver correspondentemente no sétimo, mas as outras encontrarão, sob as condições alteradas de seu ambiente, pouca oportunidade de prosseguir com a sua tarefa negligenciada. Somente em um futuro distante surgirão novamente condições que permitirão que isso seja feito.


Assim, a evolução avança de período a período. A clarividência observa não apenas aquelas mudanças no futuro nas quais somente a Terra toma parte, mas também aquelas que ocorrem em conjunção com os corpos celestes ao seu redor. Chegará um tempo em que a evolução terrestre e humana estará tão avançada que aquelas forças e seres que foram compelidos a se separar da Terra durante o período Lemúrico, para proporcionar aos seres terrestres a possibilidade de progresso ulterior, poderão uma vez mais se unir à Terra. Então a Lua será unida novamente à Terra. Isso acontecerá porque um número suficientemente grande de almas humanas possuirá então os poderes interiores que lhes permitirão tornar as forças lunares frutíferas para o desenvolvimento posterior.

E isso ocorrerá num tempo em que, lado a lado com o alto desenvolvimento que um número suficiente de almas humanas terá alcançado, outro grupo se revelará, o qual terá escolhido o caminho do mal. As almas retardatárias terão acumulado tanto...


erro, feiura e mal, na forma de Kanna, que a princípio formarão uma comunidade separada, uma seção perversa e errante da humanidade, opondo-se agudamente ao que entendemos como “bem”. A humanidade “boa” adquirirá pouco a pouco o poder de usar as forças lunares e, com isso, transformará também a seção má, de modo a habilitá-la a acompanhar o avanço da evolução como um reino terrestre separado. Através desses trabalhos da parte boa da humanidade, a Terra, então reunida com a Lua, poderá, após um certo período de desenvolvimento, unir-se novamente ao Sol e também aos outros planetas. Após um estado intermediário, que se assemelha a uma permanência em um mundo superior, a Terra será transformada na condição de Júpiter. Aquilo que hoje chamamos de reino mineral não existirá em Júpiter; as forças desse reino mineral serão transformadas em forças vegetais. Mas o reino vegetal, que terá uma forma bastante nova em comparação com a atual, aparecerá no estado de Júpiter como o mais baixo dos reinos. Acima dele, em um nível mais elevado, organiza-se o reino animal, igualmente transformado; em seguida vem um reino humano — o descendente da comunidade má que anteriormente surgiu na Terra. E então aparecerão os descendentes da humanidade boa da Terra, como um reino humano em um nível mais elevado. Uma grande parte do trabalho desse último reino humano consiste em enobrecer as almas que Eles afundaram na comunidade do mal, para que ainda possam obter admissão no verdadeiro reino humano. A condição de Vênus será de tal natureza que o reino vegetal também terá desaparecido; o reino mais baixo será o reino animal, mais uma vez transformado, e, ascendendo a partir deste, haverá três reinos humanos em diferentes estágios de perfeição. A Terra permanecerá unida ao Sol durante o período de Vênus; enquanto durante o de Júpiter terá acontecido que, em certo ponto, o Sol se separa novamente de Júpiter, recebendo este a sua influência de fora. Então há novamente uma união entre o Sol e Júpiter, e a transformação gradualmente passa para o estado de Vênus. Durante esse estado, outro planeta se desprende de Vênus, contendo todos os tipos de seres que se opuseram à evolução, uma “lua irredimível”, por assim dizer, seguindo um caminho de evolução de caráter impossível de descrever, porque é demasiado diferente de tudo o que o homem pode experimentar na Terra. Mas a humanidade evoluída passará adiante, em um estado de existência totalmente espiritualizado, para a evolução de Vulcano, cuja descrição está além do escopo desta obra. Vemos que dos frutos da Sabedoria do Graal brota o mais alto ideal de evolução humana concebível para o homem: a espiritualização alcançada por ele através de seus próprios esforços. Pois, no fim, essa espiritualização aparece como um produto do


harmonia que ele forjou nos quinto e sexto períodos da evolução presente, entre as faculdades da razão e da emoção que então alcançara, e o conhecimento dos mundos superfísicos. Aquilo que ele assim constrói em sua alma deve, por fim, tornar-se o mundo objetivo. O espírito humano eleva-se aos poderosos impactos do universo ao seu redor e tem, a princípio, uma vaga premonição de seres espirituais por trás das impressões que recebeu. Ele reconhece esses seres em um período posterior. O coração humano sente a sublimidade desse estado espiritual, mas o homem também pode perceber que suas próprias experiências interiores de intelecto, sentimento e caráter são os germes de um mundo espiritual que há de vir.

Aquele que supõe que a liberdade humana não é compatível com uma presciência e predestinação das condições futuras deveria considerar que a liberdade de ação do homem no futuro depende tão pouco da disposição das coisas predestinadas quanto sua liberdade de ação com respeito a habitar uma casa daqui a um ano, cujos planos ele está agora estabelecendo. Ele será tão livre quanto puder ser, de acordo com seu ser mais íntimo, dentro da casa que construiu, e será tão livre em Júpiter e em Vênus quanto sua natureza interior permitir, sujeito às condições que ali surgirão. A liberdade não dependerá do que foi predeterminado por condições antecedentes, mas daquilo que a alma fez de si mesma.


Na condição terrestre está contido aquilo que se desenvolveu nos estados precedentes de Saturno, Sol e Lua. O homem terrestre encontra a "sabedoria" nos processos que ocorrem ao seu redor. Essa sabedoria está ali como o fruto do que aconteceu no passado. A Terra é descendente da "antiga Lua", e esta se desenvolveu, com tudo o que lhe pertencia, no "Cosmos da Sabedoria". A Terra está agora no começo de uma evolução que introduzirá uma nova força nessa sabedoria. Ela fará com que o homem se sinta um membro independente de um mundo espiritual. Isso ocorrerá porque seu ego terá sido formado dentro dele durante o período terrestre pelos Senhores da Forma, assim como seu corpo físico foi formado em Saturno pelos Senhores da Vontade, seu corpo vital no Sol pelos Senhores da Sabedoria, e seu corpo astral na Lua pelos Senhores do Movimento.

Pelas cooperações dos Senhores da Vontade, da Sabedoria e do Movimento, aquilo que se manifesta como sabedoria é trazido à luz. Através dos trabalhos dessas três classes de espíritos, os seres e processos da Terra podem harmonizar-se em sabedoria com os outros seres do mundo. São os Senhores da Forma que conferem ao homem seu ego independente. No futuro, esse ego se harmonizará com os seres da Terra, de Júpiter, de Vênus e de Vulcano, por meio da força acrescentada à sabedoria existente durante o período terrestre. É a força do amor.

Essa força deve surgir na humanidade da Terra, e o Cosmos da Sabedoria deve ser desenvolvido em um Cosmos do Amor. Tudo o que o ego é capaz de desdobrar dentro de si deve dar nascimento ao amor. O arquétipo abrangente do amor é apresentado na manifestação daquele espírito elevado do Sol indicado na descrição do Mistério do Cristo.


Por esse meio, o germe do amor é plantado no âmago mais íntimo da natureza humana, e, a partir desse ponto de partida, deve fluir através de toda a evolução. Assim como a sabedoria anteriormente formada se manifesta nas forças do mundo físico da Terra, nas "forças da natureza" de hoje, assim também o amor se manifestará no futuro, em todos os fenômenos, como a nova "força natural".

O segredo de todo desenvolvimento futuro é que o conhecimento e tudo o que o homem alcança a partir de uma compreensão correta do processo mundial é uma semeadura que deve amadurecer em amor. E quanto maior a quantidade de poder de amor, tanto maior será a força criativa disponível para o futuro. Naquilo que crescerá do amor estarão as forças poderosas que conduzem àquele ponto culminante de espiritualização descrito acima. Quanto maior a quantidade de conhecimento espiritual que flui para a evolução humana e terrestre, tanto mais viva e frutífera será a semente armazenada para o futuro.

O conhecimento espiritual é transmutado, por sua própria natureza, em amor. Todo o processo que tem sido descrito, desde o greco-romano até o fim do período atual, exibe o modo como essa transformação deve ocorrer e mostra por que tão grande parte de seu desenvolvimento deve estar no futuro. Aquilo que vem sendo preparado como sabedoria em Saturno, Sol e Lua é ativo nos corpos físico, etérico e astral do homem; mostra-se ali como a Sabedoria do Mundo, mas dentro do ego é intensificado. A sabedoria do mundo exterior torna-se sabedoria interior no homem a partir do período terrestre em diante, e quando concentrada nele torna-se o germe do amor. A sabedoria é a condição necessária para o amor; o amor é o fruto da sabedoria, renascido no ego.


VII

Detalhes do Domínio da Ciência Oculta — o corpo etérico do homem

QUANDO os princípios superiores do homem são observados com visão clarividente, o modo de percepção nunca é precisamente o mesmo que o proveniente dos sentidos externos. Se tocamos um objeto e experimentamos uma sensação de calor, devemos distinguir entre aquilo que vem do objeto e que, por assim dizer, emana dele, e nossa própria experiência psíquica. A experiência psíquica interna de perceber o calor é algo diferente do calor que emana do objeto. Agora imaginemos essa experiência psíquica isoladamente, sem o objeto externo. Evocamos a experiência de uma sensação de calor em nossa alma, sem a presença de qualquer objeto físico externo que a cause. Se tal sensação existisse sem causa, seria mera fantasia. O estudante da ciência oculta experimenta tais percepções internas sem qualquer causa física. Mas, em certo estágio de desenvolvimento, elas se apresentam de tal maneira que ele sabe (como foi mostrado que, pela própria natureza da experiência, ele pode saber) que a percepção interna não é fantasia, mas é causada

O DOMÍNIO DA CIÊNCIA OCULTA

por um ser psicoespiritual pertencente a um mundo supersensível, assim como a sensação comum de calor, por exemplo, é causada por um objeto físico-sensorial externo.

O mesmo se dá com relação à percepção da cor no mundo supersensível. Aqui devemos distinguir entre a cor associada ao objeto externo e a sensação interna de cor na alma. Evocamos a sensação interna da alma quando ela percebe um objeto vermelho no mundo físico e externo dos sentidos. Imaginemos que retemos uma lembrança muito vívida da impressão, mas que desviamos o olhar do objeto. O que ainda retemos como imagem de memória da cor, imaginemos como uma experiência interna. Distinguiremos então entre aquilo que é uma experiência interna da cor e a própria cor externa. Essas experiências internas diferem inteiramente em seu conteúdo das impressões dos sentidos externos. Muito mais elas carregam o selo do que é sentido como alegria e tristeza do que o das sensações físicas normais. Agora imaginemos uma experiência interna desse tipo surgindo na alma sem que nenhuma sugestão provenha de um objeto dos sentidos externos.

Um clarividente pode ter uma experiência desse tipo e pode saber também, nesse caso, que não se trata de fantasia, mas da expressão de um ser psico-espiritual.

Ora, se esse ser psico-espiritual excitar a mesma impressão que um objeto vermelho do mundo físico-sensorial,

ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

então esse ser é vermelho. Haverá, contudo, sempre primeiro a impressão externa e depois a experiência interna da cor, no caso do objeto físico-sensorial; no caso da clarividência genuína de um homem de hoje, deve ser o contrário — primeiro a experiência interna, sombria, como uma mera recordação da cor, e depois uma imagem que se torna cada vez mais vívida. Quanto menos atenção dermos à sequência necessária dessas ocorrências, menos seremos capazes de distinguir entre a percepção espiritual real e as ilusões da fantasia (ilusão, alucinação e assim por diante).

A vividez da imagem em uma percepção psico-espiritual desse tipo, quer permaneça bastante sombria, como uma imaginação vaga, quer apareça em forma distinta, como um objeto externo, depende inteiramente das possibilidades de desenvolvimento do clarividente. Ora, a impressão geral obtida pelo clarividente do corpo etérico pode ser assim descrita: quando o clarividente fortaleceu sua força de vontade a tal ponto que, apesar do fato de um indivíduo estar diante dele em um corpo físico, ele pode abstrair sua atenção do que o olho físico vê — ele é então capaz de ver clarividentemente no espaço ocupado pelo corpo físico do homem. Naturalmente, é necessário um grande aumento da força de vontade para retirar a atenção não apenas de algo na mente, mas de algo que está diante de si, de tal

O DOMÍNIO DA CIÊNCIA OCULTA

maneira que a impressão física seja completamente extinta. Mas o aumento é possível e é produzido pelos exercícios para a obtenção do conhecimento suprassensível. Quando estes foram bem-sucedidos, o clarividente pode obter primeiramente a impressão geral do corpo etérico. Dentro de sua alma surge a mesma sensação interna que ele tem, digamos, à vista de uma flor de pessegueiro, e então isso se torna vívido, de modo que ele pode dizer que o corpo etérico tem a cor de flor de pessegueiro. Em seguida, ele percebe os órgãos separados e as correntes do corpo etérico. Uma descrição adicional do corpo etérico pode ser dada relatando as experiências psíquicas correspondentes a sensações de calor ou de impressões sonoras, pois não é meramente um fenômeno de luz.

O corpo astral e outros princípios da natureza humana também podem ser descritos de maneira semelhante. Se isso for levado em conta, ver-se-á em que sentido devem ser entendidas as descrições dadas do ponto de vista da ciência oculta.

O MUNDO ASTRAL

Enquanto observamos apenas o mundo físico, a terra, como morada do homem, parece um planeta separado.

Mas quando o conhecimento suprassensível se eleva a esferas superiores, essa separação cessa.

Pode-se portanto dizer que a imaginação percebe a condição da Lua, tal como desenvolvida até o presente, ao mesmo tempo que percebe

ESBOÇO DA CIÊNCIA OCULTA

A terra. Ora, o mundo que é adentrado dessa maneira é tal que não apenas a parte supersensível da terra lhe pertence, mas também outros planetas são encontrados nele, os quais estão fisicamente separados da terra. Portanto, aquele que é familiarizado com os mundos superiores observa não apenas as regiões supersensíveis da terra, mas ao mesmo tempo a parte supersensível de outros planetas também. (Se alguém for impelido a perguntar por que os clarividentes não relatam como as coisas aparecem em Marte e nos outros planetas, deve ter em mente que se trata, antes de tudo, de observar as condições supersensíveis de outros corpos planetários, enquanto o questionador tem em vista as condições físico-sensoriais.) Por essa razão, foi possível fazer nesta obra declarações a respeito de certas relações entre a evolução da terra e a evolução contemporânea em Saturno, Júpiter, Marte e assim por diante. Ora, o corpo astral humano foi afastado pelo sono; ele pertence não apenas às condições da terra, mas a mundos nos quais regiões ainda mais distantes do universo (mundos estelares) têm sua parte. Na verdade, esses mundos estendem sua influência ao corpo astral do homem mesmo quando ele está desperto. Por essa razão, o nome "corpo astral" parece ser justificado.

DA VIDA DO HOMEM APÓS A MORTE

Foi mencionado, no decorrer deste livro, o tempo durante o qual o corpo astral ainda permanece unido ao corpo etérico do homem depois que a morte sobreveio. Durante esse tempo, permanece uma recordação, gradualmente enfraquecida, de toda a vida que acaba de terminar. A duração desse tempo varia em diferentes indivíduos. Depende da força com a qual o corpo astral se apega ao corpo etérico, do poder que o primeiro exerce sobre o último. A ciência oculta torna possível obter uma ideia desse poder ao observar uma pessoa que, a julgar pelo seu grau de fadiga, deve necessariamente adormecer e, no entanto, por pura força de vontade, permanece acordada. Parece então que diferentes pessoas podem permanecer acordadas por períodos de duração variável. Aproximadamente pelo tempo que um homem, em um caso extremo, pode permanecer acordado, dura a memória de uma vida passada, ou, em outras palavras, a conexão com o corpo etérico, após a morte.

3i Xe

Quando o corpo etérico se desprende do indivíduo após a morte, algo dele, no entanto, permanece para todo o desenvolvimento subsequente do homem — o que pode ser descrito como um extrato, ou a essência dele. Esse extrato contém o resultado da vida passada e é o veículo de tudo aquilo que, durante o desenvolvimento espiritual do homem entre a morte e um novo nascimento, se desdobra como um germe para a vida seguinte.

♦ Ele

Ele

A duração do tempo entre a morte e o novo nascimento é determinada pelo fato de que o ego, como regra, não retorna ao mundo físico-sensorial até que esse mundo tenha sido tão transformado que o ego possa experimentar algo novo. Durante sua permanência nas regiões espirituais, seu lugar de habitação na Terra sofre uma mudança. Mas essa mudança está ligada às grandes mudanças no universo, às mudanças na relação entre Terra e Sol, e assim por diante. São mudanças nas quais ocorrem certas repetições cíclicas, em conexão com novas condições. Elas encontram uma expressão externa no fato, por exemplo, de que o ponto na abóbada celeste em que o Sol se levanta no início da primavera faz um circuito completo no curso de cerca de vinte e seis mil anos. Assim, esse ponto vernal se move no curso do período mencionado de uma região dos céus para outra. No curso da décima segunda parte do tempo, isto é, em cerca de vinte e um mil anos, as condições na Terra mudaram a tal ponto que a alma humana pode experimentar algo novo desde sua última encarnação. Como, no entanto, as experiências de um indivíduo variam conforme a encarnação seja como mulher ou como homem, há, como regra, duas encarnações dentro do tempo mencionado, uma como homem e uma como mulher.


Mas essas coisas também dependem da natureza das forças que o homem carrega consigo de sua existência terrena através da morte. Portanto, todas as afirmações do tipo aqui

O DOMÍNIO DA CIÊNCIA OCULTA

feitas devem ser entendidas apenas como geralmente válidas, mas apresentando nos casos particulares as mais variadas modificações.

O CURSO DA VIDA HUMANA

A vida do homem, tal como se expressa na sequência de condições entre o nascimento e a morte, só pode ser plenamente compreendida levando-se em conta tanto o corpo físico com seus sentidos quanto as mudanças sofridas pelos princípios suprassensíveis do homem. A ciência oculta vê essas mudanças da seguinte maneira: o nascimento físico é visto como a extração do ser humano de seu invólucro materno. Forças que, antes do nascimento, o embrião compartilhava com o corpo da mãe, passam a estar presentes de forma independente na criança após o nascimento. Mas, em fases posteriores da vida, eventos suprassensíveis, semelhantes àqueles dos sentidos que se desenrolam no nascimento físico, são visíveis à visão clarividente. Ou seja, uma criança, no que diz respeito ao seu corpo etérico, está envolvida em um invólucro etérico até a aproximação da troca de dentes (no sexto ou sétimo ano). O invólucro etérico se desprende nesse período, e ocorre então o “nascimento” do corpo etérico. Mas a criança ainda está cercada por um invólucro astral, que se desprende entre seu décimo segundo e décimo sexto ano (na época da puberdade). Esse é o “nascimento” do corpo astral, e, em um período ainda posterior, o verdadeiro ego nasce.

‘ Os pontos de vista sugestivos para a condução da educação resultantes

A CIÊNCIA OCULTA

Agora, após o nascimento do ego, o homem se situa de tal maneira que se adapta às condições do mundo e da vida, e se ocupa dentro delas segundo as capacidades dos princípios que atuam através de seu ego — a alma senciente, a racional e a autoconsciente. Então chega um tempo em que o corpo etérico retraça o processo de seu desenvolvimento desde o sétimo ano em ordem inversa. Enquanto antes disso o corpo astral se desenvolvera de tal modo que primeiro desdobrava o que estava presente no nascimento como embrião, e que então, após o nascimento do ego, enriquecia-se com as experiências do mundo exterior, ele começa, em um certo momento, a alimentar-se espiritualmente de seu próprio corpo etérico. Ele vive do corpo etérico; e, durante o curso posterior da vida, o corpo etérico também começa a se alimentar do corpo físico.

A decadência do corpo físico na velhice é uma consequência disso. O curso da vida humana divide-se, portanto, em três partes: um tempo de desenvolvimento para os corpos físico e etérico, depois um no qual o corpo astral e o ego se desenvolvem, e por último aquele em que os corpos etérico e físico são transformados novamente. Mas o corpo astral desempenha um papel em todos os eventos que ocorrem entre o nascimento e a morte. Uma vez que ele é realmente nascido em um sentido espiritual apenas entre o décimo segundo e o décimo sexto ano, e deve durante seu último período de vida extrair forças dos corpos etérico e físico, aquilo que ele é capaz de realizar por seus próprios poderes se desenvolverá mais lentamente do que se não estivesse dentro de um corpo físico e etérico. Após a morte, quando os corpos físico e etérico caíram, a evolução, durante o tempo de purificação, procede de tal maneira que ocupa cerca de um terço da duração da vida entre o nascimento e a morte.

a partir de um conhecimento desses fatos supersensíveis, apresentados em meu livro *A Educação das Crianças do Ponto de Vista da Teosofia*, no qual se encontrarão detalhes mais completos do que aqui só pode ser sugerido.

O DOMÍNIO DA CIÊNCIA OCULTA

décimo segundo e décimo sexto anos, e deve durante seu último período de vida extrair forças dos corpos etérico e físico, aquilo que ele é capaz de realizar por seus próprios poderes se desenvolverá mais lentamente do que se não estivesse dentro de um corpo físico e etérico. Após a morte, quando os corpos físico e etérico caíram, a evolução, durante o tempo de purificação, procede de tal maneira que ocupa cerca de um terço da duração da vida entre o nascimento e a morte.

AS REGIÕES SUPERIORES DO MUNDO ESPIRITUAL

Por imaginação, inspiração e intuição, o conhecimento supersensível ascende gradualmente àquelas regiões do mundo espiritual dentro das quais pode alcançar os seres que têm a ver com a evolução humana e cósmica. E por tal faculdade também é possível traçar inteligivelmente a evolução humana entre a morte e um novo nascimento, de tal maneira que seja compreensível. Agora, há ainda regiões mais elevadas da existência, que aqui só podem ser brevemente indicadas. Quando o conhecimento supersensível se elevou à intuição, ele vive em um mundo de seres espirituais. Estes também estão evoluindo. Aquilo que concerne à humanidade dos dias atuais se estende para cima, em certo sentido, até o mundo da intuição. É verdade que o homem recebe impulsos de mundos ainda mais elevados no curso de sua evolução entre a morte e o renascimento. Mas ele não experimenta esses impulsos diretamente.


eles são guiados a ele por seres pertencentes ao mundo espiritual. E quando estes entram em vista, tudo o que acontece ao homem se revela. Mas as condições especiais desses seres, aquilo que eles próprios requerem para guiar a evolução humana, só podem ser vistas por meio de uma cognição que transcende a intuição. Temos assim um vislumbre de mundos que devemos imaginar de tal natureza que as características mais altamente espirituais da Terra estão ali entre as mais baixas. Decisões sábias são, por exemplo, algumas das coisas mais elevadas dentro da esfera da Terra; as atividades do reino mineral estão entre as mais baixas. Naquelas esferas superiores, resoluções sábias correspondem aproximadamente ao que as atividades minerais são na Terra. Acima do domínio da intuição está a região na qual o plano cósmico é tecido a partir de causas espirituais.

OS PRINCÍPIOS DO HOMEM

Quando se diz que o ego atua sobre os princípios humanos, sobre os corpos físico, etérico e astral, e os transforma, em ordem inversa, em Espírito-Self, Vida-Espírito e Espírito-Homem, essa afirmação se refere ao trabalho do ego sobre o ser humano por meio das faculdades mais elevadas; o desenvolvimento destas começa somente sob condições terrestres.

Mas essa transformação é precedida, em um nível inferior, por outra mudança, dando origem à alma sensível, à alma intelectual ou racional e à alma autoconsciente.

Pois enquanto, no curso

O DOMÍNIO DA CIÊNCIA OCULTA

da evolução humana, a alma sensível está sendo formada, mudanças estão ocorrendo no corpo astral; também o crescimento da alma intelectual se expressa em transformações no corpo etérico, e o da alma autoconsciente em transformações semelhantes no corpo físico. Informações mais completas sobre este assunto foram dadas neste livro nos relatos da evolução da Terra. Assim, em certo sentido, podemos dizer que a alma sensível em si é o resultado de um corpo astral transformado, a alma intelectual ou racional de um corpo etérico transformado, e a alma autoconsciente de um corpo físico transformado. Mas também podemos dizer que essas três divisões da alma são partes do corpo astral; por exemplo, a alma autoconsciente só é possível porque é uma entidade astral existente em um corpo físico adequado a ela. Ela vive uma vida astral dentro de um corpo físico moldado para ser sua morada.

O ESTADO DE SONHO

Uma descrição do estado de sonho foi dada em outro capítulo desta obra. Por um lado, ele deve ser considerado como um relicário da antiga consciência pictórica, peculiar ao homem durante a evolução da Lua, e também durante grande parte da evolução da Terra. A evolução avança de tal maneira que condições anteriores se resolvem em condições posteriores.

E assim, no estado de sonho, aparece agora no homem um relicário do que era outrora sua condição normal. Mas, ao mesmo tempo, essa condição é, sob outro aspecto, diferente da antiga consciência pictórica. Pois, desde seu desenvolvimento, o ego também participa daquelas atividades do corpo astral que são realizadas durante o sono, na vida onírica. Assim, pela presença do ego, surge nos sonhos uma consciência pictórica transformada. Mas, como o ego não exerce conscientemente sua autoridade sobre o corpo astral durante a vida onírica, nada pertencente à esfera dessa vida pode ser considerado como realmente capaz de conduzir a um conhecimento dos mundos superiores em sentido oculto. Algo semelhante vale para o que é frequentemente chamado de visão, premonição ou "segunda vista". Estas surgem pelo silenciamento do ego e o consequente aparecimento de remanescentes da antiga condição de consciência. Na ciência oculta, estas não têm valor. O que nelas pode ser observado não pode, em nenhum sentido real, ser considerado como seu resultado.


A OBTENÇÃO DO CONHECIMENTO SUPERFÍSICO

O caminho para alcançar o conhecimento dos mundos superiores, que foi descrito mais detalhadamente neste livro, também pode ser chamado de "caminho do conhecimento direto". Além deste caminho, há outro, que podemos designar como o "caminho do sentimento". Seria, porém, um grande erro acreditar que o primeiro nada tivesse a ver com

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o desenvolvimento do sentimento. Antes, ele conduz ao maior aprofundamento possível da vida do sentimento. Mas o "caminho do sentimento" dirige-se direta e exclusivamente aos sentimentos, e busca, a partir deste ponto, elevar-se ao conhecimento.

Isso se baseia no fato de que, quando a alma se entrega inteiramente a um sentimento por um certo período de tempo, este se transforma em conhecimento, em visão intuitiva, por meio de imagens. Quando, por exemplo, a alma é preenchida por semanas ou meses, ou até por mais tempo, com o sentimento de humildade, o conteúdo do sentimento se transforma em visão intuitiva. Ora, um caminho que conduz às regiões suprassensíveis pode ser encontrado dedicando-se a tais sentimentos um a um, mas para o homem de hoje, preso às circunstâncias ordinárias da vida, isso não é facilmente realizado. Solidão, retiro da vida atual, é quase indispensável. Pois as impressões criadas pela vida cotidiana perturbam a alma, especialmente no início, em seu trabalho de desenvolvimento por meio da absorção em certos sentimentos.

É, ao contrário, possível seguir o caminho do conhecimento descrito neste livro em qualquer situação da vida atual.

OBSERVAÇÃO DE EVENTOS E SERES ESPECIAIS NO MUNDO ESPIRITUAL

A pergunta pode ser feita se a concentração interior e os outros meios descritos para a obtenção do conhecimento suprassensível nos permitem

4s8 um esboço da ciência oculta

Observar apenas de maneira geral o que acontece entre a morte e um novo nascimento ou outros eventos espirituais, ou se eles oferecem a possibilidade de observar eventos e seres bastante definidos, como, por exemplo, qualquer pessoa falecida. A isso devemos responder que um homem que adquire a capacidade de ver no mundo espiritual pelos métodos explicados pode também perceber eventos particulares que ali ocorrem; ele adquire o poder de colocar-se em comunicação com indivíduos que vivem no mundo espiritual entre a morte e um novo nascimento. Deve-se observar, no entanto, que, em um sentido oculto, isso deve ocorrer somente após o devido treinamento exigido para o conhecimento suprassensível ter sido realizado. Pois somente então é possível distinguir entre ilusão e realidade, no que diz respeito a certos eventos e seres. Um homem que tenta observar casos particulares sem a devida instrução pode tornar-se vítima de inúmeras decepções. O treinamento que leva à observação nos mundos superiores do que foi descrito também leva à capacidade de rastrear a vida pós-morte de um indivíduo específico, depois que a morte sobreveio, e não menos leva à observação e compreensão de todos os seres psico-espirituais que, dos mundos invisíveis, atuam sobre aqueles que são manifestos. A observação correta de casos individuais só é possível, no entanto, com base no conhecimento dos

O DOMÍNIO DA CIÊNCIA OCULTA

fatos universais e sublimes do mundo espiritual — fatos a respeito do mundo e da humanidade que concernem a todo ser humano. O desejo de um sem o outro leva a erro.

OBSERVAÇÕES DO AUTOR

Ao colocar um livro como este nas mãos do público, o escritor deve calmamente antecipar, a respeito de sua obra, todo tipo de crítica que possa surgir nos dias de hoje. Um leitor, por exemplo, cujas opiniões se baseiam nos resultados da pesquisa científica, após notar certas afirmações aqui feitas sobre tais coisas, pode pronunciar o seguinte julgamento: "É espantoso que tais afirmações sejam possíveis em nosso tempo. As concepções mais elementares da ciência natural são distorcidas de tal maneira que denotam uma ignorância positivamente inconcebível até mesmo dos rudimentos da ciência. O autor usa termos como 'calor', por exemplo, de um modo que levaria a inferir que toda a onda do pensamento moderno sobre o assunto da física passou por ele despercebida. Qualquer pessoa familiarizada com os meros elementos dessa ciência lhe mostraria que nem mesmo o mais reles diletante poderia ter feito tais declarações, e elas só podem ser descartadas como o resultado de ignorância crassa."

Este e muitos veredictos semelhantes poderiam ser pronunciados, e podemos imaginar nosso leitor, após a leitura de uma ou duas páginas, deixando o livro de lado — sorrindo ou indignado, conforme seu temperamento — e refletindo sobre os estranhos frutos que uma tendência perversa de pensamento pode produzir em nosso tempo. Assim pensando, ele guardará este volume junto com sua coleção de aberrações semelhantes da mente. O que, no entanto, diria o autor caso tais opiniões chegassem ao seu conhecimento? Não seria ele, do seu ponto de vista, também capaz de considerar o crítico como incapaz de julgamento ou, pelo menos, como alguém que não escolheu trazer sua boa vontade para formar uma opinião inteligente? A isso a resposta é, enfaticamente — Não! De modo algum o autor sente isso, pois ele pode facilmente conceber seu crítico como não apenas um homem altamente inteligente, mas também um cientista treinado, e alguém cujas opiniões são o resultado de pensamento consciencioso. Pois o autor deste livro é capaz de entrar nos sentimentos de tal pessoa e compreender as razões que a levaram a formar essas conclusões.

Agora, antes de prosseguir, é necessário, para compreender o que o autor realmente quer dizer, fazer aqui o que lhe parece geralmente fora de lugar, mas para o qual há causa urgente no que diz respeito a este livro, a saber, introduzir certos dados pessoais. Naturalmente, nada será apresentado a esse respeito senão o que concerne à sua determinação de escrever este próprio livro. O que nele é dito não poderia ser justificado se tivesse meramente um caráter pessoal.

Um livro desta natureza é forçado a oferecer pontos de vista aos quais qualquer pessoa pode chegar, e esses pontos de vista devem ser apresentados de tal maneira que não sugiram qualquer sombra do elemento pessoal, isto é, na medida em que tal coisa seja possível.


Não é, portanto, nesse sentido que a nota pessoal é emitida. Ela será tocada apenas onde possa auxiliar o escritor a apontar como, apesar de ser capaz de penetrar plenamente na "razão" de um dito como o citado acima, ele ainda pôde escrever este livro.

É verdade que existe um método que teria tornado desnecessária a introdução do elemento pessoal — este teria sido especificar em detalhe todas aquelas particularidades que mostrariam que as afirmações aqui feitas estão de acordo com o progresso da ciência moderna. Esse curso, no entanto, teria exigido a escrita de muitos volumes, e como tal tarefa está atualmente fora de questão, o escritor sente a necessidade de declarar as razões pessoais que ele acredita justificarem-no em pensar tal concordância plenamente possível e satisfatória. Se ele não estivesse em posição de fazer as seguintes explicações, certamente nunca teria ido tão longe a ponto de publicar tais afirmações como aquelas referentes aos processos de calor.

Há cerca de trinta anos, o escritor teve a oportunidade de fazer um curso de física em seus diversos ramos.

Naquela época, o ponto central do

OBSERVAÇÕES DO AUTOR

O interesse na esfera dos fenômenos do calor foi a promulgação da chamada "Teoria Mecânica do Calor", e aconteceu que essa teoria absorveu tão particularmente a atenção do escritor que o desenvolvimento histórico das várias interpretações associadas aos nomes de Julius Robert Mayer, Helmholtz, Joule, Clausius e outros formou o objeto de seu estudo contínuo. Durante esse período de trabalho concentrado, ele lançou aqueles fundamentos que lhe permitiram acompanhar todos os avanços reais desde então feitos com relação à teoria do calor físico, sem experimentar qualquer dificuldade em penetrar naquilo que a ciência está alcançando neste departamento. Se tivesse sido obrigado a confessar-se incapaz de fazer isso, o escritor teria tido boas razões para deixar dito e escrito muito do que foi apresentado neste livro.

Ele fez questão de consciência, ao escrever ou falar sobre ciência oculta, tratar apenas de assuntos sobre os quais também pudesse relatar, de maneira que parecesse adequada, as visões sustentadas pela ciência moderna. Nisso, de modo algum desafia o mundo inteiro a fazer o mesmo. Qualquer um pode sentir um chamado para comunicar ou publicar o que seu julgamento, seu senso de verdade e seus sentimentos possam instigá-lo, mesmo se for ignorante da atitude assumida pela ciência contemporânea no assunto.

O escritor deseja indicar meramente que ele se mantém fiel às declarações que fez. Por exemplo, ele nunca teria escrito aquelas poucas frases sobre o sistema glandular humano, nem aquelas referentes ao sistema nervoso do homem, contidas neste volume, se não estivesse em posição de discutir ambos os assuntos nos termos usados pelo cientista moderno, ao falar dos sistemas glandular e nervoso do ponto de vista da ciência.


Apesar de ser possível pensar que uma pessoa que discute o calor da maneira como aqui foi feito nada sabe dos elementos da física moderna, o escritor ainda se sente justificado, por estar completamente familiarizado com a pesquisa atual, e porque, se não o estivesse, teria deixado o assunto de lado.

Ele sabe que tais declarações podem ser atribuídas à falta de modéstia, mas é necessário declarar seus verdadeiros motivos, para que não sejam confundidos com outros de natureza muito diferente, um resultado infinitamente pior do que um veredito de mera vaidade.

Uma crítica do ponto de vista filosófico também é possível, e um filósofo poderia suspeitar que o autor estivesse dormindo enquanto os recentes trabalhos no campo da epistemologia estavam em andamento. "Será que ele nunca ouviu falar da existência de um homem chamado Kant?", poderia perguntar esse filósofo, "e não sabia que, segundo esse homem, era simplesmente inadmissível, do ponto de vista filosófico, apresentar tais afirmações?" e assim por diante, enquanto, em conclusão, poderia observar

OBSERVAÇÕES DO AUTOR

que material de natureza tão acrítica, infantil e pouco profissional não deveria ser tolerado entre filósofos, e que qualquer investigação posterior seria perda de tempo. Mas aqui novamente, por razões já apresentadas e com o risco de ser novamente mal interpretado, o escritor gostaria de introduzir certas experiências pessoais.

Seus estudos de Kant datam de seu décimo sexto ano, e ele realmente acredita que agora é capaz de criticar com bastante objetividade, do ponto de vista kantiano, tudo o que foi apresentado neste livro. Por essa razão também, ele poderia ter deixado este livro não escrito, não estivesse ele plenamente ciente do que leva um filósofo a proferir o veredito de "infantilidade" sempre que o padrão crítico da época é aplicado. Contudo, pode-se realmente saber que, no sentido kantiano, os limites do conhecimento possível são aqui excedidos; pode-se saber de que maneira Herbart (que nunca chegou a um "arranjo de ideias") descobriria seu "realismo ingênuo". Pode-se até saber até que ponto o pragmatismo moderno de James e Schiller e outros consideraria transgredidos os limites das "representações verdadeiras" — aquelas representações que somos capazes de tornar nossas, de vindicar, impor e verificar.

Podemos saber todas essas coisas e, ainda assim, por essa mesma razão, sentir-nos justificados em sustentar as visões aqui apresentadas. O escritor tratou das tendências do pensamento filosófico em suas obras.


**Observações do Autor**

*Erkenntnistheorie der Goetheschen Weltanschauung*, *Wahrheit und Wissenschaft*, *Philosophie der Freiheit*, *Goethes Weltanschauung* e *Welt- und Lebensanschauungen im neunzehnten Jahrhundert* — Muitas outras críticas poderiam ser sugeridas. Qualquer pessoa que tenha lido algumas das obras anteriores do escritor, como *Lebens- und Weltanschauungen im neunzehnten Jahrhundert*, por exemplo, ou um trabalho menor sobre Haeckel e seus oponentes, poderia achar incrível que um mesmo homem pudesse ter escrito aqueles livros e também não apenas o intitulado *Teosofia*, mas o que ora está em discussão. "Como", poderia ele perguntar, "pode um homem lançar-se na brecha por Haeckel e, depois, virar-se e desacreditar toda teoria sólida concernente ao monismo que é o resultado das pesquisas de Haeckel?" Ele poderia entender o autor deste livro atacando Haeckel "com fogo e espada", mas ultrapassa os limites da compreensão que, além de defendê-lo, ele realmente tenha dedicado *Welt- und Lebensanschauungen im neunzehnten Jahrhundert* a ele. Haeckel, poderia-se pensar, teria recusado enfaticamente a dedicatória se soubesse que o autor estava prestes a produzir algo como *Um Esboço da Ciência Oculta*, com todo o seu dualismo desajeitado.

O escritor deste livro é de opinião que se pode muito bem compreender Haeckel sem sustentar a crença de que ele só pode ser compreendido quando tudo é considerado um absurdo que não é diretamente rastreável às próprias concepções e suposições de Haeckel. O escritor é ainda de opinião que atacar Haeckel violentamente dificilmente conduzirá à compreensão dele, que isso só pode ser feito, de fato, após uma cuidadosa investigação de tudo o que ele fez pela ciência. Menos ainda ele considera os oponentes de Haeckel como estando certos, contra os quais ele, em seu livro *Haeckel e Seus Oponentes*, procurou defender o grande naturalista, pois certamente o fato de ele ter ultrapassado em muito as hipóteses de Haeckel, ao colocar a concepção espiritual do mundo ao lado da concepção meramente natural concebida por Haeckel, não precisa ser razão para supor que ele esteja de acordo com os oponentes deste último. Qualquer um que se der ao trabalho de olhar a questão sob a luz correta deve ver que os livros recentes do escritor estão em perfeita harmonia com os de data anterior.

Mas o autor pode também imaginar alguém que, julgando de um ponto de vista mais geral, condene seu livro como a efusão de uma “imaginação desenfreada” ou como “trabalhos românticos do cérebro”. Contudo, tudo o que pode ser dito a esse respeito está contido no próprio livro, e é explicitamente mostrado que o pensamento são e sério não apenas pode, mas deve ser a pedra de toque de todos os fatos apresentados. Somente aquele que submete o que aqui é exposto a um exame lógico e adequado, tal como é aplicado aos fatos da ciência natural, estará em posição de decidir por si mesmo quanto a razão tem a dizer no assunto.


Depois de dizer isso sobre aqueles que podem, a princípio, estar inclinados a fazer objeções a esta obra, talvez nos seja permitido dirigir algumas palavras àqueles em cuja atenção simpática podemos confiar. Estes encontrarão todos os fundamentos essenciais contidos no primeiro capítulo, “Sobre a Natureza da Ciência Oculta”. Uma palavra, contudo, deve aqui ser acrescentada. Embora este livro trate de investigações levadas para além dos confins da inteligência limitada ao mundo dos sentidos, nada foi apresentado que não possa ser apreendido por qualquer pessoa dotada de raciocínio imparcial, apoiado por um senso saudável de verdade, e que esteja ao mesmo tempo disposta a empregar esses dons da melhor maneira possível. O autor deseja enfaticamente que se compreenda que espera apelar a leitores que não se contentarão em aceitar meramente por “fé cega” as questões apresentadas, mas que se darão ao trabalho de testá-las à luz do próprio entendimento e pelas experiências de suas próprias vidas. Acima de tudo, deseja leitores cautelosos, que se deixem convencer apenas pelo que pode ser logicamente justificado. O escritor está bem ciente de que sua obra não valeria nada se seu valor dependesse de crença cega; ela é valiosa apenas na medida em que pode ser justificada pela razão imparcial.

É

OBSERVAÇÕES DO AUTOR

A coisa mais fácil para a “fé cega” é confundir tolice e superstição com a verdade, e sem dúvida muitos que se contentaram em aceitar o sobrenatural por mera fé serão inclinados a pensar que este livro exige demasiado de seus poderes de pensamento. Não se trata meramente de fazer certas comunicações, mas sim de apresentá-las de maneira consistente com uma visão conscienciosa do plano de vida correspondente, pois é neste plano que as questões mais elevadas são frequentemente tratadas com charlatanismo inescrupuloso, e onde o conhecimento e a superstição entram em contato tão próximo que podem ser confundidos um com o outro.

Qualquer pessoa familiarizada com a pesquisa suprassensível, ao ler este livro, poderá ver que o escritor procurou definir nitidamente a linha divisória entre o que é permitido comunicar agora a partir da esfera do conhecimento suprassensível e o que deve ser divulgado em uma época posterior, ou de todo modo, em uma forma diferente da atual.

Rudolf Steiner

Dezembro, 1904

TEOSOFIA

Por

RUDOLF STEINER

Uma introdução ao conhecimento suprassensível do mundo e ao destino do homem

A ciência pressupõe um órgão sensorial interno ou instrumento inteiramente novo, por meio do qual se revela um mundo novo que não existe para o homem comum. — Johann Fichte

Esta notável adição à literatura teosófica de hoje aparece agora pela primeira vez em inglês, embora já tenha em seu crédito três edições em alemão e traduções para russo, sueco, holandês, tcheco e italiano, com uma tradução francesa em andamento. Os livros do Dr. Steiner são as primeiras obras teosóficas que leitores estrangeiros mostraram decidida inclinação a ler em sua própria língua.

Encadernado 12mo, US$ 1,00 líquido.
RAND McNALLY & COMPANY
CHICAGO — SÃO FRANCISCO — NOVA YORK

TEOSOFIA e CRISTIANISMO

Por MAX SEILING

Com um Posfácio de

DR. RUDOLF STEINER

Este livro de informações precisas sobre a Teosofia demonstra que é possível tal desenvolvimento dos órgãos internos de percepção que os mundos da alma e do espírito se tornam tão claros à visão supersensorial quanto o mundo exterior aos sentidos físicos. A relação entre a Teosofia e o Cristianismo é trazida à luz, pois as correntes espirituais de todas as religiões são mostradas como convergindo no Cristianismo, constituindo-o a religião universal da humanidade. A Teosofia, ao investigar a consciência oculta, explica, a partir de sua perspectiva mais ampla, o significado e as diferenças nas religiões, nos sistemas filosóficos e nos fenômenos da existência.

Rand McNally & Company

Cinquenta Centavos Líquidos

SAN FRANCISCO CHICAGO NOVA YORK